Funcionário do mês

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Cada dia que termina, é um funcionário que foi demitido.
Cada dia que começa, é um estagiário tentando aprender enquanto é cobrado como veterano.




Juan Barto
Viver é um processo de despelar todo dia um pouquinho, até chegar no osso.
Ninguém conhece você tão bem como a mobília da sua casa.

Juan
Achar um corpo amigo é incrível!
Achar o corpo de um amigo é inacreditável.

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Sonhar é como passear com cachorro grande, ou você o controla ou ele dispara na frente e te puxa até te derrubar.
Até fazer você ter medo dele.




Juan Barto

VIVI

Deu a hora do almoço e dois quarteirões inteiros separam minha casa do restaurante mais próximo. Não é um trajeto longo, mas tem se tornado sofrido graças a esse sol escaldante que parece estar à apenas cinco metros de nossas cabeças, inundando as ruas com essa claridade branca incandescente. Faz eu me sentir um lagarto ilhado embaixo de uma rocha no meio do deserto, tendo que escolher entre morrer de fome na sombra ou arriscar ser torrado pelo calor lá fora em busca de comida.
Arrisquei arriscar.  A fome cutucava meu estomago com seu tridente cada vez mais forte. Cruzei o mais rápido que pude a avenida principal do planeta mercúrio e agora era o oitavo cliente de uma fila de oito. A grelha trabalhava a mil espalhando mais calor absurdo pelo ambiente. Fumaça de fritura por todo o lado e eu próprio só não viro vapor também e saio voando porque esse prato que deve pesar uns quatro quilos me segura no chão, e olhe que ele ainda está vazio! Prato de ‘PF’ é tudo igual mesmo, três polegadas de espessura.
Após montar meu almoço consegui vaga numa simpática mesinha de toalha amarela perto de uma das janelas. Vento que é bom, nenhum! Uma jovem mamãe mais três garotinhas acomodaram-se a mesa da frente. A menininha mais velha que aparentava ter uns sete anos trazia a bolsa gigante da mãe quase arrastando no chão, a do meio que devia ter uns cinco vinha equilibrando uma bandejinha de isopor repleta de sushis enquanto a mãe carregava a mais nova, por volta dos três anos num braço e algumas sacolas no outro.
A mãe amontoou todas as sacolas numa das cadeiras e deixou a de sete e a de cinco sentadinhas almoçando enquanto voltou até a fila pra fazer o seu próprio prato levando a menor consigo. As peças de sushi eram do tamanho de discos de hóquei e as meninas as seguravam com as mãos como quem segurava uma bolacha. A mais velha molhou um dos sushis no copinho de molho shoyo e o enfiou inteiro na boca de uma vez. A mais nova ao perceber isso fez uma careta exagerada que mesclava espanto e o nojo: ‘Você molhou seu bolinho ai?! Sabia que isso é sangue de peixe podre?’
A irmã de sete anos, que já estava tendo que fazer uma verdadeira ginástica facial pra conseguir mastigar a pasta de arroz e alga que tinha virado o sushi dentro da sua boca desistiu de tentar falar e limitou-se apenas a balançar negativamente a cabeça. A de cinco anos mantinha os olhos comicamente arregalados de horror e insistiu no assunto fazendo inclusive voz de alarde: ‘É claro que é!’
Eu da minha mesa observava disfarçadamente essa cena já meio receoso, afinal, tinha bodas de prata de experiência com irmãos, primos, sobrinhos e dos outros e já conhecia bem esse panorama. A qualquer momento essas duas iam começar a gritar, a se pegar e
ia voar peixe cru pra todo lado! A habitual provocação fraterna já tinha sido feita inclusive com um quê dramático de interpretação, agora era ver se a mais velha iria cair na pilha errada ou não, e isso era o que ia determinar se eu iria ter que abrir mão da minha querida mesa perto da janela e mudar pra outra mais afastada ou não, porque comer com choro de criança nos ouvidos era só o que faltava. Não dá!
Após engolir parcialmente, a guria mais velha falou com ar displicente um: ‘Não é!’, mastigou e engoliu o resto e ao terminar olhou triunfante com ar de desdém para a irmã que continuava calada, apenas a encarando com a mesma expressão impagável e canastrona de repúdio, ora olhando pra boca da irmã, ora olhando para o copinho de molho! Tinha que se admitir, a pequena era uma atriz nata! Estava fazendo a pressão psicológica com uma habilidade inacreditável! Eu já estava quase convencido que molho shoyo era de fato sangue de peixe podre. Só podia ser! Até a garrafinha de molho inglês eu tirei de perto de mim.
Dez segundos de encarada em silêncio. Tensão! Parecia que as duas estavam brincando de ver quem piscava primeiro, até que veio o esperado muxoxo de choro. A irmã mais velha estava visivelmente encucada e já franzia a testa como quem ia chorar.
‘Eu vou dizer pra mamãe que você colocou sangue de peixe morto no molho!
A de cinco ganhou e comemorou dando a risada mais gostosa que eu já ouvi e batendo palminhas, satisfeita consigo mesma:
‘HAHAHAHA É nãão, bobona! Isso é molho ‘shonho’, menina! Mas eu fiz você pensar que não era!
Que coisinha fofinha e maligna. Quero uma dessas! Eu acho...
A de sete anos ficou emburrada por um tempo de cara fechada e braços cruzados emburrada na cadeira e ai foi a vez da outra comer animadamente o seu sushi sem dar a mínima até que subitamente fez uma cara engraçada de quem tinha tido uma grande ideia e em poucos segundos eu saberia que tinha tido mesmo, olhou pra trás pra se certificar que a mãe continuava distante, chamou a irmã pra perto numa posição de quem conspirava e cochichou, ou pelo menos fez o que uma criança de cinco anos acredita ser cochichar, que no caso significa gritar um pouquinho mais baixo:
‘Vamos colocar isso no copo da Vivi pra ela pensar que é coca cola, vamos?’- E sorriu!
Que coisinha mais fofinha e mais maligna! Minha comida a essa altura esfriava gradativamente como um cadáver e uma sensação engraçada se apoderou de mim. A de saber que a merda iria acontecer, saber que tinha o poder de evitá-la, mas simplesmente preferir esperar e observar pra ver no que aquilo tudo ia dar simplesmente porque era muito mais divertido! Nossa, deve ser assim que Deus se sente!


Juan Barto
Ler é cozinhar o cérebro com os temperos certos.
É cafeinar a criatividade.




Juan Barto