Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
De uma concussão tirou uma conclusão: Com curso superior, poderia ser doutor no interior do exterior. Talvez desse errado, mas ao menos dar errado já era dar em alguma coisa.



Juan B.


Foto: Juan Barto

Agarrou a garrafa de cerveja em cima da mesa num movimento brusco e se demorou alguns segundos naquele gesto, sentindo a mão quente lentamente ficando fria e o vidro gelado lentamente ficando morno.
Um filete d'água escorrendo pelos seus dedos, molhando a madeira escura.
Tomou quatro goles robustos em sequência e sentiu uma agulhada na testa, repousou a bebida de lado, limpou a mão num pano de prato e catou a caneta seringa cheia de tinta heroína.
Pretendia picar o papel até que ele ficasse viciado, escravo das suas ideias, mas perdeu a inspiração.
Prendeu a respiração...
['Escritor', do latim: 'O idiota que risca'.]
Pensou em pedir um drink mais forte, algo como uma vodca pura.
Vodca é uma bebida tão traiçoeira que é meticulosamente dissimulada pra parecer apenas uma inocente água.
Ele sempre teve uma queda por aquilo que podia derrubá-lo.
'Não!'  - Pensou melhor, decidiu conjugar esse tipo de verbo apenas no pretérito-mais-que-enterrado, deu mais outros dois longos goles na cerveja, olhou pra folha lisa, aquele mangue profundo e branco, e rabiscou:
''Pela descriminalização de escrever 'Mais melhor' em documentos e sentimentos oficiais!'
e acrescentou:
''Essa caneta dura, machucando meu pulso. Nem parece que me conhece!'
Sua caligrafia parecia um cardiograma.
Se irritou, fechou o caderno e foi até o balcão para quitar o débito.
Enquanto revistava sua mochila à procura de dinheiro, lhe veio a mente:
'No fim (d)as contas são só papéis...'
Pensou em voltar até a mesa, reabrir o caderno e anotar aquele pensamento pra não esquecer, mas a fome apertou o cinto e ele apertou o passo. Deixou pra lá. Pagou, e saiu do boteco atravessando a rua onde os carros parados no sinal vermelho rosnavam pra ele parecendo cachorros bravos na coleira.

.

Era uma vez um peixinho dourado chamado Gomide. Parecia um pingo de fogo vivo, uma cápsula de lava ziguezagueando pelo aquário.
Cor de mertiolate, olhos de mercúrio, sozinho e com cara de poucos amigos.
Acontece que esse ser um dia encheu o saco daquele mundinho 'modelo reduzido' de Cloreto de Sódio artificializado com cor, luz e tédio.
De um salto pra cima se viu fora!
Serpenteou na corrente de ar que entrava pelo buraco do ar-condicionado que não estava lá e escapuliu. Foi-se embora.

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Que dê ferrugem na cara de pau do destino.
Gangrena na viga mestre do carma.
Artrite na artéria da arte.
Piolho no olho clínico do oráculo, que gasta o tempo vendo tv na borra do café, sentado na porra do sofá.
Filosofando sobre conselhos de biscoito da sorte e anotando nas folhas de chá.

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Os vizinhos da frente só me veem.
Os vizinhos do lado só me ouvem.
Os vizinhos de baixo só me sentem.

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Um ex fumante é um candidato em potencial ao suicídio
Se existisse ex suicida seria um candidato em potencial a ser fumante.

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Manhãs frias por aqui são tão raras que ganha significado tudo e qualquer coisa que aconteça nelas, como por exemplo perceber que as nuvens são feitas de mousse de limão e que alguns pescoços de iogurte de coco.
Se a sorte lhe sorriu, o que importa se ela não tiver alguns dentes?




Juan Barto








Foto: Juan Barto


BOICOTE PULMONAR

Com quantos 'foi a ultima vez' se faz um 'não acredito mais'?
Depende da convicção empregada no tom de voz? Na urgência boiando no olhar?
Algo é obrigatório ser levado em conta?
Olhe . . . Precisar é o que o homem sabe fazer com mais precisão.



Juan Barto