Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
O homem  em seu estado bruto não desenvolve por si só. Ele precisa de um gatilho!
Ódio, inveja, amor, paixão, pena, qualquer coisa, mas nada evolui do zero total. 

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Somos café solúvel, esperando o "píííí" da chaleira ao longe, ansiando por subir aos céus das bocas como fogos de artifícios, estourando em formiguinhas luminosas, coçando os cérebros das pessoas de baixo pra cima.





Juan Barto
Todo janeiro é igual, vem antes do carnaval.
Todo janeiro é igual, vem depois do natal.
Com esse calor que anda fazendo o gelo vai derretendo
e daqui a pouco não teremos onde morar.
Com esse calor que anda fazendo vão ficando morenos
os ursinhos polár.
Eu sou a favor da pangéia e quem não é?
Afinal de contas, não dá pra ir pra París à pé.
Todo janeiro é igual, é um calor infernal.
Todo janeiro é igual, chove e vira um lamaçal.



Juan Barto

ALIMENTOS

A única coisa que de fato admiro nos vegetais são suas cores hipnóticas.
Eu que não me atrevo a olhar pra uma beterraba ou um alface sem meus óculos escuros.
Pessoas são docinhos de aniversário, prontos pra te dar prazer, dor de barriga e diabete.
Carísma é o que difere uma bolacha recheada de um simples biscoito.
Carência é que nem fome, tem que morrer várias vezes ao dia.




Juan Barto

CAIO

Ela estava naquele estágio aonde a gente vai agachando lentamente na banheira do sono. Cheia com seu líquido morninho e seus vapores cheirosos.
A água lambendo carinhosamente suas pernas, barriga e seios. Lentamente progressiva, chegando ao pescoço, queixo e por fim beijando-lhe a boca, mas ainda não estava completamente imersa, as orelhas estavam de fora mantendo a vigília, permitindo que conseguisse perceber o que acontecia ao redor, mesmo que os sons chegassem muito distantes e distorcidos dando a deliciosa sensação de quando nada parece ser com a gente, mesmo assim, ainda não era um sono REM e isso era ruim.
Três puxõezinhos curtos na manga da camisa. Intervalo curto. Mais três puxõezinhos curtos e rápidos deram descarga na banheira de água quente e a luz no fim do ralo se chama vida real.
Ela ensaiou uma abertura de olho. Ainda com a visão embaçada pode ver com olhos semicerrados uma figura pequenininha em widescreem.
-Mãe!
-Hum... Quê? Daniel? O que aconteceu querido? Por que você não está dormindo?
Daniel abraçava a cabeça solitária de ‘Golfe’, seu ursinho polar de pelúcia, contra o peito.
Cabeça literalmente solitária, rasgada e com fiapos brancos de costura saindo. O corpo de Golfe jazia como troféu na casinha do cachorro da vizinha. Foi triste na época, mas Daniel nem achava mais tão ruim assim. Ficara com a melhor parte, ficara com a parte que conversava.
- É o amigo do vovô no telefone. Ele quer falar com você.
-O que? Amigo do seu avô?
-É! No telefone.
Ela agora sim acordou de verdade. Sempre que o telefone toca de madrugada, o ‘alarme-de-coisa -ruim’ toca dentro da gente. Ainda mais quando se tem pai idoso.
-Alô, seu Juliano? O que aconteceu? (...) Ah, meu Deus, meu Deus! E como foi isso? (...) Mas ele está bem? (...) Qual o hospital que ele está? (...) Certo então, olha, eu vou só deixar o Daniel na casa do pai dele e depois vou direto pra ai. (...) Certo (...) Certo, muito obrigado por tudo seu Juliano, até já!
Ela se sentiu meio tonta, apoiou o corpo com uma das mãos no braço do sofá enquanto a outra limpava o suor condensado na testa. - ‘A noite vai ser longa!’. – Respirou fundo e olhou para o filho sentado no primeiro degrau da escada olhando pra ela com uma apreensão ingênua e fofa.
-Daniel, filho, o vovô sofreu um acidente, nada demais. Ele caiu da janela e a mamãe tem que ir ao hospital ver como ele está. Agora sobe lá no quarto põe cueca, camisa, calção e a escova de dente na sua mochila, calça a chinelinha que eu vou te deixar na casa do papai. Amanhã a mamãe pega você depois do almoço, tá bem docinho? Vai filho! Rapidão, rapidão! 
Ela digitou o número do ex-marido com as mãos trêmulas enquanto o filho subia os degraus de dois em dois. 
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Ele estava sentado num cogumelo gigante, admirando um lindo nascer do sol que se iniciava. O sol como uma gema gigante, se espremia entre o horizonte e o céu. Ele conversava literalmente consigo mesmo. Era um diálogo entre sua boca normal e uma outra boca inusitada que ficava na sua testa.
De repente, no meio de uma divagação qualquer da boca comum, a boca da testa interrompe com uma voz que não era a sua chamando um nome que era o seu:
 “Juliano!” – Intervalo curto... Outra vez: “Juliano!”.
Juliano acordou.
A escuridão do quarto entrou em foco e a silhueta de uma pessoa sentada na janela aberta contra a luz do poste da rua também, justificando o vento frio que recheava o ambiente. Aquela voz rascante outra vez. A voz da segunda boca era a mesma da silhueta.
-Juliano, acorde!
-Eu já estou acordado, mas que diabos! Caio? É você?
-Claro idiota! Um ladrão chamaria seu nome?
-Poderia ser um fantasma! – Juliano sentou-se na cama endireitando o corpo devagar, tateou no escuro em busca da luminária que ficava sobre o criado-mudo ao lado da cama. – Mas o que diabos você está fazendo nessa janela?
-Você sabe o que é ser velho?
-Er... Eu acho que sei! Velhice só é relativa até os setenta anos. Daí pra frente passa a ser um fato: Você é velho! E eu já tenho setenta e três...
-Ser velho é não ter mais o que desejar!
-O quê? Não seja ridículo! – Procurando os óculos na mesinha. – Que bobagem é essa? Eu mesmo estou desejando nesse exato momento que você desça dai e feche essa janela antes que nós dois peguemos uma pneumonia.
-Quando se é criança, dizemos que queremos viver pra sempre, ai crescemos mais um pouco e substituímos por algo mais plausível: "Quero viver o máximo que eu puder! Quero morrer de velhice!”. É o que todos dizem! Mas e quando você chega à velhice Juliano? O que se deseja agora? Morrer de mais velhice? Que merda é essa? - A voz dele transparecia uma agonia entre a indignação e a melancolia.
-Caio meu amigo, vamos conversar melhor aqui dentro, ande. Ai você vai pegar um resfriado. Juliano falava tranquilamente, mas seu medo era real e era outro que não o resfriado. O amigo recomeçava a falar efusivamente, gesticulando largamente com os braços e ele preferiu não se levantar da cama pra não deixar o outro mais nervoso.
-Quando se está no começo da vida é como se acordássemos numa praia deserta e o nosso objetivo fosse o mar, mas estamos loooonge, longe pra caralho dele. O mar é um mero risquinho azul ou verde, nem dá pra saber ao certo! A cada passo que se dá a areia pesa absurdamente e tosta nossos pés, até que com o tempo vamos nos acostumando, pegando o jeito de caminhar.
A praia vai se enchendo de outras crianças pra brincar, conchinhas, guarda-sóis coloridos e cheiro de comidas, depois de pessoas seminuas e ai o mar já nem importa mais. O passeio se torna o objetivo, já que ficou agradável!
O mar virou meramente um horizonte, uma paisagem a essa altura. Pois bem, eu já cheguei no mar e agora? Eu sinto a água já no meu umbigo Juliano, e agora? – Ele chorava de escorrer, chorava de soluçar. Passou os dedos nos olhos molhados e estendeu a palma da mão pra frente para que o amigo os visse.
- Vê? Água salgada! O mar chegou! O mar chegou aqui! O mar chegou em mim!
-Caio...
-Não quero mais ficar dentro d’água, já estou enrugado o bastante.  – Passou as pernas para o lado de fora num gesto brusco e sumiu no ar frio em dois andares de vácuo.
-SOCOOORRO! SOCOOORRO! ALGUÉM! MEU COLEGA DE QUARTO CAIU DA JANELA!
Juliano apertava o botão ao lado da cama freneticamente. Luzes acesas no corredor, vozerio de pessoas acordando, barulho de passos apressados.






Juan Barto
Como um bom insône, todo dia ele é o primeiro a ver o céu clarear.
Como se fosse aquele funcionário que tem que chegar antes de todos pra abrir a loja.
Passa as noites reparando como a lua parece uma banana de luz.

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A luva se apaixonou pela meia.
Mesmo número de dedos e uma função em comum: Aquecer coisas por dentro, por exemplo meus pés, doloridos de tanto dar a volta por cima.

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Chorou que suou.
Encontro das águas, dos sais.
Aquarela não chore! Assim você se mancha e se desmancha.
Não se estrague e nem se entregue, não adquira alergia à alegria.


Juan Barto