Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Agarrou a garrafa de cerveja em cima da mesa num movimento brusco e se demorou alguns segundos naquele gesto, sentindo a mão quente lentamente ficando fria e o vidro gelado lentamente ficando morno.
Um filete d'água escorrendo pelos seus dedos, molhando a madeira escura.
Tomou quatro goles robustos em sequência e sentiu uma agulhada na testa, repousou a bebida de lado, limpou a mão num pano de prato e catou a caneta seringa cheia de tinta heroína.
Pretendia picar o papel até que ele ficasse viciado, escravo das suas ideias, mas perdeu a inspiração.
Prendeu a respiração...
['Escritor', do latim: 'O idiota que risca'.]
Pensou em pedir um drink mais forte, algo como uma vodca pura.
Vodca é uma bebida tão traiçoeira que é meticulosamente dissimulada pra parecer apenas uma inocente água.
Ele sempre teve uma queda por aquilo que podia derrubá-lo.
'Não!'  - Pensou melhor, decidiu conjugar esse tipo de verbo apenas no pretérito-mais-que-enterrado, deu mais outros dois longos goles na cerveja, olhou pra folha lisa, aquele mangue profundo e branco, e rabiscou:
''Pela descriminalização de escrever 'Mais melhor' em documentos e sentimentos oficiais!'
e acrescentou:
''Essa caneta dura, machucando meu pulso. Nem parece que me conhece!'
Sua caligrafia parecia um cardiograma.
Se irritou, fechou o caderno e foi até o balcão para quitar o débito.
Enquanto revistava sua mochila à procura de dinheiro, lhe veio a mente:
'No fim (d)as contas são só papéis...'
Pensou em voltar até a mesa, reabrir o caderno e anotar aquele pensamento pra não esquecer, mas a fome apertou o cinto e ele apertou o passo. Deixou pra lá. Pagou, e saiu do boteco atravessando a rua onde os carros parados no sinal vermelho rosnavam pra ele parecendo cachorros bravos na coleira.