Funcionário do mês

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SALOMÃO

Salomão estava sentado no telhado de sua casa numa parte que tinha uma espécie de degrau de cimento, um retângulo lajeado que servia como base pra caixa d’água. A velha caixa d’água que há anos ora se fazia de cama, ora de mesa, ora de escrivaninha.

Era quatro e vinte da manhã, horário cabalístico, de uma sexta- feira. O céu ainda estava escuro.

Se existe uma coisa que pode ser deixada para os filhos e os netos como herança sem a menor preocupação de que apodreça ou se perca eram as sextas-feiras. Todo mundo vai morrer e as sextas vão continuar ai. Na mesma, com seus malditos capítulos finais de novelas. Continuarão cobiçadas seja significando descanso, descaso, euforia, alforria não importa, os organismos as adoram cada vez mais! A sexta é a irmã mais velha do sábado que fica tentando competir com ele pra ver quem é mais 'descolado'. Isso sempre existiu e sempre vai existir, assim como o plástico.

“Amor é o caralho, eterno mesmo só o plástico e a sexta-feira.”

Pensou Salomão abrindo supostamente a última cerveja da noite na borda do concreto. Tinha chegado agora a pouco da rua, dos amigos e subiu como de costume pela escada de pintor que o tio guardava na garagem. Estava muito bem empoleirado apoiando as costas na lateral fria de amianto. A noite foi boa e pra coroar esse bolo com a cereja certa uma cerveja Belga! Café vermelho! Vinte e oito reais uma garrafinha de nada, mas que continha um líquido tudo! Um luxo as vezes necessário, as vezes merecido. As pernas relaxadas, os ombros descontraídos. Ele se sente quente por dentro. Preenchido.

Lembra-se de uma coisa que aconteceu quando tinha mais ou menos sete anos, Pequenininho, cruzou a sala onde a irmã mais velha assistia a um filme com o namorado no sofá e quando já estava quase alcançando a porta da frente a ouviu perguntar zombeteira:

“-Aonde você vai com isso ai?”

Ela estava se referindo, é claro, a sua vara de pescar artesanal feita de cano fino de pvc (resquício da obra no banheiro) e lã branca (do tricô da mãe) muito bem amarrada que desaguava em um anzol (feito do gancho do cabide quebrado da tia) na ponta onde jazia espetada uma rosa tinindo, novinha em flor.

“-Pescar o amor da minha vida!” – Respondeu desconfiado com desdém defensivo.

Casal chocado. Perderam o fio da meada dos dois pés.

“Peixão paixão!” – Pensou o Salomão do presente como nota de texto, como um filme visto com os ‘comentários do diretor’.

O vento frio da madrugada insistia em apagar seu cigarro como se o universo dissesse "Por hoje chega!”.

. Sua mente alt+tab lembrou-se de uma conversa que teve com um velho amigo há uns anos atrás quando num dia absurdamente quente decidiram almoçar numa sorveteria.

“-Vontade é um bicho que dá mais cria que rato! Vontade dá dor de barriga e dor de cabeça! Vontade dá queda de cabelo, arritmia, anemia e câncer nos sonhos! (...) Eu tô muito afim da Priscila, a mulher do Raul! Apaixonado! Tanto que quando ela está por perto eu mordo a parte interna da boca sem parar como auto rechaçamento. Um inferno! Mas fique tranquilo, sou covarde demais pra tentar alguma coisa. Ninguém sabe e nem precisa saber! Só te contei porque estava me sentindo completamente sufocado!” – Escancarou o amigo de sôfrego, assim de cara enquanto se abanava trêmulo com o cardápio tentando afastar o calor e o constrangimento. Acenou para a garçonete e pediu um milk shake de morango e uma água.

Salomão moía aquela informação lentamente enquanto encomendava uma mousse gelada de maracujá. Não entendeu o porquê dessa confissão repentina. Agora olhando bem, percebia o amigo mais magro. É foda! Assim como as máquinas, nós humanos também temos essa mania de deixar que o software foda com o hardware. Os pedidos não tardaram a chegar. Eles se acomodaram melhor nas poltronas de couro azul bebê e por um tempo os barulhinhos de sucção de ralo que os canudos fazem e o choque da colher versus a taça era tudo o que cortava os ares.

-Grandes mudanças nem sempre fazem alarde. Você sabia que os anjos nos regam toda noite? – Continuou o amigo. Mudando de assunto.

-Para quê?

-Para que cresçamos!

-E você sabia que esses mesmos anjos as vezes tem que fazer conosco que nem os adultos fazem com as crianças? Pendurando na prateleira mais alta da estante, escondendo da cobiça das nossas mãos aqueles objetos coloridos e bonitos que tanto nos despertam o interesse dos olhos, mas que iriam terminar nos machucando de alguma forma por serem pontiagudos, cortantes, venenosos ou apenas pequenos demais, fáceis de engolir. E a gente chora por não entender. Salomão sintonizou outra vez no mesmo canal.

-As coisas importantes a gente quase nunca entende ao vivo, mesmo. – Lamentou o amigo.

-Por isso, para o nosso próprio bem, tem horas que perder é ganhar (tempo)! Tem horas que perder é ganhar (acúmulo) (ao cúmulo) (ao cubo)!

- Eventualmente conseguimos arrastar uma cadeira pra pertinho da estante quando não tem ninguém olhando.

-Exatamente, mas você não acha que de talvez aquela porta que não quer abrir e não abre de jeito nenhum, nem puxando nem empurrando deve ser porque o monstro que está por trás dela fazendo contrapeso agarrado à maçaneta tem muita força? – Ponderou Salomão.

O amigo mastigava a ponta do canudo pensativo.

-Pense nisso e deixe pra lá aquilo que insiste em ficar do lado de lá. – ‘Cheque-mateou’ o Salomão do passado. – Concentre-se em sugar o ‘sugar’ da vida.

-Como?

-Sugar o ‘sugar’! – Ele apontou para o canudo e depois para a taça gigante repousada na mesa.

(...)

-AÇÚCAR, PORRA! – E riu.

Lembra que pouco tempo depois desse dia esse mesmo amigo morreu com um tiro em cheio no seu coração cheio. Reagiu a um assalto, mas Salomão sabia que era mais do que isso. O amigo estava reagindo a tudo naquele momento. Principalmente a si próprio. Combatendo passividade com impulsividade. Conseguiu enxergar poesia no chorume urbano.

Salomão começou o fim de semana com os olhos cristalizados. A saudade é o soluço da alma e ele era livro capa dura, mas de coração mole.


Juan Barto