Funcionário do mês

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Ele saiu na rua recém-molhada de chuva trajando bermuda e chinela.
Andava rápido, pois ainda neblinava. O seu movimento natural de caminhar arremessava perdigotos de lama e aguinha empoçada nojenta nas suas canelas desprotegidas fazendo os pelos grudarem.
'Grande ideia!', pensou irritado.
Mas não se pode dizer que foi propriamente uma ideia, porque não houve programação. Foi impulso.
Vinte minutos antes estava deitado e muito bem deitado se preparando pra dormir no seu ninho de poliéster e algodão. 
O quarto estava frio, mas o ventilador ligado virado pra parede era indispensável. O barulhinho do seu mini motor somado ao tamborilar metálico ritmado das gotas grossas de chuva no teto de zinco da garagem do vizinho era anestésico. Hipnótico! Até que o celular do nada começou a cuspir uma melodia.
Levou alguns segundos ponderando se valia a pena se levantar já que tinha encontrado a posição perfeita na cama. Quando finalmente decidiu se desvencilhar do seu casulo de panos, quem quer que estivesse tentando contatá-lo desistiu. Ficou puto, socou o travesseiro, mas quando passou as vistas no visor do celular e viu aquele nome digitado em caixa alta, seu coração ficou em caixa alta também.
Não tinha crédito pra retornar e só lhe restou esperar que lhe ligassem de novo.
Passados vinte minutos e nada. Resolveu agir! A curiosidade matou o gato, mas foi a ansiedade quem salgou o feijão e quando menos percebeu já estava de casaco esperando o elevador chacoalhando as chaves de casa no ritmo da abertura de 'Os simpsons'. Ia até a loja de conveniências do posto de gasolina da esquina colocar crédito no celular. Precisava ouvir a voz daquele nome.
A chuva voltava a chicotear insistentemente com força os prédios da zona nobre de uma cidade vil naquele prepúcio de madrugada. Num apartamento do sexto andar todos hibernavam menos uma moça que jazia deitada no escuro olhando pra cima sem conseguir dormir.
Um “Let it be” começa baixinho, tímido, abafado e rapidamente vai crescendo, encorpando até ecoar pelo quarto assustando-a. Ela estica o braço e apanha o aparelho, tenta ver quem está ligando, mas a luz azul fortíssima do visor agride e cega seus olhos desacostumados.  Não acha que pode ser ele, tem quase quarenta minutos que ela ligou e ele nem sinal. Resolve atender assim mesmo antes que Paul McCartney acorde a casa toda.


-Oi, alô? Quem é?


Do outro lado ele com o coração aos coices, infantilmente ajeita os cabelos com os dedos como se ela pudesse vê-lo. Respira fundo e fala:


‘-Camille?’


Aquela voz sabia dizer o seu nome como ninguém. Chega a fez sorrir no escuro e ela num esforço enorme pra não parecer ‘felizinha’ demais, que era como ela estava se sentindo respondeu:


‘-Oi! Desculpa te ligar, ainda mais uma hora dessas. É que acabei de sonhar com você. Um sonho ruim e queria saber se está tudo bem. ’


‘-Você? Dormindo antes das três da manhã? Nem vem que eu sei da sua insônia!’


Ele andando em círculos pelo quarto tentando disfarçar a euforia. Fazia alguns dias que não se falavam e começo de namoro é assim mesmo, cada dia é um ano bissexto.


‘-Veja você! Essa chuvinha, esse frio é um gás sonífero!’ Disse ela.


 ‘-Sei bem como é! Pois diz ai como é que foi esse sonho. ’


Ele falou isso e na sequencia bateu a paranoia se não teria falado com um tom de desdém não intencional. Começo de namoro também é cheio dessas dúvidas e curvas dramáticas.


‘-Estávamos no seu quarto e você estava sentado na janela. Eu ia colocar uma rosa no seu cabelo, mas o 
vento a arrancou da minha mão, quando você se inclinou para tentar pegá-la, se desequilibrou e caiu. ’


‘-Hum.’


(Silêncio)


Ele agora tinha certeza que tinha soado com descaso, mas não foi proposital. Escapou!


‘-Pois é! Mas tá tudo bem mesmo né?’ – Ela perguntou já com outro tom de voz, confirmando o seu receio.


‘-Tá sim. Relaxe!’


‘-Certo. Então vou indo. Boa noite pra ti. Beijo!’


‘-Boa. Beijo’


Desligam.


Ele está se sentindo mais imbecil do que nunca em toda a sua existência. Eufórico e imbecil.
Queria mexer nas suas configurações e desabilitar o item “Hum”. Quantas brigas ele já não presenciara, tivera, escutara, soubera todas começadas por causa de um ‘Hum!'?  Ficou remoendo e não conseguiu pensar em nada melhor que pudesse ter dito! Poderia ter sido pior, poderia ter mandado um 'Pode crer!'
Foi para o computador ver se se distraia pelo menos o suficiente para o seu sangue voltar a circular pelo resto do corpo, porque parece que ele estava todo concentrado na sua cara durante os últimos cinco minutos. 
A cabeça estava até meio pesada! Maldito nervosismo! A voz dela ainda estava grudada nas paredes do quarto, nas paredes dos seus tímpanos. Tão doce tão querida ligando preocupada com ele por causa de um sonho. O carinho está nos detalhes, está em quem lembra dos detalhes. E ele com seu ‘HUM!’,
Quem com ‘hum’ fere, com ‘hum-hum’ será ferido!
Ah, o remorso das pequenas coisas... São como cortes de papel. Não são feitos pra te matar, e sim pra te torturar ao longo do dia.
A chuva engrossou o pescoço esmurrando as vidraças do seu quarto enfurecida. Começaram os trovões escandalosos que ele tanto odeia. Ironicamente após um particularmente alto e ameaçador ele teve um estalo que o fez pegar o celular e apertar a tecla redial. No terceiro toque atenderam e antes que ela pudesse terminar de dizer ‘alô’ ele falou empolgado:


‘-Desvendei o significado do seu sonho! Não era um mau presságio, queria dizer apenas que eu estou... 
Caidinho por você!’


Ela gargalha do outro lado da linha. Ele respira aliviado. Açúcar para adoçar! O resto é ‘Belle & Sebastian’ tocando alto nas caixinhas de som. Tão bom não ter vizinhos nessas horas de felicidade inesperada.


Juan Barreto



Palavras 'boneca-russa' (vários mini significados, um dentro do outro)
Palavras 'boneco voo-do', a gente diz, só para causar dor.
Palavra cuspida e escupida; és 'cupida' e culpada!
A palavra é o meu moleque-de-recados, minhas luvas de amianto, meu time do coração.
Meu tímido coração...
Tristeza quando atinge o solo do sentimento, cresce
e termina não dando nada que preste.
'Queria' é um 'ia' que não foi.
Um 'ia' que ficou para outro dia.


Juan Barto