Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Pra quê telefone pra contato se o desejo é de contato com o tato?
Ela piscou as lentes de contato, finalmente entendendo o contrato.
O abraçou com atitude, apertando os seus cabelos como quem se segura num cavalo sem cela pra não cair. Provou seu paladar de uma maneira nitidamente audível.

------------------------------------------------------

Eu sei que nunca fui perfeito, e há cada dia mais suspeito que nunca hei de ser
mas toda vez que eu lembro de rezar meu bem,eu não esqueço de você.
Pode até ser uma bobagem, pode até não dar em nada, mas se der... Não há de quê.




Juan Barto












Não entendia como as pessoas antigamente tinham máquinas de datilografar e vizinhos ao mesmo tempo.
Principalmente se pensar em vizinhos de apartamento, o chiado desse vinil era consideravelmente alto.
Além de bic não ser pro seu bico, enxergava poesia naquele mini caractere de chumbo se erguendo de uma multidão de mini caracteres de chumbo decidido, firme e rascante como um jogador de vôlei no momento do saque, um após o outro numa certa ordem como ingredientes de uma sopa, coreografados como continência de soldado, dando testadas violentíssimas na lona em formato A4 que estala com o tranco e cheira a sangue fresco, sangue negro carimbando o papel que foi chicoteado letra por letra até que a cicatriz formasse uma palavra.
Mas por outro lado....
Computadores eram tipo uma pistola  automática com silenciador.

---------------------------------------------------------------------

Estava esperando o seu vagão quando ouviu um cara falando ao celular perto dele

''- Querido, a verdadeira estrada de tijolos amarelos que conduz ao mundo fantástico de Oz são os táxis engarrafados por quarteirões aqui no trânsito de Nova York. Como eu não tenho o menor interesse em ir pra Oz, eu estou indo de metrô pra um festa na casa de doces da bruxa!"

Não lembrava  de jeito nenhum como, mas Franklin acabou indo parar nessa festa com esse desconhecido do metrô.
Aceitou uns temperos opacos 'alucilógicos' oferecido por uma ruiva com cara de boneca de porcelana.
Sabia que deveria ter dito não, mas ruivas são como os gatos, eles podem arrancar nossos olhos facilmente com as unhas a hora que quiserem, mas preferem nos seduzir, nos persuadindo sutilmente com sua fofura enigmática até que sintamos vontade de arrancá-los por vontade própria e implorarmos de joelhos fazendo vozinha de bebê para que eles os aceitem como presentes.
Achava irônico que a palavra que melhor definisse a humanidade fosse 'cachorrada'!



Juan Barto

17h 45min

O céu deita-se sobre antenas e para-raios com a segurança esnobe de um faquir. Manchas 'rosa iogurte' coalham progressivamente o leite fresco das nuvens como um vitiligo púrpura, indicando que a tarde se aproxima do final; o telhado do mundo agora parece um gigantesco gomo de tangerina maduro ao extremo apodrecendo apoteoticamente em questão de minutos. É por volta desse horário que as pessoas começam a escorrer pelas fendas dos prédios e as ruas rapidamente ficam alagadas de veículos, virando um mar revolto de lanternas traseiras à piscar no mesmo compasso; um extenso cardume de peixes betta metálicos enfileirados em uma morosa correnteza, tentando encerrar o expediente sem brigar com (mais) ninguém. Na zona urbana, 'noite' é a escuridão maquiada de neon desabrochando em sutis tons de amarelo; o âmbar das lâmpadas dos postes, a nicotina tingindo os dedos e os dentes de sua gente nervosa, as cédulas de vinte reais tangendo o garimpo contemporâneo como pepitas de ouro repaginadas... Assim como em toda metrópole, o cinismo e a desfaçatez (demônios gêmeos bivitelinos) foram os responsáveis por interferir espiritualmente na decisão debochada de nomear metade dos endereços na língua do indígena (historicamente oprimido pela cidade) e dedicar a outra parte a lamber o saco de membros do panteão político/militar nacional (tradicional opressor do cidadão). Quanto as frestas e lacunas, acabam sendo preenchidas como normalmente se costuma preencher qualquer espaço vazio: com religião. Arilene, por exemplo, nasceu e se criou no bairro dos Tapajós residindo no 'Santa Bárbara', um edifício de porte médio encrustado na esquina da avenida Marechal Terêncio em cruzamento com a travessa Senador Prachédes.
Por falar em Arilene, ela estava quietinha em sua espreguiçadeira xadrez admirando tacitamente da varanda do quarto andar Deus regular o brilho/contraste do firmamento. Crepúsculos impressionistas como o de hoje a hipnotizavam, mexiam com o seu emocional pressionando delicadamente (quase como uma carícia) os botões que trazia alojados no coração, fazendo disparar com silenciador mísseis existencialistas contra suas próprias estruturas. O horizonte se despetalando lá fora, enquanto ela internamente engendrava axiomas em mais uma sessão de autoanálise. Sua história hiper resumida era a seguinte; mal saiu da infância perdeu a mãe, nem bem adentrou a maioridade perdeu o pai. Estreou nas passarelas da vida adulta órfã de uma ponta a outra, como era filha única herdou sozinha o apartamento onde morava e mais a escritura de um ponto comercial bem localizado; a antiga loja de tecidos da família que tão logo faliu, teve sua estrutura alugada para uma grande rede de farmácias. Era um patrimônio relativamente modesto, mas que vinha lhe permitindo viver há mais de uma década confortavelmente, podendo inclusive se dar ao luxo de nunca ter precisado procurar um emprego, muito menos um macho que lhe sustentasse. Pelo contrário, coincidência ou não, quase sempre só fodia com fodido; nunca lhe pagavam nada, mas pelo menos não lhe cobravam nada.
Uma súbita gritaria histérica arrancou-lhe à fórceps de seus devaneios, em seguida o teto da sala trepidou de forma assustadora com uma trovoada de calcanhares. Ao que tudo indica, há uma turma juvenil reunida no vizinho de cima assistindo futebol pela televisão e no primeiro gol acontecido metralharam escandalosamente o silêncio (que morreu antes mesmo de chegar ao hospital). Em meio a irritação por ter sido ejetada de suas divagações, Arilene percebeu quando passos apressados destacaram-se do grupo, que ainda comemorava, foram em direção a varanda superior, exatamente acima de onde ela estava, e ouviu quando uma voz masculina adolescente falou eufórica, aparentemente ao celular:
-TÁ ME OUVINDO AGORA? EI, VEM PARA A CASA DO GILSON, TÁ TODO MUNDO AQUI VENDO BRASIL E ITÁLIA!”
A simples menção do velho país europeu fez uma memória específica se desgrudar do fundo da cabeça de Arilene, flutuar fantasmagoricamente pelo interior dos seus pensamentos até terminar boiando nas águas rasas da consciência, pronta e ansiosa para ser fisgada. Tratava-se de um rolo de filmes, uma compilação de slides sensoriais contendo trechos do “Caso Viccenzo”.
Pronto, foi só pensar nesse assunto e lá estava projetada na parte de trás dos seus olhos a imagem do tal sujeito protagonista; Viccenzo, um gringo de sobrancelhas grossas e longos cabelos grisalhos e cacheados. Um dia, veio com os dois irmãos mais novos conhecer o verão do Brasil e nunca mais quiseram saber de voltar a viver em Verona, onde juntos administravam o 'Aparízzios'; uma taberna rústica que levava o nome do avô e servia carne vermelha, queijo branco e cerveja (da amarela a preta). Massas só no resto do país, ali não. Em pouco menos de quinze dias sob o clima tropical, a trinca de sócios foi acometida pela latente, quase febril, necessidade de adaptar uma filial dos negócios na orla daquela praia. Desde o primeiro dia que chegaram aqui, sentiram as plantas dos pés formigarem; eram as pontas das raízes pinicando, querendo romper a pele das solas e se fincar na terra. Maturaram esse ideia de expansão transatlântica e o certo é que em uma noite bastante quente de sexta-feira a “Palhoça do Aparízzio” estava sendo inaugurada com bastante movimento.
Arilene (vestido azul escuro/ tiara bordô/ sapatos engraxados) aguardava entediada sua caipirinha ficar pronta, quando percebeu que o barman tentava sutilmente impressioná-la através do processo de preparo da bebida. Dizem que no mar, quando você avista um tubarão é porque ele já lhe avistou cinco minutos atrás. Foi esse o caso. O barman percebeu desde o início, quando aquela interessante mulher chegou no estabelecimento (des)acompanhada por um casal de amigos que, como o esperado, começaram a se beijar “empurrando-a” da mesa na única direção que lhe parecia apropriada: a do guardião do álcool. Mal Arilene aportou na borda do balcão, Viccenzo, o domador de destilados, colocou em prática o protocolo padrão: flerte gradativo. Cortou os limões com uma técnica de movimentos secos desenvolvida por um amigo ex-cigano, temperou o copo com cachaça e leite condensado em movimentos circulares alternados, como um vaqueiro ilusionista girando em arcos precisos o laço com uma mão e a cascavel com a outra. Mocca, seu irmão do meio, cuidava das finanças no caixa e também tinha o costume de paquerar a clientela sempre que percebia uma ranhura de abertura na hora de passar o troco. Ângelo (o caçula) idem; ao servir as mesas anotava vários pedidos, alguns ele trazia da cozinha e outros ele realizava no banco de trás dos “quatro-portas” estacionados mais discretamente. Cantada vai, cantada vem... vários mililitros de tequila enxaguando a prosa depois... Arilene e Viccenzo decidiram celebrar essa recém-adquirida amizade pernoitando na suíte “excelência suprema” do motel 'Cáfila'. Podres de bêbados, deram primeiro uma trepada objetiva; de estocadas fortes, mordidas famintas e palavras baixas. Pouco depois, outra mais “amorzinho” e menos vulgar, impregnada de uma malícia macia e dengosa. Adormeceram abraçados nus. Desde então, passaram a se encontrar regularmente. Arilene gostava de muitas coisas naquele homem; a tranquilidade dos confiantes, o bom humor sagaz dos inteligentes e a maturidade dos que aprenderam a aprender. Ela sentia o estômago querendo se auto sugar e se auto cuspir nas paredes do seu próprio intestino, tamanho era o estado de ansiedade que ficava sob o efeito daquela voz carregada de sotaque e galanteios que embrulhava causos interessantíssimos. Estava tão 'na dele' que quando as amigas chamavam-no de 'o coroa', em sua mente era só o que faltava para ele assumir definitivamente a figura de rei.
Ninguém sabia ao certo o por quê, mas a realidade era que a “palhoça do Aparízzio” caiu rapidamente nas graças dos nativos e passou a lotar perenemente mesmo sendo o fim da alta estação. Todos os animais da savana de cimento elegiam, semana após semana, aquele lago em especifico como o seu bebedouro oficial. A inesperada popularidade do quiosque obrigou seus donos a duplicar o horário de funcionamento, os três concordavam que era preciso aproveitar por completo qualquer maré de acaso positivo, todo sopro aleatório ou sintomático de bonança que fosse. Passaram a abrir também às terças, quartas e quintas. Viccenzo sabia que não existia a menor condição de manter um namoro, que necessita de tanta atenção no mundo 'extra gozo', tendo que se dedicar com vigor integral às madrugadas extras na palhoça. Arilene sabia que o fluxo do “sonho de prosperar” era uma enxurrada forte o suficiente para arrebatar o ítalo-amante de seus braços, afinal foi essa mesma correnteza que o arrancou do seio de sua cultura e o trouxe para a dela. Após viver um breve, porém intenso, período regado à eletricidade comestível e feromônios em brasas, a relação do casal sofreu esse entrevero de tiro fatal. Mesmo sem combinar, ambos agiram como legítimos ninjas contemporâneos; desapareceram das vistas um do outro camuflando-se cada um em si mesmo.