Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Flores de tinta num tronco de carne.
As coxas são a raiz da cintura.
Ela é orquídea por parte de pai e tulipa por parte de mãe, signo de terra, semente e ascendente em 'planta carnívora', libera cheiros híbridos, provoca sensações hidropônicas e dizem que sua seiva tem gosto de pilsen e poison.
Assopra meu pescoço como quem toca flauta doce e faz meu coração ficar gramado, vivi muito bem até hoje sem esse tipo de vegetação, mas agora isso parece estar abalado.



Juan Barto
Sou jujuba sem açúcar, amendoim com casca.
Eu grudo no dente, eu estrago fotos.
Eu solto esporos, entupo poros e não paro.
Eu sou o triângulo das permutas.
Eu ofereço perigo, mas apenas por educação, não precisa aceitar!


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Tem momentos em que o silêncio é tão seco que é possível ouvir baixinho os mini arrotos dos ácaros devorando a superfície de tudo, numa lentidão supersônica invisível a olho nu.

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Foda é a vida do botão, que pra entrar na própria casa tem que ser com jeitinho, meio que de lado . . .



Juan Barto
Hoje eu quis difamar uma verdade e confirmar uma mentira.
Hoje eu quis espalhar lixo no chão da rua de forma profissional, não por lazer como todo dia.
Hoje eu quis passar comendo por quem passa necessidade.
Hoje eu quis passar notas falsas, notar falsas portas e inclusive recomendá-las.
Hoje eu quis empurrar velhinhos lentos e esmurrar crianças agitadas.
Hoje eu quis dar pessoalmente uma má notícia.
Hoje eu quis desperdiçar um milhão de litros d'água e poluir o que sobrar.
Hoje eu quis quebrar uma promessa, descumprir um trato e arrumar uma desculpa pra não me desculpar.
Hoje eu quis riscar um lindo carro e pisar de salto fino em calos.
Hoje eu quis humilhar alguém totalmente indefeso, torcer pelo mais forte e bater no mais fraco tocando no seu ponto fraco.
Hoje eu quis torar lombras, secar pneus e encher o saco.
Hoje eu quis feder!
E lembre-se, a esperança é a última que morre . . .
Mas o penúltimo é você.



Juan Barto



SOLO FEDERAL

-Você não pode fazer isso aqui!
-Isso o que?
-Isso ai que você está fazendo.
-Fechar um baseado?
-Exatamente. Não pode! Você sabe que não pode!
-O que eu sei é que não pode fumar. Não sei nada sobre não poder fechar.
-Em tese você não poderia nem ter isso, meu amigo!
-Se em tese eu não pudesse fechar becks por ai, na prática eu não deveria ter acesso, de forma comercialmente legal, a sedas de todos os tamanhos, texturas e cheiros, com tantos sabores quanto uma sorveteria, tratadores e mais tratadores de tudo quanto é estilo e de todas as cores . . .

Ele ia falando e enumerando nos dedos. O guarda ia falar alguma coisa quando o garoto interrompeu.

-'Fechador'! Não, cara! Sério, dá pra acreditar nisso? 'Fechador', olha isso!
Até 'fechador' esses putos vendem que é pra deixar tudo o mais 'suquinho de caixinha' possível que é pra você não ter desculpa pra não fumar esta merda!
É um aparelho de inclusão social sofisticado que executa a mesma função das rodinhas da bicicleta e agora querem me dizer que ciclista é a mesma coisa que marginal? Vão tomar no cu!

O guarda ouviu aquele discurso todo calado, braços cruzados, olhando pro chão enquanto catucava uma pedrinha com a ponta do sapato.

-Tu faz que curso boy? - Perguntou ainda olhando pro chão.
-Odontologia!

Silêncio.

-Aposto que você pensou que eu fazia letras, ou história  . . . ou filosofia né? Chupa sistema! Odontologia! Quero ver mais pra frente, um dia na hora do aperto, um ciso encravado precisando de uma manicure se vai ficar com dor ou com preconceito, malandro!

-Tu é muito nervoso pra quem fuma maconha, sabia?



Juan Barto