Funcionário do mês

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A alma vinha descendo lentamente em zig-zag, tal e qual uma folha caindo do céu.
Pousou macia e sutil dentro do corpo deitado.
Que ruflem os tambores, pode ser a qualquer momento.
Abriu os olhos, a luz da matéria está acesa! Tem gente na casa!
Piscou, mordeu o ar, roçou sua língua na própria língua.
Espremeu as mãos estalando os "dedos-bambus"com força, fazendo barulho de batatas rufles sendo quebradas.
Ergueu seu corpo da cama como um marionete sendo puxado pra cima por uma enorme mão invisível, um boneco de voodoo comandado por controle remoto.
Viu sua cara no espelho:
"Então esse é o grande sonho almejado pelas almas? Ter sua própria casca? Grande bosta!"
E riu-se de deboche.
Hoje não estou pra modéstias, não estou pra moléstias, não estou pra aprender, nem pra compreender.
Nem pra pedir, nem pra emprestar.
Hoje eu não estou com paciência e nem boa vontade, nem dó nem piedade.
Hoje eu não sou relaxante muscular e nem mertiolate.
Joelhos e corações esfolados que se virem.
Eu sou só um bicho só, um caramujo meio cru, meio cozido.
Agora chega disso, que hoje eu também não estou pra falar e nem pra escrever.




Juan Barto