Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Os pais se preocupam se os filhos ficarão bem em casa sozinhos, enquanto eles tem que sair pro mundo.
As crianças choram em seus quartos por um tempo, mas logo tudo fica bem.
As crianças crescem e se preocupam se os pais ficarão bem em casa sozinhos, enquanto eles tem que sair pro mundo.
Os pais choram em seus quartos por um tempo, mas logo tudo fica bem.
Somente o mesmo tipo de sentimento gera o mesmo tipo de preocupação.
Mesmo eu sendo muito 'Trebuchet' para esse mundo tão 'Times New Roman', ainda assim, queria plastificar alguns momentos, esconder algumas pessoas embaixo das unhas pra que nenhum baculejo da vida as ache e as leve.
Se bem que morrer não há de ser nada, comparado a não deixar saudades.
"Amor" é uma palavra assim, aberta, pra ficar mais fácil da gente gritar.



Juan B....

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Estava fumando sentado na pia da lavanderia, lá nos fundos da casa.
Fazia um começo de tarde maravilhoso de céu prateado, temperatura ambiente: 'geladeira aberta'. 'Talking Heads' pressionando a janela/escotilha do quarto até entreabri-la vazando música para o resto dos cômodos como uma enchente, chá de baunilha esquentando os dentes...
Não resistiu, começou a dançar!
Com direito a aquele requinte caprichado que a gente usa quando está dançando sozinho.
Em um certo momento fez um movimento mais brusco e o passarinho azul na gaiola do canto se assustou e entrou na casinha com estardalhaço batendo asas, espalhando alpiste e o assustando de volta.
"Animal idiota" - Pensou ele aborrecido indo até a cozinha pôr na louça a caneca de porcelana.
"Animal idiota!" - Pensou o pássaro taquicardíaco respingando água em si mesmo com o bico, lavando a cara.

Juan Barreto











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E os postes, que sempre sabem por onde você andou e quem estava com você?
Será que eles fofocam entre si nesse 'telefone sem fio' com fio?
Dias de sentimentos extremistas, ora é um copo, ora é uma piscina.
Perfume atrai abelha, suor atrai mosca.
Me irrito, pra variar.
Se eu tivesse bastante, bastante dinheiro, olhe....
Saudades na minha vida só como hobby ou só como rima.



Juan Barto















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O problema do bom, é que provavelmente não é fácil.
O problema do fácil, é que provavelmente não é certo.
O problema do certo, é que provavelmente não existe.

Respirar não se aprende, aprende-se a controlar a respiração.
E quem veio primeiro? O mar ou a areia?
Teu tato tatuado por tantas temporadas...
Trincamos têmporas, travamos trova até virar trovão...
Tirando e tornando a tirar e atirar.





Juan Barto





ANA LÚCIA

Ana Lúcia tinha um ano e era um bebê comum, ou seja, pequeno e com aqueles dedinhos naqueles pezinhos exalando a Johnson & Johnson que dão vontade de morder.

Ana Lúcia agora tinha sete anos e era uma criança que já apresentava nuances de uma personalidade maciça. Gostava de brincar de esconde-esconde, de amarelinha, de pega-pega, de pega-bandeira... Ou seja, de qualquer coisa que envolvesse correr e pular simultaneamente – aleatoriamente – necessariamente! Mas sem mais nem menos ficava a tarde toda parada, hipnotizada, cercada e entregue a mercê de livrinhos pra colorir, gibis já coloridos e livros sem cor nenhuma, apenas letras.

Assistia desenhos animados para crianças, seriados adolescentes e também filmes de adultos que via escondido de madrugada com a televisão ligada no mute.

No seu repertório de comidas favoritas estavam coisas simples como sanduíche de mortadela, suco de laranja, café com leite... Contanto que sua mãe tirasse com uma faca as bolinhas brancas de gordura da mortadela, pois tinha um nojo absurdo delas, o suco de laranja devidamente coado assim como o café com leite já que tinha repulsa aos gominhos da fruta e as bolinhas de leite em pó que se formavam e ficavam boiando aglomeradas impedindo que o líquido fluísse mais facilmente.

Tinha sido abandonada pelo pai mais ou menos nessa época. Sua última lembrança dessa pessoa era a dele entrando em um fusca vermelho que fedia a cigarro com uma malinha, lhe sorrindo de dentro do carro e dando uma ré da sua vida pra nunca mais voltar.

Mas é costume do tempo passar e ele passou.

Ana Lúcia tinha onze anos e era ainda uma menina, mas já sabia o significado e o preço de ser idiossincrática.

“Idiossincrasia: Maneira particular que cada um tem de ver sentir e reagir perante aos fatos comuns"

Ana Lúcia não recebera da avó apenas o nome, mas também o gênio! Um gênio com resquícios de tequila mexicana.

Seus treze anos vieram torná-la volúvel e de uma imprevisibilidade previsível e paradoxal assim como somos todos nós aos treze anos, essa época de nossas vidas em que tudo é tão extremo. E estava só começando! E ela nada podia fazer.

Ana Lúcia não gostava e nem desgostava de alguém ou alguma coisa. Ana Lúcia AMAVA ou ODIAVA alguém ou alguma coisa.

Aos quinze anos uma das suas maiores descobertas, ao contrario de qualquer outro adolescente normal nessa idade, não foi nem a maconha, nem a bebida e nem o sexo, mas sim os livros! Abraçou o hábito de ler com unhas, dentes e pélvis. Mas ler livros interessantes, não essas baboseiras que as pessoas acham interessante achar interessante. Ou pior, as coisas desinteressantes que faziam as pessoas se sentirem culpadas por as acharem desinteressantes como as que mandavam ler no colégio, por exemplo... Puta que pariu!

“O ATENEU? EU VOU TER QUE LER O ATENEU?!” – E jogava o livro no chão do banheiro do colégio e pisava.

Nada contra os clássicos, mas ler uma coisa que você precisa parar a cada quinze segundos pra procurar um significado no dicionário é como tentar meditar com o dedo enfiado no cu. É tomar sopa de garfo! Quando vão entender que Machado de Assis é tão foda que é como se fosse um chefão de fim de fase do vídeo game? Você precisa suar, ralar, estar pronto, ter bagagem pra encará-lo. É necessário merecer compreendê-lo e sair transformado desse encontro, se não, é dar pérolas aos porcos. É falar de física gravitacional com esquilos. Você põe o mais foda logo de cara pra essa galerinha acostumada a ler revista capricho assusta e desestimula.

Ana Lúcia amava Mário Quintana, Fernando Sabino, Luís Fernando Veríssimo, José Saramago e um inglês chamado Sherlock Holmes.

Quem lê escreve e com ela não era diferente. Era dona de um senso de humor bastante irônico e isso se refletia em sua escrita. Como da vez em que surpreendeu quarenta e cinco pessoas, entre colegas de classe, pais e professores ao ler em voz alta o poema que fizera para seu pai em homenagem ao dia dos pais. Para o mesmo pai que a abandonou quando era criança.

“Só queria dizer

O quanto eu não preciso de você.

Você é como um cavalo campeão de corridas

Que quebrou a perna antes mesmo da saída.

Tinha tudo pra ser tudo e acabou não sendo nada.

Sinto sua falta tanto quanto da casa na praia que eu nunca tive.”

Era movida a música e escutava de quase tudo. Conseguia ir de “Iron Maiden” á “Los Hermanos” no mesmo quarto de hora, no mesmo quarto de dormir. Escrevia blues e não os musicava. Inventava jingles e não dizia a ninguém.

Assim como somos todos nós aos quinze anos, Ana Lúcia estava sempre deslumbrada por alguém ou por alguma coisa. Ou por uma música nova que ouviu não sabia aonde, por um novo sabor, por um novo galã de cinema ou por um carinha novo da escola!

E o tempo passando. E o tempo assando.

Ana Lúcia tinha dezessete anos e era uma moça que estava apaixonada de verdade pela primeira vez. O mal que todos nós somos acometidos quando temos dezessete anos.

O ‘mal ‘em questão, já era maior de idade, trabalhava numa lanchonete, morava só e atendia pelo nome de:

“Paaaaulo!” (suspira)

E foi com esse rapaz...

“Paaaaulo!” (suspira)

... Que Ana Lúcia deu inicio a sua temporada de aprendizado.

Aprendeu o gosto do beijo, o gosto do sexo, o gosto do gesto e o gosto do desgosto. Aprendeu o significado de "muita vela pra pouco defunto". Aprendeu que ficar horas ao lado de quem se gosta simplesmente não fazendo nada é tudo! Aprendeu que o relógio não funciona sob pressão.

Aprendeu a beber, aprendeu o que beber, aprendeu que beber de mais não é bom, aprendeu a gostar, aprendeu a fingir que gostava para se entrosar, aprendeu que o ato de ‘se entrosar’ já era o maior fingimento já que as pessoas interessantes meio que nos encontram sozinhas. Aprendeu que a vida é curta e as histórias compridas. Mas foi justamente com esse rapaz...

“Paulo”... (lamenta)

... Que Ana Lúcia aprendeu o gosto amargo e pastoso da traição.

Azar. O azar é aquele detalhezinho que ninguém dá importância, mas que faz um estrago enorme! Como um espermatozoide, só que do caos.

Naquela tarde de abril, Paulo recebeu uma saraivada de azares de Deus. Listar todos seria trabalhoso e enfadonho, mas alguns não podem deixar de ser ressaltados.

Um: Ele não foi trabalhar na segunda feira e ligou para o chefe e pra namorada dizendo que estava doente. Mas era mentira.

Dois: Ele até cogitou a existência nata do instinto materno que faz toda mulher querer cuidar de seus doentes e até pensou na ideia de Ana Lúcia passar na sua casa pra saber se o namorado estava se sentindo melhor DEPOIS da aula... E não antes.

Três: Ele havia dado a chave reserva da casa pra ela certa vez em que estava bêbado e não se lembrava.

Quatro: Ele caiu em tentação.

Cinco: A tentação estava caindo nele. De boca! Estava sendo chupado pela vizinha loirinha bonitinha no exato momento em que Ana Lúcia adentrou teatralmente o ambiente com seus livros e cadernos numa das mãos e uma sacola com aspirinas e dvds de filmes de ação na outra.

Azar, pequenas sacanagens de Deus que neste caso deixaram Paulo completamente sem escapatória.

Mais do que raiva, Ana Lúcia sentia nojo! E mais do que nojo, Ana Lúcia sentia raiva!

Viu todas as suas concepções do que era amor, do que era gostar, do que era confiança, do que era lealdade indo fossa à dentro e ladeira a baixo.

Como a temporada de aprendizado tem hora pra começar, mas não pra terminar (porque morte não é fim e sim, mais uma lição) o que Ana Lúcia mais aprendeu foram as coisas que ninguém a ensinou. Coisas que a própria Ana Lúcia teve que se ensinar, como por exemplo, a cair e sobretudo a se levantar, porque de onde veio essa viriam outras mais e o truque era exatamente esse: Não evitar que coisas ruins aconteçam porque além de ingênuo é idiota. Tinha mais era que aprender a desviar das flechas, caminhar sobre o braseiro e beber água, muita água mesmo quando não estivesse com sede. Por precaução.

E o tempo mais uma vez corroendo a vida de Ana Lúcia.

Se por um lado aos vinte e um estava debutando na fase dos vinte e poucos, aos vinte e três estava na paranoia de que tinha quase vinte e cinco, espírito fazendo bodas de prata.

Aos vinte e sete era enfim mulher. Percebeu que seus "vinte e sete" eram os "vinte e cinco" da melhor amiga, os “dezenove” da colega de trabalho que era muito madura para a própria idade... E na sua condição de pessoa ímpar foi desmistificando essa máxima de que número é uma ciência exata, a paciência não é uma ciência exata, ninguém é feito em molde, nem irmãos gêmeos!

O empirismo é forte, mas não é cem por cento.


Juan Barto