Funcionário do mês

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AS COISAS E SUAS COISAS

A solidão puxa as pessoas pra dentro como um ralo.
Incomoda em silêncio como um sapato apertado.
Ao meio-dia, nesse sol maldito e desgraçado, um pensamento me faz sombra.
'Não há tromba que não se desfaça ou se disfarce com uma lombra.'
Tenho planos de ter plantas.
Tenho as plantas dos meus planos num caderninho.
Se eu ficar quieto, ou tô dormindo ou to velhinho.
Pingo nos meus olhos umas gotinhas de anilina e vejo a vida finalmente colorida.




Juan Barto

FADADO A CONTINUAR

Tentei fazer uma música pra você, mas a fome não deixou.
São poucos os que engolem alfinetes e cospem a roupa já feita.
Minha mão, de uma magreza macia, batendo a poeira dos móveis.
Poeira é a caspa do tempo.



Juan Barto

CONSEGUIMOS

Nós chegamos ao fim da linha sem perder a linha.
Conseguimos chegar, mas não ilesos, pois em certos momentos a gangorra pendeu só pra um lado.
Justamente o que não era o nosso, estávamos do outro.
Sentindo o gosto de soro caseiro saindo de dentro do olho.
Mas conseguimos!
Tomamos esse sorvete sem se melar.




Juan. Barto
Meu coração murcho como uma passa, pequeno como uma noz.
Tá faltando fôlego, tá faltando voz!
Só a revolta de uma revolta sem sentido e um choro que a principio não sai, mas vai.
É outra vez outra vez!
Pensei que você fosse alguém que eu conhecia.
Pensei que você fosse alguém que eu conhecesse.
Pensei que você fosse alguém.
Pensei que com você fosse dar certo.
Impossível, com essa sua pessoa errada!
Não percebi a tempo
Ih , só lamento.
[Isolamento]
Queria de verdade ser aquele que vai te inspirar a mudar.
E sairia nos jornais em letras garrafais:“DESABROCHOU!!!”
Você é a borboleta me escapando pela janela que eu mesmo deixei aberta.
E eu sou a mariposa contornando o poste.
Você é o poste.
Tudo de repente parece ser tão inalcançável que me sinto um hipócrita em desejar a alguém um “boa sorte!”



Juan Barto

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Minha alma tem diabetes, por isso às cicatrizes custam tanto a sarar.
Sempre que a vida nos der uma porrada, devemos nos levantar o mais rápido que pudermos e sair correndo pra longe antes que ela nos acerte de novo, e quando estivermos fora de alcance ai sim, gritamos:
“Vai bater em alguém do seu tamanho, sua filha da puta! Covarde!”.



Juan Barto
Quero ficar quieto como ficamos em um fim de tarde num sítio.
Olhando o nada . . .
Ouvindo os grilos  . . .



Juan Barto

INSTRUÇÕES PARA NÃO SE TORNAR UM ESTRUÍDO

Há quem goste do rústico, há quem goste do lírico.
A solução seria uma rosa talhada numa pedra lascada ou um coração feito de couro de vaca.
Não abdique de certas mesuras, porém não gaste tantas firulas
arrastando asa pra galinha
porque ela já tem duas.
A casca daquela árvore daria um belo filé ao molho madeira para o almoço daquele moço.
Ele é quieto, come pouco e não se importa com o insosso.
Lembre-se que grades, sejam elas vermelhas, pretas, rosas ou amarelas, ainda assim são grades!
Não existe uma calça jeans que caiba no rabo do cometa halley!
O palhaço disfarçado de engraçado chorou ao ver que ainda havia um rosto por baixo de tanta maquiagem.
Não precisa ser um dos brincos do mundo, mas sempre que possível morda fundo!
Não caia na vala nem na onda da vaia.



Juan Barto

AQUELA 'ELA'

Era uma menina linda, mas para o azar de todos, aquela era uma noite em que ela não queria conhecer ninguém.
Porque conhecer significa aprender, que por sua vez lembra 'apreender' e naquela noite ela não queria armazenar nada, queria justamente o contrário, ela queria se esvaziar.
Ela queria esvair-se.
Bebeu tequila e voltou pra casa.
Naquela noite choveu muito e o cheiro dos telhados molhados entrava pela janela  aberta do seu quarto.
Ela sabia que estava lá, mas não lembrava de ter chegado.
Adormeceu pensando que se a gente percebesse que o sol mesmo com céu nublado não deixa de queimar, não perderíamos a esperança assim tão fácil.
Nem quando aquela pessoa que está naquele pedacinho de não sei onde, decide desaparecer levando muito mais do que a si própria.
A maçã que não é tonta nem nada, já se fez de natureza morta faz tempo que é pra não virar torta.




Juan Barto
Eu ando muito porque morro de preguiça de morrer parado, assim tão “novinho em folha”, tão “brinquedo na caixa”.
Tão “roupa nova" que ninguém usa por que se não suja!
Não é medo de morrer, é pena de não poder viver mais.
Como uma carta que você precisa muito escrever, mas ai o papel acaba e você com tanto assunto entalado na garganta da mão. . .
Deixar os dias pra esse povo que não sabe usar!
Tenho carinho por livros.
Livros são meus animais racionais de estimação.
O som mais lindo é a palavra certa dita pela boca certa nas horas em que tudo parece estar errado.
E a cozinha que sabe de todas as conversas e todas as tragédias da casa?!
Presencia todos os fatos ora feliz, ora chocada.
Mas sempre discretíssima, nunca fala nada.
No dia que as fossas se abriram eu me agarrei nas pernas das mesas, das cadeiras, das pessoas, dos meus óculos . . .
E quantos vermes não se escondem por trás das mais lindas maçãs?
É como aquilo que você gosta sabendo que te faz mal, que te torna mau.



Juan Barto
Quero morangos e capuchino com chantili!
Ao invés disso, tomo um gole preto longo pra não mais dormir.
Eu observo com enfado os enfadados, e se assim antipático eu pareço é porque não pereço e a vocês eu não cedo.
Eu mesmo me faço, eu mesmo me desfaço em milhões de pedaços, eu mesmo me refaço com todo o cuidado como um caleidoscópio entrando em combustão espontânea até reagrupar seu mosaico.
Morrerei se for o caso, mas não assim, encolhido em um canto de parede.
Todos saberão que o cadáver teve que cair e não meramente ficar onde já estava.
Sentado sentindo frio perante o sol, pensando "Isso não é bom! Isso não é normal!"



Juan Barto


Eu fico boiando dentro dessa banheira com água quente
Nós dois cheios até a borda
Imerso, apenas com o rosto de fora.
Mas será que eu todo é que não ando por fora?
Eu acho!
Aliás, eu perco. Eu sempre perco!
Eu me azedo com o que escuto, eu me azedo com o que vejo.
Eu não consigo conseguir e divago divagar sobre ela que continua bonita demais
E isso é perigoso demais
Então por que ela ainda me atrai?
Até onde isso vai?



Juan Barto

Foto: Juan Barto

Com o calor neon e a beleza hipnótica de um carrossel, mas com o ímpeto atrevido de uma montanha-russa.



Juan Barto


MIOLOS À FONDUE

Hoje de noite estava eu polindo meus óculos pra clarear os pensamentos.
O caldeirão que é a mente humana, quando levanta fervura sobe um vapor mal-cheiroso que vem das coisas mal-dissolvidas que habitam o fundo da panela, como destroços de navios no fundo do mar.
Essas coisas, nós a vimos uma vez e não as veremos mais, mas sempre sentiremos sua presença, seu fedor fantasmagórico nos lembrando que ainda existem.
Volta e meia ouviremos o arranhar sutil de suas barrigas no casco da 'cachola - caçarola' enquanto elas boiam.
As ervas-daninhas, as algas marinhas que se camuflam nas águas turvas da nossa tina de carne.
Os peixes que não se come, os monstros que não se sabe.


Juan Barto
Ainda estou aqui, mas sou movimento involuntário.
Em cinco minutos posso estar dormindo e só acordar na virada da maré.
Nada mais humano do que criar rosas em gaiolas.



Juan Barto
Era uma vez um menino que não conseguia dormir.
Os maus pensamentos entravam pelos seus ouvidos, ficavam em sua cabeça e depois não queriam sair.
Não serei eu quem dirá nem dará o que você merece . . .
Direi apenas o que você não merece . . . eu.
Mais uma vez, limpei minha casa para hospedar o amor, que chegou trazendo mochila pequena, indicando que não se demoraria muito.
E eu fiquei com cara de 'menino que não pode sair pra brincar'.
E eu chorei como tal.
O cinza um dia desbota ou encarde. Aguardemos...




Juan Barto
Só se contenta com o pouco quem nem o pouco tem com o que contar.
De madrugada é como se só eu estivesse acordado no mundo inteiro e pouco antes de amanhecer, minha alma ficasse azul turquesa.
Mas madrugada é assim mesmo; você dorme e eu te protejo.




Juan Barto



Vergonha de olhar direto nos olhos.
Coisa que, honestamente, não gosto.
Mas se forem nos seus, eu olho.

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Um sorriso embrulhado pra presente, um suco de laranja e um beijo bem passado pra viagem na mesa quinze!





Juan Barto
Eu rego à cuspe e mentiras brancas um pequeno cacto que me olha de baixo pra cima com um olhar de esperança.
Um espantalho de braços abertos como o cristo
imagina ser ele o senhor de tudo isso.





Juan Barto
Eu sou uma camisa xadrez solta num mundo completamente listrado, vendo o que combina e o que é combinado.
Vendo que a vida é um cortinado feito de um bocado de bordados e penduricalhos, e nem tudo que não é retalho necessariamente precisa ser rebotalho.
Nada mais gostoso do que um emaranhado de panos remexidos e desarrumados pra gente chamar de ninho.
Eu pensando cá com meus botões que ásperos mesmo são os lençóis da insônia, que por ventura abafam choros na madrugada, enxugam lágrimas que ardem nos olhos, queimam no peito feito amônia.



Juan Barto
Agora que toda a água suja já escoou pra dentro do esgoto, lá vou eu buscar o que restou de mim preso ao bueiro.
Aquilo que não pode ser diluído.
E é com a alegria de um garimpeiro que eu me deparo, não com um “eu” esfacelado quase morto, mas sim com um “eu” melhor que antes.
Completamente inteiro!



Juan Barto
O sábado de chuva transbordou a madrugada e o calendário.
Era tanta água caindo
que alagou a calçada do domingo.
E a lama que escorreu
sujou tudo...
até eu!




Juan Barto

Foto: Juan Barto
Eu hoje estou amargo.
Eu hoje estou travoso.
Eu hoje sou tamarindo e eu quero ficar assim; imaginando que as coisas são ruins.
Eu hoje não quero ninguém rindo perto de mim.
Esqueceram o meu nome e aonde me encontrar
Só lembram do que querem e quando precisam lembrar.
Seu abraço
mesmo tendo sido milhares
hoje procuro ao menos um caído atrás do sofá e não acho.
E não há quem ache.
"Novidade" às vezes me irrita; há aquelas que realmente vêm para passar uma vassoura nas teias de aranha dos cantos de parede mais altos, mas tem também o novo nocivo, o novo 'velho do saco'; que leva as pessoas embora nas costas.
"Estava tudo tranqüilo até o novo chegar com suas escavadeiras!"
Não que eu queira ficar estagnado entre o começo e o meio até o fim...
Enfim...
Reclamar me acalma, é o meu cigarro.

Juan Barto


Cruz-credo

Crápulas e biltres praguejam impropérios em sua cripta
quebrando pratos como os gregos, pelo prazer de praticar o 'destruir'.
O primal prazer de destruir.
Pelo prazer de praticar.
Trágicos em crise craseiam os 'ais' de sofrimento.
Cretinos travestem os seus crimes, cravejando-os de cristais e de rubis.
Cravejando-os de brilhantes e rubis, constrangendo os demais.
Transcender é transformar-se em brasas nas entranhas das trevas.
Um trago bem travoso de engolir,
mas que só tenta agradar.
Drásticos em transe transitam propagando a tristeza.
Ser meio cruel é ser cru, criticando prematuramente.
Bradando e abrandando por ai.



Juan Barto
Cinco da manhã é hora de escrever.
Afinal, cinco horas da manhã é hora de quê?
De dormir? Que clichê!
De comer vendo tevê?
De se lembrar de um bem–me-quer ou se esquecer um mal-querer?
A vida anda tão mentolada. . .
Quem tramou e trançou nossos destinos? 
E se nessa repetição de tanto desencontro maldito
eu não for ou você não vier, fica tudo assim; perdido?
Apenas pensando como seria se tivesse sido?



Juan Barto