Funcionário do mês

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FAIXA PRETA

Um furgão negro emergiu com seus vidros fumês cruzando lentamente uma rua sem postes numa madrugada sem lua.
Não se ouvia barulho de nada, muito menos de motor e no entanto, aquele retângulo obscuro se movia no escuro, avançando discreto e determinado como um tubarão.
Alguns quarteirões depois já era praticamente a zona rural da cidade com todos os clichês inclusos: Uma única estradinha mão dupla de terra batida, terrenos enormes cheios de matos de um lado e terreiros imensos e descampados do outro, onde o termo 'vizinho' era uma mera força de expressão.
Taxiou até parar diante de um portão gradeado e aguardou.
O carro parecia que arfava. Lembrava um rinoceronte imponente, mas cansado, trancado estranhamente do lado de fora da sua jaula.
Piscou os faróis duas vezes seguidas, a primeira mais demorada e a segunda mais breve, numa espécie de buzina muda. Quase que imediatamente dois homens surgiram das sombras caminhando lá de dentro até a entrada.
Um destrancou o enorme cadeado que unia as duas partes e abriu passagem, enquanto o outro dava uma espécie de cobertura olhando ao redor com uma lanterna, checando se não haviam sido seguidos.
O veículo deslizou suavemente pra dentro como se fosse empurrado por fantasmas, avançou uns cento e cinquenta metros, contornou o enorme casarão até chegar numa clareira que ficava mais uns oitenta metros ao fundo.
Estacionou e tudo mergulhou na mais completa escuridão, de repente as portas traseiras se abriram e seis vultos foram saindo, um a um, de dentro do animal-furgão como se este estivesse dando cria.
Arrastaram um sétimo com brutalidade e o atiraram ao chão de qualquer jeito. Uma voz seca cortou o ar como uma guilhotina:
-Abre a boca dele!
A criatura no chão protestou:
-Não, por favor! O que é que está acontecendo!?
A voz do que parecia ser o líder repetiu a ordem sem responder.
-Abre a boca dele.
Os cinco homens voaram pra cima do caído que, apesar de estar com as mãos e os pés amarrados e obviamente em desvantagem numérica, quis dar trabalho. Se debateu, se contorceu rolando no chão que nem jacaré, levantou poeira, praguejou, tentou morder, tentou dar rasteira, tentou dar cabeçada até que os dois homens que tinham aberto o portão principal voltaram correndo pra se juntar ao grupo e conseguiram dessa forma enfim, dominar o sujeito e colocá-lo sentado. Meteram uma lanterna de luz forte na cara dele que estava todo suado, sujo e ofegante, aproveitaram e meteram também um solado de bota no seu nariz. Um filete de sangue escorria de uma das narinas. Seu olhar era o de mais puro terror.
-Eu não sou rico, minha família não tem grana! Vocês pegaram o cara errado!
-Não é rico, mas é famoso! Não é verdade? - Respondeu perguntando o líder.
-Não cara, eu sou só um estudante!
-Eu sei. Estudante de artes marciais, vale ressaltar!
-E o que isso tem a ver?
-Tem a ver com o fato de você ter levado esses seus conhecimentos estudantis pra passear na praia esse final de semana como se fosse um professor...
O rapaz, que estava branco, ficou amarelo. A ficha não só tinha caído como rachou ao meio na queda.
-...É Mauricinho, eu falei que você era famoso!
O silêncio dançava ciranda em torno daquela fogueira de gente.
-Você sabia que um dos rapazes que você 'educou' faleceu hoje a tarde? E que o outro, o namorado dele, provavelmente vai ficar cego de uma das vistas?
O silêncio fazia um solo de guitarra nas cordas vocais e tocava percussão nos tímpanos dele.
-Eu resolvi seguir seu exemplo, mas como detesto praia resolvi lhe dar uma aula de campo.
Um ou outro capanga riu divertido.
- O..o..oque você vai fazer?
-Aquilo que eu faço há vinte e oito anos. Eu sou dentista, Mauricinho.
-Puta que pariu!
-Depois de tantos e tantos anos de carreira eu posso lhe assegurar que é impossível falar 'viado' sem os dois dentes da frente.
-NÃO CARA, PERA AI, PORRA!
-Abre a boca dele!


Juan Barto