Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
E pra me acalmar eu ando.
Converso comigo mesmo andando a esmo... As vezes canto.
No dia que achar o zíper dessa fantasia que uso, garanto que desuso.
No dia que achar meu lugar no mundo, me mudo.
Sei que esse texto é uma ferida aberta pronta pra infeccionar, mas só queria parar de achar que vai dar tudo certo antes de não dar.
Porque eu, na procura de um "tu", achar um "ele", de repente até um "eles", ai é gramática má.
É perder outra vez, mais uma vez.
Querer é verbo que acaba com o sujeito.



Juan Barto
Quando eu vencer, quero um cortejo pelas ruas principais.
E das pedras que me atiram, só espero que nenhuma vá parar nos rins.


.Juan Barto

MAICON

Era um daqueles feriadões que são aguardados e planejados por todo mundo com quatro meses de antecedência.

Daqueles que caem numa segunda-feira formando o místico ‘fim de semana de três dias’. Uma trinca de ases nesse jogo da vida que nos incentiva a fazer corpo mole e vista grossa desde a hora do almoço da sexta, transformando o sábado numa espécie de ‘happy hour’ esticada e contínua da sexta e o domingo oficialmente no sábado, deixando o último dia dessa maratona de vagabundagem pra ser comemorado da maneira mais anárquica que uma boa segunda-feira-feriado merecia... Não fazendo absolutamente nada!

Maicon tinha nove anos e seus pais decidiram que migrar para o chalé na serra seria uma ideia sensacional! Tão boa quanto estender o convite aos apêndices familiares. Aquela parte da família composta de tios e primos distantes que eram distantes justamente por só conseguirem se suportar à distância, mas que sempre que surgia a chance decidiam tentar de novo. - “Vai que dessa vez vai?”. Dizia o pai. Maldita culpa cristã.



A chatice estava apenas começando, primeiro, porque Maicon sabia muito bem que o chalé, nem mesmo a serra seriam grandes o bastante caso algum parente pisasse no calo do outro. O último natal serviu pra mostrar bem isso e poderia até entrar na categoria de ‘fatalidades isoladas’ se os outros dois natais anteriores a esse não o elevasse a condição de ‘estatística’. Segundo, porque estava com caxumba, portanto, não poderia correr, pular, gritar, nadar, rir, se abaixar, subir em árvores ou pegar em peso. Nem mesmo comer era possível sem sentir uma fisgada aguda atrás das bochechas que até o faria chorar, se chorar também não causasse uma dor absurda.

Uma vez longe da cidade, os ‘urbanóides’ acham que improvisar é necessariamente necessário. Isso de ficar confinado em bando numa casinha no meio do mato mexe com o imaginário coletivo dando a sensação de estar num desses programas malucos de sobrevivência do discovery chanel.

“Devíamos fazer uma cabana e acamparmos todos no terreiro da frente, que tal?” - Diz o tio gordo de olho baixo que só bebe cachaça desde a hora que chegou.

“-Mãe aqui tem leão?” – Pergunta um primo menor.

“-O jantar vai ser salsicha e batatinha frita na fogueira! ÊÊÊÊÊ!” – Falou com voz infantil forçada a tia de trinta e tantos, sem filhos, metida à ‘descolada’. Nenhuma das crianças respondeu o 'êêêêê'.

Cinco e meia da tarde, o dia vai ganhando aquele azulado que confunde quem tá acordando da soneca de pós-almoço sem saber se está anoitecendo ou amanhecendo. Maicon nu, apenas de chinelinhas havaianas em cima do tanque da lavanderia, as mãos em concha escondendo/defendendo sua “parte da frente” do jato gelado da mangueira que sua mãe segurava implacável.

-P-P-Por que não posso tomar banho no banheiro? – Perguntou batendo os dentes de frio.

-Porque os canos dessa casa são muito velhos e pode ter sujeira dentro, ou até um bicho morto!

-E p-p-p-por que n-n-não posso dormir sem tomar banho só essa vez? É feriado!

-Até parece, meu filho, que vou deixar você dormir sem tomar banho!

Maicon não tirava os olhos da porta da cozinha que estava apenas encostada. E se uma das primas o visse ali?! Pelado!?

Mas agora sua preocupação voltou com toda força para outra coisa. Acabara de ver o que ele pensava ser uma pedra, se mexendo! A tal pedra cinza com calombos irregulares nas costas tinha olhos negros redondos e dava pulinhos curtos nas pocinhas d’água que se formavam pelo terraço. Era a primeira vez que via um sapo cururu assim de perto (perto demais!). Achou feíssimo.

A noite seguia bastante fria e com estalos secos vindos da fogueira, barulhos estranhos vindo dos matos e grilos estridentes vindos sabe se lá de onde. Do inferno. A fauna local veio dar as boas vindas.

Maicon jantou iogurte. Foi o que a caxumba o deixou comer. Mesmo sendo final de semana, criança tem que deitar cedo, mas ele custou a dormir por causa da dor nas bochechas (que como toda dor que se preze só se potencializa a noite), por causa da fome, do tédio e do som alto do carro tocando pagode existencialista enquanto os tios bêbados discutiam futebol aos gritos no terreiro da frente e as tias fofocavam e gargalhavam na varanda, no pé da janela do quarto em que estava.

Acordou na manhã seguinte com a casa numa massa de silêncio densa. Levantou da rede e pôs o pezinho morno descalço no chão gelado e se arrependeu. Calçou a chinela, apanhou a manta grossa de lã e a enrolou em si como se fosse um poncho e foi se sentar no degrau único da varanda que dava para o terreno. Pensou nos desenhos animados que estava perdendo naquele momento e quis ir embora pra sua casa.

O terreiro da frente do chalé agora parecia um grande mangue, pois chovera bastante durante a madrugada. Os grilos deram espaço aos passarinhos e o cheiro de terra molhada realmente era tudo aquilo que diziam.

Letícia, sua irmã mais nova havia acordado e vinha lá de dentro a passos macios e curtos puxando sua boneca por um braço e seu paninho de dormir por uma ponta, toda agasalhada.

-Tô com fome, maicon! – Disse com voz fininha e tímida embargada pela chupeta que ficava enorme no seu rosto pequeno.

Maicon levou um pequeno susto.

-Eu também. Cadê a mamãe?

Letícia apontou a esmo pra trás indicando um quarto qualquer. Ela parecia um desenho japonês. Muito branquinha, olhos grandes e vivos. O cabelinho liso Chanel a tornava uma bonequinha! Era até quieta como uma.

Ele a chamou pra sentar ao seu lado no degrau. Ela foi e deitou a cabeça no ombro do irmão e assim ficaram por um tempo. Calados, olhares e pensamentos desfocados no frio da manhã, no frio da serra, no frio da infância. Esperando que algum adulto egoísta acordasse de seus sonhos ébrios e lhes fizessem comida e companhia, afinal, nenhuma daquelas crianças pediu pra subir a serra no feriadão.




Juan Barto