Funcionário do mês

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-Próxima pergunta.Você se sente arrependido?
-Não.
-Não?!
-Não.
O entrevistador deu uma travada. Essa era pra ter sido uma daquelas perguntas frias que a gente já faz esperando a resposta que o conduzirá a próxima pergunta, mas agora arrebentaram o elástico. Desconforto sutíl. "Consertemos...rápido!"
-Fale mais sobre isso.
-Quem gosta de mim, gosta porque tem um motivo. Quem não gosta, não gosta porque tem vários.
O entrevistador ficou olhando pra aquele homem entre o chocado e o impressionado. Tudo camuflado por baixo de camadas e camadas de pó compacto e outras tantas de hipocrisia.
-Interessante.
-Você por outro lado, não é.
O entrevistador dá uma leve tremida de pálpebra. O que é isso? Alguém enfiou um desentupidor de pia na sua traquéia e puxou,puxou até sair tripas, coração, intestino, alma, o diabo! Por essa ele (também) não esperava.
-Como? - Com direito a risinho de nervoso
-Podemos ir por outra rua que não essa que você quer ir?
-Eu conduzo as perguntas!
-Tem razão. Continue.
-Er...vamos em frente.. Onde você... Co-como você acha que..- Ele folheia seu roteiro procurando nas fichas algo que ele não sabe ao certo o que.
Está visivelmente desconcertado, claramente nervoso e completamente perdido. Não há como seguir como se nada tivessse acontecido, como se não tivesse sido interrompido. - Só um segundo por favor.- Avalanche de água e sal testa a baixo, as costas então,oceano!
A luz do refletor queima seus ombros e pela primeira vez em doze anos de profissão, ele sente isso. Nunca sua cadeirinha lhe pareceu tão apertada. A situação virou uma calça que sufoca, piníca e pelo visto, constrange quem a usa.
A platéia está muda. Cento e cinquenta pessoas que não respiram ao mesmo tempo.
O entrevistado por sua vez, está como sempre esteve até então. Sentado,perna cruzada e mão no queixo. Parecia entediado,até.
-Aqui está.(pigarreia e respira)Você sente que...
-Não.
-Deixe-me terminar!
-Não! Deixe-ME terminar. - Ele se levanta e vai saindo em direção a porta dos fundos do estudio, passando por produtores e câmeras man que se olham aturdidos.
O entrevistador se levanta e manda um "EI!". A platéia faria um "Oh!" se tivesse oxigênio pra isso, claro.
O entrevistador continua - Volte aqui e termine a entrevista!
O entrevistado estancou pouco antes da porta. Girou nos calcanhares lentamente até ficar de frente. Passou a mão nos cabelos repondo pra o lado alguns fios que caiam nos olhos. E pasme, ele volta lentamente,'resenta' na sua poltroninha giratória, 'recruza' as pernas, recoloca a mão no queixo e 'resorri'. Opa, 'resorri' não, porque até ali, não tinha sorrido em momento nenhum. Sorri pela primeira vez então, mostrando dentes sépias, porém retos.
-O entrevistador dá uma olhada ao redor.Foi rude sim, óbvio. O que a falsa segurança de ter seguranças por perto não faz. A tensão no auditório é inacreditável. Ele senta-se lentamente, 'repigarreia', 'rerespira' fundo e 'refala' seco, quer dizer, fala seco pela primeira vez.
-Há dois anos, o senhor matou três crianças com uma chave de roda,o que você sente a respeito disso?
-A sua pauta manda você me perguntar isso exatamente com essas palavras?
O entrevistador opta por ignorar as intervenções do entrevistado. Resolveu que ia tomar o controle nem que fosse na marra.
-Há dois anos, o senhor matou três crianças com uma chave de roda,o que você sente a respeito disso?
Após um breve silêncio de reflexão. Uma pausa no meio daquilo tudo pra que ao menos, todos naquele ambiente pudessem engolir suas salivas.
-Olha, é o tipo da coisa que..
-Há dois anos, o senhor matou três crianças com uma chave de roda,o que você sente a respeito disso? - Cada vez que essa pergunta era repetida, ela ganhava uma tonalidade incisiva mais forte.
-Nada.
-"Nada" - Repete o entrevistador em tom cético quase debochado.
-Nada comparado a isso - Puxa um revólver do bolso interno do colete e dá um único tiro seco e reto exatamente no meio da cara do entrevistador que estava a mais ou menos dois metros dele, explodindo seu nariz e porque não, metade da sua cara.
O corpo desaba que nem uma trouxa de roupas sujas. Sangue e mais sangue.
A serenidade blasé do entrevistado que parecia inabalável até então, foi pra vala e deu lugar a uma cena de descontrole explosivo digno de Taz, o demônio da Tazmânia,
-VOCÊ É UM MERDA!UM MERDA! EU NÃO SOU UMA CELEBRIDADE! E AGORA? VOCÊ SE SENTE ARREPENDIDO?? EIM? EIM? VOCÊ SE ARREPENDE DE TER FALADO DEMAIS? SEU IMBECIL!PERGUNTE VOCÊ MESMO A ESSAS CRIANÇAS ESCROTAS O QUE ELAS ACHAM DE MIM OU COMO ELAS SE SENTEM E O QUE QUER QUE ELAS DISSEREM, EU NÃO LIGO! CAGUEI! E VOCÊS (Para a platéia que absurdamente ainda estava ali, imóvel, todos grudados pelo cu nas cadeiras, pela cola do medo, encolhidos uns nos outros) O QUE VOCÊS QUEREM ME JULGANDO? QUEM SÃO VOCÊS PRA ME JULGAREM? UM BANDO DE ABUTRES QUE SE ALIMENTAM DE CARCAÇAS QUE CARAS COMO EU PRODUZEM TODO MALDITO DIA!! POR ISSO QUE EXISTEM JORNAIS PARDOS DE SANGUE! E PROGRAMAS IMBECIS COMO O DESSE BOSTA AQUI (dá um chutinho no corpo que ainda esguixa sangue)SE TEM UM ACIDENTE OU ASSASSINATO, TODO MUNDO CORRE PRA PERTO. MAS PRA AJUDAR? EU ACHO QUE NÃÃÃÃO! PRA VER! PRA SE DELICIAR COM A DESGRAÇA ALHEIA!A VIOLÊNCIA É A DROGA DE VOCÊS, SEUS DROGADOS! SEUS PUTOS! PENA DAS CRIANÇAS? PENA DESSE ESCROTO? POOORRA NENHUMA!VOCÊS ESTÃO ADORAAAANDO ESSE CIRCO! ISSO VIRARÁ O ASSUNTO DAS SUAS VIDAS!VIERAM AQUI VER UM JULGAMENTO, UMA ENTREVISTA COM UM DOIDÃO PSICOPATA E EU LHES DEI MAIS! DISPONHAM!
Ele se senta num degrauzinho que separa o palco da pequena área técnica, exausto.
A mão da arma é a mão da arma, não dorme nunca. A outra pega um lenço no bolso da calça e limpa a testa brilhante.
De lá mesmo onde estavam, acuados nas laterais do auditório, amontoados em um bolo de produtores, técnicos, seguranças (veja só!) e pessoas em geral que se encontravam por ali, os câmeras man espremidos nos cantinhos amedrontados, apenas dão um zoom progressivo lentamente, de modo que as três câmeras focam num close de seu rosto. Aquele homem sentado no chão exausto e arfante de berrar, e que agora estava calado e armado estampava todas as mini tvs espalhadas pela emissora.
Ao contrário do que naturalmente se espera nessas situações, onde deveria haver pânico e caos, tudo é uma cortina de veludo de silêncio condensado e não ação.
As donas de casa em suas casas, os bêbados nos bares, as pessoas nas praças de alimentação dos shoppings, as pessoas na internet, transeuntes nos celulares, todo mundo interrompeu ou foi interrompido do que quer que estivessem fazendo pra ficarem hipnotizados na frente de uma tela completamente mudos e estuperfatos olhando a cara daquele cara que preenche todo o retângulo da tela. É filme? Aconteceu mesmo? Ninguém sabe nada de nada. De repente a imagem dá lugar as famosas listras verticais coloridas.
Transmissão interrompida.

juan B.