Funcionário do mês

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Ele subiu as escadas abotoando o punho da camisa social tentando se lembrar onde poderia estar sua gravata verde-escuro. Ao passar de relance pelo quarto da neta a viu, sentada de costas pra porta, cabeça baixa, mãos cruzadas sobre o colo.
Escutou barulhinho de choro contido. Entrou devagar, desconfiado e falou mansinho para não assustá-la:
-Nina?
Ela se assustou de qualquer forma. Passou rapidamente as mãos pelo rosto para secá-lo.
-O que aconteceu meu bem? Por que você está tão desolada aqui sozinha? Você está se sentindo bem? Você estava chorando?
-Eu não estava chorando não, vô. - E fungou com o nariz, denunciando a mentira.         Os olhos inchados focados nos seus próprios joelhos.
O avô sentou-se ao seu lado. Ficou ali, de mãos postas sobre o colo olhando pra parede da frente em silêncio, igual a ela.
Passado alguns segundos ele sussurra também para a parede da frente timidamente:
-Você estava pensando no seu pai, querida?
-Vô, o seu jantar. Devem estar esperando o senhor lá embaixo!
-Mas estão precisando de mim aqui em cima. – E deu uma piscadinha sorrindo, tentando quebrar o gelo, o mármore.
Ela continuou de perfil sem reagir de nenhuma forma. O avô tentou puxar conversa mais uma vez.
-Sabe, quando você era pequena eu te chamava de ‘meu raiozinho de sol’ e uma vez não lembro o motivo, você teve uma crise de choro. Passou uma tarde inteira se esgoelando e ninguém, ninguém sabia mais o que fazer pra você parar! Cabia a lua inteira na sua boca tamanho era o chororô!
Deu uma breve pausa pra rir como se estivesse vendo em slides o que ia narrando, e recomeçou:
Ai então eu falei pro teu pai ‘Me dá essa menina aqui!’ te coloquei nos braços, levei você lá para o quintal e disse que se você, raiozinho de sol, continuasse chorando daquele jeito poderia se apagar sem nem perceber, porque afinal de contas, água apaga o fogo, ora! Você arregalou os olhos pra mim assustados, mas ainda chorando.
Menos, mas ainda chorando, ai pensou, pensou no que eu havia dito e como se chegasse à conclusão de que aquilo fazia sentido, foi parando... Parando... E parou!
Nina parecia agora sob controle. Alguns soluços cadenciados, ainda olhando pra parede da frente, mas seus lábios flexionaram num sorriso muito de leve, semi-imperceptível. Após um breve intervalo o avô continuou:
-As vezes sinto falta de quando você acreditava nas bobagens que eu contava.
-As vezes também sinto falta de quando você me contava as coisas, vô.
 E pela primeira vez seus olhos se encontraram. Ela lhe lançou um olhar bastante significativo, desses de secar pneu de avião, de derreter boneco de cera. Dessa vez, foi ele que não disse nada. Se encaravam indiretamente através do vidro fosco da tela da tevê desligada sob o criado-mudo.
O silêncio tomou conta completamente do quarto como o gelo faz com as paredes de um congelador que não é descongelado há cinco meses. Lá embaixo se ouviam vozes de pessoas conversando animadamente, provavelmente os convidados do jantar chegando.
-Quando você ia me contar que estava doente vô?
-Bom... Levando em consideração que não era pra você ter descoberto, na pior das hipóteses quando eu estivesse próximo de não acreditar mais em nada. Porque eu ainda acredito!
As lágrimas agora lambiam as bochechas de Nina de cima pra baixo como uma cascata morna e pingavam macias no seu vestido cor-de-creme, formando manchinhas escuras.
-Escute meu bem, não é tão sério assim, quer dizer, seria até menos se não fosse a idade! Com setenta e três anos qualquer soluço te dá taquicardia e...
-Descalça! – Ela disse com a voz distorcida pelo choro.
-Descalça?
-Quando o papai... Se foi, foi como se eu tivesse perdido um dos meus sapatos em um dia extremamente quente. E você não me deixou queimar o pé, muito menos parecer uma idiota tentando me equilibrar numa perna só e se você se for vai levar o outro par eu ficarei descalça!
Ele sentiu um rasgão no peito. Uma furada de arpão. Uma picada de maribondo nos olhos. Seu corpo por dentro era um colar de pérolas que acabara de se quebrar e as bolinhas estavam todas doidas, quicando e se espalhando a esmo caindo embaixo de móveis pesados. Não esperava por aquilo. Respirou fundo, engoliu o novelo de lã que estava na sua boca e disse:
-Não diga isso querida! Não diga isso! E a sua mãe? E a sua avó? Não servem nem como meias?
Pôs a mão no ombro da neta e tentou sorrir da própria piada, mas a tristeza estava querendo engrossar.
Ela estava ficando vermelha. Ele branco. Começava a querer se entregar a emoção também, mas o que fazer? Dizer professoralmente: “Ok querida, prometo que não vou morrer!”? A historinha do ‘raiozinho de sol’ pareceria verdade científica perto dessa.
Quando se passa de certa idade inicia-se um bolão velado dos mais próximos apostando quando você vai simplesmente cair duro de cara na terra enquanto agua as plantas. Claro, isso pode acontecer a qualquer hora, assim como pode acontecer com qualquer um, mas depois dos setenta as pessoas vão te acordar de manhã já se tremendo de medo de você não estar mais respirando e isso era insuportável. Era como ensaiar todo dia um pouquinho para o seu próprio velório pra não fazer feio no dia e achava que essa atmosfera nefasta contribuía sim, sem dúvida para adoecer as pessoas, por isso não contou nada a neta nem permitiu que ninguém o fizesse, mas esses jovens fuçam em tudo, descobrem tudo!
Não era balela quando disse que ainda acreditava que era possível se recuperar.  Acreditava mesmo! Sua situação nem era tão ruim assim, somente uma anemia que não cessava já fazia alguns meses tornando seu quadro preocupante. Preocupante, mas ainda não alarmante, ora! Não estava caindo no clichê ‘velho chato’ que ignora sintomas e tenta minimizar tudo pra não ir ao médico. Era um homem esclarecido, moderno. Tomava todos os remédios certinhos, se alimentava bem e não tinha frescuras, lamberia o cu de um sapo se fosse preciso pra ficar bom. Acontece que tudo era questão de esperar. Ou que fossem os remédios fazerem enfim efeito ou que fosse o destino fazer enfim seu feito, e qualquer que fosse o resultado, cara ou coroa, queria fazer isso discretamente, viver normalmente até lá. Inclusive dando um jantar para amigos queridos em saudação às coisas bobas da vida, como era o caso desta noite em que o jantar era em homenagem a uma chuva de meteoros que aconteceria no começo da madrugada.
Só que como explicar isso a uma menina de quatorze anos totalmente em pânico com medo de perder o ‘pai’ outra vez que vai passar sendo que ainda não passou da primeira vez?
E foi ai que ele percebeu em forma de epifania de que o "vai passar" não é para o sentimento. O sentimento não passa nunca! O ‘vai passar’ é para o tempo! E isso é uma certeza tão forte quanto a morte.




Juan Barto