Funcionário do mês

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Ele deu uma puxada intensa no cachimbo, alguns segundos depois, foi o cachimbo que o puxou sutilmente de volta de sua nuvem de devaneios.
-Mestre! Mestre! – Falou o cachimbo acanhado.
O mestre lhe deu atenção.
-Sei que não é a melhor hora, mas é que estou passando por... Mudanças! Não sei o que está havendo comigo.
-Que mudanças? – Perguntou o mestre interessado.
O cachimbo começou a suar por dentro e por fora.
-Bom, ultimamente passei a falar coisas que antes eu nem sequer pensaria e a pensar coisas que eu nunca teria coragem de falar. Tudo misturado... As vezes ao contrário... E quando me questiono qual seria o por quê, a única resposta que me ocorre é a vontade de continuar.
O mestre não falou nada, girou-o de cabeça pra baixo com uma mão, deu algumas batidinhas no cachimbo, como quem botasse uma criança pra arrotar, caíram algumas cinzas. Enquanto arrastava uma vela pra perto, o paciente aguardava a neuro-inspeção em silêncio.
O mestre tirou os óculos e usou uma de suas pernas para cutucar o interior da cachola do cachimbo.
Cavucou um pouco e ao trazê-la de volta a superfície, percebeu uma pasta lustrosa na ponta, parecia cera de ouvido, só que preta e de um cheiro adocicado. Soltou um 'huuum' de conclusão e deu o diagnóstico.
-Você haxixou!
-Isso é ruim?
-Na verdade, é ótimo.




Juan Barto