Funcionário do mês

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OLÍVIO

Olívio ia passando meio bêbado pela rua da luz verde, uma viela estreita de calçamento de pedra ali no centro onde funcionavam um total de oito bares, todos ombrinho com ombrinho, cada um com uma luz fluorescente verde na fachada dando às vezes a sensação de que você estava dentro de uma garrafa de guaraná. O simbolismo era deixar todos homogeneamente verdes, num semi-obrigatório “somos todos iguais”.

A zona boêmia da cidade era um bom lugar para pessoas más.

Tinha gente, tinha músicas, tinha líquidos, sólidos e gasosos.

Foi pairando, cumprimentando conhecidos e conhecidas, convencidos e convencidas, até que passou em frente ao 'Odilô’, seu bar preferido e viu um 'Del rey' escuro parado em frente. Encostado no del rey/um ruivo/encostada no ruivo/sua irmã!

Resolveu dar um alô, mas antes que chegasse bastante perto a viu entrar no bar.

Ainda pôde ouvi-la perguntar já quase da porta: "Ruth, cerveja ou caipirinha?" e achou que ela estivesse se referindo a alguma amiga por perto, mas para sua surpresa foi o ruivo quem disse "Whisky!", e ela "Got it!" e entrou sem perceber o irmão.

Olívio enfim se aproximou do carro e perguntou endireitando a mochila nas costas.

-Ruth? Sério que teu nome é Ruth?

O ruivo, todo de preto, agora mais deitado do que de fato encostado no para-brisa do carro deu uma tragada silenciosa no cigarro e fez que sim com a cabeça com aquele entusiasmo impaciente de quem explica uma coisa pela septuagésima sexta vez na mesma semana.

O outro o olhou por alguns segundos com uma expressão que oscilava entre a desconfiança e o espanto típica de quem analisa se está sendo vítima de uma pegadinha, mas cogita a hipótese de não estar e ainda não se decidiu por qual das duas opções pedir a Deus pra ser.

Aproveitou que o ruivo expirava e espiralava a fumaça azul claro pra cima e insistiu:

-"Rutê" ou "Rutxi"?

- É Ruth mesmo, cara! Eu sei, é um nome geralmente usado por mulheres, acontece que...

-Geralmente!?

Ele ignorou a interrupção e continuou elevando sutilmente a voz "-... É um nome alemão e em alemão é unissex, ok? Como aqui nós temos: Cris, Rafa, Dani, Fê... se bem que homem chamado de Fê é meio gay!".

-É, que nem Ruth! - Disse provocativo.

-Você é muito atrevido pra alguém tão magro sabia? - disse o ruivo jogando o cigarro numa pocinha de lama rente ao meio fio que fez 'tsssss' remetendo estranhamente a um gongo. Mas Ruth sorriu e balançando a cabeça como quem constata algo, enquanto limpava os óculos de aros grossos na barra da camiseta.

-Olívio! Irmão da Olívia - Se apresentou estendendo a mão em cumprimento.

-Eu sei quem é você rapaz! Sou Ruth, namorado dela, pô! - Falou correspondendo o aperto de mão.

-Nossos pais tiveram medo de ousar!

-Diferentemente dos meus, hahahaha!

-Eu me liguei quem era você pela marca do carro.

- E eu pela mochila vermelha.

-Você consegue distinguir alguma cor nessa rua além de verde?

- Bom, a língua afiada ajudou a reconhecer também! Tu é tua irmã, cara! O temperamento... Muito parecido!

-Desconfie de quem ainda for bonzinho depois de uma hora da manhã, Ruth. – E se encostou na porta do passageiro, ficando de frente para o bar.

-Por quê?

-À uma hora da manhã não tem mais ônibus avulso pra voltar pra casa, quem tinha que estar bêbado já está bêbado e quem tinha que pegar alguém já tá pegando! Quem resolveu ficar não tem mais porque fingir.

Ruth sorriu.

- Sua irmã entrou ai e está demorando demais. - Disse endireitando o corpo e se apoiando no capô pra esticar o pescoço e espiar o interior do bar apinhado de gente e de jazz antigo.

-Esse bar tem espelho, não se preocupe. É normal, acredite em mim.

-Os banheiros químicos não tem espelhos por esse motivo, sabia? Por causa das mulheres. Tem que ser jogo rápido!

-Ah, mas vou te falar que no banheiro da universidade não tem espelho e eu fico putaço!

-Eu também, cara! Homem tem que ser feio, fedido e asqueroso? Não pode ter vaidade? Não pode ter vaidade! Não pode querer ajeitar a porra do cabelo.

-É, isso é uma bosta. Me dá um cigarro?

-Toma.

-Minha relação com o cigarro é muito superficial, é coisa da boca pra fora, saca?

-Hahahahahaha

-Hahahahahaha

Olívia chegou com um copo de dose numa mão e "feijõezinhos brancos" discretamente (segundo ela mesma) na outra, e abriu o sorriso e os braços quando viu o irmão.

-Hey, hell boy tá chegando ou tá saindo?

-Tô em órbita.

-Sua cara! Já tá ai de papinho com o Ruth né? Eu sabia que não podia unir vocês! Vocês vão se dar bem demais e eu vou ficar sobrando!

-Até a vovó já o conhecia, menos eu! Mas eu prometo não ser um play station no seu namoro.  

-Muito nobre de sua parte. Uma vez eu tava no supermercado com a mamãe e encontramos uma amiga minha que tinha me visto ficando com o Ruth um dia antes, dai ela me perguntou na frente da mãe como era o nome da "figura" que eu tava me agarrando na festa. Ela usou essa palavra: "Figura"! Ai eu bem "nem me ligando" respondi: "É Ruth!". A mamãe quase morre do coração achando que eu era lésbica. Segurou-se na prateleira dos figos e quase despencou dura no chão, hahahahaha.

Eles riram de se dobrar por alguns minutos. Aquele riso convulsivo visceral que você chora e fica falando fino.

Olívio encontrou uma galera conhecida, afinal, naquela cidade pra que isso acontecesse era só ficar parado. Você não tinha escolha, ou você encontrava a galera ou a galera encontrava você. Dali cada um seguiu seu rumo dentro do mundo que era aquela viela. Seguindo aquele ritual rapel que se faz necessário quando se está num lugar com muita gente conhecida, só escalando de rodinha em rodinha, intercâmbio cultural, eles ainda se cruzaram mais três vezes no decorrer dessa noite.

Fragmentos da primeira cruzada: 02h39min a: m/rodinha na  caixa do correio da esquina da rua paralela/A fumaça agora é agridoce.

-Nem vem! "Ruth" não tem masculino, cara! Teus pais não te deram chance! Nem que fosse "Rutho", ai pareceria nome de cachorro. - Disse Olívio rindo e arrotando fumaça.

-Acho que alguém por ai sente falta de ter um irmão mais velho pra implicar! - Disse Ruth pegando o beck da mão de Olívio enquanto a roda dava risadas e fazia "uhúúús".

-Meu irmão é que nem um apelido chato, só pega se você se importar. - Disse Olívia.

-Tá, parei! Não precisam chorar!

-Ai galera, cada um dá só um pega pra acabar logo que essa rua é meio sujeira! - Falou uma gordinha asiática usando uma camiseta do "Roger Rabbit" que ficava olhando apreensiva a cada dez segundos para as duas esquinas pra ver se não vinha ninguém.

-Meio sujeira porque ainda tá cedo, espere só mais um pouquinho que ai sim ficará completamente sujeira! - Falou alguém e foi logo seguido de gargalhadas.

Fragmentos do segundo encontro: 03h22min a: m/Ante salinha de 3x3 passos que separava o banheiro do resto do bar. Olívia encostada na parede esperando que o mesmo desocupasse. Nesse momento sai Olívio do banheiro masculino que ficava ao lado.

-Ateu acredita em sorte? - Pergunta ele lavando as mãos olhando pra ela através do espelho em cima da pia. - Tava pensando nisso.

-Agora?

-Outro dia, e agora... Agora.

-Rapaz...

-Seria irônico, não?

-É, seria muuuito irônico!

O reflexo de Olívio sorri pra ela.

A moça que estava no banheiro feminino sai e passa por eles dando um sorriso e uma sobrancelhada pra ela e uma mexida de cabelo pra ele (e nós sabemos que mulher quando mexe no cabelo significa algo! O quê? Nós não sabemos) e saiu ante salinha à fora à passos trincados. Era uma loira magra, mas de pernas grossas que brotavam de um vestido preto curto. Estava cheirosa e cheirando. Olívio olhou dessa vez não pelo reflexo, olhou de verdade, olhou com gosto, no sentido mais sinestésico da palavra e pensou “Se meus olhos tivessem mãos, eu nunca mais poderia sair de casa”.

Xingou por não ter toalhinhas de papel, secou as mãos no jeans da bunda e já ia ganhando o mundo também quando a irmã falou:

-Hey, psiu, tu vai pra onde? Vamo aqui com a gente "gatxiinho". - E pôs o indicador direito numa narina e aspirou forte com a outra e deu uma piscadinha aliciante como sendo a cereja desse sorvete de ginástica facial. Olívio sorriu malicioso como o Grinch e perguntou "A gente?" e ouviu um "Entra logo, viado!" abafado vindo de dentro do banheiro feminino. Era Ruth que já estava lá dentro alojado dando uma de barbeiro com seu espelhinho e sua gilete.

Entraram e enquanto procuravam se acomodar no pequeno ambiente, por um segundo sem que essa sensação fosse compartilhada, os três se sentiram numa cabine telefônica em Nova York. Função: func-func.

Terceiro fragmento da data: 05h05min a: m/Saindo da rua da luz verde que a essa altura estava laranja por conta do nascer do sol/Dentro do del rey  tudo azul!/'Obrigado, branco!'/Essa era a verdadeira trilogia das cores/Missão: Voltar pra casa.

-Quem era aquela loira que tava no banheiro contigo antes da gente entrar? E eu torcendo pra que ela estivesse com vocês! Ela era bonita e tava muito doida. Adoro pessoas bonitas e muito doidas ao mesmo tempo. - Disparou Olívio ainda elétrico tirando os tênis, depois as meias e massageando as solas dos pés que estavam quentes de tanto ficar em pé.

-Aquela "loira" meu jovem, é minha irmã! – Disse Ruth enquanto deixava o centro da cidade pra trás. - E ela fez apenas aquela... ‘Intervenção artística privé’ comigo e depois foi curtir ai com as amigas dela no bar do ‘Pardão’.

-Tá achando que só tu que pode ter irmã gostosa, é? - Disse uma Olívia já toda aninhada no banco da frente.

-E como seria o nome dela? Carlos?

-Acredite ou não, o nome dela é Lívia.

-É sério isso? Um homem chamado 'Ruth' que tem uma LÍVIA, que namora uma OLÍVIA que tem um irmão chamado OLÍVIO? Coincidência tem limite, gente!

-E quando esse cara ruivo ainda dirige um carro vermelho?

E agora foi a vez do reflexo fungante do motorista de capacete de rubi dar uma piscadinha zombeteira pelo espelhinho do para-brisa.

Breve silêncio de epifania no banco de trás. Apesar de ter entrado no carro já com dia claro, só agora com a testa encostada no vidro frio da janela é que Olívio se dera conta de que a porra do Del Rey era vermelho bombeiro, do mesmo tom de vermelho da sua mochila. Por isso que a porcaria do ruivo sabia diferenciar o que era vermelho em meio aquela áurea esverdeada.

-Caralho, doido! Quem são vocês, quem somos nós?!

E riram. E puseram pra tocar R.E.M no som, e o barulho do pneus ralando no asfalto das ruas ainda silenciosas de domingo cedinho deixaram esse começo de manhã com xiadinho charmoso de vinil.

Tem noites que são como filmes de terror, você só está à salvo quando amanhece, mas outras não, outras são assim mais como tirinhas de jornal. Um, dois, três quadros que contam uma história engraçada e puf, acabou!




Juan Barto

Peixinhos e peixinhas, não aceitem viver em aquário de barro.
Que dá pra viver dá, mas vocês vão perder a vista e isso é perder um bocado.
Nem toda mudança é mundana ou modista.





Juan Barto






Cortaram as asas da imaginação com a tesoura cega que as pessoas que não enxergam direito aquilo que não julgam direito usam para aparar suas amarras, suas unhas e seus pelos do nariz.
E não estão nem ai para os seus jardins.
Essa miopia seletiva, esse daltonismo afetivo...
Ainda estou na puberdade mental, meu cérebro ainda tá mudando de voz, deve ser isso.
A vida é uma viagem e como em toda viagem, a gente faz paradas pra cagar.
Fazer merda sempre esteve no roteiro, não se desespere, mas não abuse, não foi pra isso que saímos de casa e pegamos a estrada.
O mundo anda com febre, mas tem calor que só passa com mais calor.
Ah o calor! Ressecou meus lábios, ressecou meus cotovelos e ressecou teu nome, que estranhamente tinha ligação com ambos, beijando o primeiro e doendo o segundo.
Segundos que doem seguidos.
Segundos são moedas de cinco centavos que a gente não liga de guardar, mas que farão falta na hora de dar o troco.
Eu só queria matar o tempo e fazer parecer um acidente, assim como o fato da terra ser a lua da lua.




Juan Barto




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'SEE YOU ME?' TENHO!

No jogo, quem bate ganha.
No amor, quem bate esquece.
Na rua, quem bate morre.
O que ninguém sabe, é que os castelos de areia tem raízes e os reis tem varizes de tanto ficar em pé, de vigília esperando amar(é).

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Se calibra um ego injetando importância diretamente na veia.
Eu te dei e você me dói.
Tire o silicone do despeito e corra do rancor-ra do rancor-ra do rancor....
Eu sou igual a Veneza, todo ano ruindo um centímetro, mas sem fazer nenhum ruído.
Posamos para as fotos com nossos sorrisos de paralelepípedos cinzas e tortos.





Juan Barto
Com barba me levam à mal, sem barba não me levam à sério.
Ah, me leve ao louvre, que Deus me livre de nunca ir.
Deus me ajude a num cair.
Deus me "leave" que você me "leave"
Me leve ao (PE) da letra, não tenha medo da BR.
Pessoas superlativas de espírito e seus sorrisos musos, 'amuse' e use me, porque eu quero mais um, mais um, mais zoom!


juan


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O homem veio pra preencher o vazio da terra, mas ultimamente ele só faz acentuar cada vez mais isso.
Falando nisso,o mundo é azul devido a tanta tinta de caneta que já gastei com você.
Falando disso, você nem sabe que o "você" é você.
As pessoas que não deixam o passado coagular, são as mesmas pessoas que acham que se deixar o coração aberto, o gás escapa e a paixão fica choca.




Juan Barto



Não tenho pra quem ligar agora, por exemplo, pra dizer:
"Acorda! Acorda! Colocaram uma manhã inteira cor-de-pêssego no meu prato e eu não sei se dou conta de comer tudo sozinho, pensei se você não gostaria de dividir comigo..."
Entusiasme-me sem mi-mi-mi.
Quero sentir outra vez que jogaram Sonrisal no meu sangue.
Não aceito ser o degradé da sua cor, quero ser cor também!
Chega de derivados. Quero a essência.

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Juan Barto
 Beau (nito)
                                                                  

Egossistema.

A importância que você dá a mim é a importância que você dá a 'nós', mas ande, me 'ostracisme'. pode me 'ostracismar'!
As pessoas implicam com o tempo, ele se defende:
"Estou só passando!"

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Ser feio é contornável
Ser bonito é questionável.

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'Abraço' é uma palavra com cheiro de amaciante, cheiro de roupa limpa.

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Perdi minha caneta ontem na praia.
Tsc, deixa. Fica pra Iemanjá anotar os pedidos.




Juan Barto
E a luzinha laranja brotou do chão da tela do computador, assim do nada.
>>Ivanovic diz: [Ei 'Giba', me bloqueou mesmo?]
Puta que pariu, ela havia esquecido que durante o namoro ele havia abandonado o antigo msn e feito um novo e ela simplesmente adicionou o outro sem excluir/bloquear o um.
'Ivanovic', esse antigo apelido já há certo tempo em desuso marcou uma época. Assim como essa época também já há certo tempo em desuso a marcou. Estalou os dedos, que é a maneira que as mãos tem de respirar fundo e digitou:
>>Virgínia diz: [Tentei né?] 
>>Ivanovic diz: [Posso saber o motivo disso? ^^]
>>Virgínia diz: [Pooode, claro. Eu não quero mais conversar com você]
Ela ficou esperando a réplica que estava por vir e ela sempre vinha. A réplica SEMPRE vinha. Dito e feito. Lá estava o retângulo relâmpago pulsando em silêncio ao pé da tela como batidas na porta em braile.
>>Ivanovic diz: [Posso saber o motivo disso também?]
>>Virgínia diz: [Não, porque pra isso teríamos que conversar, e eu não quero mais conversar com você. ;)]
>>Ivanovic diz: [E eu achando que o problema era justamente a falta de comunicação]
>>Virgínia diz: [Ah, e era, mas isso também já era!]
(Dedos britadeiras. Não sabia se dava mais ênfase no 'também' ou no ‘já era!’)
O coração é que nem cachorro, se agita quando deveria ficar quieto só pra constranger o dono. Ela atirou a flechinha do cursor sobre o 'x' cinza que demarcava o tesouro. Tesouro sim, afinal, silêncio é de ouro, e clicou.
Fez com que 'Não fosse possível enviar ou receber mensagens de ‘Ivanovic’ porque você bloqueou esse contato. '
 (Má)goa.
Não falar com alguém que você está morrendo de vontade de falar é uma força de vontade que quanto mais você se gaba de ter, mais fraco você se sente. Orgulho é um conselheiro forte, porém burro, porém forte. Sabia que essa linha de raciocínio estava meio emaranhada, mas seres humanos fáceis de lidar geralmente são aqueles que não são muito expressivos, assim como os sentimentos. Optou pela sabedoria popular:
“O que não tem remédio remediado está”.
O celular começou a vibrar em cima da mesinha fazendo um barulho assustador de broca e dispersando algumas formigas que se apossavam de uma caneca com resíduos de gotículas de suco.
Se fosse publicitária criaria para as empresas telefônicas o slogan:
"Incomode o outro sem sair de casa por apenas quarenta e dois centavos!"
Abriu a mensagem já bufando. Maldita tréplica!
>>>’Tchau’ ainda se usa em alguns países da América do sul...<<<
'Ivan, para seu azar, os dois lados dessa minha personalidade bipolar resolveram unir forças contra você' - Pensava ela.
A evolução do homem nos deu os benditos polegares opositores certamente pensando em nos preparar pra um futuro onde o homo sapiens teria que resolver assuntos digitando letras freneticamente num teclado ridiculamente pequeno.
>>>Em quantas mídias eu vou ter que te ignorar pra você se mancar, seu babaca? ‘Tchau’ o caralho... É Adeus!<<<
Pensou em mandar essa SMS e na mesma hora caiu em si e se sentiu ridícula porque responder já não era ignorar. Percebeu que estava fazendo tudo errado! Vinha o expulsando há meses da sua vida, mas da maneira errada! Não precisava da consulta dele pra tomar a decisão de afastá-lo. Muito menos da sua compreensão. Não quer compreender não compreenda, mas vá ‘não compreender’ bem longe e isso não era um pedido, era uma ordem. Uma ordem de despejo! A reação dele era a reação natural de quem recebe um aviso prévio de desocupação, a negação era sempre o primeiro estágio. A cara de pau dele tinha farpas no lugar da barba e ela queria lixá-la, linchá-la!         Não podia deixar a última palavra ser dele, ainda por cima uma pilhéria daquela!
Não podia, não queria, mas deixou.
Deixou-o.


Juan Barto
Nossos caminhos são cheios de curvas dramáticas com ervas daninhas, que não dá pra fumar, crescendo no acostamento.
Antes eu achava que dava pra ganhar sozinho, hoje eu acho que  estar sozinho já é perder.
E se embrulhar em papel de presente não significa estar presente.
Existe uma coisa verde que você deve inspirar profundamente e segurá-la em seus pulmões o máximo que puder: Esperança.
Cruzar os dedos e torcer sim, mas cruzar os braços e sentar não, porque não adianta de nada!
Corta o efeito da torcida.



Juan Barto
Essa sala já mudou tanto de decoração, no entanto, de coração, sem nunca deixar de ser minha sala.
Agora as flores caíram e lhe caíram muito bem.
Anything de quente on sertão the Caathing...
Something!
'Some, coisa!'


Juan Barto
Como uma camisa da C&A, que sai da loja extasiada, se achando única, até virar a primeira esquina e se deparar com mais trinta e cinco exatamente iguais circulando por ai.
Se perceber ingênua e boba foi de murchar as mangas.




Juan Barto
Cansei de escrever falas, vamos falar sobre palavras.
Palavras são tatuagens de rena no papel de pele branquinha de quem não vai à praia.
Ser sumariamente ignorado quer dizer o que? Que a pessoa vai te apontar o número da página que tem explicando o porquê dela te desprezar?
A placa na cerca diz: "Perigo, alta vontade! 200.000 'whats' (à serem respondidos).
O mudo discordou do ponto de vista do cego, que por sua vez gaguejou no olhar.
O amor é lego.
Domingo é o dia que Deus não fez questão e nem faz.
Ele não descansou, ele desistiu. E se não fosse essa chateação o mundo era pra ser bem mais.
Mas sentimento é assim mesmo. Mostrou monstrou.
Ser humano deveria vir com exaustor e porta copo.
Passe com o para-choque por cima das pessoas 'para-brisas'.
Não te vejo em parte alguma, em porta nenhuma.
Nunca esses retângulos de madeira pareceram tão pouco interessantes quanto os ôcos de sua presença, mas prefiro acreditar que nada está perdido, está apenas mal procurado.
Um bom café dura o tempo de uma conversa
Uma conversa ruim dura o tempo de um café.



J. Barto
Manhã de vento frio baforando secamente seu hálito de halls preta nos cabelos e saias das pessoas. Nuvens borrifando água aqui no térreo não chegando a ser chuva nem nada demais, só aquela camada fininha de garoa que fica pinicando o suficiente pra incomodar e atrapalhar.
Numa partezinha coberta do pátio, sentados num chão meio úmido daqueles que deixam a bunda fria dando a impressão de estar molhada, entre uma aula e outra, dois amigos bebericavam café com leite aos pouquinhos em canecas de louça enquanto fumavam.
-Você já olhou pra alguém indo embora da sua vida e teve aquela mesma sensação de estar perdendo o último ônibus da madrugada que passa na sua casa?
-Já! A sensação de perda é muito parecida mesmo. Aquele caos que termina num nó de gravata elétrico que vai te apertando o gogó, e te apertando, e apertando...
-O coração acumula muito catarro.
Ele ouviu aquilo e ficou assoprando seu café em silêncio por alguns instantes antes de perguntar:
-Como é que se tosse com o coração?
-Acredita que até hoje eu não descobri?
-Nossa, e ai? O que se faz?
-Ficou preocupado, cara?
-Claro! Digo, um pouco sim, claro! Como não me preocupar? Porque, se vão acumulando impurezas, e o coração acumula impureza pra cacete...
-Pra cacete!
-... Então o coração de um amante termina preto, igualzinho ao pulmão de um fumante.
-Pior! Porque eu, pelo menos, conheço pessoas que mesmo com toda a luta e o esforço, conseguiram deixar de fumar. Já deixar de amar não acontece nem com o caralho.
-Nem com o caralho!
-É que tem vezes que Deus tira o dia pra praticar 'bulling' com a gente.
-Isso tudo começou com você falando sobre perder não foi?
-Era mais sobre deixar passar.
-Não seria a mesma coisa?
-Não. O 'deixar passar' acarreta o bônus amargo da burrice e da displicência. Perder não necessariamente é culpa nossa. Quem perde pode ensaiar mais, praticar mais até o novo confronto, já o ‘deixar passar’ compromete até a reaproximação. Pode atrair rejeição.
-E o perdão?
-Perdeu!
-Isso tudo tem a ver com a ‘Beauty Queen do botequim’?
-Sim.
-Que gostava de você?
-É.
-E que você não gostava?
-Isso.
-Mas pelo visto agora gosta?
-Gosto.
-Ela sabe disso?
-Não.
-Por quê?
- Hum...
Não existe um monossílabo pra responder isso, heim?
(...)
Som ambiente: Cigarras. Vapores e fumaça roçando nas pernas dos dois que nem gato.
Uma lágrima solo ameaça mergulhar reta em direção ao solo, mas ao chegar à borda do trampolim desiste. Tudo bem, o amigo não viu. Alívio. Sorte que homem não conversa olhando nos olhos. Decide quebrar o silêncio antes que fique constrangedor, mas foi o amigo que tornou a falar retrucando levemente provocativo, pousando a caneca verde abacate de lado por um instante.
 - O ser humano é realmente uma BR esburacada. O problema é que aguar rosas com lágrimas é ridículo! Qualquer imbecil sabe que sal faz mal para as plantas.
Pausa literalmente para o cafezinho. Pensamentos girando em sentido anti-horário.
-Só os imbecis que já tiveram plantas.
-Quem nunca teve planta é imbecil.
(...)
 -Sinceramente, nunca imaginei que gostasse tanto, que fosse sentir tanta falta dela assim.
-Nem ela!

juan barreto

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Era olhar pra ela passando, que ele sentia seu peito se contraindo por dentro, fazendo barulho de latinha de refrigerante amassando.
Deus, como é longe sair de dentro pra fora!
Ainda por cima esse céu choramingando o tempo todo.
Se sentia um sofá remoendo seus estofados depois que todos na casa finalmente desligavam a tv e iam dormir.
Lembrei que quando nos beijávamos, era o único momento em que os nossos narizes tinham pra ficar olhos nos olhos.




Juan Barto

AMOR(TO)

A criança quando perde o seu primeiro dente de leite, percebe assustada que a vida a partir dali não será fácil.
Elas crescem e os dentes crescem também.
O adulto quando perde o seu primeiro amor, percebe assustado que a vida a partir dali não será a mesma.
Amor é como um dente definitivo, se cair, caiu. Aprenda a conviver com esse buraco, ou use um postiço no lugar.




Juan Barto
A vida é um eterno e diverso divórcio.
Não gosto dessa ideia de você passando pela minha vida assim silenciosamente, sem acordar os cachorros, sem quebrar um copo, sem derrubar uma panela que seja.
Você some e a gente se divide.
É por isso que 'simples' começa com 'sim'.



Juan Barto
Atente para as sutilezas em geral, pois, toda boa ação não reconhecida corre o risco de extinção.
Tá certo que malandro que é malandro não tosse, mas eu desisto da gente, uma vez que o meu conceito de  'a gente' simplesmente desexiste.
Conceitos são que nem nuvens, permitem que duas pessoas olhem pra mesma coisa e vejam três coisas, cinco coisas, dez coisas diferentes.
Escancaro essa minha postura, porque acredito que quem quer se salvar corre para a varanda, quem quer ser salvo corre para o porão.
Vou em busca daquela pá de paz que você não me dá mais.
Coração com o rímel escorrendo . . . 




Juan Barto
As vezes não consigo dormir de tanta ansiedade por tudo aquilo que quero fazer quando acordar.
Acho que acordar é uma daquelas coisas que a gente só dá valor quando perde.
Acordar é bom, acordar é ótimo. Pretendo ir acordando o máximo de vezes possíveis.
Mal abri os olhos e a primeira coisa que vi, foi a dança tribal das poeirinhas em espiral contra a réstia de luz que entrava espremida pelos dois centimeters de janela aberta.
Todos os eletro-domésticos também dormiam, a julgar pelos seus vidros foscos, menos o ventilador, impávido velando o meu sono com seu grande olho vigia, afastando o calor e os mau-olhados de mim.
Ando tendo sonhos estranhos, a antena paranoica captando um milhão de canais.
Para pessoas de mentalidade anoréxica, o meu mais doce sorriso.
A sorte é uma roleta russa, e a vida um carrossel-bala.
Precisava seu lounge ser tão longe?
Eu sou o colecionador de cheiros, e quero reenca(de)rnar numa palavra, qualquer uma!
Só as palavras possuem a vida eterna.


JuanBarto

MALANDRAGEM SELETIVA

O livre arbítrio é uma rua de mão dupla, uma puta de dois peitos, e eu exerço o meu me livrando do convívio dos que ficam lambendo o saco de quem não tem culhões e goza direto nos nossos olhos, que é pra gente não ver quando a pica estiver entrando.

O brasileiro é interplanetariamente conhecido como um ser ‘metido a esperto’, mas quando chega o momento dele realmente ser e tirar dez na prova, resolve ter um surto de integridade, de crise de consciência!
O candidato paga cinquenta reais em troca do seu voto e quando o sujeito chega cara a cara com a urna, ele perde o gol feito embaixo das traves e de fato vota no cara!
Cumpre a sua palavra, em alguns casos, pela primeira vez no ano... na vida!


Nessa hora o "não tem ninguém  olhando" tá no conserto.



Juan Barto


GENTE TANGENTE

Seja vegetariano, mas não jogue sua casca de banana no chão da rua.

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Tem gente que rima amor com interruptor e os usa da mesma forma.
Tem gente que tem preguiça de conquistar o seu, tem vergonha de pedir o meu, mas nenhuma cerimônia pra tomar o nosso.
Tem gente que acha que no fim sempre dá, o que é ridículo, pois se é o fim, é porque não dá mais.





]uan barto
Se não fosse a gravidade, o céu seria o mar e o mar seria o céu.
Isso explicaria porquê as vezes chove, e isso explicaria porquê as vezes falta chão.




Juan Barto
Eu acho fruta uma sacanagem. Você tira a casca e dentro não tem nenhum brinquedinho, só mais fruta.

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Os analfabetos insônes não contam carneirinhos.

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-E esse cabelo branco ai?
-Ideias limpas.
-E esse sangue vermelho?
-Veias tímidas.

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-O problema são as pessoas plástico-bolha, aperta-se e depois não tem mais graça.
-Nããão, o problema são os amores frankenstein.
-Quais?
-Pedaço de um, pedaço de outro, retalhos de mortos costurados com fitinhas do senhor do Bonfim.
-Tece-se um monstro.
-Eu prefiro virar árvore do que virar mármore.
-É, mas nós, sujeitos, estamos sujeitos a sarjeta.
-Nos alimentamos de sentimentos gorjetas.
-Olha... Com coca-cola tudo desce.




Juan Barto
As vezes eu tenho a sensação de que a gente já finalizou esse jogo, só estamos de volta pra destravar as fases secretas. As frases secretas.
A manchete da primeira capa do Gerúndio's news é sempre a mesma: "Estamos sempre sendo!''
Chuva são águas penadas vagando por ai.
E aqui na minha rua, tem nuvem que num vem...



Juan Barto
As vezes pensar em você é como engolir com a garganta inflamada.
Bactérias tocando bateria.
Nem sempre a torneira chora porque caiu sabão no olho dela, as vezes é outra coisa.




Juan Barto
Os maiores sentimentos estão contidos nas menores palavras, justamente pra ficar mais fácil de ser lembrado. E também pra não travar o coração com muita informação.
A palavra é só o corpo do sentimento.
Nervos desencapados geram raiva, e raiva é energia elétrica faiscando nas mãos em terremoto.
Controlar esses ataques não é tão difícil quanto parece, mas já foi mais fácil.
Quem vai, só quer saber de tirar fotos, quem fica é que tem que arrumar a bagunça de copos quebrados e objetos faltando.
Por isso que festa só presta na casa dos outros.



Juan Barto
Adão fumou maconha, mas foi eva quem apertou.
De quem era a plantação? Bom... De quem era o Éden? Quem era o dono da chácara?
Quanto a maçã, foi apenas larica, nada pessoal.

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Vou tatuar o mapa múndi nas palmas das minhas mãos pra envolver o planeta por inteiro em conchinha, que nem se faz pra acalmar passarinho nervoso que caiu do ninho.
Esperança é lenda urbana, e assim como a loira do banheiro, há quem acredita que exista.

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Sorte não se compra na farmácia ou na padaria, e nem se pede junto com a pizza.
Não se atrai sorte andando com quem tem, nem usando iscas.
Não se pega bebendo do mesmo copo, usando a mesma toalha ou através da tossida.
Não se faz download de milagres na missa.
O futuro fica acordado até de madrugada preocupado, esperando a gente chegar das farras.

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"Azar" O novo babalú sabor: Piche.


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Juan Barto
Evite dormir com o cabelo molhado/ O forno ligado/ Com homem casado.
Evite sair do compasso/ Com o tempo fechado/Em ônibus lotado.
Evite comprar, evite o fiado, evite tornar-se um indivíduo endividado.
Evite os fiapos e os velhos tarados.
Evite esquecer o celular ligado no cinema/ Na biblioteca/ No teatro.
É um saco!
Evite o marasmo, modere o sarcasmo.
Evite os vizinhos incomodados e os parentes acomodados.
Evite os mal-olhados, os mal-amados e os ultrapassados.
Evite ser atropelado, tapeado ou estapeado.
Evite fazer pactos, evite a otite e atente aos ditados.
Evite ser evitado.
Evite ficar em casa aos sábados a não ser que esteja muito cansado
ou muito bem acompanhado.
Nesse caso... Evite o evitável.
Evite o alvo. Evite ativar o 'auto'.
Evite o tráfego.
Evite o término, evite ao máximo.





Juan Barto
Ontem vinhamos eu e a lua andando lado a lado em silêncio pela rua.
Eu com a cabeça no mundo dela, ela careca de saber como é o meu.
Já reparei que sinto mais saudades de você às sextas, assim como sentia mais ciúmes aos sábados.
Eu acho que passei perfume demais e preciso de alguém pra me esfregar e diluir.
Eu sei que sonhar massageia o cérebro, mas meus olhos já estão roucos de tanto te chamar e você não escuta.
Enquanto você dorme, eu escrevo em letra de forma seu nome, pra ver se te acordo.
Meu medo é que tanto sono assim seja seu jeito de me dizer "acorde".
Meu castelo de cartas de tarô falô que parô, você já mofô e é hora do coração, qualquer um dos dois, o vermelho ou o preto, tomar a iniciativa, mas eu já falei que chamei a dama de ouros pra sair e ela disse "Q?"
Sou rei, oK? Não desistirei nem a paus.



//Juan Barto //
Antes que as expectativas pelas luzes se formem, informem:
Um vaga-lume só não faz boate!
Sou índio "olhos vermelhos" porque quando fumo, o amor me invade as vistas.



Juan Barto
[SUPERMERCADO]

Vontade de jogar boliche naqueles corredores de supermercados desertos, tão corríveis nas madrugadas longas dos que ficam abertos 24 horas.
Samambaia se apaixonou pela alface. Lesbianismo vegetal.
Os legumes fálicos custam a entender.
Uma cebola-bebê quando cai e se corta, chora o dobro do que choraria uma criança comum.
Porque eles põe morangos na ilustração da caixa de cereal, se dentro não vem morango nenhum? Poderia vir ao menos um, desidratado, que inchasse no contato com o leite, estilo camarão de cups noodle.
Indagações... Indignações...
O sol é uma gema mole, salgada e auto suficiente pois se cozinha sozinha.
Camisinha seria um band-aids?
Eu tomo tanto amaciante antes de te encontrar, só pra tudo sair fofinho e perfumado pra você.
Te cuspo um sabão em barra e te esfrego as costas e os trópicos se quiser, mas caí no esquecimento e acho que torci o tornozelo.

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Ruivos são resquícios da fase lisérgica de Deus. Ruivos são o mais próximo que conseguimos chegar dos cosplays sem ter que trapacear.

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Rave no elevador, no balão de ar quente, na beliche da gente é festa com com dois ambientes, afinal, um par é constituído de dois ímpares.
Fumar é verbo, eu sou sujeito. O que tem de errado nessa frase?
Só será prejudicado no predicado, assim como viver, assim como todo o resto.
Eu ainda desconfio que as cidades são maquetes gigantes, com prédios feitos de caixas vazias de remédio.

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O amanhecer consegue me fazer sorrir ao mesmo tempo em que queima minhas retinas com cores de sorvetes neon em alta definição.
Enquanto minha cara dói de sono, enquanto um sino de igrejinha toca ao longe, o inventor dos óculos escuros merece sim, um brinde de agradecimento.
Para-brisas acenam pra mim nas ruas, não me sinto mais tão sozinho.
Deus fecha um parêntese, mas abre um colchete.




Juan Barto
Ele deu uma puxada intensa no cachimbo, alguns segundos depois, foi o cachimbo que o puxou sutilmente de volta de sua nuvem de devaneios.
-Mestre! Mestre! – Falou o cachimbo acanhado.
O mestre lhe deu atenção.
-Sei que não é a melhor hora, mas é que estou passando por... Mudanças! Não sei o que está havendo comigo.
-Que mudanças? – Perguntou o mestre interessado.
O cachimbo começou a suar por dentro e por fora.
-Bom, ultimamente passei a falar coisas que antes eu nem sequer pensaria e a pensar coisas que eu nunca teria coragem de falar. Tudo misturado... As vezes ao contrário... E quando me questiono qual seria o por quê, a única resposta que me ocorre é a vontade de continuar.
O mestre não falou nada, girou-o de cabeça pra baixo com uma mão, deu algumas batidinhas no cachimbo, como quem botasse uma criança pra arrotar, caíram algumas cinzas. Enquanto arrastava uma vela pra perto, o paciente aguardava a neuro-inspeção em silêncio.
O mestre tirou os óculos e usou uma de suas pernas para cutucar o interior da cachola do cachimbo.
Cavucou um pouco e ao trazê-la de volta a superfície, percebeu uma pasta lustrosa na ponta, parecia cera de ouvido, só que preta e de um cheiro adocicado. Soltou um 'huuum' de conclusão e deu o diagnóstico.
-Você haxixou!
-Isso é ruim?
-Na verdade, é ótimo.




Juan Barto
Não importa se você é de seda, guardanapo ou de papel de pão, o que importa é o que você tem por dentro.

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A arte é como uma conta de luz que ninguém é obrigado a pagar, porém, ninguém tem mais o poder de mandar cortar.



Juan Barto
O homem quando está sozinho investe todo o seu tempo pensando no que fazer quando estiver em coletivo, e quando está em coletivo não vê a hora de ir pra casa ficar sozinho.
Somos protótipos que vivem na prototipolândia.
Somos bonecos de cabeça redonda e corpo de gravetos rascunhados por Deus, mas roteirizados pelo diabo.
Na palavra "imediatismo' o sufixo 'ismo' sem dúvida remete a doença.
Eu não pego em armas, o mais próximo que eu chego de um gatilho são as alças das minhas xícaras.
Se apaixonar não é uma questão de 'on/off', está mais pra 'ying/yang'.
Em dias sépias como um café com leite,  desejo que nosso amor dure a eternidade de uma aula chata.





Juan Barto
O tempo é um cachorro que não atende a ninguém e a vida é uma rodoviária onde você escolhe em qual ônibus subir, mas o motorista é quem decide onde você vai descer.

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Errar cada vez mais por menos é uma forma de progressão, o dia de acertar é uma consequência matemática, pode ser que demore, mas tempo? Tem, pô!

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'Cordialidade' é troco.
Eu te dei cinco cruzeiros de carinho e você me voltou trinta centavos de "Bom dia".
Tudo bem, eu sei que  'amor' é uma palavra que não sabe o que está dizendo.


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Juan Barto
Ela olhou o amigo sentado a sua frente, inclinou-se para frente como se partilhasse um segredo e por fim falou:
-Repare que o lápis azul vem sempre ao lado do lápis azul-escuro na caixa de lápis coloridos....E nunca deu briga.
-Verdade. - Respondeu o amigo.
-Sabe... -  Continuou ela, apoiando as mãos sobre a mesa fria de plástico. - Esses dias, eu sonhei que morava numa cabana na lua, e olhar o universo era como estar cercada de árvores de natal extremamente enfeitadas.
-Fabuloso!
-Meio 'O pequeno príncipe', mas só que eu tinha banheiro.
Começara a chover forte e repentiamente. As mini agulhas d'água picando a vidraça da lanchonete insistentemente, pessoas correndo nas ruas tentando se abrigar.


Juan Barto
O dia estava chegando ao seu fim, quando o céu fica ao mesmo tempo azul leitoso, rosa e baunilha como se fosse um drink exótico gigante e depois muda lentamente pra o grafite.
Deus mexendo no contraste do controle remoto.
Era tão gostoso isso de voltar pra casa que os momentos ruins já nem tinham mais peso nem dentes. Àquela hora as ruas rapidamente viravam um mar de latarias metálicas de carros e seus pisca-alertas como se fossem peixes Beta elétricos. Enquanto que os postes, faróis das calçadas, verdadeiros vigias de concreto e do concreto só nos olham de cima pra baixo.
A estratégia dos produtores de lazer como teatro e cinema era colocar promoções de meia entrada no meio da semana tornando sua programação apenas meio cara, motivando as mulheres dos malandros a motivarem os malandros a se levantarem da rede e desconectarem da rede, criando um sistema ritualístico de estrangeirismos que levava algumas horas pra ser cumprido: Net / Rush / GPS/ Epic or Fail/ Happy Hour/ Home, sweet Home/ Net. Vamos nos jogando de um estrangeirismo pro outro até fechar o círculo.
Repare que livros não entram nessa de ter um dia fixo da semana pra serem vendidos pela metade do preço. Nem sebo nem livraria aceitam carteirinha de estudante.
Começava a escorrer gente de tudo quanto é lugar, de todos os vãos e rachaduras da cidade, mas isso era normal na rotina de qualquer quarta feira de qualquer cidade grande onde há futebol nas tevês e tevês nos bares.
Se a gente vivesse numa selva (se?) o bar seria o lago onde todos os animais se refrescam. Os crocodilos seriam aqueles caras encostados no balcão fingindo que estão distraídos mexendo no celular ou brincando de rodar o gelo do copo de uísque e quando a gente se aproximasse bem despercebidos e estivéssemos no meio de um “Me dá uma caipirin...” eles nos dariam uma gravata no pescoço e nos arrastariam lá pra fora, que seria o mesmo que 'lá pra dentro', se o bar fosse de fato um lago.


juan barreto

FOCO

-Eu te trai naquele dia do jogo do flamengo.
-NO DIA DO JOGO DO FLAMENGO?
Homens...


Juan Barto
O sonho é menos denso do que a realidade, portanto, flutua.
O sonho é comunicação sem legenda ou caixas de som.
Sonhar faz o cabelo crescer.

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Pra mostrar ao mundo que você tem dentes, você pode sorrir ou morder, tudo depende da índole da sua boca.

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Fatos nefastos:

- A gente acaba lançando ao tédio o mesmo olhar que lançamos à uma torneira que não para de pingar.
- O "eu te amo" é uma corrida onde não importa quem tem o melhor carro, ganha quem chegar por último.
- Viver muito não é o mesmo que viver demais, e eu quero os dois, porque isso de escolher entre um ou outro é coisa de quem só tem um bolso.




Juan Barto
Minha solidão é listrada, pois dizem que listras emagrece.






Juan Barto
Pessoas que o solvente do tempo simplesmente não consegue remover dos meus dentes, da minha mente e nem das minhas unhas.



Juan B.
-Sabia que amor é ilegal? Se a polícia te parar na rua e tu tiver com o riso frouxo e cara de bobo te batem e te prendem. Doideira né?
-A vizinha do meu primo sentiu cheiro de amor vindo do apartamento dele e ligou pro 190. Subiram as escadas do prédio enfurecidos, todos já com fuzis nas mãos.
-Mas parece que tem um artigo na lei que só considera tráfico a partir de uma grande quantidade, afinal, temos o direito de carregar uma porcentagem de amor pra consumo próprio, né?
-Eu diria que temos o dever de fazer isso.
-Isso! E ser usuário é diferente de ser dependente.
-Aliás, dependente de amor é foda.
-Esse é o típico esteriótipo. Aquele sujeito magrelo, olheiras fundas de quem já tá afundado, sem controle.
-Esse é o que rouba, que mata que se prostitui pra sustentar o vício.
- Que mora na rua...
-Esses são os mais fudidos. Quando não morrem de overdose, morrem de Game over.





Juan Barto
O homem  em seu estado bruto não desenvolve por si só. Ele precisa de um gatilho!
Ódio, inveja, amor, paixão, pena, qualquer coisa, mas nada evolui do zero total. 

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Somos café solúvel, esperando o "píííí" da chaleira ao longe, ansiando por subir aos céus das bocas como fogos de artifícios, estourando em formiguinhas luminosas, coçando os cérebros das pessoas de baixo pra cima.





Juan Barto
Todo janeiro é igual, vem antes do carnaval.
Todo janeiro é igual, vem depois do natal.
Com esse calor que anda fazendo o gelo vai derretendo
e daqui a pouco não teremos onde morar.
Com esse calor que anda fazendo vão ficando morenos
os ursinhos polár.
Eu sou a favor da pangéia e quem não é?
Afinal de contas, não dá pra ir pra París à pé.
Todo janeiro é igual, é um calor infernal.
Todo janeiro é igual, chove e vira um lamaçal.



Juan Barto

ALIMENTOS

A única coisa que de fato admiro nos vegetais são suas cores hipnóticas.
Eu que não me atrevo a olhar pra uma beterraba ou um alface sem meus óculos escuros.
Pessoas são docinhos de aniversário, prontos pra te dar prazer, dor de barriga e diabete.
Carísma é o que difere uma bolacha recheada de um simples biscoito.
Carência é que nem fome, tem que morrer várias vezes ao dia.




Juan Barto

CAIO

Ela estava naquele estágio aonde a gente vai agachando lentamente na banheira do sono. Cheia com seu líquido morninho e seus vapores cheirosos.
A água lambendo carinhosamente suas pernas, barriga e seios. Lentamente progressiva, chegando ao pescoço, queixo e por fim beijando-lhe a boca, mas ainda não estava completamente imersa, as orelhas estavam de fora mantendo a vigília, permitindo que conseguisse perceber o que acontecia ao redor, mesmo que os sons chegassem muito distantes e distorcidos dando a deliciosa sensação de quando nada parece ser com a gente, mesmo assim, ainda não era um sono REM e isso era ruim.
Três puxõezinhos curtos na manga da camisa. Intervalo curto. Mais três puxõezinhos curtos e rápidos deram descarga na banheira de água quente e a luz no fim do ralo se chama vida real.
Ela ensaiou uma abertura de olho. Ainda com a visão embaçada pode ver com olhos semicerrados uma figura pequenininha em widescreem.
-Mãe!
-Hum... Quê? Daniel? O que aconteceu querido? Por que você não está dormindo?
Daniel abraçava a cabeça solitária de ‘Golfe’, seu ursinho polar de pelúcia, contra o peito.
Cabeça literalmente solitária, rasgada e com fiapos brancos de costura saindo. O corpo de Golfe jazia como troféu na casinha do cachorro da vizinha. Foi triste na época, mas Daniel nem achava mais tão ruim assim. Ficara com a melhor parte, ficara com a parte que conversava.
- É o amigo do vovô no telefone. Ele quer falar com você.
-O que? Amigo do seu avô?
-É! No telefone.
Ela agora sim acordou de verdade. Sempre que o telefone toca de madrugada, o ‘alarme-de-coisa -ruim’ toca dentro da gente. Ainda mais quando se tem pai idoso.
-Alô, seu Juliano? O que aconteceu? (...) Ah, meu Deus, meu Deus! E como foi isso? (...) Mas ele está bem? (...) Qual o hospital que ele está? (...) Certo então, olha, eu vou só deixar o Daniel na casa do pai dele e depois vou direto pra ai. (...) Certo (...) Certo, muito obrigado por tudo seu Juliano, até já!
Ela se sentiu meio tonta, apoiou o corpo com uma das mãos no braço do sofá enquanto a outra limpava o suor condensado na testa. - ‘A noite vai ser longa!’. – Respirou fundo e olhou para o filho sentado no primeiro degrau da escada olhando pra ela com uma apreensão ingênua e fofa.
-Daniel, filho, o vovô sofreu um acidente, nada demais. Ele caiu da janela e a mamãe tem que ir ao hospital ver como ele está. Agora sobe lá no quarto põe cueca, camisa, calção e a escova de dente na sua mochila, calça a chinelinha que eu vou te deixar na casa do papai. Amanhã a mamãe pega você depois do almoço, tá bem docinho? Vai filho! Rapidão, rapidão! 
Ela digitou o número do ex-marido com as mãos trêmulas enquanto o filho subia os degraus de dois em dois. 
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Ele estava sentado num cogumelo gigante, admirando um lindo nascer do sol que se iniciava. O sol como uma gema gigante, se espremia entre o horizonte e o céu. Ele conversava literalmente consigo mesmo. Era um diálogo entre sua boca normal e uma outra boca inusitada que ficava na sua testa.
De repente, no meio de uma divagação qualquer da boca comum, a boca da testa interrompe com uma voz que não era a sua chamando um nome que era o seu:
 “Juliano!” – Intervalo curto... Outra vez: “Juliano!”.
Juliano acordou.
A escuridão do quarto entrou em foco e a silhueta de uma pessoa sentada na janela aberta contra a luz do poste da rua também, justificando o vento frio que recheava o ambiente. Aquela voz rascante outra vez. A voz da segunda boca era a mesma da silhueta.
-Juliano, acorde!
-Eu já estou acordado, mas que diabos! Caio? É você?
-Claro idiota! Um ladrão chamaria seu nome?
-Poderia ser um fantasma! – Juliano sentou-se na cama endireitando o corpo devagar, tateou no escuro em busca da luminária que ficava sobre o criado-mudo ao lado da cama. – Mas o que diabos você está fazendo nessa janela?
-Você sabe o que é ser velho?
-Er... Eu acho que sei! Velhice só é relativa até os setenta anos. Daí pra frente passa a ser um fato: Você é velho! E eu já tenho setenta e três...
-Ser velho é não ter mais o que desejar!
-O quê? Não seja ridículo! – Procurando os óculos na mesinha. – Que bobagem é essa? Eu mesmo estou desejando nesse exato momento que você desça dai e feche essa janela antes que nós dois peguemos uma pneumonia.
-Quando se é criança, dizemos que queremos viver pra sempre, ai crescemos mais um pouco e substituímos por algo mais plausível: "Quero viver o máximo que eu puder! Quero morrer de velhice!”. É o que todos dizem! Mas e quando você chega à velhice Juliano? O que se deseja agora? Morrer de mais velhice? Que merda é essa? - A voz dele transparecia uma agonia entre a indignação e a melancolia.
-Caio meu amigo, vamos conversar melhor aqui dentro, ande. Ai você vai pegar um resfriado. Juliano falava tranquilamente, mas seu medo era real e era outro que não o resfriado. O amigo recomeçava a falar efusivamente, gesticulando largamente com os braços e ele preferiu não se levantar da cama pra não deixar o outro mais nervoso.
-Quando se está no começo da vida é como se acordássemos numa praia deserta e o nosso objetivo fosse o mar, mas estamos loooonge, longe pra caralho dele. O mar é um mero risquinho azul ou verde, nem dá pra saber ao certo! A cada passo que se dá a areia pesa absurdamente e tosta nossos pés, até que com o tempo vamos nos acostumando, pegando o jeito de caminhar.
A praia vai se enchendo de outras crianças pra brincar, conchinhas, guarda-sóis coloridos e cheiro de comidas, depois de pessoas seminuas e ai o mar já nem importa mais. O passeio se torna o objetivo, já que ficou agradável!
O mar virou meramente um horizonte, uma paisagem a essa altura. Pois bem, eu já cheguei no mar e agora? Eu sinto a água já no meu umbigo Juliano, e agora? – Ele chorava de escorrer, chorava de soluçar. Passou os dedos nos olhos molhados e estendeu a palma da mão pra frente para que o amigo os visse.
- Vê? Água salgada! O mar chegou! O mar chegou aqui! O mar chegou em mim!
-Caio...
-Não quero mais ficar dentro d’água, já estou enrugado o bastante.  – Passou as pernas para o lado de fora num gesto brusco e sumiu no ar frio em dois andares de vácuo.
-SOCOOORRO! SOCOOORRO! ALGUÉM! MEU COLEGA DE QUARTO CAIU DA JANELA!
Juliano apertava o botão ao lado da cama freneticamente. Luzes acesas no corredor, vozerio de pessoas acordando, barulho de passos apressados.






Juan Barto
Como um bom insône, todo dia ele é o primeiro a ver o céu clarear.
Como se fosse aquele funcionário que tem que chegar antes de todos pra abrir a loja.
Passa as noites reparando como a lua parece uma banana de luz.

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A luva se apaixonou pela meia.
Mesmo número de dedos e uma função em comum: Aquecer coisas por dentro, por exemplo meus pés, doloridos de tanto dar a volta por cima.

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Chorou que suou.
Encontro das águas, dos sais.
Aquarela não chore! Assim você se mancha e se desmancha.
Não se estrague e nem se entregue, não adquira alergia à alegria.


Juan Barto
A inspiração é que nem gato, passa dias fora vaga(bu)ndo e só aparece quando quer.
Numa bela manhã, a gente acorda e está lá... Dormindo ao pé da cama.

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Perspectivas-marshmallow.
Expectativas-expectorantes.
O 'se' é um 'sim' ainda no casulo.



JuanBarto
A roda foi sem dúvida uma revolução, um estouro na história, mas se você observar bem, os quadrados tem tanta importância quanto, e digo mais, os quadrados é que estão realmente no comando.
Agora mesmo, tem um literalmente na sua cara e outro no seu bolso.
A roda tem mais carisma porque desliza.

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Pelos que saem do rosto nada mais são, do que as raízes das idéias.
A barba do homem é selvagem, já as mulheres, tem sobrancelhas harmoniosamente mais delicadas, mais bonitas. Assim como as unhas.
[Ah,sim, eu como as unhas.]




Juan B.
Se o corpo é casca, a alma é suco.
Cabelos cheirando a chiclete? Pensar é  fazer bola.
Ontem eu dormi e minha cabeça tava sintonizada no seu canal.
Adormeci a dor, merci!




Juan Barto
-Se você jogar uma semente numa pilha de carvão, você espera que cresça alguma coisa?
-Depende do quanto eu regue! - Responde o menino com um sorriso de triunfo. Sorriso de quem acertou quem era o assassino antes do fim do filme.
-Aí é que está, seu problema é sempre ser óbvio e isso já se tornou óbvio.
-E então o que? - Pergunta de má vontade, franzindo a testa irritado e cruzando os braços.
-Não vai crescer nada. Carvão não se rega. Se queima!
-Foi o que eu quis dizer.
-Não é a toa que 'quis' rima com 'giz'. Você passa a mão por cima e tudo fica esfumaçado, difuso, ruim de compreender. Seu cérebro comanda seus olhos, e não o contrário.
'Lógica' seria a proparoxítona adequada pra guiar você!
E após ter mexido com os pensamentos do menino, o velho voltou a mexer seu café com leite.





Juan Barto
Já vi muito carro capotar em linha reta.
Não subestime o fácil.




Juan Barto
Nós somos as coisas que vivem no estômago da vida.
Somos regidas por cordões muito tênues, engrenagens muito sutis.





Juan Barto
A chuva desce densa doce, dança e disse "vem!".
Disse: "Dê-se a chance de dançar doce também!".
Dançar doce também....
Dançar doce também...




Juan Barto

Subestimar os outros foi uma maneira que eu encontrei de instigá-los a buscar auto melhorias.
Me provarem que eu estou errado.
Mas tenho todo o cuidado de não esticar demais o elástico à ponto de arrebenta-lo.


juan barto
Ando parado porque de correr, já basta os riscos todo dia.
Chuva sem cheiro é apenas chateação.
A pele dela tão branca, meus dedos doidos para riscá-la, pois na memória tátil não tem Alzheimer que pegue!

'-Você tem barba de contos de fada!'
-E você olhos de vírgula.'




J / B
A alma vinha descendo lentamente em zigue zague fazendo barulhinho de água corrente até pousar macia e sutilmente dentro do corpo morno.

Que ruflem os tambores pode ser a qualquer momento...

Fernanda abriu os olhos. A luz da casca acesa. Tem gente em casa!

Piscou, abriu e fechou a boca mordendo o ar, abriu e fechou as mãos espremendo os "dedos- bambus" com força até estalarem fazendo barulho de batata Rufles quebrando, roçou a língua na própria língua, coçou o topo da cabeça. Como qualquer outra máquina, iniciando aos pouquinhos.

Espreguiçou-se indecentemente.

Agora sentada na cama num rápido take de 360º estilo camaleão reconheceu o cenário, o cheiro e as texturas locais. Era seu quarto, sem dúvida. Reparou na ausência do namorado. Ainda ontem antes de dormir ele tinha dito ‘Madrugada é assim mesmo, você dorme e eu te protejo!’. “Sei!”

Seus olhos assentaram sobre uma frase de aparência porosa escrita ao lado da porta em letras de forma, provavelmente feitas com giz de cera vermelho.

"Banheiro"

Aquilo a fez levantar sorrindo. Leve excitação! Acariciou aquela caligrafia com as pontas dos dedos e foi até o banheiro não porque a parede mandou, mas sim porque ela precisava mijar. Após cumprir seu ritual de aguar o sanitário foi até a pia lavar as mãos e o rosto quando viu escorrendo no espelho uma palavra grossa e pastosa, fonte ‘elephant’ tamanho 72, feita de Tandy de morango.

"Cozinha"

Passou o indicador no ‘c’ e o chupou. Aquele gostinho de morango mentolado lhe deu fome e a fez lembrar que tinha iogurte na geladeira que ficava coincidentemente no mesmo destino sugerido pelo espelho.

Assobiou uma canção do Bob Dylan que não sabia o nome.

Chegando lá sua atenção foi atraída como um ímã justamente para a superfície costumeiramente branca e plácida da geladeira, mas que agora estava ali, corrompida por letras espirradas na cor vermelho ‘ketchup’ que formavam de forma borrifada a palavra "Quintal”.

Da janela aberta ela já conseguia vê-lo de costas lá longe, bem ao fundo, perto dos cajueiros fumando um cigarro. O cachorro chafurdando arbustos de maneira frenética.

‘Depois fica cheio de mato e carrapichos grudados no pelo.

O vento seco daquela manhã furiosa entrou no ambiente invadindo as narinas causando aflição. Levantando a saia da mesa e agitando as folhas do calendário afixado no armário.

Olhar pra ele assim tão distraído, tão imerso naqueles 10% de sábado fumando seu cigarrinho tranquilo era de um prazer imenso.

Por muito tempo ela andou pelas calçadas reconhecendo ruas, conhecendo praças e atalhos que não estavam no mapa. Ela andava só e não pensava em nada. Só andava. Andava e se cansava, não de sair pra ver o mundo, mas do mundo nunca estar em casa quando ela lhe visitava.

Foi quando ela conheceu Chico através das manchetes dos jornais... Na realidade foi por causa de um fanzine que circulava na universidade. Era mais uma poesia do que propriamente uma matéria.

“Chico não consegue dormir tem dez dias! Ten! ' Dez dias que Chico não tem dormido!”

“A vida balança numa valsa macabra, num bolero-lero sinistro.”

“Chico não dorme, Chico não come, Chico não fala comigo!”

“Chico querido se deu por vencido e parece nem ter percebido”

“Capture com os olhos o que as mãos tanto salivam. Assim ninguém corre perigo!”

“Mas Chico não ouve o que eu digo.”

“Chico não me liga, Chico não se liga. Chico anda muito esquisito.”

“Se Chico não dorme, se Chico não come, um dia Chico vira palito.”

“Logo Chico, logo meu único amigo...”.

Ela nunca se perguntou quem havia escrito aquele artigo, em compensação quis saber que era Chico imediatamente. Precisava achar essa pessoa tão perdida. Tão carimbo, tão carbono dela. E achou! Chico que estava acostumado a acordar pensando que sonhar era só um filme que não se pagava pra assistir se emocionou quando Fernanda o atentou para o fato de que viver é que era um sonho que não se podia assistir por preço nenhum, tinha que participar! Pois quando é o caso de realmente acordar some se daqui e se aparece em outro lugar.

À medida que ia se aproximando dele ia fazendo barulhos que denunciassem a sua presença. Odiava levar sustos e odiava dar sustos, mesmo que sem querer. Ele não parecia perceber, porém, quando ela já estava bem perto um caju vermelho, extremamente maduro caiu aos seus pés fazendo um ‘ploft’ cremoso, ele se virou pra ver que era e deu de cara com a cara dela.

-Buenos dias! – Disse Fernanda.

- Buenos!

Na sua camiseta verde a palavra ‘coração’ bordada em vermelho brilhoso cursivo acima do peito encerrava a gincana.

-Gostei da estampa!

-Só queria dizer que nesse um ano você me fez sentir cada dia que passou como um cogumelo, que nasceu e viveu muito tempo na merda, mas um belo dia encontrou alguém maluco o bastante querendo lambe-lo. Feliz aniversário de namoro!

-Feliz aniversário de namoro, meu bem!

-Feliz aniversário de namoro, meu bem!

-E tem mais...

-Shhhhh ico!

Se beijaram. Ele sorriu, ela sorriu, até o cachorro se estivesse prestando atenção na ternura daquele momento teria sorrido também, mas estava ensandecido demais pelo meio do mato, com carrapichos grudados por toda parte.






Juan Barto