Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.

........_.........--........

Minha alma tem diabetes, por isso as cicatrizes custam tanto a sarar.
A vida nunca bate em alguém do seu tamanho.



Juan Barto
Quero ficar quieto como ficamos em um fim de tarde num sítio.
Olhando o nada . . .
Ouvindo os grilos  . . .



Juan Barto

INSTRUÇÕES PARA NÃO SE TORNAR UM ESTRUÍDO

-Há quem goste do rústico/ Há quem goste do lírico.
(Rosa talhada numa pedra lascada /  Coração cerzido com couro de bicho)
-A casca daquela árvore daria um belo filé ao "molho madeira" para o almoço daquele moço.
-Uma grade colorida continua sendo grade.
-Não existe uma calça jeans que caiba no rabo do cometa halley.
-O palhaço disfarçado de engraçado chorou ao ver que ainda havia um rosto por baixo de tanta maquiagem.
-Não caia na vala nem na onda da vaia.



Juan Barto

AQUELA 'ELA'

Para o azar de todos, ela não queria conhecer ninguém.
Conhecer significa aprender, apreender e naquela noite não queria armazenar nada, queria justamente o contrário; se esvaziar.
Bebeu tequila, dançou, vomitou e voltou pra casa.
Naquela noite choveu muito e o cheiro dos telhados molhados entrava pela janela aberta do seu quarto e se acomodavam pela bagunça como se fossem gatos.
Adormeceu pensando que esperta mesmo era a maçã, que se fez de natureza morta para não virar torta.




Juan Barto
Eu ando muito porque morro de preguiça de morrer parado, feito brinquedo na caixa.
Feito roupa nova, que ninguém usa porque suja. Como se lama fosse feita de bala.
Não tenho medo de morrer, apenas acho que seria uma pena não poder viver mais.
Como um texto que termina entalado na garganta da mão.
Deixar os dias pra esse povo que não sabe usar...







Juan Barto
Tomo um gole preto, quente e longo para não mais dormir.
Observo com enfado os enfadados e como um caleidoscópio entrando em combustão espontânea, me explodo e me reagrupo em mosaico.




Juan Barto


Eu fico boiando dentro dessa banheira com água quente
Nós dois cheios até a borda
Imerso, apenas com o rosto de fora.
Mas será que eu todo é que não ando por fora?
Eu acho!
Aliás, eu perco. Eu sempre perco!
Eu me azedo com o que escuto, eu me azedo com o que vejo.
Eu não consigo conseguir e divago divagar sobre ela que continua bonita demais
E isso é perigoso demais
Então por que ela ainda me atrai?
Até onde isso vai?



Juan Barto

Foto: Juan Barto

Com o calor neon e a beleza hipnótica de um carrossel, mas com o ímpeto atrevido de uma montanha-russa.



Juan Barto


MIOLOS À FONDUE

Estava polindo os óculos para clarear meus pensamentos e reparei que quando levanta fervura do caldeirão que é a mente humana, sobe um vapor mal cheiroso vindo das coisas semi dissolvidas que habitam o fundo da panela como destroços de navios no fundo do mar.
Não avistamos tais criaturas, mas sempre sentimos suas presenças fantasmagóricas nos lembrando que ainda existem.
São as ervas-daninhas, as algas marinhas que turvam as nossas águas íntimas.
Os peixes que não se come viram os monstros que não se sabe.



Juan Barto
Ainda estou aqui, mas sou movimento involuntário.
Em cinco minutos posso estar dormindo e só acordar na virada da maré.
Nada mais humano do que criar rosas em gaiolas.



Juan Barto
Era uma vez um menino que não conseguia dormir.
Os maus pensamentos entravam pelos seus ouvidos, ficavam em sua cabeça e depois não queriam sair.
Não serei eu quem dirá nem dará o que você merece . . .
Direi apenas o que você não merece . . . eu.
Mais uma vez, limpei minha casa para hospedar o amor, que chegou trazendo mochila pequena, indicando que não se demoraria muito.
E eu fiquei com cara de 'menino que não pode sair pra brincar'.
E eu chorei como tal.
O cinza um dia desbota ou encarde. Aguardemos...




Juan Barto
Só se contenta com o pouco quem nem o pouco tem com o que contar.
De madrugada é como se só eu estivesse acordado no mundo inteiro e pouco antes de amanhecer, minha alma ficasse azul turquesa.
Mas madrugada é assim mesmo; você dorme e eu te protejo.




Juan Barto



Vergonha de olhar direto nos olhos.
Coisa que, honestamente, não gosto.
Mas se forem nos seus, eu olho.

-----------------------------------------

Um sorriso embrulhado pra presente, um suco de laranja e um beijo bem passado pra viagem na mesa quinze!





Juan Barto
Eu rego à cuspe e mentiras brancas um pequeno cacto que me olha de baixo pra cima com um olhar de esperança.
Um espantalho de braços abertos como o cristo
imagina ser ele o senhor de tudo isso.





Juan Barto
Eu sou uma camisa xadrez solta num mundo completamente listrado, vendo o que combina e o que é combinado.
Vendo que a vida é um cortinado feito de um bocado de bordados e penduricalhos, e nem tudo que não é retalho necessariamente precisa ser rebotalho.
Nada mais gostoso do que um emaranhado de panos remexidos e desarrumados pra gente chamar de ninho.
Eu pensando cá com meus botões que ásperos mesmo são os lençóis da insônia, que por ventura abafam choros na madrugada, enxugam lágrimas que ardem nos olhos, queimam no peito feito amônia.



Juan Barto
Agora que toda a água suja já escoou pra dentro do esgoto, lá vou eu buscar o que restou de mim preso ao bueiro.
Aquilo que não pode ser diluído.
E é com a alegria de um garimpeiro que eu me deparo, não com um “eu” esfacelado quase morto, mas sim com um “eu” melhor que antes.
Completamente inteiro!



Juan Barto
O sábado de chuva transbordou a madrugada e o calendário.
Era tanta água caindo
que alagou a calçada do domingo.
E a lama que escorreu
sujou tudo...
até eu!




Juan Barto

Foto: Juan Barto
Eu hoje estou amargo.
Eu hoje estou travoso.
Eu hoje sou tamarindo e eu quero ficar assim; imaginando que as coisas são ruins.
Eu hoje não quero ninguém rindo perto de mim.
Esqueceram o meu nome e aonde me encontrar
Só lembram do que querem e quando precisam lembrar.
Seu abraço
mesmo tendo sido milhares
hoje procuro ao menos um caído atrás do sofá e não acho.
E não há quem ache.
"Novidade" às vezes me irrita; há aquelas que realmente vêm para passar uma vassoura nas teias de aranha dos cantos de parede mais altos, mas tem também o novo nocivo, o novo 'velho do saco'; que leva as pessoas embora nas costas.
"Estava tudo tranqüilo até o novo chegar com suas escavadeiras!"
Não que eu queira ficar estagnado entre o começo e o meio até o fim...
Enfim...
Reclamar me acalma, é o meu cigarro.

Juan Barto


Cruz-credo

Crápulas e biltres praguejam impropérios em sua cripta
quebrando pratos como os gregos, pelo prazer de praticar o 'destruir'.
O primal prazer de destruir.
Pelo prazer de praticar.
Trágicos em crise craseiam os 'ais' de sofrimento.
Cretinos travestem os seus crimes, cravejando-os de cristais e de rubis.
Cravejando-os de brilhantes e rubis, constrangendo os demais.
Transcender é transformar-se em brasas nas entranhas das trevas.
Um trago bem travoso de engolir,
mas que só tenta agradar.
Drásticos em transe transitam propagando a tristeza.
Ser meio cruel é ser cru, criticando prematuramente.
Bradando e abrandando por ai.



Juan Barto
Cinco da manhã é hora de escrever.
Afinal, cinco horas da manhã é hora de quê?
De dormir? Que clichê!
De comer vendo tevê?
De se lembrar de um bem–me-quer ou se esquecer um mal-querer?
A vida anda tão mentolada. . .
Quem tramou e trançou nossos destinos? 
E se nessa repetição de tanto desencontro maldito
eu não for ou você não vier, fica tudo assim; perdido?
Apenas pensando como seria se tivesse sido?



Juan Barto