Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
É que quando tu ficas com raiva parece que mãos de luvas vermelhas te tapam os olhos, apertando com força tua cabeça, enquanto outras de luvas negras, reviram o teu estô(â)mago e começam a puxar pra fora somente o que há de pior dentro de ti.
Como naqueles truques chinfrins onde o mágico tira da manga um lencinho e com falsa surpresa constata que ele está amarrado a outro lencinho, que está amarrado a outro lencinho, que está amarrado a outro lencinho...
E vai tirando, e vai tirando e não param de sair lencinhos!
Metros... Horas...
E os seus já vem, todos, devidamente assoados.


Juan Barto




O amor é um canivete conivente com a dor do corte.
Não rasga porque não tem dentes, mas fura e chupa o sangue do hospedeiro até a morte.
No dia seguinte, amanhece espalhando manteiga no pão como se nada tivesse acontecido.
O amor é um canivete suíço.
O amor é um canivete, só isso.


Juan Barto


Foto: Juan Barto

[1ª lição: Mergulhar é rápido, afundar é lento.]

... e melancólico...  ....   .......
...   ... como a palavra ....  ..........
...........................  ...  ........  .......
...   .........  .............   'plongé'........


Esse foi o ano do "vá para o seu quarto pensar no que você fez!"
Fiz um intercâmbio para partes do meu interior onde eu era o meu próprio 'primo babaca da capital', tratado com indiferença e deboche por alguns 'mim's nativos.
Bom,  mas se era ali que moravam minhas versões anciãs com quem eu precisava conversar, era ali que armaria minha barraca emprestada.
De dentro d'água eu via as coisas na terra evoluírem mais do que rapidamente.
Os bi (pedes), verdadeiros tri (atletas), correndo a toda, pulando de galho em galho, voando de olhos fechados e bocas abertas.
Eu, comendo tigelas de mamonas no café da manhã, tirando pacientemente os carrapichos dos meus cabelos, catando os oxiúros desse cu chamado 'vida' com uma pinça e uma lupa de aumento.
Esculpindo minhas próprias guelras com unhas e dentes.
Enfim, outros meios para outros fins.


[2ª lição: É possível extrair fogo diretamente do azul.]

O curaçau e o coração já haviam me mostrado isso antes, só que eu havia me esquecido.
Como um gêiser, explodi pra fora do pântano tinindo. Vermelho!
Viagem longa, ouvidos despressurizados bruscamente doem horrores.
Feliz, pois alguém me espera na rodoviária!



Juan Barto




DES(A)TINO

Chegou a conclusão de que ir embora era a maneira mais consistente de provar de uma vez por todas que poderia sim ter ido embora antes, sempre pôde, e que se até então vinha insistentemente transformando no último minuto cada uma de suas ameaças em recuo era porque queria, e não por uma questão de falta de coragem ou excesso de pena, como afirmavam diariamente os jornais da época.
Apenas falar não vinha funcionando, precisava pôr a palavra em movimento.
Olhos no volante, olhos no retrovisor.
Olhos no volante, olhos no retrovisor....
Saudade é como levar na marmita frutas de plástico. Emagreceu, perdeu quilos e colos. 
Passou anos planejando morar naqueles cabelos e isso não seria mais possível, mas preservava uma cópia da planta do projeto dobradinha, guardada na carteira.


Juan Barto





DIÁRIAS E FURIOSAS

A droga é quem sentia saudades diárias do viciado desaparecido.
Diárias e furiosas.
Nas manhãs mais escuras, tateava com as pontas dos dedos por debaixo dos lençóis em cabaninha à procura da pele dele e, ainda sonolenta, sorria feliz de olhos fechados quando a encontrava, pra perceber instantes depois que estava apenas acariciando com ternura o seu próprio antebraço, dormente após horas dobrado em um ângulo estranho.
Estava acordada há trinta segundos e já se sentia triste e patética.
As vezes acordar era tão exaustivo e prejudicial, que uma noite de sono equivalia a fumar setenta e cinco carteiras de trabalho.
As vezes esquecia que a cama agora só respirava por um lado e isso pra quem tem asma é um veneno.
As vezes o primeiro passo para a cura é ficar parado.
Ignorar esse tipo de recomendação é o segundo passo...
Aproveitando-se de que em cidade pequena, cada 'canal' é uma emissora em potencial, passou a peregrinar pelas 'bocas' tentando conseguir de novo aqueles lábios ou aquele hálito, qualquer cheiro querido que denunciasse a presença do usuário no ambiente, entretanto, sem nunca achar.
"É... Parece que dessa vez ele me largou mesmo!"
A droga sentiu o formigar súbito da ponta do nariz ir se espalhando lentamente pela borda das narinas, reverberar no queixo até trincar as vidraças das vistas.
Tentou extinguir aquele princípio de choro praguejando e exclamando palavrões como se apagasse uma fogueira jogando terra, só que com raiva.
Como se tangesse um mal espírito, só que com pedras.
Inútil. Os olhos descamaram-se em confetes transparentes, como vinha acontecendo ultimamente.
Era a constatação da frustração. Era uma 'frustratação'.
Queria vê-lo mais uma vez (nem que fosse pelo tempo de um semáforo vermelho) e gritar (nem que fosse da janela de um ônibus 0304 em movimento) que ele continuava desgraçadamente lindo!
Tão lindo...
Queria ter sido mais entrega do que intriga.
Queria ter ido além, queria ter ido 'all in', mas a vida agiu como uma colheitadeira des(obs)truindo tudo por onde passou e deixando pra trás um rastro de lembranças moídas pra servir de alimento para nós, o gado.
Se arrependeu genuinamente de bastante coisa e isso não foi uma questão de crença, e sim de 'cresça!'.





Juan Barto
Foto: Juan Barto
[-Dizem que chopp é excelente pra tirar o gosto de porra da boca.... Porque é amargo! - Risadinha debochada.
-É? Então por que você não lava o seu cu com uma grade de skol, pra que a sua mulher não desconfie que você é viado enrustido?
Explosão de risadas de ambas as partes.
-Cala a boca, Flávia! Cretina!
-Então não começa, 'Keila'! O assunto é sério! O boy disse que se eu não deixar ele gozar na minha boca ele termina comigo, o que eu faço?!]




Juan Barto
Degustando aos poucos essa melanc(ol)ia, lambuzando minha cara da ponta do nariz ao extremo do queixo com seu caldo aguado, mais pra suco do que pra sangue, porém sem a menor pretensão de nutrir.
Sou 'indie' tupi - guarani(etzsche), pintado pra guerra com as cores do sono.
''Desenterrasse desinteresse!''
Acordei com isso na cabeça, sentindo dores nas costas das mãos, ali na munheca, perto dos rins.



Juan Barto


Eu tento todos os dias ser uma boa mãe solteira para essa saudade que nós dois ajudamos a colocar no mundo.
Tento não lhe incomodar pedindo pensão, mas coração assim fossiliza, vira uma almôndega de calos com textura e comportamento de calcanhar.
Tem que (j)untar bem de vez em quando e dar aquela viradinha pra não assar só de um lado.
Adormeci pensando que antes de nascer a gente almeja encorporar, crescer e encorpar a alma antes de morrer!
Raios dourados por todos os lados. Acordei com  o sol já pondo o dedo na minha cara!


Juan Barto



Estava amanhecendo e fazia um frio desgraçado.
Ela perambulava impaciente em volta do carro em coma no acostamento. Olhava compulsivamente pra trás a cada trinta segundos na esperança de avistar um possível resgate. Esticou a perna pra cutucar uma latinha de cerveja amassada na beira da estrada com a ponta do tênis, e acabou por chutá-la pra longe, pro meio do mato.
Mãos cerradas nos bolsos do casaco, capuz armado no topo da cabeça como uma coroa de pano, cravejada de pensamentos raivosos.
Ele, sentado em posição de lótus sobre o capô de metal morno, devido ao motor ainda não completamente resfriado, agradecia aquele calorzinho no saco e na bunda, pois era o que ainda o fazia manter-se calmo naquela situação, já que não tinham cigarros.

-Vou entrar um pouco.
-Eu vou ficar aqui patrulhando mais um pouquinho. Está clareando rápido e já já...

Ela bateu a porta.

'Tá puta!'

'Tô puta!'

Reclinou a poltrona do passageiro até o limite, as pernas cruzadas uma sobre a outra no painel. Encaixou a figura do namorado de costas, encarapitado na proa do veículo que nem uma carranca de barco viking, na moldura formada pelos seus pés em x. Alvo na mira!
Teve vontade de atravessar o para-brisas com um chute poderoso e certeiro, até enfiar metade da sua canela no cu dele, tamanho era o ódio que estava sentindo, primeiro, por todos os seus amigos estarem ocupados demais pra comemorar o seu aniversário, segundo por ter se deixado convencer pelo galã ali da frente a aceitar o plano B, e ir para um sítio no interior do estado que pertencia a família do galã, mas que ninguém quase nunca usava e o caseiro é quem tomava conta boa parte do tempo.
'Só eu e você, amor! Vai ser como uma lua-de-mel!'
'Tá certo!'
 Pensou em tom de deboche silencioso. Fazia cinco horas que tinha vinte e poucos anos e só o que ganhou de presente até então foi fome, frio, desgaste, cansaço e stress.
Ela o culpava de leste a oeste.

'Como é que você sabe que vai viajar e não se toca de colocar a porra da gasolina?'

Ele esfregava as mãos compulsivamente a cada trinta segundos. O ar gelado fazia seus mamilos ficarem tão duros que tinha medo que perfurassem o suéter e desfiassem a trama da lã.
Sabia que a namorada estava chegando a um nível de irritabilidade tóxico, mas isso porque ela não sabia que tudo fazia parte do plano B.2.
Tudo havia sido milimetricamente pensado. O descaso dos amigos dias antes, a desnutrição proposital do automóvel para que ficassem presos na BR e tivessem que ligar chamando um suposto reboque, que na verdade seria o sinal verde para que duas vans e uma combi, lotadas de amigos, comidas, bebidas e combustível aportassem de surpresa e logo em seguida os arrebatassem dali direto para o bendito sítio no interior.
Esfregou as mãos de novo, mas dessa vez de satisfação.
Se sentia um gênio do crime, só que fofo.
Se sentia um náufrago, arremessado nas areias das primeiras horas da manhã pelas ondas da madrugada.
Misturando a euforia dos sobreviventes, com o mau humor letárgico dos que ainda não perceberam, ou não querem aceitar, que precisam dormir pra passar de fase.

[5:30] [a:m]

Silêncio maravilhoso, tão gostoso que dava vontade de gravar pra poder vir escutando de fones no ônibus, voltando pra casa no final do dia.




Juan Barto
'Granddaddy Purple', Blue cheese' e 'Shiva Skunk' são metades da laranja
que dá suco e que dá lombra.
É tão difícil ter que fumar escondido,
ser chamado de bandido
porque disseram "é proibido plantar planta!"
Beges e brancos, pretos, vermelhos e amarelos fumam do mesmo 'verdinho'.
Enxergam tudo colorido, mais bonito. 'Manga rosa' deixa tudo azul!
Será que há vida por cima do cinza da cidade, ou só cimento?
Marrom é a roupa que eu uso e me camuflo pela terra cor-de-terra, pra que ninguém possa me achar.



Juan Barto





Afiamos as palavras com esmero no esmeril, cada frase é um faqueiro...
Nossas linhas de raciocínio, todas tem cerol.
'Boas intenções' não servem como nota fiscal.
Desmilitarize sua estupidez, cautela com esse cutelo.
A vida vai limpar o cu com suas verdades e depois colocá-las na mesa como guardanapos.
Armadilha pra pegar urso pega lobo também. A morte não decora texto.
A gente quer pregar a palavra depois de ter pregado quem a falou.
Nessa história de morde-e-assopra, Deus tem dentes caninos de macho alfa, mas também tem uma língua felina que cauteriza as feridas como uma mamãe lambendo os cortes de suas crias.



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Juan Barto
De quatro como uma mesa, os cabelos marrons derramados pelas costas, como uma poça de leite com chocolate, escorriam por entre os braços dela até roçar nos mamilos, duas seriguelas vermelhas, doces e maduras.
Aquela mulher era silvestre, era banquete, era boquete...
Aquela buceta aberta e lisa, parecendo uma carambola, o fazia reencarnar em si mesmo a cada erro e a gozar pra cima a cada acerto, como uma torre esguichando petróleo albino, bombeando feliz de dentro pra fora, extraindo o extrato e cuspindo a fatura que confirma a fartura.
Se sentia rico, pois tinha dentes e tinha o que morder.
O homem completo molhou o rosto mais um pouco naqueles olhos cor de coco,
que tinham o verde da casca e o branco do oco.




Juan Barto

QUEIJO AZUL

Colocou o disco de carne de hambúrguer pra tocar na frigideira.
Aumentou o volume do fogo e o cheiro de cebola frita rapidamente ardeu-lhe os tímpanos.
Enquanto esperava, dichavou uma belota tamanho G sobre a contra capa do 'ventura' entre as pernas.
Usava as unhas como pinças, como se desfiasse um frango, até deixar o galho grosso exposto
como se fosse um osso.
Osso marrom, quase sem caroço.
Entre cânticos e cutículas, recheou aquela coxinha de colomy,
que por sua vez, nem parecia seda, tava mais pra veludo.
Usava catchup pra beijar sua comida e  batom pra beijar sua 'cumadi'.



Juan Barto
Na rua da casa dela as árvores são cabeçudas, tem black power's densos de silhuetas esmeraldas.
Os troncos grossos parecem ter sido lixados, envernizados e polidos com uma enceradeira.
As pedras do calçamento são como amendoins gigantes e até o bueiro é fotogênico, enferrujando charmosamente num cantinho da sarjeta. Bebendo todas quando chove...




Juan Barto


Era como se o céu fosse uma frase enorme e as nuvens fossem os acentos e as vírgulas.
Refletia sobre isso totalmente imerso numa infusão de ervas, enquanto fechava a janela do quarto pro silêncio não escapar.
O crucifixo fixado na parede da sala irradiava proteção pela casa inteira, como um roteador.
Wi-fé.
Colocava até Bombril na ponta da cruz para as orações pegarem sem chiado.
Fome é quando nosso estômago entra no modo 'centrifugação e enxague'.
Desceu até a cozinha pra pegar uns frios na geladeira e no caminho um carinho, fez um afago na gata.
''Ah, fogo da gota!''
O barulho de mini unhas riscando o lado de fora da porta de madeira, que dava para o quintal, já durava três dias e já estava enchendo o saco!
''Felino no cio & cia.'' - Pensou.
Com exceção da gata, morava sozinho.
"Sozinho" era um 'só' bem pequenininho, em um nível agradável e pouco ofensivo, como o sol antes das oito da manhã.
Primeiro veio a maioridade, depois a maior cidade, depois a mocidade, depois é mó saudade...
Que é o lado 'lodo' do lago.



Juan Barto





Tem bochecha que beija tua boca de volta, cheirando a ingenuidade e higiene.
Te desentupindo os brônquios e os chakras.
Como uma maçã macia, se fixa fúcsia e se encaixa convexa nas minha cavidade óssea concava chamada 'órbita', como um gato se aninhando numa cesta.
Ouço um 'clic' refrescante!
Livre arbítrio é o direito de ir e rir, e ficar à vontade pra ter vontades.



Juan Barto
Arrependimento legítimo é o da pessoa que fez a merda e tomou desgraçadamente no cu.
Arrependimento de quem fez a merda e saiu reluzente na outra margem, intacto ou semi-ileso de consequências é como um comprimido de sonrisal jogado num copo d'água; no começo são milhares de bolhinhas frenéticas fazendo cócegas no seu juízo, milhares!
Trinta segundos depois já tem bem menos!
Um minuto se passa e tudo vai acalmando...vai acalmando... acalmando...
Dois minutos depois a água está lá estática, esticada! Como se nada nunca tivesse acontecido.
Consciência totalmente estéreo de efervescência, incapaz de gerar e parir uma crise.



Juan Barto



ANTIBIÓDIO

[ Um paga água e luz.
O outro paga com domínio.
Cor? Pus nos corpos nus... ]

Colocou aquela lembrança dobrada em quatro, dentro de um grosso livro debaixo de uma colina de outros grossos livros.
Nem armadura e nem armadilha, apenas respeito mal compreendido.
Desprezo ostentação, retruco com retranca.



Juan Barto

NO GUICHÊ

-Bom dia! Eu gostaria de tirar a 2ª via do 'amor', é que eu perdi o original.
-Preencher a ficha e aguardar.

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NA 4ª SÉRIE

-Você sabia que tem mulher que vira homem e tem  homem que vira mulher?
-Sabia, mas o homem que vira mulher não pode engravidar!
-É, não pode.
-Será que eles conseguem fazer cocô?
-O que é que tem a ver, Pedro Henrique?

Letícia, que estava na cadeira da frente aparentemente prestando atenção na aula, vira e fala:

-Júlia, eu ouvi bem? Ele falou a palavra c-o-c-ô?
-O que é que tem?
-A gente não usa essas palavras, Pedro Henrique. É feio.
-Ai meu Deus do céu, cocô é o jeito certo de dizer. Não pode falar é 'merda' nem 'bosta', idiota!

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NA TORA

O silêncio estapeava seus tímpanos como se amassasse e amaciasse uma massa.
Razão rasa, logo, se não tem ração, não tem reação da raça.
Rec(r)eio.




Juan Barto

CRAVO

Prefiro uma verdade nua e crua do que uma mentira fazendo strip-tease.
Ou você é de ventanias ou você é de penteados, as duas coisas não dá pra ser.
Quando estive com as gotas entre os dentes, mordidas e assopradas, escarrei e cuspi!
E limpei minha boca na suas coxas.



Juan Barto
Uma lagartixa acabou de passar correndo por mim a toda velocidade, desesperada, partindo da cozinha, cruzando a sala em três segundos até fazer seu 'touchdown' alcançando o escuro protetor de debaixo do meu sofá, como se ali fosse uma fenda num paredão rochoso.
Pra ela eu sou um Tiranossauro-Rex gigantesco e assustador...
O mundo dá voltas...

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Sempre foi calado. Comia os outros com os olhos e gozava pra dentro.
Conseguia ver com clareza que 'deixa quieto' era diferente de 'deixa estar'.
Um era 'passar uma borracha', o outro era 'afiar todos os lápis'.
Aprendeu a distingui-los ainda criança, mal havia parado de engatinhar já sabia engatilhar.
E atirava bem com os dois.

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''Amar': Verbo irregular, conjugado no finitivo, terminado em ar(gh!)

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Deus tinha feito a rede a partir da costela da varanda.
O térreo, a essa altura, já mudara de sexo e hoje assina sua escritura como 'cobertura'.
E a cobertura, veja você, se descobriu feita de glacê!


Juan Barto















FAIXA PRETA

Um furgão negro emergiu com seus vidros fumês cruzando lentamente uma rua sem postes numa madrugada sem lua.
Não se ouvia barulho de nada, muito menos de motor e no entanto, aquele retângulo obscuro se movia no escuro, avançando discreto e determinado como um tubarão.
Alguns quarteirões depois já era praticamente a zona rural da cidade com todos os clichês inclusos: Uma única estradinha mão dupla de terra batida, terrenos enormes cheios de matos de um lado e terreiros imensos e descampados do outro, onde o termo 'vizinho' era uma mera força de expressão.
Taxiou até parar diante de um portão gradeado e aguardou.
O carro parecia que arfava. Lembrava um rinoceronte imponente, mas cansado, trancado estranhamente do lado de fora da sua jaula.
Piscou os faróis duas vezes seguidas, a primeira mais demorada e a segunda mais breve, numa espécie de buzina muda. Quase que imediatamente dois homens surgiram das sombras caminhando lá de dentro até a entrada.
Um destrancou o enorme cadeado que unia as duas partes e abriu passagem, enquanto o outro dava uma espécie de cobertura olhando ao redor com uma lanterna, checando se não haviam sido seguidos.
O veículo deslizou suavemente pra dentro como se fosse empurrado por fantasmas, avançou uns cento e cinquenta metros, contornou o enorme casarão até chegar numa clareira que ficava mais uns oitenta metros ao fundo.
Estacionou e tudo mergulhou na mais completa escuridão, de repente as portas traseiras se abriram e seis vultos foram saindo, um a um, de dentro do animal-furgão como se este estivesse dando cria.
Arrastaram um sétimo com brutalidade e o atiraram ao chão de qualquer jeito. Uma voz seca cortou o ar como uma guilhotina:
-Abre a boca dele!
A criatura no chão protestou:
-Não, por favor! O que é que está acontecendo!?
A voz do que parecia ser o líder repetiu a ordem sem responder.
-Abre a boca dele.
Os cinco homens voaram pra cima do caído que, apesar de estar com as mãos e os pés amarrados e obviamente em desvantagem numérica, quis dar trabalho. Se debateu, se contorceu rolando no chão que nem jacaré, levantou poeira, praguejou, tentou morder, tentou dar rasteira, tentou dar cabeçada até que os dois homens que tinham aberto o portão principal voltaram correndo pra se juntar ao grupo e conseguiram dessa forma enfim, dominar o sujeito e colocá-lo sentado. Meteram uma lanterna de luz forte na cara dele que estava todo suado, sujo e ofegante, aproveitaram e meteram também um solado de bota no seu nariz. Um filete de sangue escorria de uma das narinas. Seu olhar era o de mais puro terror.
-Eu não sou rico, minha família não tem grana! Vocês pegaram o cara errado!
-Não é rico, mas é famoso! Não é verdade? - Respondeu perguntando o líder.
-Não cara, eu sou só um estudante!
-Eu sei. Estudante de artes marciais, vale ressaltar!
-E o que isso tem a ver?
-Tem a ver com o fato de você ter levado esses seus conhecimentos estudantis pra passear na praia esse final de semana como se fosse um professor...
O rapaz, que estava branco, ficou amarelo. A ficha não só tinha caído como rachou ao meio na queda.
-...É Mauricinho, eu falei que você era famoso!
O silêncio dançava ciranda em torno daquela fogueira de gente.
-Você sabia que um dos rapazes que você 'educou' faleceu hoje a tarde? E que o outro, o namorado dele, provavelmente vai ficar cego de uma das vistas?
O silêncio fazia um solo de guitarra nas cordas vocais e tocava percussão nos tímpanos dele.
-Eu resolvi seguir seu exemplo, mas como detesto praia resolvi lhe dar uma aula de campo.
Um ou outro capanga riu divertido.
- O..o..oque você vai fazer?
-Aquilo que eu faço há vinte e oito anos. Eu sou dentista, Mauricinho.
-Puta que pariu!
-Depois de tantos e tantos anos de carreira eu posso lhe assegurar que é impossível falar 'viado' sem os dois dentes da frente.
-NÃO CARA, PERA AI, PORRA!
-Abre a boca dele!


Juan Barto

SEDE SEDOSA

Mapeei todas as minhas intenções como uma rodovia e reparei que daqui até você, só consigo ir engatado na segunda.
Quero dueto e não duelo.
Me tornei uma pessoa atemporal. Há tempos que não tenho hora pra nada e tem horas que não tenho tempo pra tudo.



Juan Barto

O celular tocou no momento em que ele estava, irritado, refazendo uma conta dificílima pela sétima vez.
Viu o nome da mulher na tela, atendeu o mais assertivo possível.

-Fala!
- A Fernandinha...
(Silêncio)
-Fala!
-Você não vai acreditar no que ela fez...
-Fala...Caralho!
-Ela bateu o carro.
-O que?!
-Na verdade não foi ela, foi o namorado dela, que é quem estava dirigindo.
-PU-TA-QUE-PA-RIU! - Cada sílaba pronunciada pausadamente de forma tônica, representava simbolicamente um murro que ele queria dar no tampo da mesa e, por estar num ambiente de trabalho, não podia. A esposa aguardou que ele se recompose e prosseguiu.
-Ela falou que eles estavam fugindo da polícia, eu disse: 'Patrícia isso não justifica!'
-Fugindo da polícia? - Começava a sentir suas orelhas formigando.
-É, parece que eles estavam com um monte de tênis no porta-malas.
-Como assim tênis, Rita? Meu Deus do céu, que tênis são esses?
-Uns que eles pegaram na estrada, de um caminhão tombado.
-QUE PORRA É ESSA?
-É roubo, né Jefferson!?
-QUE PORRA É ESSA QUE ESTÁ ACONTECENDO COM ESSA MENINA, RITA!? O QUE DIABOS ESSA IDIOTA TEM NA CABEÇA?
-Ah meu querido, a juventude hoje em dia não é mais como a do nosso tempo!
-NÃO MESMO!
Raiva é um sentimento maldito. Um defeito, de fato. Jefferson começou  roer as unhas, mas já estava quase chegando aos metacarpos. Apertava o telefone com força e sentia o plástico estalando estrangulado.
-Que garota filha da puta!
- Da puta e sua também, Jefferson. - Completou a mulher em tom de constatação, do outro lado da linha.




Juan Barto

-Moço, você tem vida?
-1 litro, 2 litros, latinha, latão, ks, 500 e 600 ml.
-Tá quanto a de 2 litros?
-Quinze salários mínimos.
-Hum...me vê uma latinha, por favor!
-Quer sacola?
-Precisa não.



Juan Barto
Flores de tinta num tronco de carne.
As coxas são a raiz da cintura.
Ela é orquídea por parte de pai e tulipa por parte de mãe, signo de terra, semente e ascendente em 'planta carnívora', libera cheiros híbridos, provoca sensações hidropônicas e dizem que sua seiva tem gosto de pilsen e poison.
Assopra meu pescoço como quem toca flauta doce e faz meu coração ficar gramado, vivi muito bem até hoje sem esse tipo de vegetação, mas agora isso parece estar abalado.



Juan Barto
Sou jujuba sem açúcar, amendoim com casca.
Eu grudo no dente, eu estrago fotos.
Eu solto esporos, entupo poros e não paro.
Eu sou o triângulo das permutas.
Eu ofereço perigo, mas apenas por educação, não precisa aceitar!


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Tem momentos em que o silêncio é tão seco que é possível ouvir baixinho os mini arrotos dos ácaros devorando a superfície de tudo, numa lentidão supersônica invisível a olho nu.

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Foda é a vida do botão, que pra entrar na própria casa tem que ser com jeitinho, meio que de lado . . .



Juan Barto
Hoje eu quis difamar uma verdade e confirmar uma mentira.
Hoje eu quis espalhar lixo no chão da rua de forma profissional, não por lazer como todo dia.
Hoje eu quis passar comendo por quem passa necessidade.
Hoje eu quis passar notas falsas, notar falsas portas e inclusive recomendá-las.
Hoje eu quis empurrar velhinhos lentos e esmurrar crianças agitadas.
Hoje eu quis dar pessoalmente uma má notícia.
Hoje eu quis desperdiçar um milhão de litros d'água e poluir o que sobrar.
Hoje eu quis quebrar uma promessa, descumprir um trato e arrumar uma desculpa pra não me desculpar.
Hoje eu quis riscar um lindo carro e pisar de salto fino em calos.
Hoje eu quis humilhar alguém totalmente indefeso, torcer pelo mais forte e bater no mais fraco tocando no seu ponto fraco.
Hoje eu quis torar lombras, secar pneus e encher o saco.
Hoje eu quis feder!
E lembre-se, a esperança é a última que morre . . .
Mas o penúltimo é você.



Juan Barto



SOLO FEDERAL

-Você não pode fazer isso aqui!
-Isso o que?
-Isso ai que você está fazendo.
-Fechar um baseado?
-Exatamente. Não pode! Você sabe que não pode!
-O que eu sei é que não pode fumar. Não sei nada sobre não poder fechar.
-Em tese você não poderia nem ter isso, meu amigo!
-Se em tese eu não pudesse fechar becks por ai, na prática eu não deveria ter acesso, de forma comercialmente legal, a sedas de todos os tamanhos, texturas e cheiros, com tantos sabores quanto uma sorveteria, tratadores e mais tratadores de tudo quanto é estilo e de todas as cores . . .

Ele ia falando e enumerando nos dedos. O guarda ia falar alguma coisa quando o garoto interrompeu.

-'Fechador'! Não, cara! Sério, dá pra acreditar nisso? 'Fechador', olha isso!
Até 'fechador' esses putos vendem que é pra deixar tudo o mais 'suquinho de caixinha' possível que é pra você não ter desculpa pra não fumar esta merda!
É um aparelho de inclusão social sofisticado que executa a mesma função das rodinhas da bicicleta e agora querem me dizer que ciclista é a mesma coisa que marginal? Vão tomar no cu!

O guarda ouviu aquele discurso todo calado, braços cruzados, olhando pro chão enquanto catucava uma pedrinha com a ponta do sapato.

-Tu faz que curso boy? - Perguntou ainda olhando pro chão.
-Odontologia!

Silêncio.

-Aposto que você pensou que eu fazia letras, ou história  . . . ou filosofia né? Chupa sistema! Odontologia! Quero ver mais pra frente, um dia na hora do aperto, um ciso encravado precisando de uma manicure se vai ficar com dor ou com preconceito, malandro!

-Tu é muito nervoso pra quem fuma maconha, sabia?



Juan Barto

' CARRO PIPA É UM SUBMARINO AO CONTRÁRIO! '

O que é mais importante, dar o gás ou ensinar a explodir?
Imitar o pincel que corre pra cima e pra baixo se descabelando aos pouquinhos pra durar mais, ou a trabalhadora metralhadora que corre de um lado pro outro e é sempre a funcionária do mês, porém só recebe pagamento em balinhas?
Os altos e baixos da vida são soluços existenciais, quem tem a sorte de nascer com sorte quase não sabe o que é isso.
É como se essas pessoas cursassem a escola da vida sendo bolsistas numa universidade particular.
O mundo é pequeno pra caralho, os oceanos ficam de cochicho uns com os outros dia e noite.
Acabei adormecendo mais uma vez com a janela acesa, de conchinha com cadernos e canetas.
Escrever geralmente é o momento em que o meu 'eu interior' fala mal de mim literalmente na minha cara, mas também é quando as palavras viram sabonetes molhados e as frases nem sempre saem de uma . . .
. . .
. . .
. . . vez.






Juan Barto

MATUTO MATUTINO

Se arrancou do acostamento mansamente como agulha de vitrola, mas pouco tempo depois já estava a 120 Km/h deslisando ligeiro pela vida que nem faca quente na manteiga, rasgando a madrugada sem encontrar atrito ou resistência, apenas reticências...
Se sentia a caneta de Deus escrevendo freneticamente certo por faixas amarelas tortas e esburacadas.
Espalhou espelhos por todos os lugares para que logo mais ao amanhecer, refletisse o sol se não estaria ele sendo quente demais conosco.
Naquela madrugada o antônimo de Antônio era atônito.
Quando chegou finalmente em casa escreveu com sua visão raio laser na lataria lateral:
'Instabilidade serena'
e na outra
'Mesmice caótica'.
Tatuou o próprio carro com o yin-yang dos tempos modernos.
O ar cheirava a ferro derretido e orvalho.
E foi dormir pensando nisso, nesses novos significados que a modernidade trouxe para as coisas, por exemplo o fato do coletivo de gente hoje em dia ser: 'Prédio', 'Trânsito', ' Fila', 'Confusão'...



Juan Barto





A única presença de Deus na vida de algumas pessoas, é nos perdigotos que pulam de suas bocas no momento em que elas gritam o seu nome presunçosas, se sentindo superiores, se gabando por serem religiosas, mas se gabar não é vaidade? Vaidade não é pecado?
São essas mesmas pessoas, que usam a bíblia como se ela fosse uma procuração autenticada com firma reconhecida, lavrada em cartório e assinada pelo próprio senhor, concedendo-lhes poder oficial pra que elas resolvam todos os problemas do mundo em seu nome, menos os causados por elas mesmas.
Essas pessoas esquecem que a bíblia tá mais pra 'telefone sem fio' do que pra distintivo da polícia.
Essas pessoas esquecem que a vida passa num bater de palmas, num estalar de dedos, num piscar de cu, e que é preciso aproveitar tudo e reaproveitar o resto, porque na verdade o pior cego é aquele que não tem nada pra ver.





Juan Barto
Pra quê telefone pra contato se o desejo é de contato com o tato?
Ela piscou as lentes de contato, finalmente entendendo o contrato.
O abraçou com atitude, apertando os seus cabelos como quem se segura num cavalo sem cela pra não cair. Provou seu paladar de uma maneira nitidamente audível.

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Eu sei que nunca fui perfeito, e há cada dia mais suspeito que nunca hei de ser
mas toda vez que eu lembro de rezar meu bem,eu não esqueço de você.
Pode até ser uma bobagem, pode até não dar em nada, mas se der... Não há de quê.




Juan Barto












Não entendia como as pessoas antigamente tinham máquinas de datilografar e vizinhos ao mesmo tempo.
Principalmente se pensar em vizinhos de apartamento, o chiado desse vinil era consideravelmente alto.
Além de bic não ser pro seu bico, enxergava poesia naquele mini caractere de chumbo se erguendo de uma multidão de mini caracteres de chumbo decidido, firme e rascante como um jogador de vôlei no momento do saque, um após o outro numa certa ordem como ingredientes de uma sopa, coreografados como continência de soldado, dando testadas violentíssimas na lona em formato A4 que estala com o tranco e cheira a sangue fresco, sangue negro carimbando o papel que foi chicoteado letra por letra até que a cicatriz formasse uma palavra.
Mas por outro lado....
Computadores eram tipo uma pistola  automática com silenciador.

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Estava esperando o seu vagão quando ouviu um cara falando ao celular perto dele

''- Querido, a verdadeira estrada de tijolos amarelos que conduz ao mundo fantástico de Oz são os táxis engarrafados por quarteirões aqui no trânsito de Nova York. Como eu não tenho o menor interesse em ir pra Oz, eu estou indo de metrô pra um festa na casa de doces da bruxa!"

Não lembrava  de jeito nenhum como, mas Franklin acabou indo parar nessa festa com esse desconhecido do metrô.
Aceitou uns temperos opacos 'alucilógicos' oferecido por uma ruiva com cara de boneca de porcelana.
Sabia que deveria ter dito não, mas ruivas são como os gatos, eles podem arrancar nossos olhos facilmente com as unhas a hora que quiserem, mas preferem nos seduzir, nos persuadindo sutilmente com sua fofura enigmática até que sintamos vontade de arrancá-los por vontade própria e implorarmos de joelhos fazendo vozinha de bebê para que eles os aceitem como presentes.
Achava irônico que a palavra que melhor definisse a humanidade fosse 'cachorrada'!



Juan Barto

17h 45min

O céu deita-se sobre antenas e para-raios com a segurança esnobe de um faquir. Manchas 'rosa iogurte' coalham progressivamente o leite fresco das nuvens como um vitiligo púrpura, indicando que a tarde se aproxima do final; o telhado do mundo agora parece um gigantesco gomo de tangerina maduro ao extremo apodrecendo apoteoticamente em questão de minutos. É por volta desse horário que as pessoas começam a escorrer pelas fendas dos prédios e as ruas rapidamente ficam alagadas de veículos, virando um mar revolto de lanternas traseiras à piscar no mesmo compasso; um extenso cardume de peixes betta metálicos enfileirados em uma morosa correnteza, tentando encerrar o expediente sem brigar com (mais) ninguém. Na zona urbana, 'noite' é a escuridão maquiada de neon desabrochando em sutis tons de amarelo; o âmbar das lâmpadas dos postes, a nicotina tingindo os dedos e os dentes de sua gente nervosa, as cédulas de vinte reais tangendo o garimpo contemporâneo como pepitas de ouro repaginadas... Assim como em toda metrópole, o cinismo e a desfaçatez (demônios gêmeos bivitelinos) foram os responsáveis por interferir espiritualmente na decisão debochada de nomear metade dos endereços na língua do indígena (historicamente oprimido pela cidade) e dedicar a outra parte a lamber o saco de membros do panteão político/militar nacional (tradicional opressor do cidadão). Quanto as frestas e lacunas, acabam sendo preenchidas como normalmente se costuma preencher qualquer espaço vazio: com religião. Arilene, por exemplo, nasceu e se criou no bairro dos Tapajós residindo no 'Santa Bárbara', um edifício de porte médio encrustado na esquina da avenida Marechal Terêncio em cruzamento com a travessa Senador Prachédes.
Por falar em Arilene, ela estava quietinha em sua espreguiçadeira xadrez admirando tacitamente da varanda do quarto andar Deus regular o brilho/contraste do firmamento. Crepúsculos impressionistas como o de hoje a hipnotizavam, mexiam com o seu emocional pressionando delicadamente (quase como uma carícia) os botões que trazia alojados no coração, fazendo disparar com silenciador mísseis existencialistas contra suas próprias estruturas. O horizonte se despetalando lá fora, enquanto ela internamente engendrava axiomas em mais uma sessão de autoanálise. Sua história hiper resumida era a seguinte; mal saiu da infância perdeu a mãe, nem bem adentrou a maioridade perdeu o pai. Estreou nas passarelas da vida adulta órfã de uma ponta a outra, como era filha única herdou sozinha o apartamento onde morava e mais a escritura de um ponto comercial bem localizado; a antiga loja de tecidos da família que tão logo faliu, teve sua estrutura alugada para uma grande rede de farmácias. Era um patrimônio relativamente modesto, mas que vinha lhe permitindo viver há mais de uma década confortavelmente, podendo inclusive se dar ao luxo de nunca ter precisado procurar um emprego, muito menos um macho que lhe sustentasse. Pelo contrário, coincidência ou não, quase sempre só fodia com fodido; nunca lhe pagavam nada, mas pelo menos não lhe cobravam nada.
Uma súbita gritaria histérica arrancou-lhe à fórceps de seus devaneios, em seguida o teto da sala trepidou de forma assustadora com uma trovoada de calcanhares. Ao que tudo indica, há uma turma juvenil reunida no vizinho de cima assistindo futebol pela televisão e no primeiro gol acontecido metralharam escandalosamente o silêncio (que morreu antes mesmo de chegar ao hospital). Em meio a irritação por ter sido ejetada de suas divagações, Arilene percebeu quando passos apressados destacaram-se do grupo, que ainda comemorava, foram em direção a varanda superior, exatamente acima de onde ela estava, e ouviu quando uma voz masculina adolescente falou eufórica, aparentemente ao celular:
-TÁ ME OUVINDO AGORA? EI, VEM PARA A CASA DO GILSON, TÁ TODO MUNDO AQUI VENDO BRASIL E ITÁLIA!”
A simples menção do velho país europeu fez uma memória específica se desgrudar do fundo da cabeça de Arilene, flutuar fantasmagoricamente pelo interior dos seus pensamentos até terminar boiando nas águas rasas da consciência, pronta e ansiosa para ser fisgada. Tratava-se de um rolo de filmes, uma compilação de slides sensoriais contendo trechos do “Caso Viccenzo”.
Pronto, foi só pensar nesse assunto e lá estava projetada na parte de trás dos seus olhos a imagem do tal sujeito protagonista; Viccenzo, um gringo de sobrancelhas grossas e longos cabelos grisalhos e cacheados. Um dia, veio com os dois irmãos mais novos conhecer o verão do Brasil e nunca mais quiseram saber de voltar a viver em Verona, onde juntos administravam o 'Aparízzios'; uma taberna rústica que levava o nome do avô e servia carne vermelha, queijo branco e cerveja (da amarela a preta). Massas só no resto do país, ali não. Em pouco menos de quinze dias sob o clima tropical, a trinca de sócios foi acometida pela latente, quase febril, necessidade de adaptar uma filial dos negócios na orla daquela praia. Desde o primeiro dia que chegaram aqui, sentiram as plantas dos pés formigarem; eram as pontas das raízes pinicando, querendo romper a pele das solas e se fincar na terra. Maturaram esse ideia de expansão transatlântica e o certo é que em uma noite bastante quente de sexta-feira a “Palhoça do Aparízzio” estava sendo inaugurada com bastante movimento.
Arilene (vestido azul escuro/ tiara bordô/ sapatos engraxados) aguardava entediada sua caipirinha ficar pronta, quando percebeu que o barman tentava sutilmente impressioná-la através do processo de preparo da bebida. Dizem que no mar, quando você avista um tubarão é porque ele já lhe avistou cinco minutos atrás. Foi esse o caso. O barman percebeu desde o início, quando aquela interessante mulher chegou no estabelecimento (des)acompanhada por um casal de amigos que, como o esperado, começaram a se beijar “empurrando-a” da mesa na única direção que lhe parecia apropriada: a do guardião do álcool. Mal Arilene aportou na borda do balcão, Viccenzo, o domador de destilados, colocou em prática o protocolo padrão: flerte gradativo. Cortou os limões com uma técnica de movimentos secos desenvolvida por um amigo ex-cigano, temperou o copo com cachaça e leite condensado em movimentos circulares alternados, como um vaqueiro ilusionista girando em arcos precisos o laço com uma mão e a cascavel com a outra. Mocca, seu irmão do meio, cuidava das finanças no caixa e também tinha o costume de paquerar a clientela sempre que percebia uma ranhura de abertura na hora de passar o troco. Ângelo (o caçula) idem; ao servir as mesas anotava vários pedidos, alguns ele trazia da cozinha e outros ele realizava no banco de trás dos “quatro-portas” estacionados mais discretamente. Cantada vai, cantada vem... vários mililitros de tequila enxaguando a prosa depois... Arilene e Viccenzo decidiram celebrar essa recém-adquirida amizade pernoitando na suíte “excelência suprema” do motel 'Cáfila'. Podres de bêbados, deram primeiro uma trepada objetiva; de estocadas fortes, mordidas famintas e palavras baixas. Pouco depois, outra mais “amorzinho” e menos vulgar, impregnada de uma malícia macia e dengosa. Adormeceram abraçados nus. Desde então, passaram a se encontrar regularmente. Arilene gostava de muitas coisas naquele homem; a tranquilidade dos confiantes, o bom humor sagaz dos inteligentes e a maturidade dos que aprenderam a aprender. Ela sentia o estômago querendo se auto sugar e se auto cuspir nas paredes do seu próprio intestino, tamanho era o estado de ansiedade que ficava sob o efeito daquela voz carregada de sotaque e galanteios que embrulhava causos interessantíssimos. Estava tão 'na dele' que quando as amigas chamavam-no de 'o coroa', em sua mente era só o que faltava para ele assumir definitivamente a figura de rei.
Ninguém sabia ao certo o por quê, mas a realidade era que a “palhoça do Aparízzio” caiu rapidamente nas graças dos nativos e passou a lotar perenemente mesmo sendo o fim da alta estação. Todos os animais da savana de cimento elegiam, semana após semana, aquele lago em especifico como o seu bebedouro oficial. A inesperada popularidade do quiosque obrigou seus donos a duplicar o horário de funcionamento, os três concordavam que era preciso aproveitar por completo qualquer maré de acaso positivo, todo sopro aleatório ou sintomático de bonança que fosse. Passaram a abrir também às terças, quartas e quintas. Viccenzo sabia que não existia a menor condição de manter um namoro, que necessita de tanta atenção no mundo 'extra gozo', tendo que se dedicar com vigor integral às madrugadas extras na palhoça. Arilene sabia que o fluxo do “sonho de prosperar” era uma enxurrada forte o suficiente para arrebatar o ítalo-amante de seus braços, afinal foi essa mesma correnteza que o arrancou do seio de sua cultura e o trouxe para a dela. Após viver um breve, porém intenso, período regado à eletricidade comestível e feromônios em brasas, a relação do casal sofreu esse entrevero de tiro fatal. Mesmo sem combinar, ambos agiram como legítimos ninjas contemporâneos; desapareceram das vistas um do outro camuflando-se cada um em si mesmo.