A chuva chicoteia insistentemente a fachada dos prédios da cidade. Começo de madrugada. Apartamento frio de clima e frio de gente.
Todos dormem.
Um “Let it be” começa baixinho, vai crescendo, encorpando ate ecoar pelo quarto acordando a moça que dormia a pouco mais de um metro. Atordoada como ficam todos que são acordados, estica o braço e atende antes que Paul Mcartney acorde a casa toda.
“Let it beeee, let it beeee...”
-Oi, alô? Quem é?
Do outro lado alguém hesita, toma fôlego e fala.
-Desculpa ta te ligando.

Aquela voz, ela lembra de algum lugar, mas essa voz não deveria estar no seu celular.
Não mais.
Olha o visor. Estranho, estranhíssimo por sinal, mas o dono confere.

-O que você quer?
-Desculpa te ligar, ainda mais uma hora dessas. É que acabei de sonhar com você. Um sonho ruim e queria saber se está tudo bem.
-Sei, sei. Olha eu tava dormindo, amanhã eu tenho aula cedo. Desculpa, mas eu vou desligar. Eu estou bem. Tchau.
Ele não responde. Ela desliga e volta a se deitar ainda entre a raiva e a surpresa.

"Estranho, estranho e estranho. Depois de meses, ligar assim de madrugada, com esse papo furado, que idiota! A voz dele continua linda. - Ela pensa. – Péra ai... Madrugada?!"
Ela estica o braço e apalpa o montinho mais escuro no meio do escuro. Uma luz azulada meio arquivo x a cega, quando a retina se adapta a claridade ela vê o “1:21 a:m” no canto direito superior da tela. Sem pensar muito no que está fazendo, seu polegar aperta o botão verde. Coração bate forte.

A chuva chicoteia a janela. A tv mostra “Os Simpsons”, mas ele está na cozinha esquentando um leite com nescau. A voz do Marcelo Camelo avisa que alguém o chama. Ele com cinco passadas largas chega ao quarto, olha no visor. – É ela!
Coração bate forte.
Infantilmente ajeita os cabelos com os dedos e respira fundo antes de atender.
-Oi?
-Você não estáva dormindo. Você não dorme a 1:21 da manhã. O que você queria?
-Eu já lhe disse.
-Disse, mas eu não acredito.
-Ah, Não posso fazer nada quanto a isso.
-É? Pois diz ai como é que foi esse sonho. - Seu tom era irônico.
-Estávamos na sua casa, na janela. Eu ia colocar uma rosa no seu cabelo, mas o vento a levava, quando você se inclinou para tentar pegá-la, se desequilibrou e caiu.
-Hum.
-Pois é
(Silêncio)
-Sei não. Ta muito mentiroso esse sonho.
-Você precisava ver o que eu tive ontem onde eu era o baterista da Ivete Sangalo.
Ela ri. Ele sorri.
(Silêncio)
Ele quem fala primeiro.
- Mas tá tudo bem mesmo né?
-Tá sim.
-Certo.
-Então vou indo. Boa noite pra ti.
-Boa.
Desligam.
Ele está se sentindo mais imbecil do que nunca em toda a sua existência. Eufórico, mas imbecil.
Queria mexer nas suas configurações e desabilitar o ítem “impulsividade”, mas agora já era tarde demais pra isso e cedo demais pro seu dormir. Foi pro computador ver se se distraia pelo menos o suficiente pro seu sangue voltar a circular pelo resto do corpo, porque parece que ele estava todo concentrado na cabeça durante os últimos cinco minutos. A voz dela ainda estava grudada nas paredes do quarto, nas paredes dos seus tímpanos. Mas essa voz há de sair, assim como seu cheiro saiu de seus lençóis e de seus dedos. Talvez não hoje. Certamente não hoje.
Sentia se patético como um alcoólatra que comemora dois meses sem beber tomando um porre. De repente um som característico e uma plaquinha no canto direito inferior da tela.
Ele olha mais por instinto do que por interesse e quando vê o nome sorri com os olhos, boca e coração. Seres humanos e seus kit multi-mídias orgânicos.
Quase que simultâneo, uma barrinha laranja que há muito não dava as caras, pulsa:

"Fiquei sem sono :C
Tá no msn??"

O resto é Belle and Sebastian nas alturas. Tão bom não ter vizinhos nas horas de felicidade inesperada.


Juan Barreto