Funcionário do mês

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Agora, doze minutos antes de meu avião levantar voo, me deu uma certa falta de ar.
Adoro viajar, mas detesto a parte da viagem.
Queria dormir, mas só consigo lembrar de Paulo, horas antes, indo até minha casa pegar um boné que havia esquecido semanas atrás.
Chegou sem dar 'oi', já ia saindo sem dar tchau, mas parou no portão da garagem, virou-se pra mim e me estendeu a mão direita aberta, eu prontamente a apertei.
Ele riu jocoso e disse "Pensei que você fosse me dar a chave!"
Me deu um misto de vergonha e indignação. Simultaneamente abri o portão e fechei as portas para paulo.



Juan B.
A alma vinha descendo lentamente em zig-zag, tal e qual uma folha caindo do céu.
Pousou macia e sutil dentro do corpo deitado.
Que ruflem os tambores, pode ser a qualquer momento.
Abriu os olhos, a luz da matéria está acesa! Tem gente na casa!
Piscou, mordeu o ar, roçou sua língua na própria língua.
Espremeu as mãos estalando os "dedos-bambus"com força, fazendo barulho de batatas rufles sendo quebradas.
Ergueu seu corpo da cama como um marionete sendo puxado pra cima por uma enorme mão invisível, um boneco de voodoo comandado por controle remoto.
Viu sua cara no espelho:
"Então esse é o grande sonho almejado pelas almas? Ter sua própria casca? Grande bosta!"
E riu-se de deboche.
Hoje não estou pra modéstias, não estou pra moléstias, não estou pra aprender, nem pra compreender.
Nem pra pedir, nem pra emprestar.
Hoje eu não estou com paciência e nem boa vontade, nem dó nem piedade.
Hoje eu não sou relaxante muscular e nem mertiolate.
Joelhos e corações esfolados que se virem.
Eu sou só um bicho só, um caramujo meio cru, meio cozido.
Agora chega disso, que hoje eu também não estou pra falar e nem pra escrever.




Juan Barto
Prestar atenção a prestação?
Eu não!
Eu sou água fria espremida num balde, doida pra me esparramar por inteira no seu chão.
Lá tenho paciência de ficar retida em cano, sendo tomada à copo, sendo botada no feijão...
Me beba agora!
Me refresque mais uma vez com sua boca, me aqueça mais uma vez com sua mão.



juan barto