Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Flagrei a arte trocando de roupa, essa noite.
Abri a porta sem bater antes e fui entrando. Foi quando eu vi seus seios fartos aparentemente mordidos, lambidos e bicados. Seios de cabeça erguida, diga-se de passagem.
Tinha marcas de batom, tinta e vinho barato ressecado nas coxas de pão sovado.
Sua barriga branca e lisa, parecia uma travessa de leite morno.
O pescoço fino de couro curtido, lábios vermelhos como duas cortinas cerradas. Que mulher!
A arte ainda tem um bundão, mas anda meio bundona.
Parece que quer calar os calos mal falados dessa mão de falanges tão falantes.
Desbunde e debandada.
A arte não se assustou nem se zangou quando me viu, mas também não se cobriu.
Ficou parada me olhando, seus olhos de blue-tooth me enviando mensagens invisíveis.
Disse que mofar também é florescer, só que em outro idioma, falado em outro reino.
Disse também que a vida é muito 'curta' e os festivais só aceitam longas.
Eu disse que sabia que a vida era um filme onde a gente se enganava achando que era o diretor, quando somos apenas cinegrafistas.



Juan Barto

Foto: Juan Barreto