Funcionário do mês

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DES(A)TINO

Chegou a conclusão de que ir embora agora era a maneira mais consistente de provar de uma vez por todas que poderia sim, ter ido embora antes, sempre pôde, e que se até então vinha insistentemente transformando no último minuto cada uma de suas ameaças em recuo era porque queria, e não por uma questão de falta de coragem ou excesso de pena, como afirmavam diariamente os jornais da época.
Apenas falar não vinha funcionando há meses. Precisava pôr a palavra em movimento.
Sua ausência a partir dali, serviria como uma espécie de busto de papel machê(sta), simbolizando sua desistência forçada, gesto esse que, de fato, resultou no fim da guerra.
Partira inconformado, repleto de motivos, porém escasso de vontade.
Olhos no volante, olhos no retrovisor. Olhos no volante, olhos no retrovisor....
Esse ritual se repetiria milhões de vezes, se arrastando por milhares de quilômetros.
TIC (nervoso)... TAC (cardia).
Era como levar na marmita, frutas de plástico pra lanchar durante uma viagem enorme.
Perdeu quilos e colos. Perdeu a manha, perdeu a 'minha'.
Passou anos planejando morar naqueles cabelos e isso não seria mais possível, mas preservava uma cópia da planta do projeto dobradinha, guardada na carteira.
Shhhh...


Juan Barto