Funcionário do mês

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CALOR ÂMBAR NUM DIA ÍMPAR


Seis e meia da tarde. O dia quente abriu passagem pra uma noite morna.
A cidade ficava amarelada por causa das luzes dos postes. As pessoas ganhavam um tom amarelo parecido, mas por outros motivos: Nicotina e impaciência.
Num bar/café um homem entra e nem olha para as mesas repletas de grupos de pessoas amotinadas conversando alto, seu objetivo é um banquinho vazio no balcão do bar.
Ao sentar, joga a mochila pesada aos seus pés, desabotoa dois botões da camisa da farda e quase pode ouvir um 'tssss' de vapor sendo liberado cangote à cima.
A cidade quando quer ser quente é fogo!
O dia não foi gentil com ele, mas ele procurou ser com a atendente.
"Simpatia gera simpatia!" – Esse era seu lema, seu leme.
-Moça, um café com leite, por favor!
A garçonete nem olhou pra ele, jogou de qualquer jeito na sua frente um pires e uma xicrinha que um dia quem sabe foram brancos, mas agora estão sépia. Puxou uma garrafa térmica, abriu-a deslizando um líquido preto avermelhado xícara à dentro perfumando o ambiente no raio de dois metros. Fez isso e lhe deu as costas sem mais atenção.
-Moça... Com leite! Eu queria café com leite!
A garçonete era a única coisa gelada naquele ambiente. Fingiu que não ouviu.
-Depois de um dia de cão com esse calor absurdo que anda fazendo não seria melhor uma cervejinha pra reativar?
A voz vinha da esquerda. Uma mulher negra muito bonita usando um desses terninhos de secretária de escritório, com cabelos muito bem presos num coque olhava pra ele e sorria um sorriso ultra branco de comercial de pasta de dentes.
-Na verdade isso não é café, é cerveja preta! Alemã. Da boa, você sabe... Da legítima! Saúde!
Ele juntou o restinho do restinho do seu bom humor pra fazer essa piada medíocre e erguer a xícara a meia altura em brinde.
Ela riu.
-Meu nome é Charles!
-Bonito nome.
-E o seu?
-Então Charles, qual o seu problema com as cervejas?
-Judicial!
Ela dessa vez gargalhou se endireitando no banquinho e ficou esperando uma resposta de verdade com um de interesse.
-Tem calores que só passam com mais calor! Tá, agora falando sério, se eu beber cerveja vai baixar uma preguiça que pesa noventa quilos e não vou conseguir chegar em casa. Café é energia!
-Nem se você beber só uma?
-Não existe isso de ‘beber só uma cerveja’.
-Hum, entendo. Há quem diga que não pega bem ser visto num bar sozinho.  Dizem que faz você parecer um idiota que levou um bolo do seu encontro. –Ela disse zombeteira e provocativa.
-Ah, mas aqui também é uma cafeteria, então acho que tudo bem!- Disse ele também no clima zombeteiro.
-Ouvi dizer que também funciona uma boca de fumo nas quintas-feiras e uma rinha de galo aos domingos, mas não ouviu isso de mim, ok?
 Os dois riem abertamente. Ele se impressiona com os dentes dela. Parecia mini chicletes Adams e pra não deixar o assunto morrer perguntou:
-Mas e você? Não está bebendo nada ou está esperando alguém pra começar?
-Não, não estou esperando ninguém. Só passei por passar, só fiquei por ficar. Precisava de um lugar pra sentar e descansar as pernas por dez minutos.
Uma gritaria estoura num canto do bar e chama a atenção de todos. Dois bêbados discutem e esbravejam, um alegando que o outro está roubando na sinuca e o outro mandando o um pra puta que o pariu, até que a galera do "deixa disso" intervêm acalmando os ânimos. Quando Charles torna a virar seu rosto pra esquerda, a mulher já ia do outro lado do bar, quase na saída prestes a ser engolida pelo turbilhão de gente que ainda ia pra lá e pra cá nas calçadas da rua.
Quis gritar ‘Ei!’, mas ela não ouviria.
Mas tinha um ‘post-it’ grudado no açucareiro à sua frente com um número de telefone que o fez sorrir!
E viva a cafeína!


Juan Barreto