Funcionário do mês

[ CRÔNICAS, CONTOS, POESIA CONCRETA ] [ ILUSTRAÇÕES ] [ FOTOGRAFIAS ] [ VÍDEOS ]
Saudade é uma espécie de cegueira.
Você escuta as coisas ao seu redor e até decorou onde elas estão, mas você não consegue vê-las.
Tentar pegá-las no escuro é correr o risco de derrubar e quebrá-las.
Quem provoca saudade
leva um pedaço do outro na bolsa e nem sabe
Tudo meio que vai parar no país dos dentes arrancados.




Juan Barto

to

ROMAIN

“É de manhã bem cedo, a rua deserta. Na primeira hora sinto falta de você...”.

Ele ficava repetindo mentalmente esse trecho de uma música que gostava como se estivesse usando fones intracranianos enquanto abraçava e aquecia a namorada.

Seu olhar de vigília oscilava do totem de malas e mochilas empilhadas nos bancos vazios da parada de ônibus, para a esquina da rua onde a qualquer momento algum ônibus começado por ‘3’ surgiria e a levaria até o aeroporto sendo lembrado para sempre como ícone do fim. Ponto final travoso desse capítulo espumante dessa vida choca. Já o olhar de apreensão dela oscilava da esquina oposta a que ele olhava, receando assalto, para o rosto tenso do namorado que estava em silêncio já há quase dez minutos.

-Que cara é essa, menino? Não vamos desperdiçar esses últimos momentos dando ração pra esse mal estar, né? - Falou ela com uma falsa descontração na voz.

Ele desfocou do poste da esquina para fixar olhos nos olhos.

-Sempre gostei disso em você, sabia?

-Isso o que? - Perguntou ela.

-Sua maneira de perceber e nomear as sensações e os momentos. Essas suas metáforas são certeiras! Por alguns segundos eu vejo a cena por trás dos seus óculos e é gostoso!

-‘Por trás dos seus óculos... ’ Aprendeu bem, eim?

Ele corou e desconversou. Ficou brincando, cutucando carinhosamente o brinco dela com o dedo, deu uma conferida no celular pra checar a hora. ‘Está quase!’- Pensou e sem mais nem menos disparou:

-Você disse que saiu do seu país porque não era feliz lá. Porque você está voltando, então?

(Silêncio ‘soco no abdômen’)

Ela o encarou com legítima surpresa. Dizem que quando estamos pra morrer passa diante de nós o filme de toda a nossa vida. Mentira! Não é quando estamos pra morrer, e sim quando temos que tomar uma decisão ou responder algo importante assim, à queima roupa, no esqueminha ‘um, dois, três JÁ!’ O pensamento à mil. Sua cabeça quase fazendo aquele barulho que os computadores fazem ao ler um cd. Os olhos pareciam estar grudados no zíper do casaco e Romain não tinha força para trazê-los à tona, ainda mais sem uma resposta. Dizer o que? Que por essa ela não esperava, já que tinha certeza que estavam seguindo passo a passo o roteiro taciturnamente pré-estabelecido numa situação de despedida anunciada como a deles?

Os últimos dias tinham sido bem intensos, eufóricos e impulsivos em contraste com as últimas horas que foram totalmente regadas a cólicas melancólicas. Vinham executando desenfreadamente uma rotina onde ambos se dedicavam a criar novas lembranças felizes juntos e retocavam o máximo possível as já existentes. Justamente por ele saber desde o momento em que se conheceram que ela era uma estudante intercambista com prazo de validade impresso no fundo, que Romain não imaginou mesmo que eles passariam por esse tipo de conflito, de questionamento.

-Eu estou indo pra casa! – Mas voz dela era fraca e sem convicção. Estava se esforçando pra não demonstrar que estava prestes a chorar.

(Silêncio ‘cem chumaços de algodão na boca’)

Reforçaram o aperto do abraço e ela aproveitou pra enterrar a cabeça repleta de pensamentos Polaroid no peito dele.

Não pretendia fazê-la chorar, mas tinha a pertinência da indagação, a insistência do sentimento e a urgência da vontade batidas na sua cabeça-liquidificador e não ia beber aquilo tudo sozinho. Sabia que havia esperado demais, literalmente até o último minuto, e agora precisava tentar afinal, e se...? Né?

-“Lar é onde o coração está!” – O mágico de Oz.

-Eu sei!– Falou ela com vozinha abafada pelo choro, pelas dúvidas e pelo peito dele. ‘Covarde, se apoiou no seu livro preferido!’

-Então porque você não fica?

-Eu não sei! – E não sabia mesmo.

(Silêncio ‘sapato apertado’)

Começou a chover.

-Puta que pariu tá chovendo!

-Deixa chover. – Ela retrucou ainda soluçando e fungando - Não foi você quem disse que gostava de banho de chuva?

-É, mas banho de chuva sempre foi pra mim um ícone de coisa boa. Se eu fizer isso agora, nesse contexto, banho de chuva vai virar sinônimo de lembrança ruim por muito tempo.

-Não, não, não! Não é verdade! Estamos juntos e abraçados, como isso pode ser uma lembrança ruim?

Ao ouvir isso foi a vez dele de querer chover e teve que agir rápido com os punhos da camisa servindo como guardanapos. Suas pupilas queimavam! Suas papilas secaram.

Ainda veio a quase responder que apesar da beleza deles juntos abraçados na chuva, o momento viraria uma lembrança ruim porque seria a última. Sendo assim, o gêmeo bi vitelino do ônibus-final. Sempre que chovesse ele iria recordar de como chovia igual no dia em que ela foi embora. Respirou fundo, afastou os cabelos dela do rosto, contemplou aquele rosto vermelho decorando centímetro por centímetro e a beijou na boca. Beijo mais molhado do que a chuva e mais demorado também.

(Silêncio ‘de cera’)

A chuva fez o tipo ‘rápida e rasteira’ e cinco minutos depois já minguava enquanto eles permaneciam confortáveis no encaixe dos pescoços até que ela trincou o blindex daquela quietude nervosa chamada ‘espera pelo final’ com uma pedrada:

-E se eu ficasse?

(Silêncio ‘cobrança de pênalti’)

-Como é que é? – Ele desfez o enlace e a virou de frente pra si.

Ela deu seu sorriso mais limpo, gaguejou com a cabeça que sim, que ele realmente havia ouvido o que ouviu.

- Você tá falando sério?

-A gente fica órfão de alguma coisa a cada cinco minutos, mas quer saber? Se temos o que perder a cada cinco minutos é porque ganhamos algo a cada cinco minutos, caso contrário, não teríamos o que perder a muito tempo... E com você eu sinto que só tenho a ganhar. Aliás, já comecei! Hoje ganhei o dia!

Ele ficou por alguns segundos atônito, incrédulo naquele par de lindos olhos laranja.

Até que o caroço de abacate na garganta desceu e ele pode gargalhar. Riu de alívio, riu de vitória! Gritou um uivo, uivou um grito de gol. Gol aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo!

Ela estava igualmente emocionada. Essa sua atitude em decidir ficar mexeu mais com seu sistema nervoso do que a que teve um ano atrás ao decidir vir. Mais um dia do ‘fico’ proferido por um europeu em solo brasileiro.

A cabeçorra encardida do tão temido ônibus despontou nesse minuto no horizonte, mas sua imagem já não assustava mais ninguém. Romain só pensava que essa data ficaria conhecida pra sempre como "O dia das malas desfeitas" e não via a hora de chegar em casa para de fato desfazê-la espalhando roupas pros lados, jogando as coisas pra cima, virando tudo pra fora sem cerimônia, como fazem as crianças rasgando o papel do presente de natal.



Juan Barto
Se fosse mais pro lado de cá
teria esse raio cortado Cacá em dois cá's.
Não é possível que ao menos um 'cá' não ficasse do meu lado, ou seja, do lado de cá.


Juan Barto
O beck é um farol aceso em alto mar, guiando navegantes exaustos de pedir informações no escuro e nada de chegar aonde querem chegar.
Navegam num usando sementes como balas de canhão, belotas como remos.
[Branco dos olhos fumê: Ativar!]

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A vida é um parque 'de versões', um Marlboro sabor baunilha.
Somos um buquê de pimentas e pimentões de todas as cores, com ardências, dormências e urgências dos mais variados graus.




Juan Barto

Era uma escadaria enorme, e toda sexta feira à noite seus degraus abrigavam criaturas sortidas, todas amontoadas em semicírculos, semi circos.
O homem inventou a roda apenas pra poder fumar maconha.
Depois que você passa a ser notívago, você vai ficando insensível ao líquidos e aos gasosos.



Juan Barto
Eu vivo no último andar de mim mesmo. Cobertura com vista para o ar.
Pratos com cores, cores 'com pletas'.
Minhas bordas não são de catupiry e a minha escrita é escrota, mas eu dediquei mais tempo da minha vida pensando em você, do que jamais dediquei a aprender matemática, por exemplo.

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A mente humana sempre dando megazords para os nossos medos.
O foda é que o coador não coa a dor.
Pessoas perdidas precisam de luz, assim como as plantas.



juan barto
Alice tinha oito anos e no momento em que pôs o primeiro centímetro de sandália da “hello kittie’ pra dentro do supermercado, soltou mão de mãe, soltou os cabelos da tiara, soltou a franga, saiu correndo feito louca. A mãe ainda disse o clássico “Alice, não corre!”completamente em vão, a essa altura ela já estava há quatro seções dali.
A pequena vinha embalada na corrida, desviando do mar de joelhos adultos que sombreavam seu caminho e raspavam sua testa. Parecia uma floresta de pernas. Vinha eufórica, vinha que vinha e só parou quando avistou o seu objetivo: ‘A boneca Mell Sulivan - Com cabelos de massinha que crescem de verdade’. Alice paquerava, no começo timidamente, mas de umas duas semanas pra cá, descaradamente com essa boneca. Ela era do tamanho de Alice, com olhos castanhos como os de Alice e com cabelos que agora estavam pretos e compridos, mas que com uma rápida tesourada (sem ponta), com a massinha e os cuidados certos, ficariam laranjas, curtinhos e cacheados como os de Alice. Era perfeita e teria que ser dela, embora soubesse que só no natal. E sabia também que ainda faltavam vinte e três dias para isso. Sabia, pois estava contando os dias com risquinhos na parede, igual os prisioneiros na cadeia.
Lá estava ela no seu ritual semanal de babar em frente a caixa da boneca enquanto sua mãe fazia a feira, quando sentiu uma presença ao lado. Era um... Menino de uns dez anos mais ou menos, parado ao lado dela olhando a (sua) Mell Sulivan.
Não gostou. Pela primeira vez na vida sentiu ciúmes de algo que não era seu, como todos nós fazemos o tempo todo, só que com pessoas de verdade.
O menino percebeu o olhar secante de Alice e perguntou na defensiva:
-Quié?
-Nada.
-Hum.
-Você gosta dela? – Perguntou Alice timidamente.
-Gosto de olhar pra ela, ela é tão linda!
Alice percebeu o brilho nos olhos do menino ao falar isso e meio que se viu ali. Foi uma sensação engraçada, mas um engraçado confuso.
-Você não devia estar na parte dos soldados, carros com dentes e facas e outras coisas tontas que se batem e se matam?
O menino olhou Alice por algum tempo. Até ela quase entrar em ebolição de vergonha, e respondeu/perguntou:
-Por que eu deveria estar lá?
-Bom... porque é onde os meninos vão!
-É. Tô sabendo. – Respondeu o garoto com uma mescla de enfado e desdém.
Passados mais alguns segundo de silêncio, Alice faz a social de novo.
-Eu vou ganhá-la. No natal!
-Eu também!
Agora foi a vez de Alice encará-lo por algum tempo até cuspir um:
-Por que?
-Por que não?
Ela não soube o que dizer.
A mãe localizara o alvo “filha” e chegou já pegando pelo braço.
-Já pedi pra você não soltar minha mão e sair assim desembestada entrando nos lugares! E se você se perde? E se alguém te leva?
Enquanto era rebocada pelo braço, Alice e o garoto ainda se olhavam, ela por cima do ombro, nem estava escutando direito as reclamações e os sermões da mãe, até que percebeu uma coisa tão sutil e tão gritante que a fez fazer uma cara engraçada de espanto e sussurrar admirada movendo os lábios em slow motion:
-Você esta usando brilho na boca!
O menino faz a leitura labial e gargalhou, depois sorriu fazendo aquela cara de "dããã" e balançou a cabeça sapecamente que sim.
Alice sorriu de volta enquanto adentra na seção de laticínios conduzida pela mãe.

Juan Barreto

OS TONTOS TENTAM TANTO

O sol é metade estrela e metade flor.
Um monte de gente do mundo do "antes de ontem" falou um monte.
Um monte de ontem do mundo do antes de "a gente" falou na mente, não minto.
E se não falo nada direito é porque minha língua é canhota e inevitavelmente procura o caminho da esquerda, também conhecido como 'o lado do coração'!




Juan Barto
Aquele miojo solitário jogado no canto do fundo do armário existe pra manter a gente humilde e alerta.




juan barto
Não quero mais saber dessas paixões que parecem de carne, mas depois você descobre que são apenas soja.



Juan Barto
-É com um sorriso nos olhos que eu te digo: Eu sem você passo. Você sem mim não passa... de um troço. E só não te meto um tiro aqui, ou melhor, ai, bem no meio dessa tua testa de zinco, não por ti, não por ter dó, porque quem tem dó é violão. Mas por mim. Porque acredito piamente na lei do três vezes, mais até do que em Deus, e não quero que numa bela noite, saindo de um bar feliz por ser sexta feira, um marginalzinho imundo e sequelado querendo meu celular pra trocar por uma pedra de crack, me dê três tiros. Porque a lei dos três vezes faz isso rapaz! É, também sei ser egoísta. E cale a boca que ninguém aqui está falando com você! Estou falando só. Aliás, hábito esse, que adquiri numa das centenas e milhares de noites que você saia pra comer bucetas cruas por ai e eu ficava em casa olhando ora pra televisão, ora pras paredes. Passei a conversar comigo mesma. Sim, eu sabia que você saia pra comer bucetas. Como? Porque eu também tenho uma, idiota! Eu sei sentir o cheiro de homem fedendo a buceta. Ainda mais quando não é a minha! Quer saber? você é uma barata muito feinha e asquerosa. Mudei de idéia. Vou atirar no seu saco e espalhar o seus mini-bostinhas todos pelo chão e depois esfregar sua cara que nem a gente faz com cachorro que mija no tapete da sala. "Aqui não Rex!    
Apontando para o chão - "Aqui não!"
" TÁ ME OUVINDO "REX? AQUI  (Batendo no peito) NÃO! "- Atira.


Juan Barreto
Trocou o coração por um terceiro pulmão e passou a viver bem mais e melhor. A fumar bem mais e sem culpa. Negócio da china.


Ju..Ba..
Deveria existir um marca contexto, também destacando as coisas importantes em verde limão.




Juan Barto

TSC . . .

Domingo de manhã, deitado no tapete caramelo da sala.
Se apalpou procurando o isqueiro e sentiu no bolso direito do calção algo com textura de papel amassado. E era.
"Dinheiro! Achei dinheiro no bolso de um short velho!"
Puxou aquele bolinho retorcido, fraco e quase branco de tantas lavagens, desembrulhou com cuidado e reconheceu de pronto um símbolo. Era um recibo de devolução de uma locadora de dvds que costumava frequentar.
As letras impressas estavam firmes ainda, mas a parte preenchida de caneta estava bastante desbotada, ficara no papel apenas lânguidas vogais e consoantes.
Ele apertou a vista até formar dois risquinhos no lugar dos olhos e constatou aquilo que seu coração já havia se precipitado em dizer com um coice, sim, lá estava a letra desbotada da atendente da locadora, a menina morta.
Seu nome, a data, o valor do aluguel, enfim, essas tecnicalidades, numa caligrafia quase translúcida.
Lembrou dela, tão jovem...
...
A vida deve está enchendo um balão gigante com todo o ar quente que anda roubando dos pulmões das pessoas em momentos como esse.
O acaso é como aquele amigo do amigo do seu amigo que aparece sem ser convidado no seu aniversário. Pode ser que ele te traga um presente espetacular, mas normalmente, esse cara termina derrubando o bolo no chão, tropeçando na caixa de som, vomitando o banheiro todo pra você, aniversariante, ir limpar.




Juan barto
-Mãe, aquelas cores não sabem brincar!
-Que cores, meu bem?
-Aquelas da caixinha! As luzinhas! Ó, a verde vem, passa um tempão ai a amarela mal entra e a vermelha já entra e toma a frente dela!
A mãe sorriu emocionada.
-Querida, venha, vamos atravessar a rua, me dê a mão!



Juan Barto

INFÂNCIA EM SLIDES

Adorava acordar e ficar deitado ouvindo os adultos conversando na cozinha.
Não por espionagem, era mais porque dava um certo conforto saber que estava só no quarto, mas não na casa, não no mundo.
Criança tem pavor de acordar só.
A casa logo cedo ficaria perfumada com cheiro de pré - almoço.
Bom era quando levantava meio sonolento, ia na cozinha ainda esfregando os olhos e era recebido pela mãe, que dizia: "Olha ele ai! Quer seu leite agora?".
Meus dias de majestade.
Ensinar a fazer café qualquer um ensina, mas minha mãe me ensinou algo muito mais valioso, me ensinou a lavar meu próprio prato.
Meus amiguinhos de prédio eram todos um pouco mais novos do que eu, e quando eles caiam, se machucavam e choravam a culpa era sempre minha e eu tinha que ouvir desaforo da mãe dos outros, depois desaforo da minha própria mãe por ter ouvido calado o desaforo da mãe dos outros.
Então deixe me ver se eu entendi direito: Se apanhar na rua, apanha em casa pra aprender a não apanhar?
Passei a brincar só. A simplicidade me fascinando desde cedo,
Outro dia, achei uma fita cassete com a voz da minha avó.
Uma mini caixinha preta, como a dos aviões, guardando minha avó, protegendo-a do tempo.
Calma vovó, a senhora está segura, pois eu fiz um back up seu em outro tipo de caixa, a craniana.
Saudades... Você sabe.



Juan Barto
O tempo tem disso, de fazer que nem oculista.
A medida que ele passa, vai nos mostrando várias lentes diferentes, uma após a outra, e perguntando "Essa é melhor? E essa? Ou essa? Essa ... ou essa?



Juan
Como uma música tecno que dispara às seis da manhã, te catapultando pro mundo dos acordados bem cedo e te fazendo trocar o quente pelo frio, o escuro pelo claro, o silêncio pelo barulho, o lúdico pelo lúcido e o individual pelo coletivo.
Essas escolhas não fazem sentido, por isso te pagam para fazê-las.
Ele entra e sai cento e cinquenta vezes no banheiro buscando e deixando coisas enquanto a tevê passa um jornal quentinho para as pessoas engolirem sem cuspe.
A casa pulsando.
A luzinha verde da sanduicheira elétrica acende. GO!
Descendo as escadas à toda, como Lola correndo por Berlim
'Fora, ai vou eu!'
Termina de engolir o sanduíche antes mesmo de passar pela portaria do prédio.
Se força a acreditar que essa segunda-feira é uma fase de vídeo game, uma grande festa rave que a gente passa 'doçado' e adoçado com o que tem a mão, com o que tem em mente e terminamos agitados, prontos para bebermos e sermos bebidos.
Coração que tá cariado só pensa em formas e reformas.
Ser em alguém a sensação de um bom banho num dia ruim.
Amigos de verdade são peões defendendo o rei.
A rainha é a sorte, embora ela possa andar em todas as casas, em todas as direções, uma distraçãozinha de nada e zás! Comeram-na!


Juan Barto
Ele subiu as escadas abotoando o punho da camisa social tentando se lembrar onde poderia estar sua gravata verde-escuro. Ao passar de relance pelo quarto da neta a viu, sentada de costas pra porta, cabeça baixa, mãos cruzadas sobre o colo.
Escutou barulhinho de choro contido. Entrou devagar, desconfiado e falou mansinho para não assustá-la:
-Nina?
Ela se assustou de qualquer forma. Passou rapidamente as mãos pelo rosto para secá-lo.
-O que aconteceu meu bem? Por que você está tão desolada aqui sozinha? Você está se sentindo bem? Você estava chorando?
-Eu não estava chorando não, vô. - E fungou com o nariz, denunciando a mentira.         Os olhos inchados focados nos seus próprios joelhos.
O avô sentou-se ao seu lado. Ficou ali, de mãos postas sobre o colo olhando pra parede da frente em silêncio, igual a ela.
Passado alguns segundos ele sussurra também para a parede da frente timidamente:
-Você estava pensando no seu pai, querida?
-Vô, o seu jantar. Devem estar esperando o senhor lá embaixo!
-Mas estão precisando de mim aqui em cima. – E deu uma piscadinha sorrindo, tentando quebrar o gelo, o mármore.
Ela continuou de perfil sem reagir de nenhuma forma. O avô tentou puxar conversa mais uma vez.
-Sabe, quando você era pequena eu te chamava de ‘meu raiozinho de sol’ e uma vez não lembro o motivo, você teve uma crise de choro. Passou uma tarde inteira se esgoelando e ninguém, ninguém sabia mais o que fazer pra você parar! Cabia a lua inteira na sua boca tamanho era o chororô!
Deu uma breve pausa pra rir como se estivesse vendo em slides o que ia narrando, e recomeçou:
Ai então eu falei pro teu pai ‘Me dá essa menina aqui!’ te coloquei nos braços, levei você lá para o quintal e disse que se você, raiozinho de sol, continuasse chorando daquele jeito poderia se apagar sem nem perceber, porque afinal de contas, água apaga o fogo, ora! Você arregalou os olhos pra mim assustados, mas ainda chorando.
Menos, mas ainda chorando, ai pensou, pensou no que eu havia dito e como se chegasse à conclusão de que aquilo fazia sentido, foi parando... Parando... E parou!
Nina parecia agora sob controle. Alguns soluços cadenciados, ainda olhando pra parede da frente, mas seus lábios flexionaram num sorriso muito de leve, semi-imperceptível. Após um breve intervalo o avô continuou:
-As vezes sinto falta de quando você acreditava nas bobagens que eu contava.
-As vezes também sinto falta de quando você me contava as coisas, vô.
 E pela primeira vez seus olhos se encontraram. Ela lhe lançou um olhar bastante significativo, desses de secar pneu de avião, de derreter boneco de cera. Dessa vez, foi ele que não disse nada. Se encaravam indiretamente através do vidro fosco da tela da tevê desligada sob o criado-mudo.
O silêncio tomou conta completamente do quarto como o gelo faz com as paredes de um congelador que não é descongelado há cinco meses. Lá embaixo se ouviam vozes de pessoas conversando animadamente, provavelmente os convidados do jantar chegando.
-Quando você ia me contar que estava doente vô?
-Bom... Levando em consideração que não era pra você ter descoberto, na pior das hipóteses quando eu estivesse próximo de não acreditar mais em nada. Porque eu ainda acredito!
As lágrimas agora lambiam as bochechas de Nina de cima pra baixo como uma cascata morna e pingavam macias no seu vestido cor-de-creme, formando manchinhas escuras.
-Escute meu bem, não é tão sério assim, quer dizer, seria até menos se não fosse a idade! Com setenta e três anos qualquer soluço te dá taquicardia e...
-Descalça! – Ela disse com a voz distorcida pelo choro.
-Descalça?
-Quando o papai... Se foi, foi como se eu tivesse perdido um dos meus sapatos em um dia extremamente quente. E você não me deixou queimar o pé, muito menos parecer uma idiota tentando me equilibrar numa perna só e se você se for vai levar o outro par eu ficarei descalça!
Ele sentiu um rasgão no peito. Uma furada de arpão. Uma picada de maribondo nos olhos. Seu corpo por dentro era um colar de pérolas que acabara de se quebrar e as bolinhas estavam todas doidas, quicando e se espalhando a esmo caindo embaixo de móveis pesados. Não esperava por aquilo. Respirou fundo, engoliu o novelo de lã que estava na sua boca e disse:
-Não diga isso querida! Não diga isso! E a sua mãe? E a sua avó? Não servem nem como meias?
Pôs a mão no ombro da neta e tentou sorrir da própria piada, mas a tristeza estava querendo engrossar.
Ela estava ficando vermelha. Ele branco. Começava a querer se entregar a emoção também, mas o que fazer? Dizer professoralmente: “Ok querida, prometo que não vou morrer!”? A historinha do ‘raiozinho de sol’ pareceria verdade científica perto dessa.
Quando se passa de certa idade inicia-se um bolão velado dos mais próximos apostando quando você vai simplesmente cair duro de cara na terra enquanto agua as plantas. Claro, isso pode acontecer a qualquer hora, assim como pode acontecer com qualquer um, mas depois dos setenta as pessoas vão te acordar de manhã já se tremendo de medo de você não estar mais respirando e isso era insuportável. Era como ensaiar todo dia um pouquinho para o seu próprio velório pra não fazer feio no dia e achava que essa atmosfera nefasta contribuía sim, sem dúvida para adoecer as pessoas, por isso não contou nada a neta nem permitiu que ninguém o fizesse, mas esses jovens fuçam em tudo, descobrem tudo!
Não era balela quando disse que ainda acreditava que era possível se recuperar.  Acreditava mesmo! Sua situação nem era tão ruim assim, somente uma anemia que não cessava já fazia alguns meses tornando seu quadro preocupante. Preocupante, mas ainda não alarmante, ora! Não estava caindo no clichê ‘velho chato’ que ignora sintomas e tenta minimizar tudo pra não ir ao médico. Era um homem esclarecido, moderno. Tomava todos os remédios certinhos, se alimentava bem e não tinha frescuras, lamberia o cu de um sapo se fosse preciso pra ficar bom. Acontece que tudo era questão de esperar. Ou que fossem os remédios fazerem enfim efeito ou que fosse o destino fazer enfim seu feito, e qualquer que fosse o resultado, cara ou coroa, queria fazer isso discretamente, viver normalmente até lá. Inclusive dando um jantar para amigos queridos em saudação às coisas bobas da vida, como era o caso desta noite em que o jantar era em homenagem a uma chuva de meteoros que aconteceria no começo da madrugada.
Só que como explicar isso a uma menina de quatorze anos totalmente em pânico com medo de perder o ‘pai’ outra vez que vai passar sendo que ainda não passou da primeira vez?
E foi ai que ele percebeu em forma de epifania de que o "vai passar" não é para o sentimento. O sentimento não passa nunca! O ‘vai passar’ é para o tempo! E isso é uma certeza tão forte quanto a morte.




Juan Barto
Seja em minhas pinturas em calda ou em meus textos em conserva, eu digo: No meu mundo, a tristeza não será nunca mais forte do que a ponta da minha borracha.
Lá a sorte não emaranha e nem solta fiapo.
Tá no contrato.


Juan Barto
Sua lembrança, como todo dia um pouquinho com geleia de morango.




Juan Barto.
Só os vendedores e os apaixonados sabem como é ruim chegar ao fim do dia e ter que guardar aquilo que estava ali pra ser consumido por alguém.


Juan B.
Date: Mon, 11 Mar 2013 11:58:33
From: dereza_comd@hotmail.com
Subject: quem diria!
To: alissongirl@rocketmail.com


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Querida Alisson




Não esperava mesmo que um dia você, de alguma maneira, ainda fosse querer se comunicar comigo.
De verdade! Assim como aposto que você não esperava nunca que eu fosse lhe responder.
Surpresas 1 x 1.
Mas fiquei feliz!
Foi bom você ter falado sobre sonhos. Por esses dias, sonhei que eu era uma dessas pessoas que ficam na ponta das pistas de pouso dos aviões com aquelas lanternas em formato de picolé para ajudá-los a aterrissar e veja só, você era o avião! 
Vinha vindo de braços abertos pelo céu, fazendo 'VUUUUM' com a boca e apesar do olhar blasé e impassível que os aviões costumam ter, você mantinha um ar de desorientada. E eu feito uma louca pulando, agitando minhas lanterninhas laranjas como se fossem duas chuvinhas de São João e gritando
"AQUI! AQUI SUA IDIOTA! É POR AQUI!"
Mas o barulho das turbinas era enorme e você passou direto por mim, me deixando no vácuo.
Sonho péssimo. 
Tenho certeza que acordaria completamente suada se não fosse essa minha mania triste de quase nunca beber água.
Mudando de assunto...
Uma vez vi um homem num bar que parecia muito com o Mark Ruffalo.
Outro dia, voltando pra casa no ônibus, subiu uma moça i-g-u-a-l a Adriana Calcanhoto.
Essa semana eu estava na sala de espera do dentista quando entrou uma moça que lembrava um pouco você.
Desses três ‘covers’ essa última foi a que mais me deu vontade de ir falar, de pedir autógrafo, beijo, foto...
Não fui. Claro! Mas sentei na cadeira do dentista sem medo, sem anestesia, sem nada. Só com a cara, a coragem e a lembrança de você. E minha boca escancarada era mais que um "á", era um "é" desses que a gente faz quando sorri. Sorriso de Elma Chips.
O que nunca ficou entendido por você é que eu não sou do tipo de pessoa que pendura lençóis no varal ou nos parapeitos das janelas pra que sequem, mas isso não quer dizer que eu não os tenha, eu apenas os seco à sombra, dentro de casa. Quietinhos na discrição da minha área de serviço junto com minhas calcinhas e outras coisas íntimas e particulares.
Já você é diferente; Você faz cabaninha com os seus lençóis, pula de prédios altos usando colchas de cama como paraquedas, se enrola toda dos pés a cabeça como uma panqueca humana e acaba que a gente só vê o lençol... E nada de você.
E quem olhar mais atentamente percebe que ainda assim, você passa frio.
Não se auto afirme tanto com tantos corações espalhados por agendas, porta-retratos, ímãs de geladeiras, camisetas e almofadas. Pra quê cartaz se não tem espetáculo? Mas enfim, o teatro é seu.
Odeio soar agressiva quando não é minha intenção, apenas não perdi minha paixão por metáforas assim como você não perdeu a sua por aqueles pombos.
Me mantenha informada sobre os seus sonhos, ok?


Beijo no queixo.



Dereza


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Date: Mon, 11 Mar 2011 11:42:06
From: alissongirl@rocketmail.com
Subject: Espero que esse ainda seja o seu e-mail!
To: dereza_terezacomd@hotmail.com


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er, oi?

Essa semana eu estava no parque alimentando os pombos como de costume enquanto pensava na vida (nas vidas) quando um garotinho veio e sentou-se na borda daquela fonte desativada. Ele me olhou por um tempo até que perguntou: "Esses pombos são seus?".
Eu sorri e disse que não. Ele fitou por um instante as folhas secas e o lixo amontoados dentro da fonte, olhou para os pombos que comiam os farelos pelo chão, olhou de volta pra mim e disse como se tivesse finalmente chegado a uma conclusão: "Você é legal!”.
Eu não esperava por aquele veredicto e tive que perguntar. "Por quê?" e ele respondeu sério como são as crianças quando estão falando sério:
"Porque você não está tentando comê-los, e sim alimentá-los. E eles nem são seus!". Disse isso e saiu correndo atrás de uma bola vermelha que passou quicando por nós espantando todos os pombos, fazendo aquele barulho assustador de revoada.
Esta noite sonhei que eu era um balão verde flutuando à meia altura por uma calçada.
Na virada de uma esquina eu cruzava o caminho de um cara e ele tinha sete anos de felicidade. Uma espécie de gato preto, só que ao contrário.
Sabe quando um relógio quebra, mas por puro costume você continua olhando as horas nele várias e várias vezes durante o dia?
É assim que me sinto em relação a nós duas.
Embora o relógio esteja parado, mudo, escuro, as horas continuam.
Passam por trás dele.
(...)

Beijos, Alisson.


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Juan Barto
A cidade a noite, com suas luzes que piscam e suas setas brilhosas, me faz imaginar que estou num imenso pinball.
Noite essa, que passou voando veloz do lado de fora da janela do carro, como um cavalo de corridas fantasma.
Encaçapo bolas de neve com tacadas, afastando seu gelo pra longe de mim, para as profundezas da mesa, mas nada se compara ao prazer que eu sinto em ouvir o 'CLAC!' das reais esferas da sinuca se chocando com força.




Juan Barto



Homem  menstruado não sente cólicas, só cólera.
O sangue sai é do olho.
Segue confiante de que o agir gira.



Juan Barto
Hoje vi um gato sendo atropelado por um carro.
Pensei como é paradoxal, num dia a gente é o carro, no outro a gente é o gato.
Imediatamente mergulhei nesse mangue preto, nesse pântano viscoso que é a memoria, e lembrei do cavalo do filme "História sem fim".
Se eu tivesse me apressado, teria salvo aquele gato.
Isso teria sido bom pra ele, e mais ainda pra mim.

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Ah, como eu queria ser a fada festeira mais dançante e mais doceira.
Mas as festas são tão longe, e eu não tenho dinheiro pra comprar nem asas, nem trenó  e nem vassoura.

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Ela é o pedaço de carne morna mais lindo e amável de todo esse pasto chamado 'mundo'.
Queria pernoitar dentro de suas calças, acampar na sua vida, entrelaçar nossos dedos e 'estrelaçar' nossos planos.



Juan Barto
Você rondando na minha cabeça arrastando esses seus chinelos.... não me deixando em paz com minha paz.



Juan Barto
Quero ser o colar  no seu pescoço e quero colar no calor do seu colo.
Caro carinho de brilhos e contrastes.



Juan Barto
-Você estava falando com seu piercing??
-Er..estava. Por que?
-É particular ou eu também posso ouvir?




Juan Barto



Viver é ir acumulando ausências.
Cadeiras a menos na mesa, livros a menos na estante.




Juan Barto



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Julho de 2008.

Locadora de DVD do interior. Fim de tarde.
Uma moça triste sentada num canto do balcão assiste' House' numa tv afixada no canto.
Um rapaz chega e pergunta se tem a 9ª temporada de 'Friends'. Ela vai ate o fundo da loja e volta com a a caixinha nas mãos. Enquanto ela preenche a ficha ele olha pra ela.
Embora ele não morasse na cidade, sempre que estava de férias na casa da mãe alugava filmes pra distrair o tédio.
Assim como em todas as outras vezes não trocaram uma palavra, mas ele atentou pra um fato: Ela nunca perguntou seu nome, mas sabia, pois sempre que ele chegava com os filmes escolhidos, ela puxava o bloquinho e o escrevia com letra desenhada.
Ele sempre saia com o seguinte pensamento:
"Por que ela tem que ser tão profissional? Não me sinto a vontade de chamar pra sair.''

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Janeiro de 2009.

Locadora de DVD do interior. Noite.
A mesma moça no balcão lendo uma revista. Seus cabelos ainda molhados pingavam na revista e ela enxugava pressionando o papel com a ponta do indicador.
Dois rapazes, o já conhecido mais um amigo, entram. O primeiro se aproxima e põe um DVD sobre o balcão, o outro fica perambulando pela loja na sessão de ficção. A moça se levanta em silêncio e faz todo aquele procedimento rotineiro de devolução. Puxa a fichinha de dentro da capinha, rabisca alguma coisa, retira o DVD, olha se tá arranhado, repõe, guarda embaixo do balcão.
-"Dá dezesseis reais, porque você atrasou alguns dias."
O rapaz põe as mãos nos bolsos da bermuda e as abre sobre o balcão deixando cair com barulho várias, várias, várias moedas de diferentes valores.
A moça olha pra ele admirada. O amigo que estava olhando uns dvds de shows de rock cai na gargalhada. O do balcão sorri maroto.
-"Você acreditaria se eu dissesse que sou pirata?
A moça ri da cena inusitada. Fica vermelha. Mas não olha pra ele. Ela é tímida.
-"Ok, na verdade, minha mãe viajou e não me deixou dinheiro. Por isso demorei a entregar. Tive que assaltar os cofrinhos dos meus priminhos indefesos, mas tá tudo ai!"
Ela sorri e balança a cabeça como quem não acredita no que está acontecendo, sempre olhando pro balcão coalhado de moedinhas.
-"Vai levar um tempo pra contar! " - Ela diz sorrindo.
O amigo da prateleira ainda diz:
"Ele assaltou um cego na esquina e dois mendigos no caminho da casa dele pra cá!"
Eles riem.
Ela vai contando em voz baixa e fazendo pequenos montinhos.
-"Eita, tem até moeda de cinco centavos!"
Ele assovia dissimuladamente. Ela sorri e balança a cabeça como quem diz "Sei não viu!"
-"Tá tudo aqui!"
Ele vibra despojadamente e ainda diz "Prometo que não faço mais!"
Eles saem.
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Julho de 2009.

 Locadora de DVD do interior. Noite.
Chuva e calor. O rapaz vai alugar mais um filme, mas o computador fodeu com o sistema de cadastros e apagou tudo.
A segunda balconista tentando preencher novamente o cadastro pergunta "Nome?", e a mesma moça de sempre que estava perto diz de pronto: "Pode deixar, eu conheço ele".
Ele se assusta, mas um susto bom.
Saiu de lá se sentindo bem. Se ela ao menos sonhasse que ele adicionou seu perfil do orkut em "listas/paqueras" a mais de um ano...
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Setembro de 2009.

Apartamento na capital. Duas da tarde de um dia quente e confuso.
Toca o celular do 'alugador de DVDS' e ele atende
-Oi!
-Ei, sou eu.(voz pesarosa do amigo. Mal sinal) Se liga daquela menina da locadora, a loirinha?
O ser humano consegue detectar coisas ruins apenas na introdução do assunto.Incrível.
-Sei. Que foi?
-"Morreu ontem. Acidente de carro...
(...)



THE END
A gente nunca sabe quando estará indo pra algum lugar e alguma coisa não nos deixará chegar ou voltar.
A coisa mais esquisita do mundo todo é você imaginar morta uma pessoa que você gosta.
Pessoas que até ontem de manhã limpavam a terra do chinelo, tão vaidosas, tão bonitas, e hoje recheiam um buraco . . .  e tudo ao redor é terra.
Uma porção de terra cercada de água por todos os lados é uma ilha.
Uma porção de sonhos cercada de terra por todos os lados é uma pena.



Juan Barto
Explodir dá muito trabalho, chama muita atenção, faz muito barulho e muita sujeira.
Hoje sou mais de implodir, me deixar afundar silenciosamente na piscina.
Em segundos, a superfície estará plácida outra vez. Ninguém quer mesmo saber o que se passa no fundo, contanto que não dê pra ver.
Quando a corda da pipa começa a queimar a mão, é porque ela quer ir embora.
Solte, desista, 'desinsista!'



Juan Barto

CALOR ÂMBAR NUM DIA ÍMPAR


Seis e meia da tarde. O dia quente abriu passagem pra uma noite morna.
A cidade ficava amarelada por causa das luzes dos postes. As pessoas ganhavam um tom amarelo parecido, mas por outros motivos: Nicotina e impaciência.
Num bar/café um homem entra e nem olha para as mesas repletas de grupos de pessoas amotinadas conversando alto, seu objetivo é um banquinho vazio no balcão do bar.
Ao sentar, joga a mochila pesada aos seus pés, desabotoa dois botões da camisa da farda e quase pode ouvir um 'tssss' de vapor sendo liberado cangote à cima.
A cidade quando quer ser quente é fogo!
O dia não foi gentil com ele, mas ele procurou ser com a atendente.
"Simpatia gera simpatia!" – Esse era seu lema, seu leme.
-Moça, um café com leite, por favor!
A garçonete nem olhou pra ele, jogou de qualquer jeito na sua frente um pires e uma xicrinha que um dia quem sabe foram brancos, mas agora estão sépia. Puxou uma garrafa térmica, abriu-a deslizando um líquido preto avermelhado xícara à dentro perfumando o ambiente no raio de dois metros. Fez isso e lhe deu as costas sem mais atenção.
-Moça... Com leite! Eu queria café com leite!
A garçonete era a única coisa gelada naquele ambiente. Fingiu que não ouviu.
-Depois de um dia de cão com esse calor absurdo que anda fazendo não seria melhor uma cervejinha pra reativar?
A voz vinha da esquerda. Uma mulher negra muito bonita usando um desses terninhos de secretária de escritório, com cabelos muito bem presos num coque olhava pra ele e sorria um sorriso ultra branco de comercial de pasta de dentes.
-Na verdade isso não é café, é cerveja preta! Alemã. Da boa, você sabe... Da legítima! Saúde!
Ele juntou o restinho do restinho do seu bom humor pra fazer essa piada medíocre e erguer a xícara a meia altura em brinde.
Ela riu.
-Meu nome é Charles!
-Bonito nome.
-E o seu?
-Então Charles, qual o seu problema com as cervejas?
-Judicial!
Ela dessa vez gargalhou se endireitando no banquinho e ficou esperando uma resposta de verdade com um de interesse.
-Tem calores que só passam com mais calor! Tá, agora falando sério, se eu beber cerveja vai baixar uma preguiça que pesa noventa quilos e não vou conseguir chegar em casa. Café é energia!
-Nem se você beber só uma?
-Não existe isso de ‘beber só uma cerveja’.
-Hum, entendo. Há quem diga que não pega bem ser visto num bar sozinho.  Dizem que faz você parecer um idiota que levou um bolo do seu encontro. –Ela disse zombeteira e provocativa.
-Ah, mas aqui também é uma cafeteria, então acho que tudo bem!- Disse ele também no clima zombeteiro.
-Ouvi dizer que também funciona uma boca de fumo nas quintas-feiras e uma rinha de galo aos domingos, mas não ouviu isso de mim, ok?
 Os dois riem abertamente. Ele se impressiona com os dentes dela. Parecia mini chicletes Adams e pra não deixar o assunto morrer perguntou:
-Mas e você? Não está bebendo nada ou está esperando alguém pra começar?
-Não, não estou esperando ninguém. Só passei por passar, só fiquei por ficar. Precisava de um lugar pra sentar e descansar as pernas por dez minutos.
Uma gritaria estoura num canto do bar e chama a atenção de todos. Dois bêbados discutem e esbravejam, um alegando que o outro está roubando na sinuca e o outro mandando o um pra puta que o pariu, até que a galera do "deixa disso" intervêm acalmando os ânimos. Quando Charles torna a virar seu rosto pra esquerda, a mulher já ia do outro lado do bar, quase na saída prestes a ser engolida pelo turbilhão de gente que ainda ia pra lá e pra cá nas calçadas da rua.
Quis gritar ‘Ei!’, mas ela não ouviria.
Mas tinha um ‘post-it’ grudado no açucareiro à sua frente com um número de telefone que o fez sorrir!
E viva a cafeína!


Juan Barreto

NÃO ADIANTA CHORAR O LEITE, 'DEAR' AMADO

Machos-alfa em asa-deltas cortam o céu azul bebê, que ameaça chorar porque seus dentinhos nuvens estão nascendo.
Humanos são pracinhas onde os sentimentos se reúnem pra conversar, tocar violão, dar milho aos anjos e tomar banho de roupa na fonte.
O homem é apenas um instante, uma estante que nunca deve ficar totalmente arrumada e nem bagunçada por muito tempo, os livros tem que mudar de posição de tempos em tempos, que nem as estrelas, que nem o kama sutra.
Driblemos o mofo.
O nosso nó(s) é cego pra que nunca, nunca desate.
O nosso nó(s) é cego porque o amor também é e moramos todos no mesmo prédio



Juan Barto
Existe a alegria suja e existe a alegria 'sujada'.
A alegria suja é aquela que a gente traz na testa suada após uma dança improvisada.
Nas pernas enlameadas após o futebol debaixo de chuva na calçada.
Com a boca melada de manga, de beijo, de 'baga'.
A 'sujada' é aquela que os homens frustrados por não poderem comer açúcar quando crianças, assoam seus narizes, pregando etiquetas de "NÃO PODE!" em placas.
Acham que corrompendo uma coisa que já existe
seriam eles mesmos menos tristes.


juan barto
O amor é como uma porta de vidro, a gente nunca tem certeza absoluta se está lá ou não, até que decidimos arriscar seguir em frente.
Eventualmente damos uma testada certeira, explodindo tudo. Dor lancinante na cabeça, afinal, quebramos a cara!
E ai, naturalmente, você passa a evitar portas de vidro.
Só atravessa se alguém for antes na sua frente.
Me deixo levar e depois não sei voltar.
Seria de se esperar que depois de se perder tantas vezes, a gente decorasse o caminho certo, mas quando se vai conversando distraído não dá pra prestar muita atenção no chão.
 Se apaixonar é assim, a ida é sempre de avião, a volta é sempre à pé.



Juan Barto
Ele pensa o que escreve enquanto escreve.
Ele escreve o que pensa enquanto pensa.
Lembrava de um sonho que tivera um tempo atrás consigo mesmo amarrado nos trilhos do trem, que vinha à toda velocidade como um predador, prestes a acertar seu corpo em cheio, espatifá-lo ao meio!
O trem em hipótese alguma desvia, continua seu traçado e só para quando chega.
Ele sabia que não devia odiar o trem, mas sim, se parecer com ele, que sabe que toda volta é o desfrute da ida.
A vida é uma pilha, a carga de energia oscila e o gosto depende de que lado você morde.
Acordou se perguntando quando as coisas iriam sair do seu porta-retratos para o seu porta-jóias.
Apertou internamente a turbina do “Top Gear''.




Juan Barto







SALOMÃO

Salomão estava sentado no telhado de sua casa numa parte que tinha uma espécie de degrau de cimento, um retângulo lajeado que servia como base pra caixa d’água. A velha caixa d’água que há anos ora se fazia de cama, ora de mesa, ora de escrivaninha.

Era quatro e vinte da manhã, horário cabalístico, de uma sexta- feira. O céu ainda estava escuro.

Se existe uma coisa que pode ser deixada para os filhos e os netos como herança sem a menor preocupação de que apodreça ou se perca eram as sextas-feiras. Todo mundo vai morrer e as sextas vão continuar ai. Na mesma, com seus malditos capítulos finais de novelas. Continuarão cobiçadas seja significando descanso, descaso, euforia, alforria não importa, os organismos as adoram cada vez mais! A sexta é a irmã mais velha do sábado que fica tentando competir com ele pra ver quem é mais 'descolado'. Isso sempre existiu e sempre vai existir, assim como o plástico.

“Amor é o caralho, eterno mesmo só o plástico e a sexta-feira.”

Pensou Salomão abrindo supostamente a última cerveja da noite na borda do concreto. Tinha chegado agora a pouco da rua, dos amigos e subiu como de costume pela escada de pintor que o tio guardava na garagem. Estava muito bem empoleirado apoiando as costas na lateral fria de amianto. A noite foi boa e pra coroar esse bolo com a cereja certa uma cerveja Belga! Café vermelho! Vinte e oito reais uma garrafinha de nada, mas que continha um líquido tudo! Um luxo as vezes necessário, as vezes merecido. As pernas relaxadas, os ombros descontraídos. Ele se sente quente por dentro. Preenchido.

Lembra-se de uma coisa que aconteceu quando tinha mais ou menos sete anos, Pequenininho, cruzou a sala onde a irmã mais velha assistia a um filme com o namorado no sofá e quando já estava quase alcançando a porta da frente a ouviu perguntar zombeteira:

“-Aonde você vai com isso ai?”

Ela estava se referindo, é claro, a sua vara de pescar artesanal feita de cano fino de pvc (resquício da obra no banheiro) e lã branca (do tricô da mãe) muito bem amarrada que desaguava em um anzol (feito do gancho do cabide quebrado da tia) na ponta onde jazia espetada uma rosa tinindo, novinha em flor.

“-Pescar o amor da minha vida!” – Respondeu desconfiado com desdém defensivo.

Casal chocado. Perderam o fio da meada dos dois pés.

“Peixão paixão!” – Pensou o Salomão do presente como nota de texto, como um filme visto com os ‘comentários do diretor’.

O vento frio da madrugada insistia em apagar seu cigarro como se o universo dissesse "Por hoje chega!”.

. Sua mente alt+tab lembrou-se de uma conversa que teve com um velho amigo há uns anos atrás quando num dia absurdamente quente decidiram almoçar numa sorveteria.

“-Vontade é um bicho que dá mais cria que rato! Vontade dá dor de barriga e dor de cabeça! Vontade dá queda de cabelo, arritmia, anemia e câncer nos sonhos! (...) Eu tô muito afim da Priscila, a mulher do Raul! Apaixonado! Tanto que quando ela está por perto eu mordo a parte interna da boca sem parar como auto rechaçamento. Um inferno! Mas fique tranquilo, sou covarde demais pra tentar alguma coisa. Ninguém sabe e nem precisa saber! Só te contei porque estava me sentindo completamente sufocado!” – Escancarou o amigo de sôfrego, assim de cara enquanto se abanava trêmulo com o cardápio tentando afastar o calor e o constrangimento. Acenou para a garçonete e pediu um milk shake de morango e uma água.

Salomão moía aquela informação lentamente enquanto encomendava uma mousse gelada de maracujá. Não entendeu o porquê dessa confissão repentina. Agora olhando bem, percebia o amigo mais magro. É foda! Assim como as máquinas, nós humanos também temos essa mania de deixar que o software foda com o hardware. Os pedidos não tardaram a chegar. Eles se acomodaram melhor nas poltronas de couro azul bebê e por um tempo os barulhinhos de sucção de ralo que os canudos fazem e o choque da colher versus a taça era tudo o que cortava os ares.

-Grandes mudanças nem sempre fazem alarde. Você sabia que os anjos nos regam toda noite? – Continuou o amigo. Mudando de assunto.

-Para quê?

-Para que cresçamos!

-E você sabia que esses mesmos anjos as vezes tem que fazer conosco que nem os adultos fazem com as crianças? Pendurando na prateleira mais alta da estante, escondendo da cobiça das nossas mãos aqueles objetos coloridos e bonitos que tanto nos despertam o interesse dos olhos, mas que iriam terminar nos machucando de alguma forma por serem pontiagudos, cortantes, venenosos ou apenas pequenos demais, fáceis de engolir. E a gente chora por não entender. Salomão sintonizou outra vez no mesmo canal.

-As coisas importantes a gente quase nunca entende ao vivo, mesmo. – Lamentou o amigo.

-Por isso, para o nosso próprio bem, tem horas que perder é ganhar (tempo)! Tem horas que perder é ganhar (acúmulo) (ao cúmulo) (ao cubo)!

- Eventualmente conseguimos arrastar uma cadeira pra pertinho da estante quando não tem ninguém olhando.

-Exatamente, mas você não acha que de talvez aquela porta que não quer abrir e não abre de jeito nenhum, nem puxando nem empurrando deve ser porque o monstro que está por trás dela fazendo contrapeso agarrado à maçaneta tem muita força? – Ponderou Salomão.

O amigo mastigava a ponta do canudo pensativo.

-Pense nisso e deixe pra lá aquilo que insiste em ficar do lado de lá. – ‘Cheque-mateou’ o Salomão do passado. – Concentre-se em sugar o ‘sugar’ da vida.

-Como?

-Sugar o ‘sugar’! – Ele apontou para o canudo e depois para a taça gigante repousada na mesa.

(...)

-AÇÚCAR, PORRA! – E riu.

Lembra que pouco tempo depois desse dia esse mesmo amigo morreu com um tiro em cheio no seu coração cheio. Reagiu a um assalto, mas Salomão sabia que era mais do que isso. O amigo estava reagindo a tudo naquele momento. Principalmente a si próprio. Combatendo passividade com impulsividade. Conseguiu enxergar poesia no chorume urbano.

Salomão começou o fim de semana com os olhos cristalizados. A saudade é o soluço da alma e ele era livro capa dura, mas de coração mole.


Juan Barto
Nessa minha vida interurbana, eu sigo a trilha de m&m's multicoloridos que  costumam me levar até sentimentos multimídias, a lugares multidões e pessoas multi lindas.
O segredo é sempre pôr mais carvão na caldeira.
Bota essa locomotiva pra voar, que eu quero ver essa tripa de ferro que nem rabiola de pipa, se debatendo no ar!

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Tem pessoas que são tão especiais que destoam da paisagem.
São como joaninhas passeando pelas costas de uma zebra.

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Bateram na porta da frente, podem ser os cobradores ou pode ser a sorte.
Arriscar fingir que não está, é arriscar muito.
Falta pouco . . .
Falta = Pouco.





Juan Barto

VALENTINA

O dia é uma bacia de água limpa, o anoitecer é alguém derramando lentamente um tubo de nanquim dentro dela.
A tinta aos poucos tomando conta por inteiro da água, que nem um bicho que engole outro devagar e em silêncio.
Escurecendo... escurecendo... escurecendo... até ficar completamente preta.
Parada e preta. Noite estabelecida.

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Valentina é uma dama de espadas. Coração preto e invertido.
Eu sou o rei barbudo de copas, de copos. Coração acima e abaixo da cintura, ambos vermelhos.
Adoro o som da palavra "vermelho". É como a palavra "mergulho", não tem como dizê-la sem ter a sensação de tomar um gole d’água.
Palavras afogam.
Palavras embebedam.
Saiam pra beber livros e dirijam bêbados de volta pra casa.


Juan Barto




Foto: Juan Barto
Peguei o meu cavalo e minha espada e parti determinado a salvar minha amada, a rainha, das mãos daquele terrível rei que a mantinha presa na torre.
Num lance fulminante, numa batalha sangrenta o venci.
Sem mais demora, fomos atrás de um bispo que pudesse, enfim, selar nossa união.
Mas no caminho, fomos cercados por peões que me levaram e me condenaram a apodrecer no xadrez.
Só escapei de viver o resto da minha vida em preto e branco, porque pagaram minha fiança com um cheque(mate).


Juan Barto
Ela tem as mãos macias e mornas de quem ordenha sonhos.
Ele tem as mãos grossas de quem desencarde planos torcendo.
Ela tem ouvido mais sua mãe e menos Beatles.
Ele tem a barba que espeta, são os espinhos do homem-rosa,
Ela caminha rápido, justamente pra desacelerar por dentro. Até a ansiedade escorrer pelas suas pernas como um suor sujo, como uma menstruação transparente.
Ele a abre e a lambe, como uma bolacha recheada.
Ela prova cheiros com a ponta da língua, mas cheiro é uma coisa feita pra ser sentida de perto, pois cheiro de longe sempre corre o risco de ser confundido com uma mera impressão, e de mera impressão já bastava essa que ela tinha de que gostava dele.



Juan Barto

Saudade não tem hora.
Você não tem jeito.
Eu não tenho você.
Isso não tem graça.


Juan, o Barto
Ser inteligente não é saber tudo sobre tudo, é saber muito sobre muito.
Ser esperto é saber bastante sobre o que é preciso saber.
Ser burro é fácil, difícil é pra quem connvive.




Juan Barto

ARTIGO DE OPINIÃO


Como um diretor talentoso como Guy Ritchie ficou anos conhecido apenas como "O marido da Madonna"?




O destino do ser humano é ser comido, nem que seja pela terra.
Casar virgem é como ir ao show de um artista que você não conhece e não sabe cantar nenhuma música.
Por mais que seja divertido, você não curte como curte o pessoal do fã clube.




Juan Barto
Escrever é um exercício que deve ser feito todo dia se não, o cérebro fica flácido e com estria.
E de frouxo, já basta os cadarços da vida.
Um brinde aos pensamentos renováveis, aos sentimentos removíveis, as estruturas remontáveis e as pessoas ressurgíveis.

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Há cada quatro naipe, um rei comanda os outros.
O braço do violão é um livro em braile e tem raias, como uma pista de corrida.
A caridade nem é tão cara assim.




Juan Barto





Foto:juan
Cada dia que termina, é um funcionário que foi demitido.
Cada dia que começa, é um estagiário tentando aprender enquanto é cobrado como veterano.




Juan Barto
Viver é um processo de despelar todo dia um pouquinho, até chegar no osso.
Ninguém conhece você tão bem como a mobília da sua casa.

Juan
Achar um corpo amigo é incrível!
Achar o corpo de um amigo é inacreditável.

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Sonhar é como passear com cachorro grande, ou você o controla ou ele dispara na frente e te puxa até te derrubar.
Até fazer você ter medo dele.




Juan Barto

VIVI

Deu a hora do almoço e dois quarteirões inteiros separam minha casa do restaurante mais próximo. Não é um trajeto longo, mas tem se tornado sofrido graças a esse sol escaldante que parece estar à apenas cinco metros de nossas cabeças, inundando as ruas com essa claridade branca incandescente. Faz eu me sentir um lagarto ilhado embaixo de uma rocha no meio do deserto, tendo que escolher entre morrer de fome na sombra ou arriscar ser torrado pelo calor lá fora em busca de comida.
Arrisquei arriscar.  A fome cutucava meu estomago com seu tridente cada vez mais forte. Cruzei o mais rápido que pude a avenida principal do planeta mercúrio e agora era o oitavo cliente de uma fila de oito. A grelha trabalhava a mil espalhando mais calor absurdo pelo ambiente. Fumaça de fritura por todo o lado e eu próprio só não viro vapor também e saio voando porque esse prato que deve pesar uns quatro quilos me segura no chão, e olhe que ele ainda está vazio! Prato de ‘PF’ é tudo igual mesmo, três polegadas de espessura.
Após montar meu almoço consegui vaga numa simpática mesinha de toalha amarela perto de uma das janelas. Vento que é bom, nenhum! Uma jovem mamãe mais três garotinhas acomodaram-se a mesa da frente. A menininha mais velha que aparentava ter uns sete anos trazia a bolsa gigante da mãe quase arrastando no chão, a do meio que devia ter uns cinco vinha equilibrando uma bandejinha de isopor repleta de sushis enquanto a mãe carregava a mais nova, por volta dos três anos num braço e algumas sacolas no outro.
A mãe amontoou todas as sacolas numa das cadeiras e deixou a de sete e a de cinco sentadinhas almoçando enquanto voltou até a fila pra fazer o seu próprio prato levando a menor consigo. As peças de sushi eram do tamanho de discos de hóquei e as meninas as seguravam com as mãos como quem segurava uma bolacha. A mais velha molhou um dos sushis no copinho de molho shoyo e o enfiou inteiro na boca de uma vez. A mais nova ao perceber isso fez uma careta exagerada que mesclava espanto e o nojo: ‘Você molhou seu bolinho ai?! Sabia que isso é sangue de peixe podre?’
A irmã de sete anos, que já estava tendo que fazer uma verdadeira ginástica facial pra conseguir mastigar a pasta de arroz e alga que tinha virado o sushi dentro da sua boca desistiu de tentar falar e limitou-se apenas a balançar negativamente a cabeça. A de cinco anos mantinha os olhos comicamente arregalados de horror e insistiu no assunto fazendo inclusive voz de alarde: ‘É claro que é!’
Eu da minha mesa observava disfarçadamente essa cena já meio receoso, afinal, tinha bodas de prata de experiência com irmãos, primos, sobrinhos e dos outros e já conhecia bem esse panorama. A qualquer momento essas duas iam começar a gritar, a se pegar e
ia voar peixe cru pra todo lado! A habitual provocação fraterna já tinha sido feita inclusive com um quê dramático de interpretação, agora era ver se a mais velha iria cair na pilha errada ou não, e isso era o que ia determinar se eu iria ter que abrir mão da minha querida mesa perto da janela e mudar pra outra mais afastada ou não, porque comer com choro de criança nos ouvidos era só o que faltava. Não dá!
Após engolir parcialmente, a guria mais velha falou com ar displicente um: ‘Não é!’, mastigou e engoliu o resto e ao terminar olhou triunfante com ar de desdém para a irmã que continuava calada, apenas a encarando com a mesma expressão impagável e canastrona de repúdio, ora olhando pra boca da irmã, ora olhando para o copinho de molho! Tinha que se admitir, a pequena era uma atriz nata! Estava fazendo a pressão psicológica com uma habilidade inacreditável! Eu já estava quase convencido que molho shoyo era de fato sangue de peixe podre. Só podia ser! Até a garrafinha de molho inglês eu tirei de perto de mim.
Dez segundos de encarada em silêncio. Tensão! Parecia que as duas estavam brincando de ver quem piscava primeiro, até que veio o esperado muxoxo de choro. A irmã mais velha estava visivelmente encucada e já franzia a testa como quem ia chorar.
‘Eu vou dizer pra mamãe que você colocou sangue de peixe morto no molho!
A de cinco ganhou e comemorou dando a risada mais gostosa que eu já ouvi e batendo palminhas, satisfeita consigo mesma:
‘HAHAHAHA É nãão, bobona! Isso é molho ‘shonho’, menina! Mas eu fiz você pensar que não era!
Que coisinha fofinha e maligna. Quero uma dessas! Eu acho...
A de sete anos ficou emburrada por um tempo de cara fechada e braços cruzados emburrada na cadeira e ai foi a vez da outra comer animadamente o seu sushi sem dar a mínima até que subitamente fez uma cara engraçada de quem tinha tido uma grande ideia e em poucos segundos eu saberia que tinha tido mesmo, olhou pra trás pra se certificar que a mãe continuava distante, chamou a irmã pra perto numa posição de quem conspirava e cochichou, ou pelo menos fez o que uma criança de cinco anos acredita ser cochichar, que no caso significa gritar um pouquinho mais baixo:
‘Vamos colocar isso no copo da Vivi pra ela pensar que é coca cola, vamos?’- E sorriu!
Que coisinha mais fofinha e mais maligna! Minha comida a essa altura esfriava gradativamente como um cadáver e uma sensação engraçada se apoderou de mim. A de saber que a merda iria acontecer, saber que tinha o poder de evitá-la, mas simplesmente preferir esperar e observar pra ver no que aquilo tudo ia dar simplesmente porque era muito mais divertido! Nossa, deve ser assim que Deus se sente!


Juan Barto
Ler é cozinhar o cérebro com os temperos certos.
É cafeinar a criatividade.




Juan Barto

DENTE DE TUBARÃO

Envelhecer é ir perdendo a necessidade de se perceber notado, mas nunca a sensibilidade de se sentir reconhecido.
A gente vai até onde dá, vive como pode, ama como deixam.
A gente só controla o que tem botões ou fios, o resto é loteria.
Envelhecer é perceber que é possível criar constantemente novos costumes.
Envelhecer é perceber que só quem perde é livre pra experimentar uma nova entrada triunfal, uma nova frase de efeito, um novo perfume.
Envelhecer é perceber que quem ganha vive engessado e acaba indo morar dentro do troféu, temendo que o tomem.
Envelhecer é perceber que quem vence só enxerga a vitória, ao passo que quem perde observa como ganhar.

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Sua última página de vida foi em casa. A luz âmbar que pendia do teto parecia uma manga florescente. Ele tocava violão para a mobília, platéia fiel há anos.
Já era meia madrugada e tudo cheirava a conforto.
Seu violão parceiro até o fim. Um nos braços do outro.
Um homem tem que ecoar pra sempre.
Preencher mentes e ambientes
como um acorde bem dado.




Juan Barto
Nossos demônios escapam o tempo todo da profundezas dos nossos infernos astrais, seja pela boca, seja pelos dedos.



Juan Barto


Nem tudo o que se quer é querido.
Nem tudo o que se tem é temido.
Nem tudo que está é estalido.
Nem tudo que se está sem é sentido.
Nem tudo o que se fala é falido.
Nem todo amor é amido.
Nem todo sem é sentido.



Juan Barto.
Eu sou do tempo em que sonhos eram feitos de massinhas de modelar.
Não sei qual é o sabor desse seu picolé ou o tempero desse seu chá.
Não sei qual o aroma do seu narguilé ou que nuance tem esse seu "Lá".
Mas sei que o seu sorriso é o melhor da cidade
e as caretas alheias são a cara da má vontade.
Eu ando no ritmo dos oceanos, então você pode me encontrar em qualquer fuso-horário de qualquer meridiano.

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Como diz o ditado que eu mesmo inventei
Malandro afobado
metido a esperto, que quer cair em pé e correr deitado
um dia adormece com o portão do barraco destrancado
e ai tá lascado.




Juan Barto

DESENVOLVIDO PRA ENVOLVER

Engolir em seco
beijos molhados
Olhares dados sem pedir nada em troca.
Há braços e braços.
Pernas, pra que te quero!
Olho azul, dedo amarelo.
Cheiro verde na comida, cheiro vermelho no quarto.
Ah, meu caro, tudo é cor e eu posso provar.
Incenso imenso e intenso
invadindo tudo à dentro.
Mãe, primos, tias.
Conversas na cozinha.
Manhã de sábado o colégio era fechado.
Escrever 'errado' é direito seu.
Na parede uma janela vira quadro.
Substitua o 'muito obrigado' por 'agradecido' e espere o efeito agir.
O que a gente faz com  a vida, a vida faz com a gente.
[Pensamentos: Voar ao som de Yann Tiersen.]
Mastigar as vibrações e cuspir pra cima.
Milhares de calorias
circulando dentro de pessoas frias e vazias todo dia.
Respirar é uma dança pós-moderna desenvolvida para envolver.
Pouco se sabe sobre o sorriso e o que se sabe não se tem certeza
Talvez nem seja
mas dizem por ai que foi uma coisa inventada sem querer.



Juan Barto


Agora, doze minutos antes de meu avião levantar voo, me deu uma certa falta de ar.
Adoro viajar, mas detesto a parte da viagem.
Queria dormir, mas só consigo lembrar de Paulo, horas antes, indo até minha casa pegar um boné que havia esquecido semanas atrás.
Chegou sem dar 'oi', já ia saindo sem dar tchau, mas parou no portão da garagem, virou-se pra mim e me estendeu a mão direita aberta, eu prontamente a apertei.
Ele riu jocoso e disse "Pensei que você fosse me dar a chave!"
Me deu um misto de vergonha e indignação. Simultaneamente abri o portão e fechei as portas para paulo.



Juan B.
A alma vinha descendo lentamente em zig-zag, tal e qual uma folha caindo do céu.
Pousou macia e sutil dentro do corpo deitado.
Que ruflem os tambores, pode ser a qualquer momento.
Abriu os olhos, a luz da matéria está acesa! Tem gente na casa!
Piscou, mordeu o ar, roçou sua língua na própria língua.
Espremeu as mãos estalando os "dedos-bambus"com força, fazendo barulho de batatas rufles sendo quebradas.
Ergueu seu corpo da cama como um marionete sendo puxado pra cima por uma enorme mão invisível, um boneco de voodoo comandado por controle remoto.
Viu sua cara no espelho:
"Então esse é o grande sonho almejado pelas almas? Ter sua própria casca? Grande bosta!"
E riu-se de deboche.
Hoje não estou pra modéstias, não estou pra moléstias, não estou pra aprender, nem pra compreender.
Nem pra pedir, nem pra emprestar.
Hoje eu não estou com paciência e nem boa vontade, nem dó nem piedade.
Hoje eu não sou relaxante muscular e nem mertiolate.
Joelhos e corações esfolados que se virem.
Eu sou só um bicho só, um caramujo meio cru, meio cozido.
Agora chega disso, que hoje eu também não estou pra falar e nem pra escrever.




Juan Barto
Prestar atenção a prestação?
Eu não!
Eu sou água fria espremida num balde, doida pra me esparramar por inteira no seu chão.
Lá tenho paciência de ficar retida em cano, sendo tomada à copo, sendo botada no feijão...
Me beba agora!
Me refresque mais uma vez com sua boca, me aqueça mais uma vez com sua mão.



juan barto

ALEGRIA MEDROSA

Existem pensamentos que são que nem moscas, a gente espanta e eles voltam a pousar no mesmo lugar.
Ele estava assim fazia uns dias.
Pensou nas suas certezas e nas suas vontades, tentou adivinhar qual grau de parentesco existiria entre elas. Qual o nível de afinidade.
Certas alegrias são como correr em chão molhado;  medo de cair a qualquer momento.




Juan Barto
Causar em alguém a mesma sensação maravilhosa de um gol de falta.





Juan Barto

Hoje eu acordei não raivoso, não travoso, não amargo, não azedo como todo dia.
Dei beijo nas bocas das canecas e bom dia para as cadeiras da cozinha.
Peguei um pensamento que tinha da moça ruiva bonita
e pus embaixo da camisa.
Me agachei, abraçando os meus joelhos como se fosse ela.
Ignorei o chiado da chaleira e dormi dessa maneira, parecendo uma torneira.
Aquecendo meu carinho platônico como quem choca um ovo.
E sorria enquanto o fazia.



Juan Barto
Não deu mais cupim nos meus barcos de papel, não deu mais insetos nos frutos da minha imaginação.
O balde encheu, o leite ferveu e o fogo matou os micróbios que tinha que matar.
E o que não dá mais é porque já deu, o sapato não cabe mais, o pé cresceu!
Nessa novela viva, o final não tem sexta feira certa.

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Alíce é um belo nome.
Alíce é uma bela menina.
Alíce é uma bela história.

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Um rosto como o seu eu não esqueceria.
Não um rosto como o seu.
Até esqueceria.. Só pra me surpreender toda vez, toda vida, todo dia.



Juan Barto
- Os mosquitos sumiram!
- Não sumiram não. Você que não está mais sentindo.



Juan Barto
E enfim percebeu que pelo menos pra ele, a música havia terminado.
Tirou os sapatos querendo chorar e foi se sentar na calçada pra esperar o dia clarear e seu ônibus voltar a passar.
Chegar em casa cansado, exausto de ficar em pé a noite inteira e não dançar.
Com a garganta fechada, a cabeça cheia e o coração apertado, ele se deitou de lado.
Sentia a pedra do meio fio fria contra seu rosto e surpreendentemente aquilo não lhe gerou desconforto.




Juan Barto
Eu te gosto com a timidez dos que procuram escondidos uma palavra desconhecida no dicionário e com a urgência dos que não a acham.





Juan Barto
A vida é uma tarde no parquinho cheia de euforias bipolares.
Há sorvetes de casquinha e há casquinhas de ferida.
Há quem só brinque.
Há quem só brigue.
A gente se esconde, chora e faz birra pedindo só mais um tempinho, mas sabe que quando escurece é hora de ir.




Juan Barto

ESTRELAS CORN FLAKES

O menino inflou sua coragem, amarrou um barbante nela e levantou voo.
Sabe aquela sensação de que a lua está nos acompanhando? De que parece que ela está se movendo?
É o menino e seu balão, sendo carregados pelo vento.




Juan Barto
Alguns pensamentos invadem minha cabeça pegando minhas emoções só de toalha.
O coração fala por código Morse.
Eu sou que nem leite fervendo, eu cresço do nada, mas tenho meus medos mudos.
E se esse raio de sol for apenas impressão, daquelas que você pensa que é um disco voador e no fim das contas, era só um avião?
É difícil, mas difícil em "fícil" eu logo te alcanço.
Meu rosto semi arborizado, seu rosto semi ruborizado.




Juan Barto
É que quem vive com a constância do pouco, quando acontece o eclipse raro do muito tudo dura o tempo de um cantar de parabéns, quando a gente vê, já é aniversário de outra pessoa, já tem palmas na casa ao lado e o que restou da nossa festa foi fumaça de vela, guaraná quente, fotos com dentes, algumas presenças e alguns presentes.
Numa época em que sorrir é artigo de luxo, item de colecionador, tempos onde a alegria anda tão racionada e racionalizada, me vem você e me traz caixas e mais caixas!



Juan Barto
Meu coração é uma luz, não apague quando sair.
Pode deixar a conta vir alta...

É por uma boa causa.




juan barto
O acaso colocando seus casais sentados na mesa da frente, sempre no meu ângulo de visão.




Juan Barto
Era uma festa num estacionamento de um shopping qualquer. Muita gente, muita gente mesmo.
Vários subgrupos das mais variadas pessoas, conversando alto, bebendo muito, rindo forte. Um desses subgrupos era inteiramente composto por rapazes que falavam gesticulando exageradamente. Não eram mudos, eram jovens. Um enorme paredão de caixas de som tocava alguma coisa como "tum, tum tum, tchíííí , tum, tum, tum, tchííí..."
Um rapaz sai dos arbustos, andando reto, a passos firmes e rápidos. Quando se deram conta que ele vinha, ele já estava.
Um taco de sinuca se ergueu no ar como um arpão e desceu num “zííííp”, como uma espada cortando o ar, acertando o garoto mais alto na horizontal em cheio na orelha esquerda. Uma roda imediatamente se abriu.
"Pá!" "OOhhh!" "AAAAAhhh!!!"
Um dos amigos do atingido fez menção de reagir, mas o taco de sinuca estava em riste novamente, a parte do cabo voltada pra frente ameaçadora.Quem já pegou num taco desses sabe que pesa.
-Fique na sua! Eu nem sei quem é você, então não se meta!
A voz do agressor, apesar de ofegante era taxativa, ele não estava blefando.
O amigo ainda parou e ponderou o mais rápido que a situação permitia, e optou por recuar. Havia agora um círculo enorme e as caixas de som e os amplificadores estavam mudos, todos aos poucos iam emudecendo.
O agressor voltava a falar, agora pra todos.
-Só um segundo e logo explico.
"PÁ!"- Uma nova pancada com o cabo do taco acertando agora os joelhos do rapaz que se contorceu de dor no chão em posição fetal, uma mão apertava os joelhos (provavelmente quebrados) e a outra trêmula, apertava a orelha visivelmente estourada de onde escorria muito sangue , agora empoçando um contorno de sua cabeça no asfalto preto do estacionamento.
A palestra, o comício, a explicação agora nem precisava ser gritada. As atenções estavam voltadas de um jeito tão unânime para ele, que este, apenas falando se fez ouvir e impressionar.
-Esse... Lixo atropelou minha prima de oito anos. Passou com sua caminhonete cara por cima de sua bicicleta como quem pisa numa folha seca.
Ele não parou pra ajudá-la.
E como todo bom rico, esse rapaz não foi preso.Alegaram falha motora do carro. Que ele tentou freiar, mas o carro nao freiou, o que é obviamente uma mentira!
Após um breve momento de recomposição, o agressor tornava a falar como um professor explicando um teorema. Andava em circulos, o taco como uma bengala.
- Eu só vim aqui pra me certificar que ele não tenha mais o pé tão pesado.Ah, Seu martini senhor!
Ele puxa de dentro do paletó uma garrafa pela metade de martini bianco pela metade e a despeja sobre o corpo ainda encolhido no chão que agora grunhe baixinho como um cachorro novo. Após esvaziar a garrafa ele a põe delicadamente de lado, saca um isqueiro do bolso da calça e o atira aceso em direção ao morrinho encharcado de alcool que se debate como uma salsicha em óleo fervente. Grita, um grito perfurante e angustiante de dor.
As pessoas gritam e o clima de pânico é geral. Todos correm a esmo e gritam, uns por socorro, outros pela policia, outros por uma ambulância. Mas uma voz grita apenas por dentro, enquanto volta aos arbustos. Um grito subcutâneo de alívio.
“HILDA, A RUA É SEGURA OUTRA VEZ PRA ANDAR DE BICICLETA!”


Juan Barreto
Ei de quebrar sua casca com meus beijos, com meus dentes, se for preciso!
Os incisivos, os caninos e os sisos.
O que tem dentro de você me interessa e eu quero.
O que tem dentro de mim, se lhe interessar eu te empresto.




Juan Barto
Deus fazendo vista grossa pros homens "casca grossa".
Os livros de capa grossa não passam frio.
A moldura perfeita pra você seria o retângulo vertical da porta do meu quarto.
Meu humor magro jantaria duas vezes.



Juan Bar...