Funcionário do mês

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Alice tinha oito anos e no momento em que pôs o primeiro centímetro de sandália da “hello kittie’ pra dentro do supermercado, soltou mão de mãe, soltou os cabelos da tiara, soltou a franga, saiu correndo feito louca. A mãe ainda disse o clássico “Alice, não corre!”completamente em vão, a essa altura ela já estava há quatro seções dali.
A pequena vinha embalada na corrida, desviando do mar de joelhos adultos que sombreavam seu caminho e raspavam sua testa. Parecia uma floresta de pernas. Vinha eufórica, vinha que vinha e só parou quando avistou o seu objetivo: ‘A boneca Mell Sulivan - Com cabelos de massinha que crescem de verdade’. Alice paquerava, no começo timidamente, mas de umas duas semanas pra cá, descaradamente com essa boneca. Ela era do tamanho de Alice, com olhos castanhos como os de Alice e com cabelos que agora estavam pretos e compridos, mas que com uma rápida tesourada (sem ponta), com a massinha e os cuidados certos, ficariam laranjas, curtinhos e cacheados como os de Alice. Era perfeita e teria que ser dela, embora soubesse que só no natal. E sabia também que ainda faltavam vinte e três dias para isso. Sabia, pois estava contando os dias com risquinhos na parede, igual os prisioneiros na cadeia.
Lá estava ela no seu ritual semanal de babar em frente a caixa da boneca enquanto sua mãe fazia a feira, quando sentiu uma presença ao lado. Era um... Menino de uns dez anos mais ou menos, parado ao lado dela olhando a (sua) Mell Sulivan.
Não gostou. Pela primeira vez na vida sentiu ciúmes de algo que não era seu, como todos nós fazemos o tempo todo, só que com pessoas de verdade.
O menino percebeu o olhar secante de Alice e perguntou na defensiva:
-Quié?
-Nada.
-Hum.
-Você gosta dela? – Perguntou Alice timidamente.
-Gosto de olhar pra ela, ela é tão linda!
Alice percebeu o brilho nos olhos do menino ao falar isso e meio que se viu ali. Foi uma sensação engraçada, mas um engraçado confuso.
-Você não devia estar na parte dos soldados, carros com dentes e facas e outras coisas tontas que se batem e se matam?
O menino olhou Alice por algum tempo. Até ela quase entrar em ebolição de vergonha, e respondeu/perguntou:
-Por que eu deveria estar lá?
-Bom... porque é onde os meninos vão!
-É. Tô sabendo. – Respondeu o garoto com uma mescla de enfado e desdém.
Passados mais alguns segundo de silêncio, Alice faz a social de novo.
-Eu vou ganhá-la. No natal!
-Eu também!
Agora foi a vez de Alice encará-lo por algum tempo até cuspir um:
-Por que?
-Por que não?
Ela não soube o que dizer.
A mãe localizara o alvo “filha” e chegou já pegando pelo braço.
-Já pedi pra você não soltar minha mão e sair assim desembestada entrando nos lugares! E se você se perde? E se alguém te leva?
Enquanto era rebocada pelo braço, Alice e o garoto ainda se olhavam, ela por cima do ombro, nem estava escutando direito as reclamações e os sermões da mãe, até que percebeu uma coisa tão sutil e tão gritante que a fez fazer uma cara engraçada de espanto e sussurrar admirada movendo os lábios em slow motion:
-Você esta usando brilho na boca!
O menino faz a leitura labial e gargalhou, depois sorriu fazendo aquela cara de "dããã" e balançou a cabeça sapecamente que sim.
Alice sorriu de volta enquanto adentra na seção de laticínios conduzida pela mãe.

Juan Barreto