Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Esquinas são os cotovelos das ruas cutucando a sociedade nas costelas, expondo realidades urticantes em vitrines sem vidros.
Pra quê cortinas transparentes para esconder o óbvio?
O jeito é usar cordas vocais para armar nossa rede o mais alto e distante possível disso tudo, e tentar dormir apesar do barulho de pistolas de diamantes vomitando balas com pontas de caneta Bic cristal.
Os presos tem pressa. A pressa tem presas.

-----------------------------------------------------------------------------

Não tenho mais paciência para amores "criança"; onde boa parte do tempo é você;
''Desce dai!''
''Não mexe nisso... vai quebrar... viu? Eu disse pra não mexer!''
''Fica quieto um segundo!''
Também não tenho mais paciência pra amores "adolescente"; que não podem ser contrariados se não sobem na mesa e disparam tiros de megafone nos transeuntes.
Há pessoas que querem demonstrar bem querer batendo sua cabeça na nossa, batendo a porta do quarto com força até rachar a parede, até despregar os posters, até trincar a madeira, até entortar a maçaneta de uma vez por todas e terminarem sozinhos, trancados por dentro.
'Hormônio' realmente não é o masculino de 'harmonia', aliás, são de uma diferença de grosso calibre.






Juan Barto




DISTIMIA

'Raiva' é a seiva leitosa escorrendo oleosa pela casca enrugada da testa do 'seringueira man'.
'Rancor' é o tablete de borracha já endurecida.
'Você é o culpado pela minha culpa!'

-----------------------------------------------

Minha cama por fazer, minha barba por lazer.
Observando as pessoas usando filigranas como se fossem fliperamas, esfaqueando minha sombra com lanternas.
Só se assa as batatas das pernas dançando a cada baque do atabaque.

-----------------------------------------------

Parecia que era fumaça de cigarro, mas era a alma escapando pela boca em pequenos jatos.
Caiu morto no chão, mas ainda houve quem dissesse que era a cara dele fazer essas coisas. Esse era só mais um pretexto pra não sair de casa.



J.B






[COM/A/FÉ DA MANHÃ]

-Por que você insiste em escrever sobre coisas que estavam quietas?
-Eu escrevo sobre coisas que estavam inquietas.
-Não me venha com essa! Não me venha com essa! - Vociferou o outro -Será que não percebe que suas palavras são como um data show projetando imagens dentro das cabeças das pessoas? - Ele deu um soco violento na mesa que fez as xícaras e os talheres baterem os dentes de medo.
-Você vê arco-íris onde não tem! Me passe a geleia por favor... - Retrucou o dono da casa na maior serenidade possível, tentando ignorar o destempero emocional do 'convidado' inusitado.
-Quer saber? O problema é que você escreve demais pra alguém que até calado está errado!
-Justamente por isso que eu escrevo muito! Prefiro 'estar errado' mandando tudo pra puta que pariu do que 'estar errado' morrendo entalado, sufocado de ódio.
-Você está me mandando pra puta que pariu?
-E não aceito um 'não' como resposta!

--------------------------------------------------------------------------
[ALMA/OSSO]

-Você trancou bem a porta?
-Meu Deus, eu já disse quinze vezes que sim!
-Você foi seguido?
-Que eu saiba não, mas quem iria me seguir?
-É exatamente essa pergunta que eu quero que o meu marido se faça. E ai? Fale tudo... você seguiu ele?
-Sim, desde o almoço da quinta-feira, quando ele lhe telefonou dizendo que ia comer no ...
-...'Churrasco Olímpico' com os sobrinhos!
-Pois é, mas ele comeu mesmo foi no 'El Marcondez', restaurante de comida mexicana, maravilhoso inclusive, com uma loira coxuda misteriosa. Olha aqui a foto.
-Ah, que escroto!
-E foi ela quem pagou a conta. Aqui... a fatura do cartão dela.
-Ah, que escroto!

---------------------------------------------------------------------
[JANTA GANGSTA]

Observo o obscuro com olhos de holofote, com paciência de elefante.
'Atolo o tolo até o talo!'
Coloco minha fome no modo silencioso e tiro o meu cérebro da função 'soneca'.


Juan Barto

Foto: Juan Barto