Todo dia que passa é um funcionário que foi demitido.
Todo dia que começa é um novato tendo apenas algumas horas pra mostrar que é bom.
E o dia que sai, antes de bater o ponto, de bater a porta, deixa um bilhetinho na mesa do recém contratado:
"Seja melhor do que eu!"
Juan Barreto
Viver é um processo de despelar todo dia um pouquinho, até chegar no osso.
Ninguém conhece você tão bem como a mobília da sua casa.
Juan
Ninguém conhece você tão bem como a mobília da sua casa.
Juan
Achar um corpo amigo é incrível
Achar o corpo de um amigo é inacreditável.
Beijinhos de aniversário são doces
Aniversário de beijinhos é doce.
O herói sem sua heroina seria só
O 'boy' sem sua heroina, cheira pó.
Sonhar é como passear com cachorro grande
Ou se anda lado a lado ou ele dispara na frente e te arrasta até derrubar.
Juan Barreto
Achar o corpo de um amigo é inacreditável.
Beijinhos de aniversário são doces
Aniversário de beijinhos é doce.
O herói sem sua heroina seria só
O 'boy' sem sua heroina, cheira pó.
Sonhar é como passear com cachorro grande
Ou se anda lado a lado ou ele dispara na frente e te arrasta até derrubar.
Juan Barreto
Sábado, hora do almoço. Dois quarteirões inteiros me separam do restaurante mais próximo. Sinto-me um lagarto embaixo de uma rocha no meio do deserto, tendo que sair pra comer, apesar de tudo estar inundado de claridade e calor lá fora. É morrer lá de uma coisa ou aqui de outra.
Agora sou o oitavo de uma fila de oito. Numa mão um prato, na outra o cartão de crédito, na cabeça frases feias e ofensivas direcionadas ao caixa lento, na camiseta frases de Mário Quintana. Eu sou um cínico nato.
“-Ótimo! Churrasco frio num dia quente!” - Penso irritado.
Me acomodo numa mesa simpática. Sua superfície é amarela com pintinhas pretas. Parece um maracujá, parece uma banana, enfim. Lugares com uma grande circulação de pessoas como lanchonetes e rodoviárias, são uma ótima oportunidade de exercitar sua audição seletiva.
Mesa da frente. Duas garotinhas. Uma deve ter uns seis anos, a outra uns quatro.
Estão comendo sushi como quem come uma bolacha, A pequena peça de arroz parece um disco de hóquei em suas mãozinhas. A mais velha molha o sushi no molho shoio. A mais nova ao perceber isso, faz uma cara de assombro e alarde.
4 anos – Vivííííi... Você molhou seu bolinho ai?! Isso é sangue de peixe morto!
6 anos ( Que tinha acabado de enfiar um sushi inteiro na boca, para de mastigar e responde com a voz embargada) - É não!
4 anos (Olhos arregalados e fazendo voz de mistério) - É claro que é!
6 anos (engolindo levemente desconfiada) - Não é! (termina de engolir com ar de desafio) - Não é sangue de peixe morto!
4 anos apenas encara com repulssa.
Uns 10 segundos de encarada
6 anos (num muxoxo de choro) - Pare!
4 anos (Dando a risada mais gostosa que eu já ouvi) –Há, há, há. É nãão! Mas você pensou que era!
Que coisinha fofinha e malígna.
6 anos (Chegando mais perto da outra e diminuindo o tom de voz) - Vamos colocar isso no copo da Bia pra ela pensar que é coca cola??
Que coisinha mais fofinha e mais malígna.
4 anos (extasiada) – Vaaamo, vai, bota, antes que elas venham!
Elas enchem um copo descartável ate a borda de shoio e voltam a comer seus sushis com a naturalidade dissimulada de um espião russo. Em poucos minutos a mãe, que estava na fila pagando a conta, volta à mesa com seu pratinho e a filha mais nova, de uns três anos.
A mais nova percebe o copo de “coca”. Minha comida, claro já estava gelada como um cadáver há muito tempo, mas quem se importa? Eu quero é ver o fim disso.
Uma sensação incrível se apodera de mim. A de saber que a merda vai acontecer, saber que tenho o poder de evitá-la, mas simplesmente prefirir esperar e observar pra ver o que vai acontecer, porque é tão mais divertido!
Nossa, deve ser assim que Deus se sente!
3 anos – Co-ca!
Três pares de olhinhos brilhosos pousam ávidos e ansiosos em cima da de três anos como se fossem miras a laser. Os das duas irmãs e os meus, a uns dois metros atrás. Eu a essas alturas já sou cúmplice total.
Momento de suspense. Parece pênalti para o Brasil. É agora! Duas mãozinhas rosa-gordinhas erguem o copo da mesa...
Mãe - Onde vocês conseguiram essa coca? Eu não comprei refrigerante!
A mãe enquanto fala, toma o copo da mão da pequena que já ia a meio caminho da boquinha e o cheira. Farsa desmascarada. Enquanto escutam o sermão, a de 4 e a de 6 se olham com aquele olhar ardido furioso de “quase “.
Se olhassem pra trás veriam a mim também frustrado dando um soquinho discreto no tampo da mesa igual a um técnico depois de uma derrota de seu time.
Aproveito pra mudar de canal, afinal, um homem adulto encarando menininhas de seis anos é muito, muito suspeito. Na mesa a minha esquerda tem um gordo com cabelo moicano e camiseta do “Sistem of Down”, mas de seus fones altíssimos eu posso ouvir um sucesso antigo da Celine Dion. Me deu vontade de chamar a mãe da mesa da frente e dizer “Desmascare aquela farsa ali também Sherlock!”. A minha direita há uma velha senhora de cabelo curto e um semi-topete acajú que me lembra bastante o pica-pau. Ela fala alto no celular, visivelmente irritada: “Quando eu chegar em casa quero minha piscina limpa Ramon, não me importa como!”
Atrás de mim escuto um “pim” de microondas, que é o que de fato estou precisando agora. Levanto-me e peço pra moça de redinha no cabelo que, por favor, esquente meu prato. Ao voltar pra mesa, por via das dúvidas, ponho meu óculos escuros.
Juan Barreto
Agora sou o oitavo de uma fila de oito. Numa mão um prato, na outra o cartão de crédito, na cabeça frases feias e ofensivas direcionadas ao caixa lento, na camiseta frases de Mário Quintana. Eu sou um cínico nato.
“-Ótimo! Churrasco frio num dia quente!” - Penso irritado.
Me acomodo numa mesa simpática. Sua superfície é amarela com pintinhas pretas. Parece um maracujá, parece uma banana, enfim. Lugares com uma grande circulação de pessoas como lanchonetes e rodoviárias, são uma ótima oportunidade de exercitar sua audição seletiva.
Mesa da frente. Duas garotinhas. Uma deve ter uns seis anos, a outra uns quatro.
Estão comendo sushi como quem come uma bolacha, A pequena peça de arroz parece um disco de hóquei em suas mãozinhas. A mais velha molha o sushi no molho shoio. A mais nova ao perceber isso, faz uma cara de assombro e alarde.
4 anos – Vivííííi... Você molhou seu bolinho ai?! Isso é sangue de peixe morto!
6 anos ( Que tinha acabado de enfiar um sushi inteiro na boca, para de mastigar e responde com a voz embargada) - É não!
4 anos (Olhos arregalados e fazendo voz de mistério) - É claro que é!
6 anos (engolindo levemente desconfiada) - Não é! (termina de engolir com ar de desafio) - Não é sangue de peixe morto!
4 anos apenas encara com repulssa.
Uns 10 segundos de encarada
6 anos (num muxoxo de choro) - Pare!
4 anos (Dando a risada mais gostosa que eu já ouvi) –Há, há, há. É nãão! Mas você pensou que era!
Que coisinha fofinha e malígna.
6 anos (Chegando mais perto da outra e diminuindo o tom de voz) - Vamos colocar isso no copo da Bia pra ela pensar que é coca cola??
Que coisinha mais fofinha e mais malígna.
4 anos (extasiada) – Vaaamo, vai, bota, antes que elas venham!
Elas enchem um copo descartável ate a borda de shoio e voltam a comer seus sushis com a naturalidade dissimulada de um espião russo. Em poucos minutos a mãe, que estava na fila pagando a conta, volta à mesa com seu pratinho e a filha mais nova, de uns três anos.
A mais nova percebe o copo de “coca”. Minha comida, claro já estava gelada como um cadáver há muito tempo, mas quem se importa? Eu quero é ver o fim disso.
Uma sensação incrível se apodera de mim. A de saber que a merda vai acontecer, saber que tenho o poder de evitá-la, mas simplesmente prefirir esperar e observar pra ver o que vai acontecer, porque é tão mais divertido!
Nossa, deve ser assim que Deus se sente!
3 anos – Co-ca!
Três pares de olhinhos brilhosos pousam ávidos e ansiosos em cima da de três anos como se fossem miras a laser. Os das duas irmãs e os meus, a uns dois metros atrás. Eu a essas alturas já sou cúmplice total.
Momento de suspense. Parece pênalti para o Brasil. É agora! Duas mãozinhas rosa-gordinhas erguem o copo da mesa...
Mãe - Onde vocês conseguiram essa coca? Eu não comprei refrigerante!
A mãe enquanto fala, toma o copo da mão da pequena que já ia a meio caminho da boquinha e o cheira. Farsa desmascarada. Enquanto escutam o sermão, a de 4 e a de 6 se olham com aquele olhar ardido furioso de “quase “.
Se olhassem pra trás veriam a mim também frustrado dando um soquinho discreto no tampo da mesa igual a um técnico depois de uma derrota de seu time.
Aproveito pra mudar de canal, afinal, um homem adulto encarando menininhas de seis anos é muito, muito suspeito. Na mesa a minha esquerda tem um gordo com cabelo moicano e camiseta do “Sistem of Down”, mas de seus fones altíssimos eu posso ouvir um sucesso antigo da Celine Dion. Me deu vontade de chamar a mãe da mesa da frente e dizer “Desmascare aquela farsa ali também Sherlock!”. A minha direita há uma velha senhora de cabelo curto e um semi-topete acajú que me lembra bastante o pica-pau. Ela fala alto no celular, visivelmente irritada: “Quando eu chegar em casa quero minha piscina limpa Ramon, não me importa como!”
Atrás de mim escuto um “pim” de microondas, que é o que de fato estou precisando agora. Levanto-me e peço pra moça de redinha no cabelo que, por favor, esquente meu prato. Ao voltar pra mesa, por via das dúvidas, ponho meu óculos escuros.
Juan Barreto
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