Funcionário do mês

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Uma lagartixa acabou de passar correndo por mim a toda velocidade, desesperada, partindo da cozinha, cruzando a sala em três segundos até fazer seu 'touchdown' alcançando o escuro protetor de debaixo do meu sofá, como se ali fosse uma fenda num paredão rochoso.
Pra ela eu sou um Tiranossauro-Rex gigantesco e assustador...
O mundo dá voltas...

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Sempre foi calado. Comia os outros com os olhos e gozava pra dentro.
Conseguia ver com clareza que 'deixa quieto' era diferente de 'deixa estar'.
Um era 'passar uma borracha', o outro era 'afiar todos os lápis'.
Aprendeu a distingui-los ainda criança, mal havia parado de engatinhar já sabia engatilhar.
E atirava bem com os dois.

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''Amar': Verbo irregular, conjugado no finitivo, terminado em ar(gh!)

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Deus tinha feito a rede a partir da costela da varanda.
O térreo, a essa altura, já mudara de sexo e hoje assina sua escritura como 'cobertura'.
E a cobertura, veja você, se descobriu feita de glacê!


Juan Barto















FAIXA PRETA

Um furgão negro emergiu com seus vidros fumês cruzando lentamente uma rua sem postes numa madrugada sem lua.
Não se ouvia barulho de nada, muito menos de motor e no entanto, aquele retângulo obscuro se movia no escuro, avançando discreto e determinado como um tubarão.
Alguns quarteirões depois já era praticamente a zona rural da cidade com todos os clichês inclusos: Uma única estradinha mão dupla de terra batida, terrenos enormes cheios de matos de um lado e terreiros imensos e descampados do outro, onde o termo 'vizinho' era uma mera força de expressão.
Taxiou até parar diante de um portão gradeado e aguardou.
O carro parecia que arfava. Lembrava um rinoceronte imponente, mas cansado, trancado estranhamente do lado de fora da sua jaula.
Piscou os faróis duas vezes seguidas, a primeira mais demorada e a segunda mais breve, numa espécie de buzina muda. Quase que imediatamente dois homens surgiram das sombras caminhando lá de dentro até a entrada.
Um destrancou o enorme cadeado que unia as duas partes e abriu passagem, enquanto o outro dava uma espécie de cobertura olhando ao redor com uma lanterna, checando se não haviam sido seguidos.
O veículo deslizou suavemente pra dentro como se fosse empurrado por fantasmas, avançou uns cento e cinquenta metros, contornou o enorme casarão até chegar numa clareira que ficava mais uns oitenta metros ao fundo.
Estacionou e tudo mergulhou na mais completa escuridão, de repente as portas traseiras se abriram e seis vultos foram saindo, um a um, de dentro do animal-furgão como se este estivesse dando cria.
Arrastaram um sétimo com brutalidade e o atiraram ao chão de qualquer jeito. Uma voz seca cortou o ar como uma guilhotina:
-Abre a boca dele!
A criatura no chão protestou:
-Não, por favor! O que é que está acontecendo!?
A voz do que parecia ser o líder repetiu a ordem sem responder.
-Abre a boca dele.
Os cinco homens voaram pra cima do caído que, apesar de estar com as mãos e os pés amarrados e obviamente em desvantagem numérica, quis dar trabalho. Se debateu, se contorceu rolando no chão que nem jacaré, levantou poeira, praguejou, tentou morder, tentou dar rasteira, tentou dar cabeçada até que os dois homens que tinham aberto o portão principal voltaram correndo pra se juntar ao grupo e conseguiram dessa forma enfim, dominar o sujeito e colocá-lo sentado. Meteram uma lanterna de luz forte na cara dele que estava todo suado, sujo e ofegante, aproveitaram e meteram também um solado de bota no seu nariz. Um filete de sangue escorria de uma das narinas. Seu olhar era o de mais puro terror.
-Eu não sou rico, minha família não tem grana! Vocês pegaram o cara errado!
-Não é rico, mas é famoso! Não é verdade? - Respondeu perguntando o líder.
-Não cara, eu sou só um estudante!
-Eu sei. Estudante de artes marciais, vale ressaltar!
-E o que isso tem a ver?
-Tem a ver com o fato de você ter levado esses seus conhecimentos estudantis pra passear na praia esse final de semana como se fosse um professor...
O rapaz, que estava branco, ficou amarelo. A ficha não só tinha caído como rachou ao meio na queda.
-...É Mauricinho, eu falei que você era famoso!
O silêncio dançava ciranda em torno daquela fogueira de gente.
-Você sabia que um dos rapazes que você 'educou' faleceu hoje a tarde? E que o outro, o namorado dele, provavelmente vai ficar cego de uma das vistas?
O silêncio fazia um solo de guitarra nas cordas vocais e tocava percussão nos tímpanos dele.
-Eu resolvi seguir seu exemplo, mas como detesto praia resolvi lhe dar uma aula de campo.
Um ou outro capanga riu divertido.
- O..o..oque você vai fazer?
-Aquilo que eu faço há vinte e oito anos. Eu sou dentista, Mauricinho.
-Puta que pariu!
-Depois de tantos e tantos anos de carreira eu posso lhe assegurar que é impossível falar 'viado' sem os dois dentes da frente.
-NÃO CARA, PERA AI, PORRA!
-Abre a boca dele!


Juan Barto

SEDE SEDOSA

Mapeei todas as minhas intenções como uma rodovia e reparei que daqui até você, só consigo ir engatar a segunda(s) no carro.
Quero dueto e não duelo.
Me tornei uma pessoa atemporal. Há tempos que não tenho hora pra nada e tem horas que não tenho tempo pra tudo.


Juan Barto

O celular tocou no momento em que ele estava, irritado, refazendo uma conta dificílima pela sétima vez.
Viu o nome da mulher na tela, atendeu o mais assertivo possível.

-Fala!
- A Fernandinha...
(Silêncio)
-Fala!
-Você não vai acreditar no que ela fez...
-Fala...Caralho!
-Ela bateu o carro.
-O que?!
-Na verdade não foi ela, foi o namorado dela, que é quem estava dirigindo.
-PU-TA-QUE-PA-RIU! - Cada sílaba pronunciada pausadamente de forma tônica, representava simbolicamente um murro que ele queria dar no tampo da mesa e, por estar num ambiente de trabalho, não podia. A esposa aguardou que ele se recompose e prosseguiu.
-Ela falou que eles estavam fugindo da polícia, eu disse: 'Patrícia isso não justifica!'
-Fugindo da polícia? - Começava a sentir suas orelhas formigando.
-É, parece que eles estavam com um monte de tênis no porta-malas.
-Como assim tênis, Rita? Meu Deus do céu, que tênis são esses?
-Uns que eles pegaram na estrada, de um caminhão tombado.
-QUE PORRA É ESSA?
-É roubo, né Jefferson!?
-QUE PORRA É ESSA QUE ESTÁ ACONTECENDO COM ESSA MENINA, RITA!? O QUE DIABOS ESSA IDIOTA TEM NA CABEÇA?
-Ah meu querido, a juventude hoje em dia não é mais como a do nosso tempo!
-NÃO MESMO!
Raiva é um sentimento maldito. Um defeito, de fato. Jefferson começou  roer as unhas, mas já estava quase chegando aos metacarpos. Apertava o telefone com força e sentia o plástico estalando estrangulado.
-Que garota filha da puta!
- Da puta e sua também, Jefferson. - Completou a mulher em tom de constatação, do outro lado da linha.




Juan Barto

-Moço, você tem vida?
-1 litro, 2 litros, latinha, latão, ks, 500 e 600 ml.
-Tá quanto a de 2 litros?
-Quinze salários mínimos.
-Hum...me vê uma latinha, por favor!
-Quer sacola?
-Precisa não.



Juan Barto