Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Explodir dá muito trabalho, chama muita atenção, faz muito barulho e muita sujeira.
Hoje sou mais de implodir, me deixar afundar silenciosamente na piscina.
Em segundos, a superfície estará plácida outra vez. Ninguém quer mesmo saber o que se passa no fundo, contanto que não dê pra ver.
Quando a corda da pipa começa a queimar a mão, é porque ela quer ir embora.
Solte, desista, 'desinsista!'



Juan Barto

CALOR ÂMBAR NUM DIA ÍMPAR


Seis e meia da tarde. O dia quente abriu passagem pra uma noite morna.
A cidade ficava amarelada por causa das luzes dos postes. As pessoas ganhavam um tom amarelo parecido, mas por outros motivos: Nicotina e impaciência.
Num bar/café um homem entra e nem olha para as mesas repletas de grupos de pessoas amotinadas conversando alto, seu objetivo é um banquinho vazio no balcão do bar.
Ao sentar, joga a mochila pesada aos seus pés, desabotoa dois botões da camisa da farda e quase pode ouvir um 'tssss' de vapor sendo liberado cangote à cima.
A cidade quando quer ser quente é fogo!
O dia não foi gentil com ele, mas ele procurou ser com a atendente.
"Simpatia gera simpatia!" – Esse era seu lema, seu leme.
-Moça, um café com leite, por favor!
A garçonete nem olhou pra ele, jogou de qualquer jeito na sua frente um pires e uma xicrinha que um dia quem sabe foram brancos, mas agora estão sépia. Puxou uma garrafa térmica, abriu-a deslizando um líquido preto avermelhado xícara à dentro perfumando o ambiente no raio de dois metros. Fez isso e lhe deu as costas sem mais atenção.
-Moça... Com leite! Eu queria café com leite!
A garçonete era a única coisa gelada naquele ambiente. Fingiu que não ouviu.
-Depois de um dia de cão com esse calor absurdo que anda fazendo não seria melhor uma cervejinha pra reativar?
A voz vinha da esquerda. Uma mulher negra muito bonita usando um desses terninhos de secretária de escritório, com cabelos muito bem presos num coque olhava pra ele e sorria um sorriso ultra branco de comercial de pasta de dentes.
-Na verdade isso não é café, é cerveja preta! Alemã. Da boa, você sabe... Da legítima! Saúde!
Ele juntou o restinho do restinho do seu bom humor pra fazer essa piada medíocre e erguer a xícara a meia altura em brinde.
Ela riu.
-Meu nome é Charles!
-Bonito nome.
-E o seu?
-Então Charles, qual o seu problema com as cervejas?
-Judicial!
Ela dessa vez gargalhou se endireitando no banquinho e ficou esperando uma resposta de verdade com um de interesse.
-Tem calores que só passam com mais calor! Tá, agora falando sério, se eu beber cerveja vai baixar uma preguiça que pesa noventa quilos e não vou conseguir chegar em casa. Café é energia!
-Nem se você beber só uma?
-Não existe isso de ‘beber só uma cerveja’.
-Hum, entendo. Há quem diga que não pega bem ser visto num bar sozinho.  Dizem que faz você parecer um idiota que levou um bolo do seu encontro. –Ela disse zombeteira e provocativa.
-Ah, mas aqui também é uma cafeteria, então acho que tudo bem!- Disse ele também no clima zombeteiro.
-Ouvi dizer que também funciona uma boca de fumo nas quintas-feiras e uma rinha de galo aos domingos, mas não ouviu isso de mim, ok?
 Os dois riem abertamente. Ele se impressiona com os dentes dela. Parecia mini chicletes Adams e pra não deixar o assunto morrer perguntou:
-Mas e você? Não está bebendo nada ou está esperando alguém pra começar?
-Não, não estou esperando ninguém. Só passei por passar, só fiquei por ficar. Precisava de um lugar pra sentar e descansar as pernas por dez minutos.
Uma gritaria estoura num canto do bar e chama a atenção de todos. Dois bêbados discutem e esbravejam, um alegando que o outro está roubando na sinuca e o outro mandando o um pra puta que o pariu, até que a galera do "deixa disso" intervêm acalmando os ânimos. Quando Charles torna a virar seu rosto pra esquerda, a mulher já ia do outro lado do bar, quase na saída prestes a ser engolida pelo turbilhão de gente que ainda ia pra lá e pra cá nas calçadas da rua.
Quis gritar ‘Ei!’, mas ela não ouviria.
Mas tinha um ‘post-it’ grudado no açucareiro à sua frente com um número de telefone que o fez sorrir!
E viva a cafeína!


Juan Barreto

NÃO ADIANTA CHORAR O LEITE, 'DEAR' AMADO

Machos-alfa em asa-deltas cortam o céu azul bebê, que ameaça chorar porque seus dentinhos nuvens estão nascendo.
Humanos são pracinhas onde os sentimentos se reúnem pra conversar, tocar violão, dar milho aos anjos e tomar banho de roupa na fonte.
O homem é apenas um instante, uma estante que nunca deve ficar totalmente arrumada e nem bagunçada por muito tempo, os livros tem que mudar de posição de tempos em tempos, que nem as estrelas, que nem o kama sutra.
Driblemos o mofo.
O nosso nó(s) é cego pra que nunca, nunca desate.
O nosso nó(s) é cego porque o amor também é e moramos todos no mesmo prédio



Juan Barto
Existe a alegria suja e existe a alegria 'sujada'.
A alegria suja é aquela que a gente traz na testa suada após uma dança improvisada.
Nas pernas enlameadas após o futebol debaixo de chuva na calçada.
Com a boca melada de manga, de beijo, de 'baga'.
A 'sujada' é aquela que os homens frustrados por não poderem comer açúcar quando crianças, assoam seus narizes, pregando etiquetas de "NÃO PODE!" em placas.
Acham que corrompendo uma coisa que já existe
seriam eles mesmos menos tristes.


juan barto
O amor é como uma porta de vidro, a gente nunca tem certeza absoluta se está lá ou não, até que decidimos arriscar seguir em frente.
Eventualmente damos uma testada certeira, explodindo tudo. Dor lancinante na cabeça, afinal, quebramos a cara!
E ai, naturalmente, você passa a evitar portas de vidro.
Só atravessa se alguém for antes na sua frente.
Me deixo levar e depois não sei voltar.
Seria de se esperar que depois de se perder tantas vezes, a gente decorasse o caminho certo, mas quando se vai conversando distraído não dá pra prestar muita atenção no chão.
 Se apaixonar é assim, a ida é sempre de avião, a volta é sempre à pé.



Juan Barto
Ele pensa o que escreve enquanto escreve.
Ele escreve o que pensa enquanto pensa.
Lembrava de um sonho que tivera um tempo atrás consigo mesmo amarrado nos trilhos do trem, que vinha à toda velocidade como um predador, prestes a acertar seu corpo em cheio, espatifá-lo ao meio!
O trem em hipótese alguma desvia, continua seu traçado e só para quando chega.
Ele sabia que não devia odiar o trem, mas sim, se parecer com ele, que sabe que toda volta é o desfrute da ida.
A vida é uma pilha, a carga de energia oscila e o gosto depende de que lado você morde.
Acordou se perguntando quando as coisas iriam sair do seu porta-retratos para o seu porta-jóias.
Apertou internamente a turbina do “Top Gear''.




Juan Barto







SALOMÃO

Salomão estava sentado no telhado de sua casa numa parte que tinha uma espécie de degrau de cimento, um retângulo lajeado que servia como base pra caixa d’água. A velha caixa d’água que há anos ora se fazia de cama, ora de mesa, ora de escrivaninha.

Era quatro e vinte da manhã, horário cabalístico, de uma sexta- feira. O céu ainda estava escuro.

Se existe uma coisa que pode ser deixada para os filhos e os netos como herança sem a menor preocupação de que apodreça ou se perca eram as sextas-feiras. Todo mundo vai morrer e as sextas vão continuar ai. Na mesma, com seus malditos capítulos finais de novelas. Continuarão cobiçadas seja significando descanso, descaso, euforia, alforria não importa, os organismos as adoram cada vez mais! A sexta é a irmã mais velha do sábado que fica tentando competir com ele pra ver quem é mais 'descolado'. Isso sempre existiu e sempre vai existir, assim como o plástico.

“Amor é o caralho, eterno mesmo só o plástico e a sexta-feira.”

Pensou Salomão abrindo supostamente a última cerveja da noite na borda do concreto. Tinha chegado agora a pouco da rua, dos amigos e subiu como de costume pela escada de pintor que o tio guardava na garagem. Estava muito bem empoleirado apoiando as costas na lateral fria de amianto. A noite foi boa e pra coroar esse bolo com a cereja certa uma cerveja Belga! Café vermelho! Vinte e oito reais uma garrafinha de nada, mas que continha um líquido tudo! Um luxo as vezes necessário, as vezes merecido. As pernas relaxadas, os ombros descontraídos. Ele se sente quente por dentro. Preenchido.

Lembra-se de uma coisa que aconteceu quando tinha mais ou menos sete anos, Pequenininho, cruzou a sala onde a irmã mais velha assistia a um filme com o namorado no sofá e quando já estava quase alcançando a porta da frente a ouviu perguntar zombeteira:

“-Aonde você vai com isso ai?”

Ela estava se referindo, é claro, a sua vara de pescar artesanal feita de cano fino de pvc (resquício da obra no banheiro) e lã branca (do tricô da mãe) muito bem amarrada que desaguava em um anzol (feito do gancho do cabide quebrado da tia) na ponta onde jazia espetada uma rosa tinindo, novinha em flor.

“-Pescar o amor da minha vida!” – Respondeu desconfiado com desdém defensivo.

Casal chocado. Perderam o fio da meada dos dois pés.

“Peixão paixão!” – Pensou o Salomão do presente como nota de texto, como um filme visto com os ‘comentários do diretor’.

O vento frio da madrugada insistia em apagar seu cigarro como se o universo dissesse "Por hoje chega!”.

. Sua mente alt+tab lembrou-se de uma conversa que teve com um velho amigo há uns anos atrás quando num dia absurdamente quente decidiram almoçar numa sorveteria.

“-Vontade é um bicho que dá mais cria que rato! Vontade dá dor de barriga e dor de cabeça! Vontade dá queda de cabelo, arritmia, anemia e câncer nos sonhos! (...) Eu tô muito afim da Priscila, a mulher do Raul! Apaixonado! Tanto que quando ela está por perto eu mordo a parte interna da boca sem parar como auto rechaçamento. Um inferno! Mas fique tranquilo, sou covarde demais pra tentar alguma coisa. Ninguém sabe e nem precisa saber! Só te contei porque estava me sentindo completamente sufocado!” – Escancarou o amigo de sôfrego, assim de cara enquanto se abanava trêmulo com o cardápio tentando afastar o calor e o constrangimento. Acenou para a garçonete e pediu um milk shake de morango e uma água.

Salomão moía aquela informação lentamente enquanto encomendava uma mousse gelada de maracujá. Não entendeu o porquê dessa confissão repentina. Agora olhando bem, percebia o amigo mais magro. É foda! Assim como as máquinas, nós humanos também temos essa mania de deixar que o software foda com o hardware. Os pedidos não tardaram a chegar. Eles se acomodaram melhor nas poltronas de couro azul bebê e por um tempo os barulhinhos de sucção de ralo que os canudos fazem e o choque da colher versus a taça era tudo o que cortava os ares.

-Grandes mudanças nem sempre fazem alarde. Você sabia que os anjos nos regam toda noite? – Continuou o amigo. Mudando de assunto.

-Para quê?

-Para que cresçamos!

-E você sabia que esses mesmos anjos as vezes tem que fazer conosco que nem os adultos fazem com as crianças? Pendurando na prateleira mais alta da estante, escondendo da cobiça das nossas mãos aqueles objetos coloridos e bonitos que tanto nos despertam o interesse dos olhos, mas que iriam terminar nos machucando de alguma forma por serem pontiagudos, cortantes, venenosos ou apenas pequenos demais, fáceis de engolir. E a gente chora por não entender. Salomão sintonizou outra vez no mesmo canal.

-As coisas importantes a gente quase nunca entende ao vivo, mesmo. – Lamentou o amigo.

-Por isso, para o nosso próprio bem, tem horas que perder é ganhar (tempo)! Tem horas que perder é ganhar (acúmulo) (ao cúmulo) (ao cubo)!

- Eventualmente conseguimos arrastar uma cadeira pra pertinho da estante quando não tem ninguém olhando.

-Exatamente, mas você não acha que de talvez aquela porta que não quer abrir e não abre de jeito nenhum, nem puxando nem empurrando deve ser porque o monstro que está por trás dela fazendo contrapeso agarrado à maçaneta tem muita força? – Ponderou Salomão.

O amigo mastigava a ponta do canudo pensativo.

-Pense nisso e deixe pra lá aquilo que insiste em ficar do lado de lá. – ‘Cheque-mateou’ o Salomão do passado. – Concentre-se em sugar o ‘sugar’ da vida.

-Como?

-Sugar o ‘sugar’! – Ele apontou para o canudo e depois para a taça gigante repousada na mesa.

(...)

-AÇÚCAR, PORRA! – E riu.

Lembra que pouco tempo depois desse dia esse mesmo amigo morreu com um tiro em cheio no seu coração cheio. Reagiu a um assalto, mas Salomão sabia que era mais do que isso. O amigo estava reagindo a tudo naquele momento. Principalmente a si próprio. Combatendo passividade com impulsividade. Conseguiu enxergar poesia no chorume urbano.

Salomão começou o fim de semana com os olhos cristalizados. A saudade é o soluço da alma e ele era livro capa dura, mas de coração mole.


Juan Barto