Blog vai dar uma pausa.. coisa de dias.
Meus textos me expõem muito, e eu já me expus o suficiente por uma vida.
até um dia

Juan Barreto de Brito
Rua dos bobos n°0

Parece que o amor chegou ai...

...eu nao estava lá, mas eu vi.

Levo assim calado..

..de lado do que eu sonhei

Pois é...

...não deu.
Ele havia saído movido pelo ímpeto.
Comprar flores!
Eram 119 rosas vermelhas, uma pra cada dia que se conheciam
Vendeu sua guitarra com o olhar fixo no "comprador", a feição dura, o queixo em riste, parecia que tinha um anzol invisível fisgando-o pra cima. Se olhasse pra baixo e a visse em mãos alheias, nao saberia se conseguiria se conter. É tão difícil dar adeus. Coração pequeno pra ser grande.
Mandou que a entrega das rosas fosse feita na primeira hora da manhã do sábado, em silencio, cobrindo todo o quintal da casa dela até o pé de sua janela, que nem ele havia visto uma vez num filme.
Foi pra casa e quase não dormiu de exitação. Esse negócio de ficar feliz pela felicidade alheia era novo pra ele. E ele estava gostando.
Ficou imaginando as possiveis reações.
E nesse mantra angustiante, adormeceu.
Sonhou com um amor cheirando a rosas, vermelho de felicidade.
No outro dia acordou mais cedo do que Deus e ligou pra casa dela, assim mesmo, as seis da matina. Se esperasse mais três minutos teria um infarto.
Uma voz atendeu arrastada do outro lado.
-Alô?
-Oi, desculpa acordar a Sra, dona Verônica, mas não aguento mais esperar.
-Meu filho, é você. (pausa)
A voz agora era penosa, mas ele estava tão ansioso que nem percebeu, e tornou a falar entre sorrisos. Passava uma corrente elétrica por sua coluna.
-Ela já acordou?
-Não meu querido. Ela não acordou
-Hum, e quanto as rosas?
(Silêncio breve)
-Morreu.
-OQUE? Mas todas?
A voz mais velha estava pouca, estava falhando.
-Não, só a minha!
E depois disso tudo foi um gemido de dor.
Um mais intenso na linha
Outro ainda atônito, se preparando pra doer, mas ainda sem saber por onde começar.
A vida não é vermelha porcaria nenhuma!
As rosas não são vermelhas porcaria nenhuma!
O vermelho não é mais vermelho porcaria nenhuma!
E a partir desse dia, nao existe mais nada vermelho, tudo não passa de apenas um leve avermelhado.
E ele? Ele levou assim mesmo rosas pra sua flor nesse dia e nos dias que se seguiram, e nos dias que lembram esse dia.
Até hoje.
Mas saudade mesmo, ele tem dos dias que lembram os dias que ele ainda tinha sua guitarra, que ainda tinha sua pequena e que não precisava forjar uma alergia como desculpa pra limpar o canto dos olhos marejados, sempre que avistasse uma rosa.
O mundo não é perfeito
O mundo não é vermelho.


Juan

I don't see what anyone can see, in anyone else but you

E pra acalmar, eu ando.
Eu converso comigo mesmo, eu ando a esmo.
Eu canto
No dia que eu achar o zíper dessa fantasia que eu uso, eu desuso.
No dia que eu achar meu lugar no mundo, eu me mudo
Pra lá.
Morar
Eu sei que esse texto é uma ferida aberta que pode infeccionar
Mas já perdi tanto
Que o que os outros acharem, tanto faz.
Eu só queria parar de achar que vai dar certo, antes que não dê.
Porque na procura do "tu", achar um "ele" é gramática má
É sofrer
É perder outra vez, mais uma vez
Querer é verbo que acaba com o sujeito
E pelo jeito...


Juan Barreto
E nosso amor vai de cortejo
Pelas ruas principais
Passando por todos os becos
Chegando e explodindo no meio
Em milhões de carnavais

.Juan Barreto
MALCOM
Autor:Juan Barreto


Era um daqueles feriadões que o povo já começa a se preparar com cinco, seis meses de antecedência.
Aqueles que caem na segunda feira, mas que a gente já começa a fazer corpo mole desde à tarde da quinta, passando pela sexta, já emendando no sábado e domingo e ainda comemora o último dia de farra da maneira mais anárquica que uma boa segunda-feira-feriado merece... Não fazendo absolutamente nada.
A família havia subido para o chalé na serra depois do almoço da sexta. Já era cinco horas da tarde, aquele horário que tudo vai ficando azulado e quem acorda da soneca de depois do almoço, nunca sabe ao certo se está anoitecendo ou amanhecendo.
Malcom tem oito anos e pra ele tudo além de azulado, está chato. Primeiro porque fazia parte daquelas famílias hipócritas que não se suportam, mas querem sempre tentar. Todos os seus tios, tias e primos da parte de mãe estavam reunidos na mesma casa, e como Malcom morou por um tempo na casa da avó, sabia muito bem que o chalé, nem mesmo a serra eram grandes o bastante para o caso de um parente pisar no calo do outro.
Segundo, porque estava com caxumba, portanto, não podia correr, pular, falar, rir, se abaixar, pegar em coisa pesada ou comer sem sentir uma fisgada nas bochechas e um sermão de um tio que estivesse por perto
-"Ó pra num descer essa caxumba viu!?"
-"Viu!"
...
Uma vez longe da cidade, os urbanóides acham que improvisar é de fato necessário. Deve ser algo que mexe com o imaginário e dá a sensação de que talvez estejam acampando nas savanas africanas, na ilha de lost ou em algum programa do discovery chanel. Robinson Crusoé, o santo protetor dos farofeiros de serra. O chalé apesar de pouco usado tem fogão a gás, forno, geladeira e tudo o mais, mas para o jantar de sexta... Salsicha frita na fogueira!
-Devíamos fazer uma cabana e acamparmos todos no terreiro da frente! - Diz o tio gordo do olho baixo que só bebe cachaça desde a hora que chegou.
"Claro, devíamos caçar ursos ao amanhecer!" - Pensa Malcom brincando na mesa rústica da cozinha com seu "power ranger verde”.
A noite seguia fria e com barulhos estranhos e estalos agudos vindo dos matos. A fauna local veio dar boas vindas.
Malcom nu, apenas de chinelinhas havaianas em cima de uma enorme pedra, as mãos em concha escondendo/defendendo sua “frente” e sua mãe lhe dando banho (improvisado, claro) com uma mangueira.
-P-P-Por que não posso tomar banho lá dentro?- tremia de frio Malcom
-Porque os canos dessa casa são muito velhos e pode ter sujeira dentro, ou até um bicho morto!
-E porque n-n-não posso dormir sem tomar banho só essa vez? É feriado!
-Até parece, meu filho, que vou deixar você dormir sem tomar banho!
Malcom não tirava os olhos da porta da cozinha que estava fechada.
E se uma das primas o visse ali?! Pelado!
Mas agora ele estava preocupado com outra coisa. Acabara de ver o que era pra ser uma pedra, se mexendo!Uma pedra cinza feíssima, com olhos redondos e negros se arrastando devagar. Era a primeira vez que via um sapo cururu assim de perto (perto demais!).
Custou a dormir, com dor nas bochechas, com fome e com o som do carro alto tocando sertanejo, as vozes altas das tias e os gritos dos tios já bêbados de tanta cerveja.
No sábado de manhã acordou com o silêncio da casa. Como chovera no comecinho da manhã, estava muito frio. Malcom se sentou no degrau único da varanda e pôs a explorar o terreno com os olhos. Pensou nos desenhos animados que estava perdendo naquele momento. Quis ir embora pra sua casa.
Letícia, sua prima mais nova havia acordado e vinha lá de dentro a passos macios e curtos, puxando sua boneca por um braço e seu paninho de dormir por uma ponta. A chupeta ficava enorme no rostinho pequeno.
-Tô com fome malcom! – Disse uma voz fininha e tímida embargada por uma chupeta.
-Eu também.
Letícia parecia um desenhinho japonês. Muito branquinha e com olhos vivos, mas lacrimosos e seu cabelinho curtinho chanel castanho e liso. Uma bonequinha. Era até quieta como uma.
Ela sentou ao lado do primo e deitou sua cabeça em seu ombro. E assim ficaram por um tempo. Calados, no frio da manhã, no frio da serra, no frio da infância. Esperando que algum adulto egoísta acordasse de seus sonhos bêbados e lhes fizessem comida e companhia, afinal, nenhuma das crianças pediu pra subir a serra no feriadão.

O que eu quero ser quando crescer:


E a noite foi mesmo do começo ao fim como a estampa em plástico da minha camiseta amarela dizia. "Ocean Pacific".

Eu fiquei na gradinha simbólica, porque ao esticar o braço raspava meus dedos no palco. E nem era minha pretenção, era mais a intenção de ficar perto.
As músicas se esvaiam que nem manteiga.

Iam descendo redondas que nem licor

E já mais ou menos na sexta música sem piscar eu so conseguia pensar "como é possível eles reproduzirem exatamente o que se ouve no cd? sem mudar nada!?".

Eu ia sendo embalado que nem em uma hidroginástica.

Ao mesmo tempo, na mesma maçã, mas só que em outra banda, mas curtindo a mesma banda, uma moça curtia sua doce solidão.E ela levou seu olho de zoom e seu olhar de pluct plact zoom, e aprisionou a arte do marcelinho num card. Bruxaria da grossa!

Percebi que os músicos estavam felizes. Isso me deixou feliz.

Marcelo dedilha o violão passando por todos os chácras, é quase indescente a intimidade entre carne e madeira.

Nossa que inveja!
E ainda teve o bubú, teve os gritos do público dizendo "BUBÚ!BUBÚ"BUBÚ! e teve ainda quem chamasse no microfone o bubú de bubuzão!

Em certo momento, marcelo atira longe os óculos de grau que insistiam em deslizar nariz a frente. Em pról do solo, marcelo se cega por nós!hahaha, mais rock in roll do que atirar tv pela janela.

E no fim? o terceiro bis e mesmo assim a nítida sensação de tenho-que-ir-querendo-ficar

Me senti um ótimo anfitrião.Tudo foi um primor.

Em santa chuva, me lembrei de uma que não vazou quando precisei, e hoje em meio a tantos casais, a lacuna vazia se encheu um pouco de água doce.

Hoje sendo finados, reforço minha gratidão por estar vivo e cantante.

Obrigado pela capacidade de cantar.

E de resto, a única surpresa da noite foi ouvir além do que se vê, porque que o resto ia ser bom, isso eu já sabia!



Juan Barreto

Foto: Thalita Fontenele