Funcionário do mês

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OLÍVIO

Olívio ia passando meio bêbado pela rua da luz verde, uma viela estreita de calçamento de pedra ali no centro onde funcionavam um total de oito bares, todos ombrinho com ombrinho, cada um com uma luz fluorescente verde na fachada dando às vezes a sensação de que você estava dentro de uma garrafa de guaraná. O simbolismo era deixar todos homogeneamente verdes, num semi-obrigatório “somos todos iguais”.

A zona boêmia da cidade era um bom lugar para pessoas más.

Tinha gente, tinha músicas, tinha líquidos, sólidos e gasosos.

Foi pairando, cumprimentando conhecidos e conhecidas, convencidos e convencidas, até que passou em frente ao 'Odilô’, seu bar preferido e viu um 'Del rey' escuro parado em frente. Encostado no del rey/um ruivo/encostada no ruivo/sua irmã!

Resolveu dar um alô, mas antes que chegasse bastante perto a viu entrar no bar.

Ainda pôde ouvi-la perguntar já quase da porta: "Ruth, cerveja ou caipirinha?" e achou que ela estivesse se referindo a alguma amiga por perto, mas para sua surpresa foi o ruivo quem disse "Whisky!", e ela "Got it!" e entrou sem perceber o irmão.

Olívio enfim se aproximou do carro e perguntou endireitando a mochila nas costas.

-Ruth? Sério que teu nome é Ruth?

O ruivo, todo de preto, agora mais deitado do que de fato encostado no para-brisa do carro deu uma tragada silenciosa no cigarro e fez que sim com a cabeça com aquele entusiasmo impaciente de quem explica uma coisa pela septuagésima sexta vez na mesma semana.

O outro o olhou por alguns segundos com uma expressão que oscilava entre a desconfiança e o espanto típica de quem analisa se está sendo vítima de uma pegadinha, mas cogita a hipótese de não estar e ainda não se decidiu por qual das duas opções pedir a Deus pra ser.

Aproveitou que o ruivo expirava e espiralava a fumaça azul claro pra cima e insistiu:

-"Rutê" ou "Rutxi"?

- É Ruth mesmo, cara! Eu sei, é um nome geralmente usado por mulheres, acontece que...

-Geralmente!?

Ele ignorou a interrupção e continuou elevando sutilmente a voz "-... É um nome alemão e em alemão é unissex, ok? Como aqui nós temos: Cris, Rafa, Dani, Fê... se bem que homem chamado de Fê é meio gay!".

-É, que nem Ruth! - Disse provocativo.

-Você é muito atrevido pra alguém tão magro sabia? - disse o ruivo jogando o cigarro numa pocinha de lama rente ao meio fio que fez 'tsssss' remetendo estranhamente a um gongo. Mas Ruth sorriu e balançando a cabeça como quem constata algo, enquanto limpava os óculos de aros grossos na barra da camiseta.

-Olívio! Irmão da Olívia - Se apresentou estendendo a mão em cumprimento.

-Eu sei quem é você rapaz! Sou Ruth, namorado dela, pô! - Falou correspondendo o aperto de mão.

-Nossos pais tiveram medo de ousar!

-Diferentemente dos meus, hahahaha!

-Eu me liguei quem era você pela marca do carro.

- E eu pela mochila vermelha.

-Você consegue distinguir alguma cor nessa rua além de verde?

- Bom, a língua afiada ajudou a reconhecer também! Tu é tua irmã, cara! O temperamento... Muito parecido!

-Desconfie de quem ainda for bonzinho depois de uma hora da manhã, Ruth. – E se encostou na porta do passageiro, ficando de frente para o bar.

-Por quê?

-À uma hora da manhã não tem mais ônibus avulso pra voltar pra casa, quem tinha que estar bêbado já está bêbado e quem tinha que pegar alguém já tá pegando! Quem resolveu ficar não tem mais porque fingir.

Ruth sorriu.

- Sua irmã entrou ai e está demorando demais. - Disse endireitando o corpo e se apoiando no capô pra esticar o pescoço e espiar o interior do bar apinhado de gente e de jazz antigo.

-Esse bar tem espelho, não se preocupe. É normal, acredite em mim.

-Os banheiros químicos não tem espelhos por esse motivo, sabia? Por causa das mulheres. Tem que ser jogo rápido!

-Ah, mas vou te falar que no banheiro da universidade não tem espelho e eu fico putaço!

-Eu também, cara! Homem tem que ser feio, fedido e asqueroso? Não pode ter vaidade? Não pode ter vaidade! Não pode querer ajeitar a porra do cabelo.

-É, isso é uma bosta. Me dá um cigarro?

-Toma.

-Minha relação com o cigarro é muito superficial, é coisa da boca pra fora, saca?

-Hahahahahaha

-Hahahahahaha

Olívia chegou com um copo de dose numa mão e "feijõezinhos brancos" discretamente (segundo ela mesma) na outra, e abriu o sorriso e os braços quando viu o irmão.

-Hey, hell boy tá chegando ou tá saindo?

-Tô em órbita.

-Sua cara! Já tá ai de papinho com o Ruth né? Eu sabia que não podia unir vocês! Vocês vão se dar bem demais e eu vou ficar sobrando!

-Até a vovó já o conhecia, menos eu! Mas eu prometo não ser um play station no seu namoro.  

-Muito nobre de sua parte. Uma vez eu tava no supermercado com a mamãe e encontramos uma amiga minha que tinha me visto ficando com o Ruth um dia antes, dai ela me perguntou na frente da mãe como era o nome da "figura" que eu tava me agarrando na festa. Ela usou essa palavra: "Figura"! Ai eu bem "nem me ligando" respondi: "É Ruth!". A mamãe quase morre do coração achando que eu era lésbica. Segurou-se na prateleira dos figos e quase despencou dura no chão, hahahahaha.

Eles riram de se dobrar por alguns minutos. Aquele riso convulsivo visceral que você chora e fica falando fino.

Olívio encontrou uma galera conhecida, afinal, naquela cidade pra que isso acontecesse era só ficar parado. Você não tinha escolha, ou você encontrava a galera ou a galera encontrava você. Dali cada um seguiu seu rumo dentro do mundo que era aquela viela. Seguindo aquele ritual rapel que se faz necessário quando se está num lugar com muita gente conhecida, só escalando de rodinha em rodinha, intercâmbio cultural, eles ainda se cruzaram mais três vezes no decorrer dessa noite.

Fragmentos da primeira cruzada: 02h39min a: m/rodinha na  caixa do correio da esquina da rua paralela/A fumaça agora é agridoce.

-Nem vem! "Ruth" não tem masculino, cara! Teus pais não te deram chance! Nem que fosse "Rutho", ai pareceria nome de cachorro. - Disse Olívio rindo e arrotando fumaça.

-Acho que alguém por ai sente falta de ter um irmão mais velho pra implicar! - Disse Ruth pegando o beck da mão de Olívio enquanto a roda dava risadas e fazia "uhúúús".

-Meu irmão é que nem um apelido chato, só pega se você se importar. - Disse Olívia.

-Tá, parei! Não precisam chorar!

-Ai galera, cada um dá só um pega pra acabar logo que essa rua é meio sujeira! - Falou uma gordinha asiática usando uma camiseta do "Roger Rabbit" que ficava olhando apreensiva a cada dez segundos para as duas esquinas pra ver se não vinha ninguém.

-Meio sujeira porque ainda tá cedo, espere só mais um pouquinho que ai sim ficará completamente sujeira! - Falou alguém e foi logo seguido de gargalhadas.

Fragmentos do segundo encontro: 03h22min a: m/Ante salinha de 3x3 passos que separava o banheiro do resto do bar. Olívia encostada na parede esperando que o mesmo desocupasse. Nesse momento sai Olívio do banheiro masculino que ficava ao lado.

-Ateu acredita em sorte? - Pergunta ele lavando as mãos olhando pra ela através do espelho em cima da pia. - Tava pensando nisso.

-Agora?

-Outro dia, e agora... Agora.

-Rapaz...

-Seria irônico, não?

-É, seria muuuito irônico!

O reflexo de Olívio sorri pra ela.

A moça que estava no banheiro feminino sai e passa por eles dando um sorriso e uma sobrancelhada pra ela e uma mexida de cabelo pra ele (e nós sabemos que mulher quando mexe no cabelo significa algo! O quê? Nós não sabemos) e saiu ante salinha à fora à passos trincados. Era uma loira magra, mas de pernas grossas que brotavam de um vestido preto curto. Estava cheirosa e cheirando. Olívio olhou dessa vez não pelo reflexo, olhou de verdade, olhou com gosto, no sentido mais sinestésico da palavra e pensou “Se meus olhos tivessem mãos, eu nunca mais poderia sair de casa”.

Xingou por não ter toalhinhas de papel, secou as mãos no jeans da bunda e já ia ganhando o mundo também quando a irmã falou:

-Hey, psiu, tu vai pra onde? Vamo aqui com a gente "gatxiinho". - E pôs o indicador direito numa narina e aspirou forte com a outra e deu uma piscadinha aliciante como sendo a cereja desse sorvete de ginástica facial. Olívio sorriu malicioso como o Grinch e perguntou "A gente?" e ouviu um "Entra logo, viado!" abafado vindo de dentro do banheiro feminino. Era Ruth que já estava lá dentro alojado dando uma de barbeiro com seu espelhinho e sua gilete.

Entraram e enquanto procuravam se acomodar no pequeno ambiente, por um segundo sem que essa sensação fosse compartilhada, os três se sentiram numa cabine telefônica em Nova York. Função: func-func.

Terceiro fragmento da data: 05h05min a: m/Saindo da rua da luz verde que a essa altura estava laranja por conta do nascer do sol/Dentro do del rey  tudo azul!/'Obrigado, branco!'/Essa era a verdadeira trilogia das cores/Missão: Voltar pra casa.

-Quem era aquela loira que tava no banheiro contigo antes da gente entrar? E eu torcendo pra que ela estivesse com vocês! Ela era bonita e tava muito doida. Adoro pessoas bonitas e muito doidas ao mesmo tempo. - Disparou Olívio ainda elétrico tirando os tênis, depois as meias e massageando as solas dos pés que estavam quentes de tanto ficar em pé.

-Aquela "loira" meu jovem, é minha irmã! – Disse Ruth enquanto deixava o centro da cidade pra trás. - E ela fez apenas aquela... ‘Intervenção artística privé’ comigo e depois foi curtir ai com as amigas dela no bar do ‘Pardão’.

-Tá achando que só tu que pode ter irmã gostosa, é? - Disse uma Olívia já toda aninhada no banco da frente.

-E como seria o nome dela? Carlos?

-Acredite ou não, o nome dela é Lívia.

-É sério isso? Um homem chamado 'Ruth' que tem uma LÍVIA, que namora uma OLÍVIA que tem um irmão chamado OLÍVIO? Coincidência tem limite, gente!

-E quando esse cara ruivo ainda dirige um carro vermelho?

E agora foi a vez do reflexo fungante do motorista de capacete de rubi dar uma piscadinha zombeteira pelo espelhinho do para-brisa.

Breve silêncio de epifania no banco de trás. Apesar de ter entrado no carro já com dia claro, só agora com a testa encostada no vidro frio da janela é que Olívio se dera conta de que a porra do Del Rey era vermelho bombeiro, do mesmo tom de vermelho da sua mochila. Por isso que a porcaria do ruivo sabia diferenciar o que era vermelho em meio aquela áurea esverdeada.

-Caralho, doido! Quem são vocês, quem somos nós?!

E riram. E puseram pra tocar R.E.M no som, e o barulho do pneus ralando no asfalto das ruas ainda silenciosas de domingo cedinho deixaram esse começo de manhã com xiadinho charmoso de vinil.

Tem noites que são como filmes de terror, você só está à salvo quando amanhece, mas outras não, outras são assim mais como tirinhas de jornal. Um, dois, três quadros que contam uma história engraçada e puf, acabou!




Juan Barto