Funcionário do mês

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ÉRIKA

Lá estava Érika ao lado da banca de revistas pontualmente no horário combinado como era de seu costume. Anderson só agora que estava saindo de casa. Sempre chegava depois de Érika nos seus encontros, mas dessa vez não atrasaria já que morava a um quarteirão da praça do jambo. Trancou a porta de casa e quando estava cruzando o jardinzinho da entrada, quase chegando ao portão de ferro sentiu um quentinho descer do nariz.
Voltou correndo pelo mesmo caminho, entrou em casa com a cabeça extremamente levantada para o sangue não escorrer e foi direto ao banheiro. Enrolou rapidamente um meio metro de papel higiênico na mão, dividiu-o o bolo em dois e os arrolhou de qualquer jeito nos buracos do nariz, respirando pela boca e se sentou no sanitário com a tampa fechada. Precisava de um tempinho até que estancasse. Toda vez que ficava nervoso seu nariz sangrava. Era assim desde pequeno. Dessa vez sangrou até pouco!
Da esquina já era possível ver mais do que a copa das árvores. À medida que se aproximava ia tendo a visão completa da praça. O pipoqueiro, o play-ground, as pessoas fazendo cooper em velocidades distintas, casais se agarrando nos bancos e lá no fundo a banca de jornais. E lá estava Érika com seu lindos cabelos loiros e sua bolsa gigante, sentadinha, discreta! Sentiu a costumeira frustração de nunca conseguir chegar antes dela nos encontros seja por um motivo ou por outro.
Mais ao fundo da praça, dois taxistas encostados em seus respectivos carros cochilavam sobre seus capôs. Érika ao lado abriu e fechou o celular conferindo a hora.
Anderson chegou sorrindo e abraçando.
-Não atrasei mais do que cinco minutos, nem me olhe assim!
-Anderson, Anderson... – Mas ela sorria também. Não parecia brava.
-Te fiz vir nesse frio, eim?
-Sem problemas! Amo o frio e além do mais, trabalho é trabalho!
-É ou não é a funcionária do mês?
- A empresa literalmente depende de mim, meu caro!
Risos.
Érika indo direto ao assunto. Meteu a mão na bolsa, sacou uma carteira de cigarros e a ofereceu para Anderson que refutou.
- Não fumo cigarros!
-Hoje você fuma! - E deu uma piscadinha marota pra ele.
Anderson a olhou desconfiado e quando pegou a carteira sentiu que estava mais pesada do que o que seria normal pesar um simples maço de cigarros e imediatamente ficou eufórico. Tinha entendido o esquema! Seu coração batia forte!
Érika, doutora em química farmacêutica fazia esses pequenos serviços "extra éticos" pra ajudar no seu orçamento mensal. Fabricava coisas ilícitas e repassava para uma clientela muito, muito, muito restrita e de confiança. Conheciam-se desde a quinta série e embora tivessem seguido carreiras diferentes nunca perderam contato. Anderson já havia comprado várias vezes produtos variados da amiga, experimentais ou não. Tudo havia começado pouco depois da graduação dela quando numa noite de sábado ela lhe mandou um e-mail dizendo que tinha conseguido fazer LSD ‘caseiro’ e precisava de alguém pra testar junto com ela.
Mas essa ‘carteira de cigarros’ continha uma encomenda especial! Especial pelo valor histórico e por toda a estupidez que envolvia sua condição de droga ilícita. Era primeira vez que iria experimentar café - A substancia banida!
O governo desde sempre arrumou uma forma de manipular a sociedade para que ela achasse feio, sujo, e mal falado aquilo que o próprio governo não entendia, não concordava ou não conseguia ganhar uma graninha em cima, fosse sutilmente suscitando que era pecado ou afirmando categoricamente que era proibido. As drogas por sua vez, reagiam dando o seu próprio jeitinho de ficar no varejo informal.
E 2037 quando a China se firmou como nação suprema mundial, desbancando oficialmente os Estados Unidos e implantou o seu modo de pensar e o seu modo de agir para o resto do mundo, assim como os próprios Estados Unidos fizeram por tanto, tanto, tanto tempo, tudo que era normal para a China passou a ser imposto como normal para o resto do mundo. E se tem uma coisa que é anormal é o conceito de ‘normalidade’ chinês. Isso não sofreu nenhuma mudança com o passar dos anos. Entre outros atos repentinos o mais inesperado se dúvida foi a inclusão de todo e qualquer produto que contivesse cafeína na lista oficial mundial de substâncias proibidas.
A partir de 2040 a cafeína figurava na categoria: ‘Drogas ilícitas’ sob a alegação embasada por diversos estudos científicos que a mesma alterava o estado psicológico e comportamental das pessoas causando entre uma série de sintomas negativos e prejudiciais a saúde, a rápida dependência em seu uso.
Extremismo também é normal na cultura oriental.
Quanta excitação, pegar aquele tijolinho cheio de café! Anderson estava quase chorando! Ele que já nasceu num mundo descafeinado há alguns anos, tudo que sabia ou conhecia sobre aquele produto vinha de conversas veladas e sussurradas com os avós. Nos livros não existiam esse tipo de informação nem como dado histórico. Na internet era tudo censurado. O que também era um hábito normal na cultura chinesa.
O mesmo café que podia ser encontrado em qualquer lugar, da mercearia mais vagabunda de beira de estrada ao mais refinado supermercado de luxo com diversas marcas para o consumidor escolher qual a lhe agradava mais.
Anderson podia sentir o cheiro forte através da caixinha de plástico.
Não se conteve e perguntou a meia voz:
-Ei, eu nunca usei isso como eu faço?
-Ou você tritura com um pilão e cheira tipo cocaína mesmo ou você ferve uma água e prepara como se fosse um chá e bebe!
-E ai?
-E ai que dá a lombra, amigo! Você fica ligadão! Elétrico! Sem dormir! Acordado por horas e horas. É um estimulante!
-Caralho , minha avó servia isso pras visitas na sala junto com bolo de milho! E agora é proibido! Veja você!
-Que nem nossos ancestrais índios faziam com a maconha rapaz, e que também ficou proibido!
Anderson pôs a carteira no bolso de trás da calça jeans.
Silêncio de quatro segundos.
-Meu querido, você já tem o doce e espero que faça boas travessuras com ele. Eu tenho que ir andando. Você tem o número da minha conta, certo?
-Por que você não aceita dinheiro-dinheiro como qualquer pessoa?
-Porque eu não sou louca de dar bandeira de alguém me ver recebendo dinheiro de um cara no meio de uma praça. Vão achar no mínimo que eu sou uma puta!
-Que bobagem! Isso ainda não é ilegal!
Érika deu um soquinho no ombro dele, mas terminaram por gargalhar juntos.
-Vai tranquila que amanhã tá lá teus três dígitos! – Falou Anderson colocando as mãos nos bolsos da frente da calça. Esfriava cada vez mais rápido.
-Certeza?
-Tanto quanto tenho de que amanhece!
-Eu  estou brincando. Eu sei que sim! Beijos então. Vou voltar ao meu humilde lar.
-Beijos!
Érika jogou a bolsa gigante no ombro direito e caminhou em direção ao carro estacionado atrás da banca de jornais, enquanto Anderson ficou parado olhando pra sua bunda tendo pensamentos masculinos. Olhou para os quatro lados da praça antes de sair a passos rápidos. Passou na lanchonete do bairro pra comprar algumas esfirras de carne. Enquanto a garçonete foi providenciar o pedido, Anderson ficou digerindo aquela loucura. Imagina o que não se passa na cabeça dos mais antigos em relação a esse imbróglio com o café. Uma coisa que crianças e velhos consumiam abertamente, de manhã antes de ir pra aula ou sair pra trabalhar e a noite assistindo a novela! Um produto que sozinho já foi moeda informal nacional, sustentou todo o país tanto em status como economicamente em certo período lá atrás, segundo os antigos, e que da noite para o dia alguém e empurra sua cultura totalmente distinta garganta a baixo, goela à dentro. Alguém decidiu que chega! ‘Faz mal!’. ‘Faz mal porque eu estou dizendo que faz mal!’ e pronto, não se planta mais, não se bebe mais, não se fala mais, não existe mais! Pessoas que morreram nas mãos da polícia ainda tentaram argumentar inocentemente em vão: "Mas tá misturado com leite! É com leite!" Mas nada adiantou.
Plantações inteiras foram queimadas na mesma época perfumando a atmosfera com a fumaça proibida pela última vez.
A garçonete voltou com o pedido em um saquinho pardo. Anderson agora voltando pra casa constatou como o frio ficava cada vez mais intenso e pensa sarcasticamente atrevido que um cafezinho cairia bem, agora!
Sorriu sozinho sempre a passos largos e olhando vez ou outra pra trás.  Já na calçada de casa apalpou os bolsos procurando as chaves e sentiu o volume quadrado no jeans, pensou em Érika. Imaginou se ela seria capaz de fabricar Coca-Cola, que também saiu de circulação na mesma época pelo mesmo motivo, e imediatamente visualizou uma cena engraçada da amiga de toquinha, luvas e óculos trabalhando num laboratório improvisado no porão de casa totalmente clandestina em meio a vários e vários barris e panelas de líquido borbulhante e depois os traficando em tubos de shampoo e condicionador. E ele comprando, claro!



Juan Barto