Funcionário do mês

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O celular tocou no momento em que ele estava, irritado, refazendo uma conta dificílima pela sétima vez.
Viu o nome da mulher na tela, atendeu o mais assertivo possível.

-Fala!
- A Fernandinha...
(Silêncio)
-Fala!
-Você não vai acreditar no que ela fez...
-Fala...Caralho!
-Ela bateu o carro.
-O que?!
-Na verdade não foi ela, foi o namorado dela, que é quem estava dirigindo.
-PU-TA-QUE-PA-RIU! - Cada sílaba pronunciada pausadamente de forma tônica, representava simbolicamente um murro que ele queria dar no tampo da mesa e, por estar num ambiente de trabalho, não podia. A esposa aguardou que ele se recompose e prosseguiu.
-Ela falou que eles estavam fugindo da polícia, eu disse: 'Patrícia isso não justifica!'
-Fugindo da polícia? - Começava a sentir suas orelhas formigando.
-É, parece que eles estavam com um monte de tênis no porta-malas.
-Como assim tênis, Rita? Meu Deus do céu, que tênis são esses?
-Uns que eles pegaram na estrada, de um caminhão tombado.
-QUE PORRA É ESSA?
-É roubo, né Jefferson!?
-QUE PORRA É ESSA QUE ESTÁ ACONTECENDO COM ESSA MENINA, RITA!? O QUE DIABOS ESSA IDIOTA TEM NA CABEÇA?
-Ah meu querido, a juventude hoje em dia não é mais como a do nosso tempo!
-NÃO MESMO!
Raiva é um sentimento maldito. Um defeito, de fato. Jefferson começou  roer as unhas, mas já estava quase chegando aos metacarpos. Apertava o telefone com força e sentia o plástico estalando estrangulado.
-Que garota filha da puta!
- Da puta e sua também, Jefferson. - Completou a mulher em tom de constatação, do outro lado da linha.




Juan Barto