Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.

DEZ SEGUNDOS

O rosto dele estava quente, estava muito quente, daria pra passar um café com o seu suor.
Ele podia sentir seu sangue correndo mais grosso pela sua testa e bochechas.
Não imaginava que a vida fosse colocar a perna na frente pra ele tropeçar.
Dez segundos atrás, ainda não havia dobrado a esquina da casa da mulher que ele amava secretamente, dez segundos atrás ainda não a tinha visto debruçada no portão de sua casa, sorridente e, para sua infelicidade, acompanhada.
Até dez segundos atrás ele era uma pessoa boa, a partir de agora não podia garantir mais muita coisa.
Petrificado no meio da calçada, olhou de esguelha para o poste à sua direita e se identificou.
O que não daria agora por uma bombinha ninja, pra desaparecer dali numa cortina de fumaça o mais rápido possível.
Girou nos calcanhares e começou a traçar, cabisbaixo, o caminho de volta pra casa.
O homem que mal chegou a cruzar aquela esquina, e que agora rebobinava seu caminho melancolicamente, não era nem de longe, nem no cheiro, nem fodendo o mesmo de dez segundos atrás.



Juan Barto