Funcionário do mês

CRÔNICAS, CONTOS E TEXTOS POÉTICOS, NÃO POESIA.
Eu tento todos os dias ser uma boa mãe solteira para essa saudade que nós dois ajudamos a colocar no mundo.
Tento não lhe incomodar pedindo pensão, mas coração assim fossiliza, vira uma almôndega de calos com textura e comportamento de calcanhar.
Tem que (j)untar bem de vez em quando e dar aquela viradinha pra não assar só de um lado.
Adormeci pensando que antes de nascer a gente almeja encorporar, crescer e encorpar a alma antes de morrer!
Raios dourados por todos os lados. Acordei com  o sol já pondo o dedo na minha cara!


Juan Barto



Estava amanhecendo e fazia um frio desgraçado.
Ela perambulava impaciente em volta do carro em coma no acostamento. Olhava compulsivamente pra trás a cada trinta segundos na esperança de avistar um possível resgate. Esticou a perna pra cutucar uma latinha de cerveja amassada na beira da estrada com a ponta do tênis, e acabou por chutá-la pra longe, pro meio do mato.
Mãos cerradas nos bolsos do casaco, capuz armado no topo da cabeça como uma coroa de pano, cravejada de pensamentos raivosos.
Ele, sentado em posição de lótus sobre o capô de metal morno, devido ao motor ainda não completamente resfriado, agradecia aquele calorzinho no saco e na bunda, pois era o que ainda o fazia manter-se calmo naquela situação, já que não tinham cigarros.

-Vou entrar um pouco.
-Eu vou ficar aqui patrulhando mais um pouquinho. Está clareando rápido e já já...

Ela bateu a porta.

'Tá puta!'

'Tô puta!'

Reclinou a poltrona do passageiro até o limite, as pernas cruzadas uma sobre a outra no painel. Encaixou a figura do namorado de costas, encarapitado na proa do veículo que nem uma carranca de barco viking, na moldura formada pelos seus pés em x. Alvo na mira!
Teve vontade de atravessar o para-brisas com um chute poderoso e certeiro, até enfiar metade da sua canela no cu dele, tamanho era o ódio que estava sentindo, primeiro, por todos os seus amigos estarem ocupados demais pra comemorar o seu aniversário, segundo por ter se deixado convencer pelo galã ali da frente a aceitar o plano B, e ir para um sítio no interior do estado que pertencia a família do galã, mas que ninguém quase nunca usava e o caseiro é quem tomava conta boa parte do tempo.
'Só eu e você, amor! Vai ser como uma lua-de-mel!'
'Tá certo!'
 Pensou em tom de deboche silencioso. Fazia cinco horas que tinha vinte e poucos anos e só o que ganhou de presente até então foi fome, frio, desgaste, cansaço e stress.
Ela o culpava de leste a oeste.

'Como é que você sabe que vai viajar e não se toca de colocar a porra da gasolina?'

Ele esfregava as mãos compulsivamente a cada trinta segundos. O ar gelado fazia seus mamilos ficarem tão duros que tinha medo que perfurassem o suéter e desfiassem a trama da lã.
Sabia que a namorada estava chegando a um nível de irritabilidade tóxico, mas isso porque ela não sabia que tudo fazia parte do plano B.2.
Tudo havia sido milimetricamente pensado. O descaso dos amigos dias antes, a desnutrição proposital do automóvel para que ficassem presos na BR e tivessem que ligar chamando um suposto reboque, que na verdade seria o sinal verde para que duas vans e uma combi, lotadas de amigos, comidas, bebidas e combustível aportassem de surpresa e logo em seguida os arrebatassem dali direto para o bendito sítio no interior.
Esfregou as mãos de novo, mas dessa vez de satisfação.
Se sentia um gênio do crime, só que fofo.