Funcionário do mês

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Manhã de vento frio baforando secamente seu hálito de halls preta nos cabelos e saias das pessoas. Nuvens borrifando água aqui no térreo não chegando a ser chuva nem nada demais, só aquela camada fininha de garoa que fica pinicando o suficiente pra incomodar e atrapalhar.
Numa partezinha coberta do pátio, sentados num chão meio úmido daqueles que deixam a bunda fria dando a impressão de estar molhada, entre uma aula e outra, dois amigos bebericavam café com leite aos pouquinhos em canecas de louça enquanto fumavam.
-Você já olhou pra alguém indo embora da sua vida e teve aquela mesma sensação de estar perdendo o último ônibus da madrugada que passa na sua casa?
-Já! A sensação de perda é muito parecida mesmo. Aquele caos que termina num nó de gravata elétrico que vai te apertando o gogó, e te apertando, e apertando...
-O coração acumula muito catarro.
Ele ouviu aquilo e ficou assoprando seu café em silêncio por alguns instantes antes de perguntar:
-Como é que se tosse com o coração?
-Acredita que até hoje eu não descobri?
-Nossa, e ai? O que se faz?
-Ficou preocupado, cara?
-Claro! Digo, um pouco sim, claro! Como não me preocupar? Porque, se vão acumulando impurezas, e o coração acumula impureza pra cacete...
-Pra cacete!
-... Então o coração de um amante termina preto, igualzinho ao pulmão de um fumante.
-Pior! Porque eu, pelo menos, conheço pessoas que mesmo com toda a luta e o esforço, conseguiram deixar de fumar. Já deixar de amar não acontece nem com o caralho.
-Nem com o caralho!
-É que tem vezes que Deus tira o dia pra praticar 'bulling' com a gente.
-Isso tudo começou com você falando sobre perder não foi?
-Era mais sobre deixar passar.
-Não seria a mesma coisa?
-Não. O 'deixar passar' acarreta o bônus amargo da burrice e da displicência. Perder não necessariamente é culpa nossa. Quem perde pode ensaiar mais, praticar mais até o novo confronto, já o ‘deixar passar’ compromete até a reaproximação. Pode atrair rejeição.
-E o perdão?
-Perdeu!
-Isso tudo tem a ver com a ‘Beauty Queen do botequim’?
-Sim.
-Que gostava de você?
-É.
-E que você não gostava?
-Isso.
-Mas pelo visto agora gosta?
-Gosto.
-Ela sabe disso?
-Não.
-Por quê?
- Hum...
Não existe um monossílabo pra responder isso, heim?
(...)
Som ambiente: Cigarras. Vapores e fumaça roçando nas pernas dos dois que nem gato.
Uma lágrima solo ameaça mergulhar reta em direção ao solo, mas ao chegar à borda do trampolim desiste. Tudo bem, o amigo não viu. Alívio. Sorte que homem não conversa olhando nos olhos. Decide quebrar o silêncio antes que fique constrangedor, mas foi o amigo que tornou a falar retrucando levemente provocativo, pousando a caneca verde abacate de lado por um instante.
 - O ser humano é realmente uma BR esburacada. O problema é que aguar rosas com lágrimas é ridículo! Qualquer imbecil sabe que sal faz mal para as plantas.
Pausa literalmente para o cafezinho. Pensamentos girando em sentido anti-horário.
-Só os imbecis que já tiveram plantas.
-Quem nunca teve planta é imbecil.
(...)
 -Sinceramente, nunca imaginei que gostasse tanto, que fosse sentir tanta falta dela assim.
-Nem ela!

juan barreto

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