Funcionário do mês

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SARA

Os amigos estavam reunidos no bar de sempre esperando por Sara, atrasada quase uma hora, como de costume. Nove garrafas secas e dois cinzeiros cheios descansavam respectivamente sob/sobre a mesa, até que alguém virou e disse: ‘Telma, liga de novo pra Sara e pergunta se ela ainda vem!’ No que Telma atendeu prontamente procurando o celular na bolsa enquanto resmungava coisas como ‘Toda vida isso!’ e ‘Até quando, meu Deus?’

-Tá chamando (...) Chamando (...) E chamando (...) Eternamente chaman... Sara? Cadê você, mulher? (Breve pausa) Tá bom, tá bom. Beijo, até! Desligou!

-E ai?

-“Tô chegando, tô chegando, porra! Dez minutos! Quando chegar ai eu explico!”.

-Essa é a Sara! – Falou Noeli levando o copo a boca.

-Foda, né cara? Sempre isso! Ela sugeriu o programa, marcou a hora, instigou todo mundo, fez chantagem emocional pra ninguém furar ai vai e faz isso! Uma hora atrasada! – Comentou Quico brincando de girar o isqueiro no tampo da mesa.

-Por que é que ela é assim, eim? – Perguntou Noeli sarcástica enquanto fazia sinal com a mão para o garçom pedindo outra cerveja.

-Pelo mesmo motivo que a gente gosta dela. – Falou Telma - Porque a Sara É LOUCA. E disse o ‘É louca’ compassadamente fazendo todos rirem.

-Eu sei disso faz um tempinho. Aquele episódio com o traficante deixou isso bem claro. Foi um divisor de águas! - Falou Quico rindo e acendendo mais um cigarro.

-Aquilo foi a maneira honesta dela dizer: ‘Olha gente, eu sou pirada, ok? Fica perto quem tiver a fim!’ Quem quisesse ter cortado relações a chance era aquela! – Concluiu Telma imitando o amigo e também acendendo um cigarro, arrancando mais risadas do grupo.

O garçom trouxe mais uma cerveja.

‘Traz outra logo, seu Garcia. Tem muita gente e só uma num instante acaba!’

O garçom fez ‘positivo’ e saiu.

-Que episódio do traficante é esse, galera? – Perguntou a nova namorada do Gil que estava ‘chegando na galera’ agora.

-Ah, essa só tem graça a Telma contando!

-Todas as histórias da Sara só tem graça a Telma contando!

Risos.

-É porque eu conheço aquela maluca a mais de quinze anos, gente. Eu já ouvi e vivi tantas histórias absurdas com aquela criatura que eu poderia apresentar um T.C. C sobre Sara Napoleão a qualquer hora em qualquer lugar! – Ostentou Telma vaidosa pela amizade antiga. Se ajeitou na cadeira e depois de um longo gole de cerveja estava pronta pra começar a narrativa.

Telma adorava contar as histórias bizarras da amiga. Adorava! Era o ponto auge dos encontros da turma. Interpretava com detalhes, fazia as vozes, os trejeitos e as entonações, os olhares, criava o clímax. Sempre acrescentando seus comentários sarcásticos como notas de texto sobre o fato, oriundos do seu privilegiado ponto de vista ora de testemunha ocular, ora de ouvinte em primeira mão, porque até as ocasiões em que Telma não estava presente ganhavam um atrativo a mais, um colorido extra depois que passavam pela sua edição e arrancavam gargalhadas de quem quer que as ouvisse, inclusive da própria Sara que nunca a desmentia, apenas ria e balançava a cabeça. No máximo acrescentava um ‘mas’, um ‘porém’. Alguns amigos inclusive podiam jurar que Sara só se metia nessas ‘aventuras inconsequentes’ em que se metia pra dar material pra amiga e ter o prazer de ouvi-la contando depois em ode a seus feitos.

-A Sara tinha ouvido de não sei quem que parece que um fulano que fazia universidade com ela era contato de maconha. Ai ela, muito ‘íntima’, muito ‘profissional’, muito ‘descolada’ e com 40% de certeza já chegou no cara fazendo a encomenda! Carisma zero! Parecia que estava pedindo um Big Mac com fritas e refri no Drive-thru! A maluquice já começou ai, né pô? Isso é jeito? Pois bem, mesmo assim o cara concordou em pegar umas ‘paradas’ pra ela. Lógico, era uma mulher pedindo! Se fosse um homem estranho chegando incisivo assim ele teria mandado ir tomar no cu e bancado o desentendido ofendido. Acontece que ele sujeito era cheio dos esqueminhas, como ter que dar a grana pra ele um dia antes pra receber a encomenda um dia depois... Pegar o número do celular dela, mas não deixar o dele... ‘Não me procure, eu procuro você!’. Um cara cheio de onda! A Sara colocou trezentos e cinquenta reais na mão dessa figura se confiando no fato de que ele não poderia sumir porque teria que aparecer na faculdade uma hora ou outra e não teria como fugir, nem dar calote. Deu um dia e nada, deu dois dias e nada, no terceiro dia veio com uma conversa mole pra justificar o atraso, mas garantiu que ia rolar no dia seguinte com certeza! ‘Beleza!’. No dia seguinte nada do cara outra vez. Passou o fim de semana e nada, na segunda feira o cara não apareceu de novo, ninguém sabia onde esse maluco morava! Deu mais uma semana e nem sinal do sujeito. Um mês depois a gente descobriu que ele tinha trancado o curso! - Esbravejava Telma puta de raiva como se revivesse aqueles dias.

-Uuuuh, bye-bye dinheiro!

-Já era!

- A gente ficou se chapando dependendo da caridade de terceiros! Ação solidária! Foda, né? Não tínhamos mais nenhuma grana pra tentar outro canal e ninguém achava esse escroto em lugar nenhum! – Telma deu outra tragada de cigarro e continuou:

Uns vinte dias depois eu estava em casa assistindo televisão quando sobe a janelinha da Sara no chat dizendo que descobriu onde o bonitão morava! Ai eu falei

[T] Sim, e dai? Tu vai fazer o que? Ligar pro PROCON? Pra polícia?

{S} Não, eu vou lá!

[T] ¢¬¬ Não, querida! Volte pra realidade! Perdeu a graça já! Sara, tu vai bater na porta de um traficante e vai dizer o que? O QUE???

{S} Que traficante pica nenhuma! O cara mora num bairro comum. Nem é playboy rico metido a gângster pra mandar os guarda-costas quebrarem minhas pernas com um taco de baseball e nem mora no morro com capanga encapuzado de metralhadora do lado! É só um merda classe mé(r)dia que quis pagar de esperto em cima de uma otária que não deve saber nem apertar um beck e tá pagando de usuária.. A gente vai lá sim resolver essa história!

[T] Eu não sei o que dizer!

{S} Ótimo! Enquanto você pensa nisso, se veste que eu tô passando ai!

{S} saiu da conversa...

[T]!!!!!!

A essa altura do papo Telma já tinha todas as atenções, todos os olhares, todas as respirações da mesa na palma da mão. Parecia uma plateia de espetáculo de mágica, ávida por não perder nem um precioso segundo do número.

-A cena, meus jovens era a seguinte: Eu, dentro do carro morrendo de calor, derretendo! Sufocando, porque a bonitinha mandou que eu subisse todos os vidros e falou pra que quando ela apontasse para o carro eu buzinasse.

- Pra quê?

-Ah meu bem, ela dá instruções, mas explicação que é boa, nenhuma! Quem sabe depois! Só disse que eu fizesse porque era de fundamental importância para o plano. E eu falei “Que bom, então você tem um plano?”, mas nisso ela já havia descido do carro sem responder e já estava na calçada oposta de onde estacionamos! Enfim, se não contrariar acaba mais rápido, mas lá estava eu, quase fundida ao banco de tanto calor e nervosismo enquanto Sara batia palmas no portão da garagem de uma casa, até que veio a empregada perguntar do que se tratava e eu pude ouvir quando a Sara perguntou se o Hélio estava em casa. Antes que a empregada respondesse qualquer coisa o próprio Hélio em pessoa colocou a cabeça na janela da sala e ficou b-r-a-n-c-o quando viu quem era! Sara por sua vez quando avistou aquela cabecinha na janela não contou nem até três, mandou a ‘tijolada à queima roupa, na frente da empregada mesmo sem estar nem ai pra nada. Sem dar tempo dele pensar: ‘EI, EU VIM BUSCAR MINHA MACONHA!’

A mesa se destruiu em gargalhadas. O João chegou a cuspir cerveja pelo nariz de tanto rir. Telma continuou animada:

-O malandro deu um pulo e em um segundo ele estava na sala, no outro segundo ele estava colado no portão! A empregada constrangidíssima também evaporou de cena num piscar de olhos. O Hélio todo machão, de cara fechada, eu achei que ele fosse dar uma porrada nela!

‘Fala baixo! Oque é isso minha irmã! Tá maluca? Na frente da empregada, porra!? Quer me queimar?’

Ai, senhoras e senhores começou o show! Baixou a maloqueira na Sara! Quando o cara fez que ia se curvar pra puxar o ferrolho e abrir o portão ela pisou no ferrolho e falou com toda a frieza desse mundo:

“Ei, ei! Num vai abrir o portão não! Pra quê? Não tem nada pra você aqui fora, muito pelo contrário! Tem é alguma coisa lá dentro pra mim! A porra da maconha que você ficou de me vender e me deu calote seu merda! Tá putinho? Tá putinho é? Pois trata de relaxar ai. você tá vendo aquele carro ali? Tem três amigos gigantes dentro só esperando que eu espirre pra vir aqui afundar essa sua cara de murro, de chute e de cotovelada até ela virar uma framboesa de sangue! Fora o escarcéu, o escândalo inacreditável que eu vou fazer na porta da tua casa que tu vai ficar conhecido no bairro inteiro como traficante. E ainda espalho um boato pela cidade que tu pegou aids de um travesti garoto de programa. – Ai nisso ela apontou para o carro!

-Geeente do céu, que tensão! E você buzinou? – Falou a namorada do Gil chocada.

-Buzinei claro! Dei só um ‘pí’ curto e ameaçador! Algo que soasse como um ‘estamos de olho!’ Eu me torno cúmplice muito fácil!

A outra cerveja tinha chegado já fazia um tempo só que ninguém não tinha nem se dado conta. Telma ia ficando bêbada e ficando mais fluida na contação da história.

-O garoto gelou! Ai, meu amigo, deu mole de que tinha engolido o blefe! E era tudo o que ela queria pra continuar com o teatro:

“-Eu tenho cara de idiota? Você acha que eu sou louca? Burra de vir aqui bater na tua porta sozinha com a cara e a coragem? Exigindo meus direitos? De burro aqui só você, seu otário metidinho a esperto! Agora o seguinte é o seguinte: Eu vou entrar com você nesse chiqueiro que você vive pra pegar a maconha ou o dinheiro e vou embora. Dependendo dos meus hormônios essa história se encerra aqui. Beleza?”.

- O malandro só ficava calado, pálido olhando nervoso do carro do outro lado da rua para a janela da sala pra ver se os pais, que estavam em casa, não tinham escutado nada. Ela insistiu firme:

“-Beleza Hélio? Pisca ai duas vezes se tu tiver entendido.”

Ele ainda tentou argumentar algo tipo: “Não pô, fica ai fora que eu vou no quarto e pego!”

Ai Sara gargalhou! “Porque eu não espero logo sentada dentro do seu cu, Hélio? Tá vacilando é, amigo? Tá dando uma de doido? Ainda não entendeu a dinâmica do jogo? Eu vou ter que repetir? - E ai ela falou articuladamente lento como se estivesse falando com um retardado.

“Eu vou entrar com você até o seu quarto pegar a porra da cannabis ou a porcaria da grana. E não vem com essa de que não tem nenhum nem outro porque eu não tenho tempo pra isso! Não me faz perder de vez a paciência! Agora anda, abre essa bosta desse portão. E não faz gracinha que eu sou impulsiva, quando eu fico sem assunto eu falo o que vier na cabeça. Pra eu cobrar essa grana ao teu pai é dois minutos! – Ai tirou o pé do portão!”

Os cinco expectadores estavam vidrados na história. Ninguém se mexeu, ninguém ousou interromper Telma. Se não fosse o garçom ter chegado com mais uma garrafa de cerveja reluzente e suada tremelicando sobre a bandeja, ninguém teria sequer se tocado que existia um mundo ao redor.

-Pausa pra uma geladinha, meus queridíssimos!

-Ah não Telma, qualé! –Protestou em uníssono a bancada. Mas claro que Telma só queria amaciar o ego. Sabia que tinha um público vidrado, totalmente envolvido. Fez aquilo justamente pra ouvir isso.

-Calma povo, me deixa lubrificar a máquina! – Encheu o copo ate a boca e virou-o de um só gole até a metade e recomeçou:

-Bom, o que rolou lá dentro de fato eu não sei porque fiquei tendo uma parada cardíaca dentro do carro! Gente era adrenalina pura! Meus dedos estavam colados no painel do carro! Sara tinha evoluído que nem um Pokémon ! Ela transcendeu de ‘maluca-barraqueira-inconsequente’ para ‘Descaralhada-doida-psicopata’ diante dos meus olhos e sem avisar antes! Eu não sabia o que fazer! Sabia que não ia rolar nada sério, tipo agressão porque eu ouvi que os pais do cara estavam em casa, tinha empregada e tudo o mais, mas mesmo assim, eu estava zonza com o brilhantismo daquele plano e com a frieza meticulosa que ele foi executado! Sei que deu exatos cinco minutos e lá vinham os dois, atravessando a garagem. Ele um pouco atrás amuado, passinhos arrastados de quem estava digerindo a informação de que tinha tomado uma virada no placar. Ela com um saco pardo de pão na mão. O Hélio devia ter murchado pelo menos uns cinco centímetros desde a última vez que o vi! Sara abriu o portão, atravessou a rua toda lépida sem olhar pra trás. Contornou o carro para abrir a porta do motorista e já com meio corpo pra dentro gritou para o Hélio que tinha ficado escorado no portão com cara de quarto lugar na corrida:

‘VÊ SE APRENDE COM ESSA A TER MAIS CARÁTER OU NO MÍNIMO ÉTICA PROFISSIONAL E PARA DE FICAR ARMANDO PRA SE DAR BEM EM CIMA DE QUEM PAGA O TEU SALÁRIO! FICA AI QUERENDO SER MALANDRO, MAS LEVOU UMA COMIDA DE RABO LINDA AGORA QUE NÃO VAI DÁ PRA SENTAR NEM TÃO CEDO, EIM BABY? OTÁRIO! BABACA! AVIÃOZINHO DE MERDA!”

Entrou e deu aquela arrancada à lá motorista de stock car, cantando pneu e cantando vitória!

A mesa inteira aplaudiu. Telma também aplaudiu a atitude da amiga e virou em outro gole solo a outra metade da cerveja que estava no copo.

-Olhando assim ninguém diz que a Sara é desequilibrada desse jeito, né? – Falou Gil enxugando os olhos na manga da camisa de tanto rir.

-Diz! Diz sim – Falou João e em seguida apontou – Olha ali quem chegou!

João apontava pra esquina onde o caminhão do lixo da prefeitura acabara de estacionar trazendo ninguém mais ninguém menos do que Sara. Ela toda no salto e no vestido desceu do banco do passageiro da boléia, deu a volta, agradeceu o motorista, recebeu ‘tchauzinho’ dos garis que recolhiam os sacos plásticos amontoados num canto e rumou pra mesa dos amigos como se nada tivesse acontecido, mesmo que o bar inteiro tivesse parado pra ver essa cena. Falou um ‘oi’ generalizado, encaixou uma cadeira entre as cadeiras da namorada do Gil e da Noeli e falou enquanto fazia sinal para o garçom trazer mais um copo e mais uma cerveja:

-Foi mal a demora, queridos, mas nem queiram saber o que aconteceu com o meu carro! Se não fosse o seu Oséias ali do caminhão eu teria me fodido legal!

Telma olhou os amigos rosto por rosto, deu um sorrisinho e disse:

-Mas é claro que a gente quer saber o que aconteceu!



Juan Barto