Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.

CAIO

Ela estava naquele estágio aonde a gente vai agachando lentamente na banheira do sono. Cheia com seu líquido morninho e seus vapores cheirosos.
A água lambendo carinhosamente suas pernas, barriga e seios. Lentamente progressiva, chegando ao pescoço, queixo e por fim beijando-lhe a boca, mas ainda não estava completamente imersa, as orelhas estavam de fora mantendo a vigília, permitindo que conseguisse perceber o que acontecia ao redor, mesmo que os sons chegassem muito distantes e distorcidos dando a deliciosa sensação de quando nada parece ser com a gente, mesmo assim, ainda não era um sono REM e isso era ruim.
Três puxõezinhos curtos na manga da camisa. Intervalo curto. Mais três puxõezinhos curtos e rápidos deram descarga na banheira de água quente e a luz no fim do ralo se chama vida real.
Ela ensaiou uma abertura de olho. Ainda com a visão embaçada pode ver com olhos semicerrados uma figura pequenininha em widescreem.
-Mãe!
-Hum... Quê? Daniel? O que aconteceu querido? Por que você não está dormindo?
Daniel abraçava a cabeça solitária de ‘Golfe’, seu ursinho polar de pelúcia, contra o peito.
Cabeça literalmente solitária, rasgada e com fiapos brancos de costura saindo. O corpo de Golfe jazia como troféu na casinha do cachorro da vizinha. Foi triste na época, mas Daniel nem achava mais tão ruim assim. Ficara com a melhor parte, ficara com a parte que conversava.
- É o amigo do vovô no telefone. Ele quer falar com você.
-O que? Amigo do seu avô?
-É! No telefone.
Ela agora sim acordou de verdade. Sempre que o telefone toca de madrugada, o ‘alarme-de-coisa -ruim’ toca dentro da gente. Ainda mais quando se tem pai idoso.
-Alô, seu Juliano? O que aconteceu? (...) Ah, meu Deus, meu Deus! E como foi isso? (...) Mas ele está bem? (...) Qual o hospital que ele está? (...) Certo então, olha, eu vou só deixar o Daniel na casa do pai dele e depois vou direto pra ai. (...) Certo (...) Certo, muito obrigado por tudo seu Juliano, até já!
Ela se sentiu meio tonta, apoiou o corpo com uma das mãos no braço do sofá enquanto a outra limpava o suor condensado na testa. - ‘A noite vai ser longa!’. – Respirou fundo e olhou para o filho sentado no primeiro degrau da escada olhando pra ela com uma apreensão ingênua e fofa.
-Daniel, filho, o vovô sofreu um acidente, nada demais. Ele caiu da janela e a mamãe tem que ir ao hospital ver como ele está. Agora sobe lá no quarto põe cueca, camisa, calção e a escova de dente na sua mochila, calça a chinelinha que eu vou te deixar na casa do papai. Amanhã a mamãe pega você depois do almoço, tá bem docinho? Vai filho! Rapidão, rapidão! 
Ela digitou o número do ex-marido com as mãos trêmulas enquanto o filho subia os degraus de dois em dois. 
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Ele estava sentado num cogumelo gigante, admirando um lindo nascer do sol que se iniciava. O sol como uma gema gigante, se espremia entre o horizonte e o céu. Ele conversava literalmente consigo mesmo. Era um diálogo entre sua boca normal e uma outra boca inusitada que ficava na sua testa.
De repente, no meio de uma divagação qualquer da boca comum, a boca da testa interrompe com uma voz que não era a sua chamando um nome que era o seu:
 “Juliano!” – Intervalo curto... Outra vez: “Juliano!”.
Juliano acordou.
A escuridão do quarto entrou em foco e a silhueta de uma pessoa sentada na janela aberta contra a luz do poste da rua também, justificando o vento frio que recheava o ambiente. Aquela voz rascante outra vez. A voz da segunda boca era a mesma da silhueta.
-Juliano, acorde!
-Eu já estou acordado, mas que diabos! Caio? É você?
-Claro idiota! Um ladrão chamaria seu nome?
-Poderia ser um fantasma! – Juliano sentou-se na cama endireitando o corpo devagar, tateou no escuro em busca da luminária que ficava sobre o criado-mudo ao lado da cama. – Mas o que diabos você está fazendo nessa janela?
-Você sabe o que é ser velho?
-Er... Eu acho que sei! Velhice só é relativa até os setenta anos. Daí pra frente passa a ser um fato: Você é velho! E eu já tenho setenta e três...
-Ser velho é não ter mais o que desejar!
-O quê? Não seja ridículo! – Procurando os óculos na mesinha. – Que bobagem é essa? Eu mesmo estou desejando nesse exato momento que você desça dai e feche essa janela antes que nós dois peguemos uma pneumonia.
-Quando se é criança, dizemos que queremos viver pra sempre, ai crescemos mais um pouco e substituímos por algo mais plausível: "Quero viver o máximo que eu puder! Quero morrer de velhice!”. É o que todos dizem! Mas e quando você chega à velhice Juliano? O que se deseja agora? Morrer de mais velhice? Que merda é essa? - A voz dele transparecia uma agonia entre a indignação e a melancolia.
-Caio meu amigo, vamos conversar melhor aqui dentro, ande. Ai você vai pegar um resfriado. Juliano falava tranquilamente, mas seu medo era real e era outro que não o resfriado. O amigo recomeçava a falar efusivamente, gesticulando largamente com os braços e ele preferiu não se levantar da cama pra não deixar o outro mais nervoso.
-Quando se está no começo da vida é como se acordássemos numa praia deserta e o nosso objetivo fosse o mar, mas estamos loooonge, longe pra caralho dele. O mar é um mero risquinho azul ou verde, nem dá pra saber ao certo! A cada passo que se dá a areia pesa absurdamente e tosta nossos pés, até que com o tempo vamos nos acostumando, pegando o jeito de caminhar.
A praia vai se enchendo de outras crianças pra brincar, conchinhas, guarda-sóis coloridos e cheiro de comidas, depois de pessoas seminuas e ai o mar já nem importa mais. O passeio se torna o objetivo, já que ficou agradável!
O mar virou meramente um horizonte, uma paisagem a essa altura. Pois bem, eu já cheguei no mar e agora? Eu sinto a água já no meu umbigo Juliano, e agora? – Ele chorava de escorrer, chorava de soluçar. Passou os dedos nos olhos molhados e estendeu a palma da mão pra frente para que o amigo os visse.
- Vê? Água salgada! O mar chegou! O mar chegou aqui! O mar chegou em mim!
-Caio...
-Não quero mais ficar dentro d’água, já estou enrugado o bastante.  – Passou as pernas para o lado de fora num gesto brusco e sumiu no ar frio em dois andares de vácuo.
-SOCOOORRO! SOCOOORRO! ALGUÉM! MEU COLEGA DE QUARTO CAIU DA JANELA!
Juliano apertava o botão ao lado da cama freneticamente. Luzes acesas no corredor, vozerio de pessoas acordando, barulho de passos apressados.






Juan Barto