Funcionário do mês

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A alma vinha descendo lentamente em zigue zague fazendo barulhinho de água corrente até pousar macia e sutilmente dentro do corpo morno.

Que ruflem os tambores pode ser a qualquer momento...

Fernanda abriu os olhos. A luz da casca acesa. Tem gente em casa!

Piscou, abriu e fechou a boca mordendo o ar, abriu e fechou as mãos espremendo os "dedos- bambus" com força até estalarem fazendo barulho de batata Rufles quebrando, roçou a língua na própria língua, coçou o topo da cabeça. Como qualquer outra máquina, iniciando aos pouquinhos.

Espreguiçou-se indecentemente.

Agora sentada na cama num rápido take de 360º estilo camaleão reconheceu o cenário, o cheiro e as texturas locais. Era seu quarto, sem dúvida. Reparou na ausência do namorado. Ainda ontem antes de dormir ele tinha dito ‘Madrugada é assim mesmo, você dorme e eu te protejo!’. “Sei!”

Seus olhos assentaram sobre uma frase de aparência porosa escrita ao lado da porta em letras de forma, provavelmente feitas com giz de cera vermelho.

"Banheiro"

Aquilo a fez levantar sorrindo. Leve excitação! Acariciou aquela caligrafia com as pontas dos dedos e foi até o banheiro não porque a parede mandou, mas sim porque ela precisava mijar. Após cumprir seu ritual de aguar o sanitário foi até a pia lavar as mãos e o rosto quando viu escorrendo no espelho uma palavra grossa e pastosa, fonte ‘elephant’ tamanho 72, feita de Tandy de morango.

"Cozinha"

Passou o indicador no ‘c’ e o chupou. Aquele gostinho de morango mentolado lhe deu fome e a fez lembrar que tinha iogurte na geladeira que ficava coincidentemente no mesmo destino sugerido pelo espelho.

Assobiou uma canção do Bob Dylan que não sabia o nome.

Chegando lá sua atenção foi atraída como um ímã justamente para a superfície costumeiramente branca e plácida da geladeira, mas que agora estava ali, corrompida por letras espirradas na cor vermelho ‘ketchup’ que formavam de forma borrifada a palavra "Quintal”.

Da janela aberta ela já conseguia vê-lo de costas lá longe, bem ao fundo, perto dos cajueiros fumando um cigarro. O cachorro chafurdando arbustos de maneira frenética.

‘Depois fica cheio de mato e carrapichos grudados no pelo.

O vento seco daquela manhã furiosa entrou no ambiente invadindo as narinas causando aflição. Levantando a saia da mesa e agitando as folhas do calendário afixado no armário.

Olhar pra ele assim tão distraído, tão imerso naqueles 10% de sábado fumando seu cigarrinho tranquilo era de um prazer imenso.

Por muito tempo ela andou pelas calçadas reconhecendo ruas, conhecendo praças e atalhos que não estavam no mapa. Ela andava só e não pensava em nada. Só andava. Andava e se cansava, não de sair pra ver o mundo, mas do mundo nunca estar em casa quando ela lhe visitava.

Foi quando ela conheceu Chico através das manchetes dos jornais... Na realidade foi por causa de um fanzine que circulava na universidade. Era mais uma poesia do que propriamente uma matéria.

“Chico não consegue dormir tem dez dias! Ten! ' Dez dias que Chico não tem dormido!”

“A vida balança numa valsa macabra, num bolero-lero sinistro.”

“Chico não dorme, Chico não come, Chico não fala comigo!”

“Chico querido se deu por vencido e parece nem ter percebido”

“Capture com os olhos o que as mãos tanto salivam. Assim ninguém corre perigo!”

“Mas Chico não ouve o que eu digo.”

“Chico não me liga, Chico não se liga. Chico anda muito esquisito.”

“Se Chico não dorme, se Chico não come, um dia Chico vira palito.”

“Logo Chico, logo meu único amigo...”.

Ela nunca se perguntou quem havia escrito aquele artigo, em compensação quis saber que era Chico imediatamente. Precisava achar essa pessoa tão perdida. Tão carimbo, tão carbono dela. E achou! Chico que estava acostumado a acordar pensando que sonhar era só um filme que não se pagava pra assistir se emocionou quando Fernanda o atentou para o fato de que viver é que era um sonho que não se podia assistir por preço nenhum, tinha que participar! Pois quando é o caso de realmente acordar some se daqui e se aparece em outro lugar.

À medida que ia se aproximando dele ia fazendo barulhos que denunciassem a sua presença. Odiava levar sustos e odiava dar sustos, mesmo que sem querer. Ele não parecia perceber, porém, quando ela já estava bem perto um caju vermelho, extremamente maduro caiu aos seus pés fazendo um ‘ploft’ cremoso, ele se virou pra ver que era e deu de cara com a cara dela.

-Buenos dias! – Disse Fernanda.

- Buenos!

Na sua camiseta verde a palavra ‘coração’ bordada em vermelho brilhoso cursivo acima do peito encerrava a gincana.

-Gostei da estampa!

-Só queria dizer que nesse um ano você me fez sentir cada dia que passou como um cogumelo, que nasceu e viveu muito tempo na merda, mas um belo dia encontrou alguém maluco o bastante querendo lambe-lo. Feliz aniversário de namoro!

-Feliz aniversário de namoro, meu bem!

-Feliz aniversário de namoro, meu bem!

-E tem mais...

-Shhhhh ico!

Se beijaram. Ele sorriu, ela sorriu, até o cachorro se estivesse prestando atenção na ternura daquele momento teria sorrido também, mas estava ensandecido demais pelo meio do mato, com carrapichos grudados por toda parte.






Juan Barto