Funcionário do mês

[ CRÔNICAS, CONTOS, POESIA CONCRETA ] [ ILUSTRAÇÕES ] [ FOTOGRAFIAS ] [ VÍDEOS ]
Eu vivo no último andar de mim mesmo. Cobertura com vista para o ar.
Pratos com cores, cores 'com pletas'.
Minhas bordas não são de catupiry e a minha escrita é escrota, mas eu dediquei mais tempo da minha vida pensando em você, do que jamais dediquei a aprender matemática, por exemplo.

------------------------------------------------------------------

A mente humana sempre dando megazords para os nossos medos.
O foda é que o coador não coa a dor.
Pessoas perdidas precisam de luz, assim como as plantas.



juan barto
Alice tinha oito anos e no momento em que pôs o primeiro centímetro de sandália da “hello kittie’ pra dentro do supermercado, soltou mão de mãe, soltou os cabelos da tiara, soltou a franga, saiu correndo feito louca. A mãe ainda disse o clássico “Alice, não corre!”completamente em vão, a essa altura ela já estava há quatro seções dali.
A pequena vinha embalada na corrida, desviando do mar de joelhos adultos que sombreavam seu caminho e raspavam sua testa. Parecia uma floresta de pernas. Vinha eufórica, vinha que vinha e só parou quando avistou o seu objetivo: ‘A boneca Mell Sulivan - Com cabelos de massinha que crescem de verdade’. Alice paquerava, no começo timidamente, mas de umas duas semanas pra cá, descaradamente com essa boneca. Ela era do tamanho de Alice, com olhos castanhos como os de Alice e com cabelos que agora estavam pretos e compridos, mas que com uma rápida tesourada (sem ponta), com a massinha e os cuidados certos, ficariam laranjas, curtinhos e cacheados como os de Alice. Era perfeita e teria que ser dela, embora soubesse que só no natal. E sabia também que ainda faltavam vinte e três dias para isso. Sabia, pois estava contando os dias com risquinhos na parede, igual os prisioneiros na cadeia.
Lá estava ela no seu ritual semanal de babar em frente a caixa da boneca enquanto sua mãe fazia a feira, quando sentiu uma presença ao lado. Era um... Menino de uns dez anos mais ou menos, parado ao lado dela olhando a (sua) Mell Sulivan.
Não gostou. Pela primeira vez na vida sentiu ciúmes de algo que não era seu, como todos nós fazemos o tempo todo, só que com pessoas de verdade.
O menino percebeu o olhar secante de Alice e perguntou na defensiva:
-Quié?
-Nada.
-Hum.
-Você gosta dela? – Perguntou Alice timidamente.
-Gosto de olhar pra ela, ela é tão linda!
Alice percebeu o brilho nos olhos do menino ao falar isso e meio que se viu ali. Foi uma sensação engraçada, mas um engraçado confuso.
-Você não devia estar na parte dos soldados, carros com dentes e facas e outras coisas tontas que se batem e se matam?
O menino olhou Alice por algum tempo. Até ela quase entrar em ebolição de vergonha, e respondeu/perguntou:
-Por que eu deveria estar lá?
-Bom... porque é onde os meninos vão!
-É. Tô sabendo. – Respondeu o garoto com uma mescla de enfado e desdém.
Passados mais alguns segundo de silêncio, Alice faz a social de novo.
-Eu vou ganhá-la. No natal!
-Eu também!
Agora foi a vez de Alice encará-lo por algum tempo até cuspir um:
-Por que?
-Por que não?
Ela não soube o que dizer.
A mãe localizara o alvo “filha” e chegou já pegando pelo braço.
-Já pedi pra você não soltar minha mão e sair assim desembestada entrando nos lugares! E se você se perde? E se alguém te leva?
Enquanto era rebocada pelo braço, Alice e o garoto ainda se olhavam, ela por cima do ombro, nem estava escutando direito as reclamações e os sermões da mãe, até que percebeu uma coisa tão sutil e tão gritante que a fez fazer uma cara engraçada de espanto e sussurrar admirada movendo os lábios em slow motion:
-Você esta usando brilho na boca!
O menino faz a leitura labial e gargalhou, depois sorriu fazendo aquela cara de "dããã" e balançou a cabeça sapecamente que sim.
Alice sorriu de volta enquanto adentra na seção de laticínios conduzida pela mãe.

Juan Barreto

OS TONTOS TENTAM TANTO

O sol é metade estrela e metade flor.
Um monte de gente do mundo do "antes de ontem" falou um monte.
Um monte de ontem do mundo do antes de "a gente" falou na mente, não minto.
E se não falo nada direito é porque minha língua é canhota e inevitavelmente procura o caminho da esquerda, também conhecido como 'o lado do coração'!




Juan Barto
Aquele miojo solitário jogado no canto do fundo do armário existe pra manter a gente humilde e alerta.




juan barto
Não quero mais saber dessas paixões que parecem de carne, mas depois você descobre que são apenas soja.



Juan Barto
-É com um sorriso nos olhos que eu te digo: Eu sem você passo. Você sem mim não passa... de um troço. E só não te meto um tiro aqui, ou melhor, ai, bem no meio dessa tua testa de zinco, não por ti, não por ter dó, porque quem tem dó é violão. Mas por mim. Porque acredito piamente na lei do três vezes, mais até do que em Deus, e não quero que numa bela noite, saindo de um bar feliz por ser sexta feira, um marginalzinho imundo e sequelado querendo meu celular pra trocar por uma pedra de crack, me dê três tiros. Porque a lei dos três vezes faz isso rapaz! É, também sei ser egoísta. E cale a boca que ninguém aqui está falando com você! Estou falando só. Aliás, hábito esse, que adquiri numa das centenas e milhares de noites que você saia pra comer bucetas cruas por ai e eu ficava em casa olhando ora pra televisão, ora pras paredes. Passei a conversar comigo mesma. Sim, eu sabia que você saia pra comer bucetas. Como? Porque eu também tenho uma, idiota! Eu sei sentir o cheiro de homem fedendo a buceta. Ainda mais quando não é a minha! Quer saber? você é uma barata muito feinha e asquerosa. Mudei de idéia. Vou atirar no seu saco e espalhar o seus mini-bostinhas todos pelo chão e depois esfregar sua cara que nem a gente faz com cachorro que mija no tapete da sala. "Aqui não Rex!    
Apontando para o chão - "Aqui não!"
" TÁ ME OUVINDO "REX? AQUI  (Batendo no peito) NÃO! "- Atira.


Juan Barreto
Trocou o coração por um terceiro pulmão e passou a viver bem mais e melhor. A fumar bem mais e sem culpa. Negócio da china.


Ju..Ba..
Deveria existir um marca contexto, também destacando as coisas importantes em verde limão.




Juan Barto

TSC . . .

Domingo de manhã, deitado no tapete caramelo da sala.
Se apalpou procurando o isqueiro e sentiu no bolso direito do calção algo com textura de papel amassado. E era.
"Dinheiro! Achei dinheiro no bolso de um short velho!"
Puxou aquele bolinho retorcido, fraco e quase branco de tantas lavagens, desembrulhou com cuidado e reconheceu de pronto um símbolo. Era um recibo de devolução de uma locadora de dvds que costumava frequentar.
As letras impressas estavam firmes ainda, mas a parte preenchida de caneta estava bastante desbotada, ficara no papel apenas lânguidas vogais e consoantes.
Ele apertou a vista até formar dois risquinhos no lugar dos olhos e constatou aquilo que seu coração já havia se precipitado em dizer com um coice, sim, lá estava a letra desbotada da atendente da locadora, a menina morta.
Seu nome, a data, o valor do aluguel, enfim, essas tecnicalidades, numa caligrafia quase translúcida.
Lembrou dela, tão jovem...
...
A vida deve está enchendo um balão gigante com todo o ar quente que anda roubando dos pulmões das pessoas em momentos como esse.
O acaso é como aquele amigo do amigo do seu amigo que aparece sem ser convidado no seu aniversário. Pode ser que ele te traga um presente espetacular, mas normalmente, esse cara termina derrubando o bolo no chão, tropeçando na caixa de som, vomitando o banheiro todo pra você, aniversariante, ir limpar.




Juan barto