Funcionário do mês

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Não se incomodava em ser chamada de vagabunda.
Em nenhum dos dois sentidos, porque ela era . . .
Nos dois sentidos . . . Sabia que era e gostava de ser.
Estava desempregada há cinco meses, passava o dia em casa só bebendo, fumando e trepando.
Só saia de casa a noite e se fosse pra beber, fumar ou trepar.

[Noite é o lado feminino disso que chamamos de tempo.]

Era uma vida e tanto que estava ameaçada de extinção, o seguro desemprego estava próximo de acabar e ela realmente começava a se preocupar com isso. Consigo.
Odiava a ideia de ter que arrumar um novo serviço, mas precisava. Precisaria.
Lembrou com ódio no coração do ano passado quando trabalhava dez horas por dia numa loja de roupas e vivia sempre com o ar cansado de quem andava sem ar.
Considerava até arrumar um 'macho' que lhe sustentasse.
Não via problema nenhum no fato da mulher ser tratada pelos homens como objeto.
Quem decide se estará escrito 'Obra de arte' ou 'Muamba' na etiqueta é a própria mulher.
Achava ainda que o 'modo de usar' era mais uma sugestão do que um padrão.
O problema é que ultimamente só fodia com fodido.

'É foda!'

Nunca lhe pagavam nada, mas pelo menos nunca lhe cobravam nada também.
Isso a fazia pensar num casinho que teve há uns anos atrás com um italiano mais velho chamado Vichenzo, que conheceu num bar nas férias de janeiro.
O que mais gostava naquela figura de cabelos cinzas era justamente a ausência do maldito 'jeitinho brasileiro' que sentia impregnado na aura do seu povo como cheiro de cigarro.
Ele era bastante diferente desses que ela costumava se envolver.
Não ficava 32 horas por dia se auto afinando, se auto afanando, se auto afobando, se auto afirmando como firme, por exemplo.
Nem era do tipo que iludia a si mesmo, acreditando piamente que ao usar uma simples camiseta rosa estava, na verdade, ostentando uma couraça a prova de balas que o nomeava automaticamente um feminista honorário, embaixador da galáxia dos homens, e que permitia que transitasse com imunidade diplomática e aloprasse com impunidade alopática pelo 'planetinha útero' durante essa sua missão de 'paz' fajuta à la Estados Unidos, tão pouco era dos que iludia os outros.
Percebendo após algumas semanas de aventuras que essa moça, jovem e sem a mesma visão crua da vida que a sua, estava meio que se apegando demais a ele, quis logo resolver. Ligou da recepção da sua pousada marcando um encontro no bar em que se conheceram no dia seguinte, num horário em que os pessimistas chamam de 'final da tarde' e os otimistas de 'comecinho da noite'.
Quando ela chegou, ele estava no balcão bebendo, obviamente, caipirinha. Assim que ela disse 'oi' e sentou-se no banquinho ao lado, ele falou logo, mas calmamente, apesar de enrolado:

'-Rimar 'amor' com 'favor' é mais escroto do que o meu sotaque esquisito de gringo.'

Segurou as duas mãos dela com suas duas mãos e falou um pouco mais alto por causa da música ambiente, e mais compassado para que se fizesse entender.

'-Preciso que fique claro entre a gente que você não está me fazendo um favor, eu não estou te fazendo um favor, Não está acontecendo uma troca de favores... Não está acontecendo de novo essa porra que tem nos livros, onde o europeu filho da puta vem e troca espelhinhos ordinários por especiarias valiosas com o nativo ingênuo! Tampouco o que a gente vem fazendo nesses dias todos se chama amor! Nossa moeda não é o amor e nem o favor, É O SEXO! Simplesmente....sexo!
O sexo nos igualha. Ninguém sai perdendo, concorda, pequena?

Ela riu, deu um gole roubado da caipirinha dele e fez que sim com a cabeça. Ele riu mais alto ainda do que ela e deu um gole maior ainda que o dela.
Aproveitaram a noite, se aproveitaram um do outro por mais alguns dias, até que sem mais e nem menos Vichenzo sumiu. . . . como um ninja contemporâneo.
Saudade é quando o tato, o olfato, a audição, a visão e o paladar se juntam numa mesa de bar em formato de coração e ficam falando bem da pessoa pra você.


Juan Barto