Funcionário do mês

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DES(A)TINO

Chegou a conclusão de que ir embora era a maneira mais consistente de provar de uma vez por todas que poderia sim ter ido embora antes, sempre pôde, e que se até então vinha insistentemente transformando no último minuto cada uma de suas ameaças em recuo era porque queria, e não por uma questão de falta de coragem ou excesso de pena, como afirmavam diariamente os jornais da época.
Apenas falar não vinha funcionando, precisava pôr a palavra em movimento.
Olhos no volante, olhos no retrovisor.
Olhos no volante, olhos no retrovisor....
Saudade é como levar na marmita frutas de plástico. Emagreceu, perdeu quilos e colos. 
Passou anos planejando morar naqueles cabelos e isso não seria mais possível, mas preservava uma cópia da planta do projeto dobradinha, guardada na carteira.


Juan Barto





DIÁRIAS E FURIOSAS

A droga é quem sentia saudades diárias do viciado desaparecido.
Diárias e furiosas.
Nas manhãs mais escuras, tateava com as pontas dos dedos por debaixo dos lençóis em cabaninha à procura da pele dele e, ainda sonolenta, sorria feliz de olhos fechados quando a encontrava, pra perceber instantes depois que estava apenas acariciando com ternura o seu próprio antebraço, dormente após horas dobrado em um ângulo estranho.
Estava acordada há trinta segundos e já se sentia triste e patética.
As vezes acordar era tão exaustivo e prejudicial, que uma noite de sono equivalia a fumar setenta e cinco carteiras de trabalho.
As vezes esquecia que a cama agora só respirava por um lado e isso pra quem tem asma é um veneno.
As vezes o primeiro passo para a cura é ficar parado.
Ignorar esse tipo de recomendação é o segundo passo...
Aproveitando-se de que em cidade pequena, cada 'canal' é uma emissora em potencial, passou a peregrinar pelas 'bocas' tentando conseguir de novo aqueles lábios ou aquele hálito, qualquer cheiro querido que denunciasse a presença do usuário no ambiente, entretanto, sem nunca achar.
"É... Parece que dessa vez ele me largou mesmo!"
A droga sentiu o formigar súbito da ponta do nariz ir se espalhando lentamente pela borda das narinas, reverberar no queixo até trincar as vidraças das vistas.
Tentou extinguir aquele princípio de choro praguejando e exclamando palavrões como se apagasse uma fogueira jogando terra, só que com raiva.
Como se tangesse um mal espírito, só que com pedras.
Inútil. Os olhos descamaram-se em confetes transparentes, como vinha acontecendo ultimamente.
Era a constatação da frustração. Era uma 'frustratação'.
Queria vê-lo mais uma vez (nem que fosse pelo tempo de um semáforo vermelho) e gritar (nem que fosse da janela de um ônibus 0304 em movimento) que ele continuava desgraçadamente lindo!
Tão lindo...
Queria ter sido mais entrega do que intriga.
Queria ter ido além, queria ter ido 'all in', mas a vida agiu como uma colheitadeira des(obs)truindo tudo por onde passou e deixando pra trás um rastro de lembranças moídas pra servir de alimento para nós, o gado.
Se arrependeu genuinamente de bastante coisa e isso não foi uma questão de crença, e sim de 'cresça!'.





Juan Barto
Foto: Juan Barto
[-Dizem que chopp é excelente pra tirar o gosto de porra da boca.... Porque é amargo! - Risadinha debochada.
-É? Então por que você não lava o seu cu com uma grade de skol, pra que a sua mulher não desconfie que você é viado enrustido?
Explosão de risadas de ambas as partes.
-Cala a boca, Flávia! Cretina!
-Então não começa, 'Keila'! O assunto é sério! O boy disse que se eu não deixar ele gozar na minha boca ele termina comigo, o que eu faço?!]




Juan Barto
Degustando aos poucos essa melanc(ol)ia, lambuzando minha cara da ponta do nariz ao extremo do queixo com seu caldo aguado, mais pra suco do que pra sangue, porém sem a menor pretensão de nutrir.
Sou 'indie' tupi - guarani(etzsche), pintado pra guerra com as cores do sono.
''Desenterrasse desinteresse!''
Acordei com isso na cabeça, sentindo dores nas costas das mãos, ali na munheca, perto dos rins.



Juan Barto