Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Saudade é uma espécie de cegueira.
Você escuta as coisas ao seu redor e até decorou onde elas estão, mas você não consegue vê-las.
Tentar pegá-las no escuro é correr o risco de derrubar e quebrá-las.
Quem provoca saudade
leva um pedaço do outro na bolsa e nem sabe
Tudo meio que vai parar no país dos dentes arrancados.




Juan Barto

to

ROMAIN

“É de manhã bem cedo, a rua deserta. Na primeira hora sinto falta de você...”.

Ele ficava repetindo mentalmente esse trecho de uma música que gostava como se estivesse usando fones intracranianos enquanto abraçava e aquecia a namorada.

Seu olhar de vigília oscilava do totem de malas e mochilas empilhadas nos bancos vazios da parada de ônibus, para a esquina da rua onde a qualquer momento algum ônibus começado por ‘3’ surgiria e a levaria até o aeroporto sendo lembrado para sempre como ícone do fim. Ponto final travoso desse capítulo espumante dessa vida choca. Já o olhar de apreensão dela oscilava da esquina oposta a que ele olhava, receando assalto, para o rosto tenso do namorado que estava em silêncio já há quase dez minutos.

-Que cara é essa, menino? Não vamos desperdiçar esses últimos momentos dando ração pra esse mal estar, né? - Falou ela com uma falsa descontração na voz.

Ele desfocou do poste da esquina para fixar olhos nos olhos.

-Sempre gostei disso em você, sabia?

-Isso o que? - Perguntou ela.

-Sua maneira de perceber e nomear as sensações e os momentos. Essas suas metáforas são certeiras! Por alguns segundos eu vejo a cena por trás dos seus óculos e é gostoso!

-‘Por trás dos seus óculos... ’ Aprendeu bem, eim?

Ele corou e desconversou. Ficou brincando, cutucando carinhosamente o brinco dela com o dedo, deu uma conferida no celular pra checar a hora. ‘Está quase!’- Pensou e sem mais nem menos disparou:

-Você disse que saiu do seu país porque não era feliz lá. Porque você está voltando, então?

(Silêncio ‘soco no abdômen’)

Ela o encarou com legítima surpresa. Dizem que quando estamos pra morrer passa diante de nós o filme de toda a nossa vida. Mentira! Não é quando estamos pra morrer, e sim quando temos que tomar uma decisão ou responder algo importante assim, à queima roupa, no esqueminha ‘um, dois, três JÁ!’ O pensamento à mil. Sua cabeça quase fazendo aquele barulho que os computadores fazem ao ler um cd. Os olhos pareciam estar grudados no zíper do casaco e Romain não tinha força para trazê-los à tona, ainda mais sem uma resposta. Dizer o que? Que por essa ela não esperava, já que tinha certeza que estavam seguindo passo a passo o roteiro taciturnamente pré-estabelecido numa situação de despedida anunciada como a deles?

Os últimos dias tinham sido bem intensos, eufóricos e impulsivos em contraste com as últimas horas que foram totalmente regadas a cólicas melancólicas. Vinham executando desenfreadamente uma rotina onde ambos se dedicavam a criar novas lembranças felizes juntos e retocavam o máximo possível as já existentes. Justamente por ele saber desde o momento em que se conheceram que ela era uma estudante intercambista com prazo de validade impresso no fundo, que Romain não imaginou mesmo que eles passariam por esse tipo de conflito, de questionamento.

-Eu estou indo pra casa! – Mas voz dela era fraca e sem convicção. Estava se esforçando pra não demonstrar que estava prestes a chorar.

(Silêncio ‘cem chumaços de algodão na boca’)

Reforçaram o aperto do abraço e ela aproveitou pra enterrar a cabeça repleta de pensamentos Polaroid no peito dele.

Não pretendia fazê-la chorar, mas tinha a pertinência da indagação, a insistência do sentimento e a urgência da vontade batidas na sua cabeça-liquidificador e não ia beber aquilo tudo sozinho. Sabia que havia esperado demais, literalmente até o último minuto, e agora precisava tentar afinal, e se...? Né?

-“Lar é onde o coração está!” – O mágico de Oz.

-Eu sei!– Falou ela com vozinha abafada pelo choro, pelas dúvidas e pelo peito dele. ‘Covarde, se apoiou no seu livro preferido!’

-Então porque você não fica?

-Eu não sei! – E não sabia mesmo.

(Silêncio ‘sapato apertado’)

Começou a chover.

-Puta que pariu tá chovendo!

-Deixa chover. – Ela retrucou ainda soluçando e fungando - Não foi você quem disse que gostava de banho de chuva?

-É, mas banho de chuva sempre foi pra mim um ícone de coisa boa. Se eu fizer isso agora, nesse contexto, banho de chuva vai virar sinônimo de lembrança ruim por muito tempo.

-Não, não, não! Não é verdade! Estamos juntos e abraçados, como isso pode ser uma lembrança ruim?

Ao ouvir isso foi a vez dele de querer chover e teve que agir rápido com os punhos da camisa servindo como guardanapos. Suas pupilas queimavam! Suas papilas secaram.

Ainda veio a quase responder que apesar da beleza deles juntos abraçados na chuva, o momento viraria uma lembrança ruim porque seria a última. Sendo assim, o gêmeo bi vitelino do ônibus-final. Sempre que chovesse ele iria recordar de como chovia igual no dia em que ela foi embora. Respirou fundo, afastou os cabelos dela do rosto, contemplou aquele rosto vermelho decorando centímetro por centímetro e a beijou na boca. Beijo mais molhado do que a chuva e mais demorado também.

(Silêncio ‘de cera’)

A chuva fez o tipo ‘rápida e rasteira’ e cinco minutos depois já minguava enquanto eles permaneciam confortáveis no encaixe dos pescoços até que ela trincou o blindex daquela quietude nervosa chamada ‘espera pelo final’ com uma pedrada:

-E se eu ficasse?

(Silêncio ‘cobrança de pênalti’)

-Como é que é? – Ele desfez o enlace e a virou de frente pra si.

Ela deu seu sorriso mais limpo, gaguejou com a cabeça que sim, que ele realmente havia ouvido o que ouviu.

- Você tá falando sério?

-A gente fica órfão de alguma coisa a cada cinco minutos, mas quer saber? Se temos o que perder a cada cinco minutos é porque ganhamos algo a cada cinco minutos, caso contrário, não teríamos o que perder a muito tempo... E com você eu sinto que só tenho a ganhar. Aliás, já comecei! Hoje ganhei o dia!

Ele ficou por alguns segundos atônito, incrédulo naquele par de lindos olhos laranja.

Até que o caroço de abacate na garganta desceu e ele pode gargalhar. Riu de alívio, riu de vitória! Gritou um uivo, uivou um grito de gol. Gol aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo!

Ela estava igualmente emocionada. Essa sua atitude em decidir ficar mexeu mais com seu sistema nervoso do que a que teve um ano atrás ao decidir vir. Mais um dia do ‘fico’ proferido por um europeu em solo brasileiro.

A cabeçorra encardida do tão temido ônibus despontou nesse minuto no horizonte, mas sua imagem já não assustava mais ninguém. Romain só pensava que essa data ficaria conhecida pra sempre como "O dia das malas desfeitas" e não via a hora de chegar em casa para de fato desfazê-la espalhando roupas pros lados, jogando as coisas pra cima, virando tudo pra fora sem cerimônia, como fazem as crianças rasgando o papel do presente de natal.



Juan Barto
Se fosse mais pro lado de cá
teria esse raio cortado Cacá em dois cá's.
Não é possível que ao menos um 'cá' não ficasse do meu lado, ou seja, do lado de cá.


Juan Barto
O beck é um farol aceso em alto mar, guiando navegantes exaustos de pedir informações no escuro e nada de chegar aonde querem chegar.
Navegam num barco usando sementes como balas de canhão e belotas como remos.
[Branco dos olhos fumê: Ativar!]

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A vida é um parque 'de versões', um Marlboro sabor baunilha.
Somos um buquê de pimentas e pimentões de todas as cores, com ardências, dormências e urgências dos mais variados graus.




Juan Barto

Era uma escadaria enorme, e toda sexta feira à noite seus degraus abrigavam criaturas sortidas, todas amontoadas em semicírculos, semi circos.
O homem inventou a roda apenas pra poder fumar maconha.
Depois que você passa a ser notívago, você vai ficando insensível ao líquidos e aos gasosos.



Juan Barto