Funcionário do mês

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Era uma festa num estacionamento de um shopping qualquer. Muita gente, muita gente mesmo.
Vários subgrupos das mais variadas pessoas, conversando alto, bebendo muito, rindo forte. Um desses subgrupos era inteiramente composto por rapazes que falavam gesticulando exageradamente. Não eram mudos, eram jovens. Um enorme paredão de caixas de som tocava alguma coisa como "tum, tum tum, tchíííí , tum, tum, tum, tchííí..."
Um rapaz sai dos arbustos, andando reto, a passos firmes e rápidos. Quando se deram conta que ele vinha, ele já estava.
Um taco de sinuca se ergueu no ar como um arpão e desceu num “zííííp”, como uma espada cortando o ar, acertando o garoto mais alto na horizontal em cheio na orelha esquerda. Uma roda imediatamente se abriu.
"Pá!" "OOhhh!" "AAAAAhhh!!!"
Um dos amigos do atingido fez menção de reagir, mas o taco de sinuca estava em riste novamente, a parte do cabo voltada pra frente ameaçadora.Quem já pegou num taco desses sabe que pesa.
-Fique na sua! Eu nem sei quem é você, então não se meta!
A voz do agressor, apesar de ofegante era taxativa, ele não estava blefando.
O amigo ainda parou e ponderou o mais rápido que a situação permitia, e optou por recuar. Havia agora um círculo enorme e as caixas de som e os amplificadores estavam mudos, todos aos poucos iam emudecendo.
O agressor voltava a falar, agora pra todos.
-Só um segundo e logo explico.
"PÁ!"- Uma nova pancada com o cabo do taco acertando agora os joelhos do rapaz que se contorceu de dor no chão em posição fetal, uma mão apertava os joelhos (provavelmente quebrados) e a outra trêmula, apertava a orelha visivelmente estourada de onde escorria muito sangue , agora empoçando um contorno de sua cabeça no asfalto preto do estacionamento.
A palestra, o comício, a explicação agora nem precisava ser gritada. As atenções estavam voltadas de um jeito tão unânime para ele, que este, apenas falando se fez ouvir e impressionar.
-Esse... Lixo atropelou minha prima de oito anos. Passou com sua caminhonete cara por cima de sua bicicleta como quem pisa numa folha seca.
Ele não parou pra ajudá-la.
E como todo bom rico, esse rapaz não foi preso.Alegaram falha motora do carro. Que ele tentou freiar, mas o carro nao freiou, o que é obviamente uma mentira!
Após um breve momento de recomposição, o agressor tornava a falar como um professor explicando um teorema. Andava em circulos, o taco como uma bengala.
- Eu só vim aqui pra me certificar que ele não tenha mais o pé tão pesado.Ah, Seu martini senhor!
Ele puxa de dentro do paletó uma garrafa pela metade de martini bianco pela metade e a despeja sobre o corpo ainda encolhido no chão que agora grunhe baixinho como um cachorro novo. Após esvaziar a garrafa ele a põe delicadamente de lado, saca um isqueiro do bolso da calça e o atira aceso em direção ao morrinho encharcado de alcool que se debate como uma salsicha em óleo fervente. Grita, um grito perfurante e angustiante de dor.
As pessoas gritam e o clima de pânico é geral. Todos correm a esmo e gritam, uns por socorro, outros pela policia, outros por uma ambulância. Mas uma voz grita apenas por dentro, enquanto volta aos arbustos. Um grito subcutâneo de alívio.
“HILDA, A RUA É SEGURA OUTRA VEZ PRA ANDAR DE BICICLETA!”


Juan Barreto