Quando vão entender? Eu sou criador, criatura!
Não somos iguais, nem em cor, nem aroma ou textura.
Nem por jeito, nem por força nem altura.
Mas quando te construo, de costuro com amor e linha grossa.
Seus humores verticais me fazem interpretar os sinais.
Seus olhos verdes dizem "AGORA!", mas o vermelho da sua boca diz "JAMAIS".
Não é a boca que diz. É o vermelho
E o meu amarelo não é de "Espere"

É de anseio.

Juan Barreto

Adoro!


The Rock Horror Picture Show









Frank-N- Futer
(Tim Curry 1975)
Lá estava Marisa ao lado da banca de revistas da pracinha como haviam combinado, discreta como havia prometido. Camiseta verde com umas florzinhas no canto, calça jeans claro e chinela havaiana azul.
Anderson estava saindo de casa, morava uma rua acima da pracinha do Jambo.
O tempo que ele levaria pra chegar lá, era o tempo que levaria pra que desse a hora combinada.
Anderson fechou a porta de casa e quando estava cruzando o jardinzinho da entrada, quase chegando ao portão de ferro ele sentiu o sangue descer.
O bom de fazer “negócios” com o Anderson, era a pontualidade. Bom, nesse tipo de negócio, isso é um pré - requisito básico, mas Anderson era um fanático.
Marisa se endireitou, ajeitou o cabelo, mudou de ombros a alça da bolsa cor de rosa bebê (que Marisa já estava chamando de “Afasta namorados”, mas, que se danem, ela adorava a bolsa). Pôs as mãos nos bolsos de trás das calças. Essa época do ano a cidade estava bastante fria, mas ela adorava o frio.
Anderson limpou a mão suja de sangue na parede da casa vizinha (lógico).
Sempre que ele ficava nervoso, seu nariz sangrava. Era assim desde pequeno
e essa noite ele estava nervoso, mas um nervoso bom, ancioso. Continuou andando até o fim da rua com a cabeça semi-levantada, pro sangue não descer.
Da esquina já dava pra ver a praça e a banca de jornais que ficava quase na ponta. Naquele horário só havia duas velhas gordas e arfantes sentadas num banco conversando sobre a novela. Elas usavam roupas que sugeriam um Cooper, mas muito provavelmente não passaram da terceira volta).
Mais ao fundo da praça, dois taxistas encostados em seus respectivos carros cochilava sob os capos de seus respectivos carros. Marisa ao lado da banca de revistas fechada brincava no celular.
Anderson chegou já sorrindo:
-Marisa!
-Anderson!
-E ai lindinha, te fiz vir nesse frio eim?
-"No worry baby!!” Amo o frio e além do que, trabalho é trabalho!
-Quanda responsabilidade.
Marisa sorri acanhada e pergunta indo direto ao assunto.
-Aqui?
-Se quiser ir ao meu apartamento, é logo aqui atrás, a gente pede uma pizza, ou comida chinesa...
-Aqui!
-Okey, discretamente então.
-O discreto chama mais atenção do que você imagina meu querido.
-Tem razão.
-Você fuma?
-Não, por que?
-Hoje você fuma.
- Marisa deu uma piscadinha marota e sorriu vasculhando a bolsa.
Gloss, dois chicletes, as chaves de casa, um isqueiro, as chaves do carro e uma carteira de cigarros “Lacrada”. Apalpou a carteira e entregou naturalmente para Anderson, que pegou desconfiado e trêmulo. Seu coração batia forte. Já havia comprado várias vezes coisas variadas a Marisa, tanto pó quanto LSD, tudo feito por ela mesma, doutoranda em química farmacêutica e que fazia esses pequenos serviços "extra-éticos" pra ajudar no seu orçamento. Mas essa era a primeira vez que comprava café - A substancia ezilada!
A sociedade sempre deu seu jeito de tornar feio, ilícito e mal-falado, aquilo que ela mesma não entendia ou não concordava. E as drogas por sua vez, sempre deram o seu jeitinho de ficar no varejo informal.
Mas o mesmo não acontecia com o café. Com o café era diferente! Erradicado do país a mais de cinquenta anos e punido com violência para os "transgressores".
Quanta excitação, pegar aquela carteira de cigarros cheia de café!
Café esse, que um dia foi comercializado simplesmente em toda e qualquer mercearia e consumido de crianças à velhos.
Anderson podia sentir o cheiro forte através da caixinha de plástico.
Não se conteve e perguntou a meia voz:
-Ei vem cá, eu nunca usei isso como eu faço?
-Ou tu tritura ele com um pilão e cheira, tipo pó mesmo, o que eu não recomendo por que assim não é muito eficaz. Ou tu ferve uma água, faz como se fosse um chá e bebe!
-E ai?
-E ai que dá a lombra! Você fica ligadão! Elétrico total!
-Uau , minha avó servia isso pras visitas e agora é proibido!
-Que nem nossos ancestrais índios faziam com a maconha rapaz, e que também ficou proibido!
Anderson põe a carteira dentro do bolso da frente da calça jeans.
Silêncio de quatro segundos.
-Doces ou travessuras, Anderson? - Perguntou Marisa zombeteira. Era a senha pro pagamento.
"Doces" era pra depósito em conta, "Travessuras" para cheque (é uma puta travessura, você ainda ter que ir descontar cheque)e dinheiro vivo jamais. Muita bandeira.
-Doces! Cairão na sua caixinha amanhã por volta das dez horas da manhã meu bem.
-Certeza?
-Tanto quanto tenho de que amanhece.
-Beijos então. Vou voltar ao meu humilde lar.
-Divirta-se!
-Você também!
-Com quatro dígitos na minha conta? Eu ficarei baby!
-Psssiu! - Marisa aproxima e Anderson sussurra:
-Cinco! Cinco dígitos! Um agrado, pelos incômodos nas noites frias.
Anderson era mesmo um achado! Rico, bonito, gente fina e ainda por cima generoso.
-Você é um amor! - Marisa beija-o no rosto e sente a barba mal-feita dele lhe arranhar a bochecha e a boca.
-Você também!Eles sorriem um para o outro e se despedem.
Ela entra no carro com a sensação de vazio já conhecida. Ela chama esse vazio de "vazio hélio" porque a vontade que dá é de sair sobrevoando lentamente pela cidade e suas luzinhas pensando na vida.
Procura no porta-luvas um cd, uma coletânea que ela fez pra ouvir enquanto dirige: Iggy, Ozzy, Moby, Beck e outros nomes esquisitinhos, mas legais.
Ele passa na lanchonete quase fechando e compra umas esfirras de carne e um refrigerante. Enquanto a mocinha vai buscar o pedido, Anderson pensa na loucura que deve ser na cabeça dos mais antigos, uma coisa que crianças e velhos consumiam aberta e inocentemente e que da noite pro dia, alguém decide que faz mal e simplesmente não se planta, não se fala, não se bebe mais. Pessoas morreram nas mãos da polícia por tomarem seus costumeiros cafezinhos. Ainda argumentaram em vão "Mas é com leite!!!" Plantações inteiras foram queimadas e o governo tomou várias terras em nome da definitiva reforma agrária. Que cínicos.
A garçonete voltou com o pedido, e Anderson agora voltando pra casa, repara como está frio.
Instintivamente põe as mãos nos bolsos da calça e sente a carteira de "cigarro" comprimida entre sua mão e sua coxa. Imagina agora num futuro hipotético, longe ou não, a cena de uma Marisa fabricando clandestinamente coca cola no porão de casa em vários barris e panelas de líquido borbulhante e depois os traficando em tubos de shampoo.
E ele comprando, claro!


Juan Barreto

"Cause this is thriller....ÚÚH thriller tonight..."


Palmas, para os mais espertinhos que entenderam.
Chico nao consegue dormir tem dez dias, tem dez dias que chico não tem dormido
A vida balança pra derrubar Chico
Chico passa despercebido
Chico não dorme, Chico não come, Chico não fala comigo
A valsa macabra, o bolero-lero azedo cantado em roda é muito macabro, é sinistro
"Capture com os olhos o que as mãos apenas salivam!” Mas Chico nao ouve o que eu digo
Se Chico não dorme, se Chico não come, um dia Chico vira palito
Chico não sabe se está vivendo meio morto ou agindo como um morto vivo
“Chico" não combina com o Chico
Chico esquisito, Chico é meu único amigo.
Chico não ri, Chico não canta, Chico não mais se maravilha
Chico nao consegue dormir tem dez dias, tem dez dias que chico não sente alegria.

Juan Barreto