Funcionário do mês

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Ziemkieczy tinha treze anos quando ficou órfão de pais mórmons.
Soube do acidente pela diretora do colégio durante o recreio, enquanto comia seu lanche.
Nota dez dona Joana, tato zero!
Fez involuntariamente uma rápida associação entre a comida mastigada presa no seu aparelho dental e os corpos dos pais moídos nas ferragens do carro, e por um certo tempo, toda vez que ouvia alguma notícia ruim passava horas sentindo um cheiro esquizofrênico de pastel de frango.
Dizem que o automóvel ficou acabado, já Ziemkieczy nem tanto.
Ficou com a casa em que vivia , a vida que não vivia e nada mais.
Aproveitou para deixar pra lá esse lance de igreja e deu adeus a Deus.
Aproveitou também pra assumir como nome o apelido 'Fulaninho', que ganhou dos amigos devido a enorme dificuldade das pessoas pronunciarem corretamente o seu nome idiota.
"-'Fulaninho' parece codinome de marginal!" - Disse 'Bonitinha Johnson', uma amiga que morava na mesma rua. Era uma menina de cabelos muito amarelos, olhos muitos azuis e boca muito vermelha.
Seu rosto lembrava a bandeira da Colômbia. Sua pele muito branca lembrava outra coisa que também remetia à Colômbia.
'Bonitinha Johnson' era mais velha, tinha quinze anos, e na realidade se chamava Carlúcida.
Como 'Carlúcida' era um nome muito feio e a pequena moça era muito bonita, lembrando desde sempre um bebê Johnson, o apelido ficou.
"-'É? E Bonitinha Johnson' parece codinome de mulher de marginal!" - Rebateu 'Fulaninho' enquanto apertava um beck em cima da lista telefônica.
'-Seria isso uma indireta?'
'- Algo entre a sugestão e o convite.'
Começaram a namorar quatro horas depois dessa conversa. Duas horas e vinte e sete minutos depois de terem transado pela primeira vez.




Juan Barto



Foto: Juan Barto





'

подавленный

Ganhei poucas coisas que realmente importassem, mas também quase não perdi algo que nunca mais existisse.
O homem é um animal acumulativo, acumulamos desde sentimentos pulsantes, que vão nos dar cólera, a água parada, que vai nos dar dengue.
Não jogamos nada fora pra evitar arrependimentos, quando finalmente decidimos jogar, é no chão da rua pela janela do carro, pra entupir os bueiros.
Até quando jogamos a toalha e desistimos, miramos na cara da sociedade, que é pra que ela não nos vejam fugindo.
O problema não é a dificuldade, o problema é a dificuldade oca, é a dificuldade estúpida só de pirraça, é a dificuldade que é difícil 'porque sim!'
As vezes me sinto a comida que vê a sua própria feição de pavor refletida nos dentes brancos um segundo antes de ter a cabeça decepada pela boca guilhotina.
A exigência do 'profissio' gera falta de ofício, acarreta em desperdício e isso é resquício padrão dessa e de qualquer outra gestão.
Complicado e delicado.


Juan Barto


O homem que chorava tinta guache pintou várias telas impressionistas em lenços de papel, durante o velório da avó.



Juan Barto
Flagrei a arte trocando de roupa, essa noite.
Abri a porta sem bater antes e fui entrando. Foi quando eu vi seus seios fartos aparentemente mordidos, lambidos e bicados. Seios de cabeça erguida, diga-se de passagem.
Tinha marcas de batom, tinta e vinho barato ressecado nas coxas de pão sovado.
Sua barriga branca e lisa, parecia uma travessa de leite morno.
O pescoço fino de couro curtido, lábios vermelhos como duas cortinas cerradas. Que mulher!
A arte ainda tem um bundão, mas anda meio bundona.
Parece que quer calar os calos mal falados dessa mão de falanges tão falantes.
Desbunde e debandada.
A arte não se assustou nem se zangou quando me viu, mas também não se cobriu.
Ficou parada me olhando, seus olhos de blue-tooth me enviando mensagens invisíveis.
Disse que mofar também é florescer, só que em outro idioma, falado em outro reino.
Disse também que a vida é muito 'curta' e os festivais só aceitam longas.
Eu disse que sabia que a vida era um filme onde a gente se enganava achando que era o diretor, quando somos apenas cinegrafistas.



Juan Barto

Foto: Juan Barreto