Funcionário do mês

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KI.AZ.

Quando senti a mini vibradinha do celular avisando que tinha chegado cartinha, cartinha essa, que dizia: [Cheguei na praça, cadê você?] imediatamente dei cinco voltas olímpicas internas.
[Estou perto da mesa de som que fica em frente a um palco montado!] - Respondi.
Enquanto esperava, pra disfarçar a recém-ansiedade diet que estava sentindo, reparei em coisas bobas como umas árvores enruivando num canto, por exemplo, e que a tarde estava ventosa, porém, quente.
(Voltas olímpicas internas agora dando moonwalker)
A vi chegando uns cinco segundos antes dela me perceber. Foi exatamente o tempo de eu pensar: "Own, a mesma carinha de menina!".
(Ansiedade efervescente)
Sabe quando você fica muito tempo sem ver alguém que você gosta e parece que seu corpo tá com sede do corpo da outra pessoa? Você quer ficar tocando nela, esbarrando "acidentalmente" o cotovelo nela como que pra absorver mesmo calor ou o que quer que seja numa tentativa infantil de guardar mais um pouquinho dela com a gente, na gente, que nem quando queremos levar areia da praia e conchas pra casa nos bolsos dos shorts, em potes.
Memória tátil esguichando dopamina.
Menina do abraço morno bom.
Nada de abstrato, por favor! Dê um tempo, dê o fora.
Se eu não fizesse tanta questão de ser eu mesmo naquele momento, naquela situação, aceitaria de boa em ser apenas uma pessoa qualquer sentada num banco por perto. Voyeurismo quietinho, só pra poder contemplar a intensidade sutil e luminosa daquele micro instante de cena, daquele momento rápido como uma carimbada do tempo em nossa história que foi esse nosso reencontro após dois anos.
Mas eu fazia toda a questão do mundo de ser eu mesmo naquele fim de tarde.
Enquanto conversávamos sentados numas pedras em frente ao mar justamente sobre a beleza e a importância dessa pangeia em nossas vidas, minha sensação ora era como nos filmes, quando colocam os mesmos atores pra interpretar seus personagens alguns anos mais velhos e ai eles ressurgem de cabelo mudado e roupas atuais, ora tinha uma atmosfera etérea de quando a gente está num sonho sabendo que está num sonho e o clima ganha um ar  melancólico porque a conversa tá boa, mas a gente sabe que vai já acordar e sentir raiva por uns dois dias seguidos por aquele rosto não estar mais ao alcance das nossas mãos carnívoras..
Lembra Clementine dizendo.."É isso Joel, logo,logo estará acabado!" em uma outra situação que também envolvia uma coisa que era ora  filme, ora sonho.
No carro redescobri a mesma risada alta, os mesmos devaneios charmosos também em voz alta, os mesmos interesses em comum, as mesmas bandas incomuns.
Ainda morava no mesmo lugar  e só bem recentemente é que tinha se livrado daquela mesma pessoa com quem mantinha um relacionamento caótico e cáustico de dois anos antes.
Olhe... Apesar de tudo isso... Dizer que ela ainda era a mesma, seria um insulto. Um absurdo!
Quando me flagrou olhando compenetrado para o seu jardinzinho zen (novidade pra mim, porque antes era apenas um retângulo vazio!) me perguntou com sorriso ansioso: "Mudou pra melhor hein?" e eu respondi entusiasmado olhando pra ela: "Sim, sim! Pra melhor!”, mas eu não me referia somente ao jardim.
Estava nitidamente mais adulta, mais independente, mais segura e parecia muito confortável e natural em meio a tudo isso e eu achei que combinava com ela isso tudo.
E me senti orgulhoso dela.
E me senti feliz por ela.
E me senti feliz
(Drama 'in bass)
(E o protagonista de repente se deu conta do que deveria fazer.)
O reencontro foi intinerando pelos dejá vus já esperados espalhados alegoricamente pela cidade me trazendo lembranças inesperadas.
"Ah, eu já terminei um namoro ali!" E apontei pra uma escadaria enorme de colunas grossas.
E rimos porque de fato, deu vontade de rir!
Vida doida!
Passamos pela minha antiga casa ouvindo Beirut e me deu pena. Sim. Pena de uma construção!
Aquela casa sempre foi boa demais pra aquela rua de energias tão negativas.
Merecia ser transportada pra um outro lugar melhor, assim como eu fiz comigo mesmo, anos antes..
Era começo de noite e havíamos chegado a um milharal de corredores infinitos e vertiginosos no quarto andar de um prédio desses ai.
Corredores de chão verde, paredes descascando e um emaranhado de luzes amarelas irregulares e portinhas com seus numerosinhos que nos conduziram até o requinte do kitnet de um amigo da minha amiga.
Um apartamento muito simpático de decoração original e aconchegante que faria Jean-Pierre Jeunet ficar eufórico.
Temperamos uma hora inteira com cachaça com mel e limão, vinho e ‘marlboros hippies’ esparramados pelo sofá.
Beijo sem língua, sem-pé-nem-cabeça, sem propósito (o pior tipo!), sem estar no cardápio, sem querer(?) Cê querer(!)
Se queria...Por que não... ?
Se não queria... Por que...?
Meu coração fazia 'tum-tum-tum', minha cabeça fazia 'Cri-cri-cri' em dolby surround.
Com a querida experiência adquirida lembrei que 'falou tá falido' e preferi concluir em silêncio que nem tudo é pra ser entendido como entendível.
Cada um tem seu personal moinho-de-vento.
Na mala trouxe roupas sujas e ideias novas
Roupas novas e ideias sujas.
E os sentimentos passados e pendurados em cabides com cheirinho de coisa limpa.
Saudades desde o 'oi'.
Saudades desses olhos de meia lua da menina que sempre riu das minhas besteiras e que gostava de caminhar rápido porque era a maneira dela de desacelerar por dentro.
Saudades de quando ela ficava vendo desenho animado comigo até tarde da noite, até ficar esquisito pra voltar pra casa, e dai lá íamos os dois pra esquina escura escrota chapados rindo um da cara do outro esperar teu ônibus.
Temos que diminuir as (pr)estações desse hiato.

Juan Barto