Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Envelhecer é ficar mole, como uma barra de chocolate esquecida no banco de trás do carro.




Juan Barto
Ela anda pelas calçadas
reconhecendo ruas, reconhecendo placas.
Conhece atalhos que não estão no mapa.
Ela anda só, sem pensar em nada.
Ela se cansa de sair pra ver o mundo e do mundo nunca estar em casa.
Ela pensa que sonhar é um filme que se assiste de graça
e viver é um sonho de carne e osso que não tem lugar pra sentar
tem que participar, se não ele acaba.
E quando é o caso de se acordar
some se daqui e se aparece em outro lugar.



Juan Barto
-Você tem o meu barquinho, eu não tenho nada seu.
-Você tem o meu carinho, acho que se esqueceu! Mas eu me curei sozinho. Foi o dom que Deus me deu!



juan barto

Todos os dias quando abro a porta de casa e me atiro nas garras do acaso, munido apenas de mochila e sentimentos, enquanto deslizo pela sua garganta penso:
"Você está em algum lugar ai fora!"
E bem depois, quando o mundo me cospe de volta, todos os dias na mesma hora, antes de dormir sempre me lembro:
“Você está em algum lugar aqui dentro”.



Juan Barto
E pra me acalmar eu ando.
Converso comigo mesmo andando a esmo... As vezes canto.
No dia que achar o zíper dessa fantasia que uso, garanto que desuso.
No dia que achar meu lugar no mundo, me mudo.
Sei que esse texto é uma ferida aberta pronta pra infeccionar, mas só queria parar de achar que vai dar tudo certo antes de não dar.
Porque eu, na procura de um "tu", achar um "ele", de repente até um "eles", ai é gramática má.
É perder outra vez, mais uma vez.
Querer é verbo que acaba com o sujeito.



Juan Barto
Quando eu vencer, quero um cortejo pelas ruas principais.
E das pedras que me atiram, só espero que nenhuma vá parar nos rins.


.Juan Barto

MAICON

Era um daqueles feriadões que são aguardados e planejados por todo mundo com quatro meses de antecedência.

Daqueles que caem numa segunda-feira formando o místico ‘fim de semana de três dias’. Uma trinca de ases nesse jogo da vida que nos incentiva a fazer corpo mole e vista grossa desde a hora do almoço da sexta, transformando o sábado numa espécie de ‘happy hour’ esticada e contínua da sexta e o domingo oficialmente no sábado, deixando o último dia dessa maratona de vagabundagem pra ser comemorado da maneira mais anárquica que uma boa segunda-feira-feriado merecia... Não fazendo absolutamente nada!

Maicon tinha nove anos e seus pais decidiram que migrar para o chalé na serra seria uma ideia sensacional! Tão boa quanto estender o convite aos apêndices familiares. Aquela parte da família composta de tios e primos distantes que eram distantes justamente por só conseguirem se suportar à distância, mas que sempre que surgia a chance decidiam tentar de novo. - “Vai que dessa vez vai?”. Dizia o pai. Maldita culpa cristã.



A chatice estava apenas começando, primeiro, porque Maicon sabia muito bem que o chalé, nem mesmo a serra seriam grandes o bastante caso algum parente pisasse no calo do outro. O último natal serviu pra mostrar bem isso e poderia até entrar na categoria de ‘fatalidades isoladas’ se os outros dois natais anteriores a esse não o elevasse a condição de ‘estatística’. Segundo, porque estava com caxumba, portanto, não poderia correr, pular, gritar, nadar, rir, se abaixar, subir em árvores ou pegar em peso. Nem mesmo comer era possível sem sentir uma fisgada aguda atrás das bochechas que até o faria chorar, se chorar também não causasse uma dor absurda.

Uma vez longe da cidade, os ‘urbanóides’ acham que improvisar é necessariamente necessário. Isso de ficar confinado em bando numa casinha no meio do mato mexe com o imaginário coletivo dando a sensação de estar num desses programas malucos de sobrevivência do discovery chanel.

“Devíamos fazer uma cabana e acamparmos todos no terreiro da frente, que tal?” - Diz o tio gordo de olho baixo que só bebe cachaça desde a hora que chegou.

“-Mãe aqui tem leão?” – Pergunta um primo menor.

“-O jantar vai ser salsicha e batatinha frita na fogueira! ÊÊÊÊÊ!” – Falou com voz infantil forçada a tia de trinta e tantos, sem filhos, metida à ‘descolada’. Nenhuma das crianças respondeu o 'êêêêê'.

Cinco e meia da tarde, o dia vai ganhando aquele azulado que confunde quem tá acordando da soneca de pós-almoço sem saber se está anoitecendo ou amanhecendo. Maicon nu, apenas de chinelinhas havaianas em cima do tanque da lavanderia, as mãos em concha escondendo/defendendo sua “parte da frente” do jato gelado da mangueira que sua mãe segurava implacável.

-P-P-Por que não posso tomar banho no banheiro? – Perguntou batendo os dentes de frio.

-Porque os canos dessa casa são muito velhos e pode ter sujeira dentro, ou até um bicho morto!

-E p-p-p-por que n-n-não posso dormir sem tomar banho só essa vez? É feriado!

-Até parece, meu filho, que vou deixar você dormir sem tomar banho!

Maicon não tirava os olhos da porta da cozinha que estava apenas encostada. E se uma das primas o visse ali?! Pelado!?

Mas agora sua preocupação voltou com toda força para outra coisa. Acabara de ver o que ele pensava ser uma pedra, se mexendo! A tal pedra cinza com calombos irregulares nas costas tinha olhos negros redondos e dava pulinhos curtos nas pocinhas d’água que se formavam pelo terraço. Era a primeira vez que via um sapo cururu assim de perto (perto demais!). Achou feíssimo.

A noite seguia bastante fria e com estalos secos vindos da fogueira, barulhos estranhos vindo dos matos e grilos estridentes vindos sabe se lá de onde. Do inferno. A fauna local veio dar as boas vindas.

Maicon jantou iogurte. Foi o que a caxumba o deixou comer. Mesmo sendo final de semana, criança tem que deitar cedo, mas ele custou a dormir por causa da dor nas bochechas (que como toda dor que se preze só se potencializa a noite), por causa da fome, do tédio e do som alto do carro tocando pagode existencialista enquanto os tios bêbados discutiam futebol aos gritos no terreiro da frente e as tias fofocavam e gargalhavam na varanda, no pé da janela do quarto em que estava.

Acordou na manhã seguinte com a casa numa massa de silêncio densa. Levantou da rede e pôs o pezinho morno descalço no chão gelado e se arrependeu. Calçou a chinela, apanhou a manta grossa de lã e a enrolou em si como se fosse um poncho e foi se sentar no degrau único da varanda que dava para o terreno. Pensou nos desenhos animados que estava perdendo naquele momento e quis ir embora pra sua casa.

O terreiro da frente do chalé agora parecia um grande mangue, pois chovera bastante durante a madrugada. Os grilos deram espaço aos passarinhos e o cheiro de terra molhada realmente era tudo aquilo que diziam.

Letícia, sua irmã mais nova havia acordado e vinha lá de dentro a passos macios e curtos puxando sua boneca por um braço e seu paninho de dormir por uma ponta, toda agasalhada.

-Tô com fome, maicon! – Disse com voz fininha e tímida embargada pela chupeta que ficava enorme no seu rosto pequeno.

Maicon levou um pequeno susto.

-Eu também. Cadê a mamãe?

Letícia apontou a esmo pra trás indicando um quarto qualquer. Ela parecia um desenho japonês. Muito branquinha, olhos grandes e vivos. O cabelinho liso Chanel a tornava uma bonequinha! Era até quieta como uma.

Ele a chamou pra sentar ao seu lado no degrau. Ela foi e deitou a cabeça no ombro do irmão e assim ficaram por um tempo. Calados, olhares e pensamentos desfocados no frio da manhã, no frio da serra, no frio da infância. Esperando que algum adulto egoísta acordasse de seus sonhos ébrios e lhes fizessem comida e companhia, afinal, nenhuma daquelas crianças pediu pra subir a serra no feriadão.




Juan Barto
A fumaça no chalé
deve ser café
na louça do bule da moça do balé.



juan barto

AQUELE ABRAÇO!



Flamengo 5 x 0 Coritiba/ Maracanã/ Brasileirão 2008

'BARRENTO'

Foto: Juan Barto
Sua língua é tão grande
que serviria como a gravata de uma montanha
ou como o cadarço do tênis de um gigante.
Daria pra laçar gado, daria pra laçar um elefante.
Sua vida é tão infame
que não há barco a motor ou gás de refrigerante
que te jogue pela estrada a fora
que te lance para o alto e avante.



Juan Barto
Acho que todos nós somos meio como João e Maria, deixando trilhas de migalhas de pão pra trás, na esperança de saber como vir embora. Mas dentro da floresta, você pertencer as árvores.
'Era uma vez . . . ' é uma espécie de 'amém', só que no começo da reza.

----------------------------------------------------------------------

Tudo era alguma coisa até deixar de ser.
Há coisas que nascem podres, mas nada nasce ôco.



Juan Barto
Não acredito na finitude de umas coisas e não entendo a finalidade de outras.
Não coloco pedras sobre as histórias, e sim uma tampa de isopor, apenas pra evitar que se estraguem, que atraiam insetos ou o olhar de curiosos.
Isopor mantém o que é frio frio e o que é quente quente.
Aprendi que se você convida o lixo pra entrar na sua casa, ele é que vai te pôr pra fora dentro de um saco no fim do jantar.
Aprendi a lavar minha roupa suja com tinta de caneta.




Juan Barto
Ela bateu a porta do carro com a maior força que conseguiu reunir num só braço.
Caminhou  rápido, porém sem correr, pois correr depois de uma discussão era coisa de criança, e ela já tinha dezessete anos!
À passos apressados e profundos, chegou até a porta da frente da sua casa.  Punhos cerrados de raiva.
Ele, de dentro do carro, assistia a esse espetáculo de sons, gestos e vibrações que é o chilique de uma mulher, e olhava orgulhoso para sua própria mão direita.
Seu dedo indicador e o do lado, o maior (e mais audacioso) de todos, ainda frescos, grudentos.
Mais tarde, ainda na mesma noite, ela em seu habitual banho quente antes de dormir, sorriu, e riu do seu acesso, riu como foi boba, pois apesar de ter resistido as insistentes tentativas masturbatórias do namorado, ao ceder, viu que aquilo era bom
'Nossa, como era bom!'
Apenas ficou com vergonha quando se percebeu gosmenta e se defendeu atacando, mas pra ser sincera, mal podia esperar pra ver ate onde eles iriam no dia seguinte.
Ele, naquele mesmo momento, via tevê, mas sem prestar atenção.
'Nossa, como era bom!'
Mal podia esperar pra ver ate onde eles iriam no dia seguinte.




Juan Barto
Que caia então tudo pra cima, esmagando os anjos contra os astros.
Não há sentido em reprimir um pé que clama por dançar.
Não adianta, nem jogando uma mão de cal no passado.

------------------------------------------------------------------------------

Que nunca haja nem azul marinho tão fundo, nem azul celeste tão largo que possa nos separar.
Colares por baixo dos cachecóis e muitas blusas a mais, pra aguentar os dias frios, frígidos e fingidos.

------------------------------------------------------------------------------

Pare de cobiçar as minhas verdades, pare de reproduzir as minhas mentiras.
Pare de espiar por cima de meu ombro, vai engordurar minha nuca e manchar minha camisa.

------------------------------------------------------------------------------
Rochedos e penhascos dão uma ideia errada sobre si mesmo. Eles não são assustadores, ele só são (es)calados.
E esse violão banguela? Triste como um cachorro de três pernas.
Se hoje eu me tremo, é porque são muitas vidas acumuladas nesse corpo tão pequeno.




Juan Barto.
Feliz dia das crianças, futuros 'nós', continuem dançando até quando os quadris caquéticos e os frágeis joelhos não mais impressionarem pela agilidade no rebolado, mas sim pela harmonia do gingado.




Juan Barto


Por que as pessoas interessantes que eu vejo pela janela do meu ônibus não estão dentro do meu ônibus?
Que força é essa que não me deixa conhecer quem eu não conheço e não me ajuda a entender quem eu já conheço?
A vida seria uma imensa loja de inconveniências aberta 24 horas?
Era o que eu temia, marcar comigo mesmo de me encontrar e não aparecer.



Juan Barto
Foto; Juan  Barto



Eu vejo que o meu caderninho está ficando sem folhas.
Eu vejo que o meu peixinho não faz mais tantas bolhas.
Eu vejo que a minha árvore já não tem tantas folhas.
Eu vejo que o meu plástico está quase sem bolhas.




Juan Barto

DEZ SEGUNDOS

O rosto dele estava quente, estava muito quente, daria pra passar um café com o seu suor.
Ele podia sentir seu sangue correndo mais grosso pela sua testa e bochechas.
Não imaginava que a vida fosse colocar a perna na frente pra ele tropeçar.
Dez segundos atrás, ainda não havia dobrado a esquina da casa da mulher que ele amava secretamente, dez segundos atrás ainda não a tinha visto debruçada no portão de sua casa, sorridente e, para sua infelicidade, acompanhada.
Até dez segundos atrás ele era uma pessoa boa, a partir de agora não podia garantir mais muita coisa.
Petrificado no meio da calçada, olhou de esguelha para o poste à sua direita e se identificou.
O que não daria agora por uma bombinha ninja, pra desaparecer dali numa cortina de fumaça o mais rápido possível.
Girou nos calcanhares e começou a traçar, cabisbaixo, o caminho de volta pra casa.
O homem que mal chegou a cruzar aquela esquina, e que agora rebobinava seu caminho melancolicamente, não era nem de longe, nem no cheiro, nem fodendo o mesmo de dez segundos atrás.



Juan Barto

PENSANDO ALTO/ FALANDO SOZINHO

Tão carente e ao mesmo tempo tão inocente e egoísta quanto um auto beijo apaixonado no próprio braço.
[Motorista, não me deixe passar do ponto, senão eu asso!]
O céu é azul porque Deus toda semana bota cloro, e o mar é salgado porque se não, há muito tempo já o teriam bebido.
"Saudade" tem hiato pra na hora do divórcio, o "u" não ficar tão sozinho.
Sobre aquilo que não é meu, sinto um ciúme carnívoro.





Juan Barto
Não estamos na mesma margem, mas viemos da mesma vagem.
Estendemos nossas toalhas na grama e deitamos na grama, não na toalha.Vai entender...
Respeito é como um aplauso em silêncio.
Como pode um espirito velho ser sábio, porém crédulo?





Juan B.
Foto: Juan Barto

RECHEIO

Antes do dizer tem que haver o pensar.
Depois do viver tem que haver o sonhar.
Até o pior maldizer virou açúcar ao saber: ‘Nasceu o bem-te-vi!’: Você!
Você é o meu chalé cheirando a chocolate quente.
[Eu sinto que você sabe. Eu sei que você sente!]
Você é o meu dia feliz começando às cinco da tarde.
[Eu sei que você sente! Eu sinto que você sabe!]
Você é minha casa na praia, chuvosa como eu gosto.
Você é o meu violão acústico, você é o meu chuveiro elétrico.
Haveremos de nos ver, haveremos de nos ver sim e nada de só no fim.
Vira-se a ampulheta assim mesmo na malandragem.
E nada de saudade feia, nada de saudade.





Juan Barto

Saúde é uma das poucas coisas que não se pode roubar.
Riqueza e miséria são antônimos que agem da mesma forma: Dominam e fulminam da maneira mais porca.
Boa medida não resseca e nem sufoca.
Boa pedida não vem crua e nem com crosta.
Boas idéias contam com a sorte
Boas intenções contam com a desatenção do azar.
Nas riscas dos azulejos, nas fendas das janelas e nas teias dos ralos, é nas juntas que se acumulam as impurezas e a pele morta, por isso estalo os dedos a cada meia hora, pra dispersar energia saturada.

---------------------------------------------------------------------------

O Amor entrou e entranhou na minha vida como um cheiro fumegante de café, que adentra ambientes inteiros e interessantes.
Céu verde oliva...

----------------------------------------------------------------------------

Quando você cair em "si" e descobrir que o passar do tempo "mi" inocentou, não vai ter "ré" que me traga de volta.
Chova ou ''fá''ça ''sol''.
Sem mágoa nem ''dó', apenas sai pra ''lá''!




Juan Barto
Tem pessoas que a gente gostaria de ser como elas.
Tem pessoas que a gente gostaria que fossem como nós.
Viver do passado é se esconder embaixo de um cobertor que não existe mais, com medo de monstros que também não existem mais.

----------------------------------------------------------------

Eu sou a urtiga promíscua que queima seu juízo entupido de algodão.
Eu sou a vozinha na sua cabeça que sussurra entre cada refeição: "Por que não?"
Eu sou o trapezista maneta.
Eu tomo sorvete de garfo e sopa com a mão.
Escrever é uma manifestação altruísta ou é a mais pura prepotência disfarçada de ficção?
Eu, já acho que é meramente um ralo.
Eu sou o ursinho de pelúcia encalhado na máquina, junto com tantos outros ursinhos à espera da garra que virá dos céus pra nos tirar desse aperto.
Pois escute essa...
Deus não tem mais moedas.



Juan Barto



Quando te construo, te costuro com amor e linha grossa.



Juan Barto

ÉRIKA

Lá estava Érika ao lado da banca de revistas pontualmente no horário combinado como era de seu costume. Anderson só agora que estava saindo de casa. Sempre chegava depois de Érika nos seus encontros, mas dessa vez não atrasaria já que morava a um quarteirão da praça do jambo. Trancou a porta de casa e quando estava cruzando o jardinzinho da entrada, quase chegando ao portão de ferro sentiu um quentinho descer do nariz.
Voltou correndo pelo mesmo caminho, entrou em casa com a cabeça extremamente levantada para o sangue não escorrer e foi direto ao banheiro. Enrolou rapidamente um meio metro de papel higiênico na mão, dividiu-o o bolo em dois e os arrolhou de qualquer jeito nos buracos do nariz, respirando pela boca e se sentou no sanitário com a tampa fechada. Precisava de um tempinho até que estancasse. Toda vez que ficava nervoso seu nariz sangrava. Era assim desde pequeno. Dessa vez sangrou até pouco!
Da esquina já era possível ver mais do que a copa das árvores. À medida que se aproximava ia tendo a visão completa da praça. O pipoqueiro, o play-ground, as pessoas fazendo cooper em velocidades distintas, casais se agarrando nos bancos e lá no fundo a banca de jornais. E lá estava Érika com seu lindos cabelos loiros e sua bolsa gigante, sentadinha, discreta! Sentiu a costumeira frustração de nunca conseguir chegar antes dela nos encontros seja por um motivo ou por outro.
Mais ao fundo da praça, dois taxistas encostados em seus respectivos carros cochilavam sobre seus capôs. Érika ao lado abriu e fechou o celular conferindo a hora.
Anderson chegou sorrindo e abraçando.
-Não atrasei mais do que cinco minutos, nem me olhe assim!
-Anderson, Anderson... – Mas ela sorria também. Não parecia brava.
-Te fiz vir nesse frio, eim?
-Sem problemas! Amo o frio e além do mais, trabalho é trabalho!
-É ou não é a funcionária do mês?
- A empresa literalmente depende de mim, meu caro!
Risos.
Érika indo direto ao assunto. Meteu a mão na bolsa, sacou uma carteira de cigarros e a ofereceu para Anderson que refutou.
- Não fumo cigarros!
-Hoje você fuma! - E deu uma piscadinha marota pra ele.
Anderson a olhou desconfiado e quando pegou a carteira sentiu que estava mais pesada do que o que seria normal pesar um simples maço de cigarros e imediatamente ficou eufórico. Tinha entendido o esquema! Seu coração batia forte!
Érika, doutora em química farmacêutica fazia esses pequenos serviços "extra éticos" pra ajudar no seu orçamento mensal. Fabricava coisas ilícitas e repassava para uma clientela muito, muito, muito restrita e de confiança. Conheciam-se desde a quinta série e embora tivessem seguido carreiras diferentes nunca perderam contato. Anderson já havia comprado várias vezes produtos variados da amiga, experimentais ou não. Tudo havia começado pouco depois da graduação dela quando numa noite de sábado ela lhe mandou um e-mail dizendo que tinha conseguido fazer LSD ‘caseiro’ e precisava de alguém pra testar junto com ela.
Mas essa ‘carteira de cigarros’ continha uma encomenda especial! Especial pelo valor histórico e por toda a estupidez que envolvia sua condição de droga ilícita. Era primeira vez que iria experimentar café - A substancia banida!
O governo desde sempre arrumou uma forma de manipular a sociedade para que ela achasse feio, sujo, e mal falado aquilo que o próprio governo não entendia, não concordava ou não conseguia ganhar uma graninha em cima, fosse sutilmente suscitando que era pecado ou afirmando categoricamente que era proibido. As drogas por sua vez, reagiam dando o seu próprio jeitinho de ficar no varejo informal.
E 2037 quando a China se firmou como nação suprema mundial, desbancando oficialmente os Estados Unidos e implantou o seu modo de pensar e o seu modo de agir para o resto do mundo, assim como os próprios Estados Unidos fizeram por tanto, tanto, tanto tempo, tudo que era normal para a China passou a ser imposto como normal para o resto do mundo. E se tem uma coisa que é anormal é o conceito de ‘normalidade’ chinês. Isso não sofreu nenhuma mudança com o passar dos anos. Entre outros atos repentinos o mais inesperado se dúvida foi a inclusão de todo e qualquer produto que contivesse cafeína na lista oficial mundial de substâncias proibidas.
A partir de 2040 a cafeína figurava na categoria: ‘Drogas ilícitas’ sob a alegação embasada por diversos estudos científicos que a mesma alterava o estado psicológico e comportamental das pessoas causando entre uma série de sintomas negativos e prejudiciais a saúde, a rápida dependência em seu uso.
Extremismo também é normal na cultura oriental.
Quanta excitação, pegar aquele tijolinho cheio de café! Anderson estava quase chorando! Ele que já nasceu num mundo descafeinado há alguns anos, tudo que sabia ou conhecia sobre aquele produto vinha de conversas veladas e sussurradas com os avós. Nos livros não existiam esse tipo de informação nem como dado histórico. Na internet era tudo censurado. O que também era um hábito normal na cultura chinesa.
O mesmo café que podia ser encontrado em qualquer lugar, da mercearia mais vagabunda de beira de estrada ao mais refinado supermercado de luxo com diversas marcas para o consumidor escolher qual a lhe agradava mais.
Anderson podia sentir o cheiro forte através da caixinha de plástico.
Não se conteve e perguntou a meia voz:
-Ei, eu nunca usei isso como eu faço?
-Ou você tritura com um pilão e cheira tipo cocaína mesmo ou você ferve uma água e prepara como se fosse um chá e bebe!
-E ai?
-E ai que dá a lombra, amigo! Você fica ligadão! Elétrico! Sem dormir! Acordado por horas e horas. É um estimulante!
-Caralho , minha avó servia isso pras visitas na sala junto com bolo de milho! E agora é proibido! Veja você!
-Que nem nossos ancestrais índios faziam com a maconha rapaz, e que também ficou proibido!
Anderson pôs a carteira no bolso de trás da calça jeans.
Silêncio de quatro segundos.
-Meu querido, você já tem o doce e espero que faça boas travessuras com ele. Eu tenho que ir andando. Você tem o número da minha conta, certo?
-Por que você não aceita dinheiro-dinheiro como qualquer pessoa?
-Porque eu não sou louca de dar bandeira de alguém me ver recebendo dinheiro de um cara no meio de uma praça. Vão achar no mínimo que eu sou uma puta!
-Que bobagem! Isso ainda não é ilegal!
Érika deu um soquinho no ombro dele, mas terminaram por gargalhar juntos.
-Vai tranquila que amanhã tá lá teus três dígitos! – Falou Anderson colocando as mãos nos bolsos da frente da calça. Esfriava cada vez mais rápido.
-Certeza?
-Tanto quanto tenho de que amanhece!
-Eu  estou brincando. Eu sei que sim! Beijos então. Vou voltar ao meu humilde lar.
-Beijos!
Érika jogou a bolsa gigante no ombro direito e caminhou em direção ao carro estacionado atrás da banca de jornais, enquanto Anderson ficou parado olhando pra sua bunda tendo pensamentos masculinos. Olhou para os quatro lados da praça antes de sair a passos rápidos. Passou na lanchonete do bairro pra comprar algumas esfirras de carne. Enquanto a garçonete foi providenciar o pedido, Anderson ficou digerindo aquela loucura. Imagina o que não se passa na cabeça dos mais antigos em relação a esse imbróglio com o café. Uma coisa que crianças e velhos consumiam abertamente, de manhã antes de ir pra aula ou sair pra trabalhar e a noite assistindo a novela! Um produto que sozinho já foi moeda informal nacional, sustentou todo o país tanto em status como economicamente em certo período lá atrás, segundo os antigos, e que da noite para o dia alguém e empurra sua cultura totalmente distinta garganta a baixo, goela à dentro. Alguém decidiu que chega! ‘Faz mal!’. ‘Faz mal porque eu estou dizendo que faz mal!’ e pronto, não se planta mais, não se bebe mais, não se fala mais, não existe mais! Pessoas que morreram nas mãos da polícia ainda tentaram argumentar inocentemente em vão: "Mas tá misturado com leite! É com leite!" Mas nada adiantou.
Plantações inteiras foram queimadas na mesma época perfumando a atmosfera com a fumaça proibida pela última vez.
A garçonete voltou com o pedido em um saquinho pardo. Anderson agora voltando pra casa constatou como o frio ficava cada vez mais intenso e pensa sarcasticamente atrevido que um cafezinho cairia bem, agora!
Sorriu sozinho sempre a passos largos e olhando vez ou outra pra trás.  Já na calçada de casa apalpou os bolsos procurando as chaves e sentiu o volume quadrado no jeans, pensou em Érika. Imaginou se ela seria capaz de fabricar Coca-Cola, que também saiu de circulação na mesma época pelo mesmo motivo, e imediatamente visualizou uma cena engraçada da amiga de toquinha, luvas e óculos trabalhando num laboratório improvisado no porão de casa totalmente clandestina em meio a vários e vários barris e panelas de líquido borbulhante e depois os traficando em tubos de shampoo e condicionador. E ele comprando, claro!



Juan Barto
Chico não consegue dormir tem dez dias. 'Ten', dez dias que chico não tem dormido.
A vida balança numa valsa macabra, num bolero-lero sinistro.
Chico não dorme, Chico não come, Chico não fala comigo.
Chico querido, se deu por vencido e parece nem ter percebido.
"Capture com os olhos o que as mãos tanto salivam, assim ninguém corre perigo!” 
Mas Chico não ouve o que eu digo.
Chico nem pisca, chico não liga, Chico anda muito esquisito.
Se Chico não dorme, se Chico não come um dia Chico vira palito.
Logo Chico,  meu único amigo...




Juan Barto


SARA

Os amigos estavam reunidos no bar de sempre esperando por Sara, atrasada quase uma hora, como de costume. Nove garrafas secas e dois cinzeiros cheios descansavam respectivamente sob/sobre a mesa, até que alguém virou e disse: ‘Telma, liga de novo pra Sara e pergunta se ela ainda vem!’ No que Telma atendeu prontamente procurando o celular na bolsa enquanto resmungava coisas como ‘Toda vida isso!’ e ‘Até quando, meu Deus?’

-Tá chamando (...) Chamando (...) E chamando (...) Eternamente chaman... Sara? Cadê você, mulher? (Breve pausa) Tá bom, tá bom. Beijo, até! Desligou!

-E ai?

-“Tô chegando, tô chegando, porra! Dez minutos! Quando chegar ai eu explico!”.

-Essa é a Sara! – Falou Noeli levando o copo a boca.

-Foda, né cara? Sempre isso! Ela sugeriu o programa, marcou a hora, instigou todo mundo, fez chantagem emocional pra ninguém furar ai vai e faz isso! Uma hora atrasada! – Comentou Quico brincando de girar o isqueiro no tampo da mesa.

-Por que é que ela é assim, eim? – Perguntou Noeli sarcástica enquanto fazia sinal com a mão para o garçom pedindo outra cerveja.

-Pelo mesmo motivo que a gente gosta dela. – Falou Telma - Porque a Sara É LOUCA. E disse o ‘É louca’ compassadamente fazendo todos rirem.

-Eu sei disso faz um tempinho. Aquele episódio com o traficante deixou isso bem claro. Foi um divisor de águas! - Falou Quico rindo e acendendo mais um cigarro.

-Aquilo foi a maneira honesta dela dizer: ‘Olha gente, eu sou pirada, ok? Fica perto quem tiver a fim!’ Quem quisesse ter cortado relações a chance era aquela! – Concluiu Telma imitando o amigo e também acendendo um cigarro, arrancando mais risadas do grupo.

O garçom trouxe mais uma cerveja.

‘Traz outra logo, seu Garcia. Tem muita gente e só uma num instante acaba!’

O garçom fez ‘positivo’ e saiu.

-Que episódio do traficante é esse, galera? – Perguntou a nova namorada do Gil que estava ‘chegando na galera’ agora.

-Ah, essa só tem graça a Telma contando!

-Todas as histórias da Sara só tem graça a Telma contando!

Risos.

-É porque eu conheço aquela maluca a mais de quinze anos, gente. Eu já ouvi e vivi tantas histórias absurdas com aquela criatura que eu poderia apresentar um T.C. C sobre Sara Napoleão a qualquer hora em qualquer lugar! – Ostentou Telma vaidosa pela amizade antiga. Se ajeitou na cadeira e depois de um longo gole de cerveja estava pronta pra começar a narrativa.

Telma adorava contar as histórias bizarras da amiga. Adorava! Era o ponto auge dos encontros da turma. Interpretava com detalhes, fazia as vozes, os trejeitos e as entonações, os olhares, criava o clímax. Sempre acrescentando seus comentários sarcásticos como notas de texto sobre o fato, oriundos do seu privilegiado ponto de vista ora de testemunha ocular, ora de ouvinte em primeira mão, porque até as ocasiões em que Telma não estava presente ganhavam um atrativo a mais, um colorido extra depois que passavam pela sua edição e arrancavam gargalhadas de quem quer que as ouvisse, inclusive da própria Sara que nunca a desmentia, apenas ria e balançava a cabeça. No máximo acrescentava um ‘mas’, um ‘porém’. Alguns amigos inclusive podiam jurar que Sara só se metia nessas ‘aventuras inconsequentes’ em que se metia pra dar material pra amiga e ter o prazer de ouvi-la contando depois em ode a seus feitos.

-A Sara tinha ouvido de não sei quem que parece que um fulano que fazia universidade com ela era contato de maconha. Ai ela, muito ‘íntima’, muito ‘profissional’, muito ‘descolada’ e com 40% de certeza já chegou no cara fazendo a encomenda! Carisma zero! Parecia que estava pedindo um Big Mac com fritas e refri no Drive-thru! A maluquice já começou ai, né pô? Isso é jeito? Pois bem, mesmo assim o cara concordou em pegar umas ‘paradas’ pra ela. Lógico, era uma mulher pedindo! Se fosse um homem estranho chegando incisivo assim ele teria mandado ir tomar no cu e bancado o desentendido ofendido. Acontece que ele sujeito era cheio dos esqueminhas, como ter que dar a grana pra ele um dia antes pra receber a encomenda um dia depois... Pegar o número do celular dela, mas não deixar o dele... ‘Não me procure, eu procuro você!’. Um cara cheio de onda! A Sara colocou trezentos e cinquenta reais na mão dessa figura se confiando no fato de que ele não poderia sumir porque teria que aparecer na faculdade uma hora ou outra e não teria como fugir, nem dar calote. Deu um dia e nada, deu dois dias e nada, no terceiro dia veio com uma conversa mole pra justificar o atraso, mas garantiu que ia rolar no dia seguinte com certeza! ‘Beleza!’. No dia seguinte nada do cara outra vez. Passou o fim de semana e nada, na segunda feira o cara não apareceu de novo, ninguém sabia onde esse maluco morava! Deu mais uma semana e nem sinal do sujeito. Um mês depois a gente descobriu que ele tinha trancado o curso! - Esbravejava Telma puta de raiva como se revivesse aqueles dias.

-Uuuuh, bye-bye dinheiro!

-Já era!

- A gente ficou se chapando dependendo da caridade de terceiros! Ação solidária! Foda, né? Não tínhamos mais nenhuma grana pra tentar outro canal e ninguém achava esse escroto em lugar nenhum! – Telma deu outra tragada de cigarro e continuou:

Uns vinte dias depois eu estava em casa assistindo televisão quando sobe a janelinha da Sara no chat dizendo que descobriu onde o bonitão morava! Ai eu falei

[T] Sim, e dai? Tu vai fazer o que? Ligar pro PROCON? Pra polícia?

{S} Não, eu vou lá!

[T] ¢¬¬ Não, querida! Volte pra realidade! Perdeu a graça já! Sara, tu vai bater na porta de um traficante e vai dizer o que? O QUE???

{S} Que traficante pica nenhuma! O cara mora num bairro comum. Nem é playboy rico metido a gângster pra mandar os guarda-costas quebrarem minhas pernas com um taco de baseball e nem mora no morro com capanga encapuzado de metralhadora do lado! É só um merda classe mé(r)dia que quis pagar de esperto em cima de uma otária que não deve saber nem apertar um beck e tá pagando de usuária.. A gente vai lá sim resolver essa história!

[T] Eu não sei o que dizer!

{S} Ótimo! Enquanto você pensa nisso, se veste que eu tô passando ai!

{S} saiu da conversa...

[T]!!!!!!

A essa altura do papo Telma já tinha todas as atenções, todos os olhares, todas as respirações da mesa na palma da mão. Parecia uma plateia de espetáculo de mágica, ávida por não perder nem um precioso segundo do número.

-A cena, meus jovens era a seguinte: Eu, dentro do carro morrendo de calor, derretendo! Sufocando, porque a bonitinha mandou que eu subisse todos os vidros e falou pra que quando ela apontasse para o carro eu buzinasse.

- Pra quê?

-Ah meu bem, ela dá instruções, mas explicação que é boa, nenhuma! Quem sabe depois! Só disse que eu fizesse porque era de fundamental importância para o plano. E eu falei “Que bom, então você tem um plano?”, mas nisso ela já havia descido do carro sem responder e já estava na calçada oposta de onde estacionamos! Enfim, se não contrariar acaba mais rápido, mas lá estava eu, quase fundida ao banco de tanto calor e nervosismo enquanto Sara batia palmas no portão da garagem de uma casa, até que veio a empregada perguntar do que se tratava e eu pude ouvir quando a Sara perguntou se o Hélio estava em casa. Antes que a empregada respondesse qualquer coisa o próprio Hélio em pessoa colocou a cabeça na janela da sala e ficou b-r-a-n-c-o quando viu quem era! Sara por sua vez quando avistou aquela cabecinha na janela não contou nem até três, mandou a ‘tijolada à queima roupa, na frente da empregada mesmo sem estar nem ai pra nada. Sem dar tempo dele pensar: ‘EI, EU VIM BUSCAR MINHA MACONHA!’

A mesa se destruiu em gargalhadas. O João chegou a cuspir cerveja pelo nariz de tanto rir. Telma continuou animada:

-O malandro deu um pulo e em um segundo ele estava na sala, no outro segundo ele estava colado no portão! A empregada constrangidíssima também evaporou de cena num piscar de olhos. O Hélio todo machão, de cara fechada, eu achei que ele fosse dar uma porrada nela!

‘Fala baixo! Oque é isso minha irmã! Tá maluca? Na frente da empregada, porra!? Quer me queimar?’

Ai, senhoras e senhores começou o show! Baixou a maloqueira na Sara! Quando o cara fez que ia se curvar pra puxar o ferrolho e abrir o portão ela pisou no ferrolho e falou com toda a frieza desse mundo:

“Ei, ei! Num vai abrir o portão não! Pra quê? Não tem nada pra você aqui fora, muito pelo contrário! Tem é alguma coisa lá dentro pra mim! A porra da maconha que você ficou de me vender e me deu calote seu merda! Tá putinho? Tá putinho é? Pois trata de relaxar ai. você tá vendo aquele carro ali? Tem três amigos gigantes dentro só esperando que eu espirre pra vir aqui afundar essa sua cara de murro, de chute e de cotovelada até ela virar uma framboesa de sangue! Fora o escarcéu, o escândalo inacreditável que eu vou fazer na porta da tua casa que tu vai ficar conhecido no bairro inteiro como traficante. E ainda espalho um boato pela cidade que tu pegou aids de um travesti garoto de programa. – Ai nisso ela apontou para o carro!

-Geeente do céu, que tensão! E você buzinou? – Falou a namorada do Gil chocada.

-Buzinei claro! Dei só um ‘pí’ curto e ameaçador! Algo que soasse como um ‘estamos de olho!’ Eu me torno cúmplice muito fácil!

A outra cerveja tinha chegado já fazia um tempo só que ninguém não tinha nem se dado conta. Telma ia ficando bêbada e ficando mais fluida na contação da história.

-O garoto gelou! Ai, meu amigo, deu mole de que tinha engolido o blefe! E era tudo o que ela queria pra continuar com o teatro:

“-Eu tenho cara de idiota? Você acha que eu sou louca? Burra de vir aqui bater na tua porta sozinha com a cara e a coragem? Exigindo meus direitos? De burro aqui só você, seu otário metidinho a esperto! Agora o seguinte é o seguinte: Eu vou entrar com você nesse chiqueiro que você vive pra pegar a maconha ou o dinheiro e vou embora. Dependendo dos meus hormônios essa história se encerra aqui. Beleza?”.

- O malandro só ficava calado, pálido olhando nervoso do carro do outro lado da rua para a janela da sala pra ver se os pais, que estavam em casa, não tinham escutado nada. Ela insistiu firme:

“-Beleza Hélio? Pisca ai duas vezes se tu tiver entendido.”

Ele ainda tentou argumentar algo tipo: “Não pô, fica ai fora que eu vou no quarto e pego!”

Ai Sara gargalhou! “Porque eu não espero logo sentada dentro do seu cu, Hélio? Tá vacilando é, amigo? Tá dando uma de doido? Ainda não entendeu a dinâmica do jogo? Eu vou ter que repetir? - E ai ela falou articuladamente lento como se estivesse falando com um retardado.

“Eu vou entrar com você até o seu quarto pegar a porra da cannabis ou a porcaria da grana. E não vem com essa de que não tem nenhum nem outro porque eu não tenho tempo pra isso! Não me faz perder de vez a paciência! Agora anda, abre essa bosta desse portão. E não faz gracinha que eu sou impulsiva, quando eu fico sem assunto eu falo o que vier na cabeça. Pra eu cobrar essa grana ao teu pai é dois minutos! – Ai tirou o pé do portão!”

Os cinco expectadores estavam vidrados na história. Ninguém se mexeu, ninguém ousou interromper Telma. Se não fosse o garçom ter chegado com mais uma garrafa de cerveja reluzente e suada tremelicando sobre a bandeja, ninguém teria sequer se tocado que existia um mundo ao redor.

-Pausa pra uma geladinha, meus queridíssimos!

-Ah não Telma, qualé! –Protestou em uníssono a bancada. Mas claro que Telma só queria amaciar o ego. Sabia que tinha um público vidrado, totalmente envolvido. Fez aquilo justamente pra ouvir isso.

-Calma povo, me deixa lubrificar a máquina! – Encheu o copo ate a boca e virou-o de um só gole até a metade e recomeçou:

-Bom, o que rolou lá dentro de fato eu não sei porque fiquei tendo uma parada cardíaca dentro do carro! Gente era adrenalina pura! Meus dedos estavam colados no painel do carro! Sara tinha evoluído que nem um Pokémon ! Ela transcendeu de ‘maluca-barraqueira-inconsequente’ para ‘Descaralhada-doida-psicopata’ diante dos meus olhos e sem avisar antes! Eu não sabia o que fazer! Sabia que não ia rolar nada sério, tipo agressão porque eu ouvi que os pais do cara estavam em casa, tinha empregada e tudo o mais, mas mesmo assim, eu estava zonza com o brilhantismo daquele plano e com a frieza meticulosa que ele foi executado! Sei que deu exatos cinco minutos e lá vinham os dois, atravessando a garagem. Ele um pouco atrás amuado, passinhos arrastados de quem estava digerindo a informação de que tinha tomado uma virada no placar. Ela com um saco pardo de pão na mão. O Hélio devia ter murchado pelo menos uns cinco centímetros desde a última vez que o vi! Sara abriu o portão, atravessou a rua toda lépida sem olhar pra trás. Contornou o carro para abrir a porta do motorista e já com meio corpo pra dentro gritou para o Hélio que tinha ficado escorado no portão com cara de quarto lugar na corrida:

‘VÊ SE APRENDE COM ESSA A TER MAIS CARÁTER OU NO MÍNIMO ÉTICA PROFISSIONAL E PARA DE FICAR ARMANDO PRA SE DAR BEM EM CIMA DE QUEM PAGA O TEU SALÁRIO! FICA AI QUERENDO SER MALANDRO, MAS LEVOU UMA COMIDA DE RABO LINDA AGORA QUE NÃO VAI DÁ PRA SENTAR NEM TÃO CEDO, EIM BABY? OTÁRIO! BABACA! AVIÃOZINHO DE MERDA!”

Entrou e deu aquela arrancada à lá motorista de stock car, cantando pneu e cantando vitória!

A mesa inteira aplaudiu. Telma também aplaudiu a atitude da amiga e virou em outro gole solo a outra metade da cerveja que estava no copo.

-Olhando assim ninguém diz que a Sara é desequilibrada desse jeito, né? – Falou Gil enxugando os olhos na manga da camisa de tanto rir.

-Diz! Diz sim – Falou João e em seguida apontou – Olha ali quem chegou!

João apontava pra esquina onde o caminhão do lixo da prefeitura acabara de estacionar trazendo ninguém mais ninguém menos do que Sara. Ela toda no salto e no vestido desceu do banco do passageiro da boléia, deu a volta, agradeceu o motorista, recebeu ‘tchauzinho’ dos garis que recolhiam os sacos plásticos amontoados num canto e rumou pra mesa dos amigos como se nada tivesse acontecido, mesmo que o bar inteiro tivesse parado pra ver essa cena. Falou um ‘oi’ generalizado, encaixou uma cadeira entre as cadeiras da namorada do Gil e da Noeli e falou enquanto fazia sinal para o garçom trazer mais um copo e mais uma cerveja:

-Foi mal a demora, queridos, mas nem queiram saber o que aconteceu com o meu carro! Se não fosse o seu Oséias ali do caminhão eu teria me fodido legal!

Telma olhou os amigos rosto por rosto, deu um sorrisinho e disse:

-Mas é claro que a gente quer saber o que aconteceu!



Juan Barto
Madrugada do domingo para a segunda. O apartamento está quente, a cidade está quente e ainda estamos em agosto! Até dezembro piora.
Até dezembro fica insuportável!
Na TV, as novelas seguem seu desenrolar lento, chato e previsível. Deveriam se chamar "novelos".
Os dentes dele imperceptivelmente sujos de chocolate branco. A saliva grossa. Sede.
Quanto mais tenta se ocupar, mais se entedia e menos se entendia.
Uma mão na caneta e a outra na caneca.
Ele desenha meninas que lembram meninas que ele lembra.
Vários recipientes de plástico descansam em paz, empilhados sobre a geladeira branco-mudo.
Um deles é especial. É chamado de "O kit".
Logo ele, o azul com branco, o mais inocente.
Um sonso!
Poderia conter açúcar, arroz ou até um misto-quente que criancinha leva para o colégio, mas ele teve outros planos para aquele tuppeware.
Maconha, era o que havia.
Cannabis, um prazer polivalente.
Dichava... Dichava.... Dichava....
Ajeita... Arruma um pouco com a ponta do dedo .... enrola... aperta com o cartão as paredes do papel... lambe pra colar....colou...Pila....Torce aqui na ponta....  soca...soca... Afunila a outra ponta como um origami....Fogo!
O colchão voltou a ser feito de algodão doce.
O polegar direito caramelizado. A marca que prova que ele é um iniciado.
A medida que o sol ganha altura, o dia ganha velocidade.
Banho morno, música quente e café com leite.
Pessoas com sono perambulando pelas ruas.
O dia veio com força e com vento.
O vento é como um carteiro, um bairro de cada vez.




Juan Barto
Como se o mar fosse invadir nosso país
e a gente na praia brincando com os siris.


Juan Barto
Eu, assim como as cartas de baralho, levo a sério o "diga-me com quem andas que eu te direi quem és".
Há muitas sugestões de esquinas, muitas alternativas numa só reta, mas se eu pudesse ir aonde me convém não sairia do teu convés.



Juan Barto
Se não sou eu pra vigiar as sementes que plantei na tua cesta
Já teriam morrido de saudade ou de tédio, certeza!
Se minha alma anda andando onde eu acho que ela esteja
Talvez um dia desses a gente estranhamente "se veja"

Juan
Desculpar é como parir, dói, mas sai!
Pedir desculpas é meu parto cesária, tem que me cortar e arrancar lá de dentro.
Eu já fui a cartola do mágico, já abriguei coisas fantásticas.
Hoje sou o saco do velho do saco, carrego apenas coisas básicas.
Orgulho é um conselheiro forte, porém burro, porém forte.
Nos toma pelas mãos, entorta nossos braços pra trás e viramos seus fantoches.
Os previsíveis morrem pela boca, os presunçosos de fome.
Todos ruminando coisas caóticas e cáusticas.



Juan Barto
Achar as pessoas boas é fácil, basta seguir as pessoas ruins e esperar que algumas boas caiam de seus bolsos.
Não deixe a maré chegar até o seu pescoço.
O que é bonito também mata!
O que tem pena também mata!
O que quer o seu bem também mata!
Tire essa areia dos olhos, ela não lhe fará falta.
Que os anos não surtam efeito sobre nós.
Que nós não surtemos.
Que o nosso "nós" esteja sempre na ponta da língua, na ponta dos dedos.
Que o nosso pós seja cheio de prós.
Não me acorde
Que eu to sonhando com a sorte.



Juan Barreto
Varal é desnecessário, pois a nossa felicidade a gente pendura é na porta da frente.




Juan Barto
Pior foi dez minutos antes, quando o suor ardia em sua testa.
Seu cabelo longo contra o vento seco e quente das duas e meia da tarde ficava batendo nos olhos e entrando na boca, causando aflição e impaciência.
Ela, sentada em um banco de praça trêmula de raiva, se sentindo tão sem graça, tão sem chance....
E não foi fada-madrinha nem revista capricho quem a aconselhou.
Tão pouco as irmãs mais velhas que ela não tinha.
Ela mesma se pagou um sorvete e se acalmou aos poucos.
"A vida quer o sumo dos meus olhos? Pois não te molho! Não te molho!"
Seu braço estava cortado na altura do cotovelo.
"Droga, vai demorar pra cicatrizar! Por causa do abre-e-fecha."
Pensou ela, prática como sempre. Suas mãos sujas e vermelhas ainda ardiam da queda, da cor do chão.
Foi uma ideia estúpida, mas o que seriam dos humanos sem as idéias estúpidas?
Bom, seriam qualquer coisa, menos humanos.
Nunca fora boa em esportes, pra que inventar essa de participar de aula de educação física agora?
Nunca mais tentaria se mover graciosamente pra acertar uma bola onde quer que fosse, nem em latinhas no parque pra ganhar ursinhos, não mesmo!
O pior é que nem foi pra impressionar ninguém, nenhum menino bonito idiota ou nenhum pai babaca com uma filmadora nas arquibancadas.
Ela fez porque quis. Ela fez de impulsividade, sem saber por quê.
E isso mais assustava do que doía.



Juan Barto
Tão bonita de botina!
Se você dissesse "eu te gosto!"
eu diria "Quem diria!"


juan b.

TRILO

(Ato I)

-E foi desse jeito que eu cheguei nessa cidade.
-Mentira.
-Que parte?
-Tudo! Sua historia é absurda.
-Você que não tem imaginação.

-----------------------------------------

(Ato II)

-Eu queria voar
-Pra onde?
-Sei lá, voar! Voar ouvindo Enya!
-Pode crer!
-Voar ouvindo Enya a noite!
-Caralho, agora eu quero!

-----------------------------------------

(Ato III)

-Eu sou como essa maconha ai, só sendo enrolada.
-Pensei que era porque estava prestes a vir pra minha boca.




Juan B.
"Praticamente" É a palavra mais "quase" que existe pra dizer que o que já deveria estar aqui, na verdade está a caminho desde daqui a pouco.


Juan Barto

FORTALEZA - CE

Os frutos da noite, é claro, são os vagabundos.
Me custa acreditar que esse estado fascinante chamado 'madrugada' dura apenas algumas poucas horas.
Lembrando que noite é uma coisa, madrugada é outra.
Adoro quando dizem 'madrogada'.
Beba coca cola, cheire coca ou cola. A natureza lhe deu três opções na mesma cara, o que não vai por uma cavidade, vai pela outra.
Estamos aqui nesse bar, nesse quintal, nessa horta, nesse pomar...
Estamos semeando coisas.
As palavras conversam entre si sobre nós, eu as peguei mais de uma vez cochichando que nós dominaremos o mundo com mãos de ferro de unhas pintadas.
Os ônibus da cidade são os glóbulos brancos, levando e trazendo as desovas, as reprovas do dia a dia.
Nós,  pedestres, somos glóbulos vermelhos, índios peles vermelhas desfilando arrogantes pelas artérias e avenidas. Somos espectros espertos que querem querer.
Embora ordinários, somos embaixadores extraordinários das tardes quentes e das noites loucas do bairro Benfica.
Somos os vaga-lumes no pote seco de maionese.
Somos plantas de marte, nada de cabras da peste, somos a própria peste!
Vê se não (me) esquece!




Juan Barto

BAIXARIA

As vezes eu preciso sumir do nada e aparecer três dias depois. Isso faz bem pra minha pele e pro meu sorriso.
Eu preciso que alguém lave minhas camisas comigo dentro, pra ver se eu pego uma corzinha.
Meu lençol enrijece quando eu não me dou, minha casa apodrece quando eu não estou.
É por isso que eu não gosto de me ausentar, porque meu violão sente minha falta e chora
que nem viola.



Juan Barto
Não me venha com sua cara de cera
dizer que fui eu que não soube aproveitar a brincadeira.
Que eu sou a pedra que bloqueia a vista e atrapalha a pista de quem passeia!
A pedra que atrasa a vida e impede a ida de quem anseia!
Cansei de te cansar com meus cansaços.
Meu troféu é minha paz.




Juan Barto
A meia luz deixa o quarto como se fosse um útero.
Eu ando pelas linhas finas dos banjos, e os anjos pedem pelo amor de Deus pra que eu volte.
Eu prefiro antes pegar um solzinho sozinho.



Juan Barto
De vez em quando o mundo faz sentido
e de vez em quando é comigo.
As vezes eu paro e penso que a recompensa compensa.
Sonhei uma noite inteira em película de filmes dos anos setenta.
O ar cheirava a morango.
O que pedimos é o que diz quem nós somos.
Estalactites nas pontas do corpo.



Juan Barto
Pra frente!
Atrás de gente que esteja atrás de andar com a gente.




Juan Barto
Que o amanhã não venha pintado de preto, pois o preto me sufoca.
Que eu possa...
Que eu sempre possa!
Que o passado não me passe
não embace
Não seja impasse.

Juan Barto
Descompor o pôr do sol, trazê-lo até minha casa, repintá-lo de rosa e devolvê-lo à você.
Te tatuei numa 'love song' e te escondi num sonho bom entre as folhas de hortelã.
E eu que me sentia um pouco opaco, esfumaçado como um desenho feito a giz, hoje sou passarinho arrepiado, morador do meio do mato e feliz.




juan barto

Frankenstein de pelúcia
Coração de camurça
Que quase nunca usa, mas quando usa...


Juan Barto