Funcionário do mês

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DIÁRIAS E FURIOSAS

A droga é quem sentia saudades diárias do viciado desaparecido.
Diárias e furiosas.
Nas manhãs mais escuras, tateava com as pontas dos dedos por debaixo dos lençóis em cabaninha à procura da pele dele e, ainda sonolenta, sorria feliz de olhos fechados quando a encontrava, pra perceber instantes depois que estava apenas acariciando com ternura o seu próprio antebraço, dormente após horas dobrado em um ângulo estranho.
Estava acordada há trinta segundos e já se sentia triste e patética.
As vezes acordar era tão exaustivo e prejudicial, que uma noite de sono equivalia a fumar setenta e cinco carteiras de trabalho.
As vezes esquecia que a cama agora só respirava por um lado e isso pra quem tem asma é um veneno.
As vezes o primeiro passo para a cura é ficar parado...e ignorar esse tipo de recomendação é o segundo.
Aproveitando-se de que em cidade pequena, cada 'canal' é uma emissora em potencial, passou a peregrinar pelas 'bocas' tentando conseguir de novo aqueles lábios ou aquele hálito, qualquer cheiro querido que denunciasse a presença do usuário no ambiente, entretanto, sem nunca achar.
"É... Parece que dessa vez ele me largou mesmo!"
A droga sentiu o formigar súbito da ponta do nariz ir se espalhando lentamente pela borda das narinas, reverberar no queixo até trincar as vidraças das vistas.
Tentou extinguir aquele princípio de choro praguejando e exclamando palavrões como se apagasse uma fogueira jogando terra, só que com raiva.
Como se tangesse um mal espírito, só que com pedras.
Inútil. Os olhos descamaram-se em confetes transparentes, como vinha acontecendo ultimamente.
Era a constatação da frustração. Era uma 'frustratação'.
Queria vê-lo mais uma vez, nem que fosse pelo tempo de um semáforo vermelho, e gritar, nem que fosse da janela de um ônibus 0304 ou um 1405 em movimento, que ele continuava desgraçadamente lindo!
Tão lindo...
Queria ter sido mais entrega do que intriga.
Queria ter ido além, queria ter ido 'all in', mas a vida agiu como uma colheitadeira, des(obs)truindo tudo por onde passou e deixando pra trás um rastro de lembranças moídas pra servir de alimento para nós, o gado.
Se arrependeu genuinamente de bastante coisa e isso não foi uma questão de crença, e sim de 'cresça!'.





Juan Barto
Foto: Juan Barto